Arquivo mensal: dezembro 2013

Ensaio de Coomaraswamy

Publicamos hoje neste espaço um importante e genial ensaio de Ananda K. Coomaraswamy — considerado por Martin Lins como possivelmente o maior scholar do século XX — sobre o preconceito da civilização ocidental moderna em relação aos povos desprovidos de escrita, preconceito esse que nos fez não só desconhecer, mas realmente destruir, legados milenares da literatura sagrada e popular antes transmitida oralmente.

O ensaio se chama O Bicho-Papão da Alfabetização.

Ensaio de Burckhardt sobre a Odisseia

Publicamos hoje um belíssimo ensaio de Titus Burckhardt, extraído do livro Symboles (Arché, Milão, 1980), com uma interpretação simbólica da Odisseia. Seu título é: “O Retorno de Ulisses”. Veja o começo:

“Toda via que conduz a uma realização espiritual exige que o homem se despoje de seu eu comum e habitual a fim de se tornar verdadeiramente ‘si mesmo’, transformação que não acontece sem o sacrifício de riquezas aparentes e de pretensões vãs, portanto sem humilhação, nem sem combate contra as paixões das quais o ‘velho eu’ é tecido. É por isso que se encontra na mitologia e no folclore de quase todos os povos o tema do herói real que volta ao seu próprio reino sob a aparência de um estrangeiro pobre ou mesmo de um saltimbanco ou de um mendigo, para reconquistar, depois de muitas provas, o bem que lhe pertence legitimamente e que um usurpador lhe havia roubado.”

Siga este enlace para ler o ensaio inteiro.

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Por que há diversas religiões?

Em Sentiers de Gnose, Frithjof Schuon inicia o capítulo “Diversidade da Revelação” com um parágrafo incrivelmente simples, profundo e completo ao mesmo tempo. Passagens como esta estão em toda a parte na obra schuoniana e são um claro sinal de que esta obra se situa no mais alto plano de intelectualidade.

Dado que só há uma Verdade, não se deveria concluir que só há uma Revelação, só uma Tradição possível? A esta questão, responderemos em primeiro lugar que Verdade e Revelação não são termos absolutamente equivalentes, pois a Verdade se situa além das formas, e a Revelação, ou a Tradição que dela deriva, é de ordem formal, e isto por definição mesmo; ora, quem diz forma, diz pluralidade; a razão de ser e a natureza da forma são a expressão, a limitação, a diferenciação.

O que entra na forma, entra por isso mesmo no número, portanto na repetição e na diversidade; o princípio formal — inspirado pela infinitude da Possibilidade divina — confere a esta repetição a diversidade.

Poder-se-ia conceber, é verdade, que só haja uma Revelação ou Tradição para o nosso mundo humano e que a diversidade se realize através de outros mundos, desconhecidos para os homens ou mesmo incognoscíveis para eles; mas isso seria não compreender que o que determina a diferença das formas da Verdade é a diferença dos receptáculos humanos.

Já há muitos milênios, a humanidade se divide em vários ramos fundamentalmente diferentes, que constituem uma série de humanidades totais, portanto mais ou menos encerradas em si mesmas; a existência de receptáculos espirituais tão diferentes e tão originais exige a refração diferenciada da Verdade una.

Notemos que não se trata de raças, mas as mais das vezes de grupos humanos talvez muito variados, mas apesar disso submetidos a um conjunto de condições mentais que fazem deles recipientes espirituais suficientemente homogêneos, o que não poderia impedir que os indivíduos possam sempre sair desses marcos, pois o coletivo humano não tem nunca nada de absoluto.

Isto posto, diremos que as diversas Revelações não se contradizem realmente, pois elas não se aplicam ao mesmo receptáculo, e Deus não dirige jamais uma mesma mensagem a dois ou mais receptáculos de características divergentes, ou seja, que correspondem analogicamente a dimensões formalmente incompatíveis; só se podem contradizer entre si coisas que se situam num mesmo plano.

As aparentes antinomias das Tradições são como diferenças de linguagem ou de símbolo; as contradições estão do lado dos receptáculos humanos, não do lado de Deus; a diversidade do mundo é função de seu afastamento do Princípio divino, o que equivale a dizer que o Criador  não pode querer que o mundo seja, mas que ele não seja o mundo.

Se Deus é bom, por que o mal existe?

“Se Deus fosse bom, raciocinam os ateus e mesmo certos deístas, ele aboliria o mal. Temos para isto duas respostas, e conhece-se a primeira: Deus não poderia abolir o mal como tal, porque este é do domínio da Onipossibilidade, a qual é ontologicamente “anterior” ao Deus-Pessoa; por consequência, Deus não pode abolir determinado mal senão na medida em que, ao fazê-lo, ele leva em conta a necessidade metafísica do mal em si.(1) Nossa segunda resposta supera de certa forma a primeira, ao ponto de parecer contradizê-la: Deus sendo bom, ele abole de fato, não somente este ou aquele mal, mas o mal enquanto tal; este ou aquele mal porque todas as coisas têm um fim, e o mal enquanto tal porque este — estando submetido à mesma regra, no final das contas — desaparece em virtude dos ciclos cósmicos e pelo efeito da Apocatástase (2); assim, a fórmula vincit omnia Veritas se aplica não somente à Verdade, mas também ao Bem sob todos os seus aspectos. E isto significa igualmente que não poderia haver nenhuma simetria entre o Bem e o mal; (3) este não tem nenhum ser por si mesmo, enquanto aquele é o ser de todas as coisas. O Bem é O que é; o Ser e o Bem coincidem.

“É verdade que, à nossa segunda resposta, poder-se-ia objetar que seu alcance é somente relativo, porque os términos cíclicos não abolem a possibilidade do mal, o qual, de fato, deve reaparecer no curso de cada ciclo num grau qualquer. Isso é verdadeiro — sem ser realmente uma objeção — e nos leva mais uma vez ao problema da própria natureza do Infinito, a qual implica que a Onipossibilidade deva incluir, por definição, a possibilidade de sua própria negação, na medida, precisamente, em que esta negação é possível; e ela o é, não no próprio plano do Princípio, está claro, mas numa modalidade já muito relativa da contingência, portanto na extremidade inferior de Mâyâ, e, por consequência, de uma maneira “ilusória”, ou seja, irreal no nível do Absoluto.”

 Notas

(1) O que é ontologicamente necessário é “o que está escrito”, em linguagem semítica.
(2) Segundo a doutrina hindu, a “noite de Brahma” sucede ao “dia de Brahma“: depois da projeção vem a reintegração.
(3) É em virtude deste princípio que a beleza, por exemplo, é ontologicamente mais real que a feiúra — o que o espírito moderno nega com um furor bem característico, ele que relativiza, subjetiviza e inverte tudo — e é por isto ainda que a “idade de ouro” é muito mais longa que as outras idades, e particularmente do que a “idade de ferro”.

(Extraído do livro de Frithjof Schuon intitulado Résumé de Métaphysique Intégrale: Le Courrier du Livre, Paris, 1985, pp. 45 e 46.)

A distinção entre a Divindade e o Deus Pessoal é central na metafísica. Frithjof Schuon a expõe reiteradamente em seus escritos. Mestre Eckhart, no Catolicismo, foi um dos poucos a expor a mesma doutrina: a distinção entre Gottheit e Gott, para usar os termos alemães. Na metafísica hindu, ela aparece como a distinção entre Brahma Nirguna e Brahma Saguna.

Sobre os índios norte-americanos

Enquanto os textos e ensaios disponíveis neste website são os mesmos do website Sapientia, acrescentamos agora uma nova tradução portuguesa: o ensaio “Xamanismo Pele-vermelha”, que é um dos capítulo do livro Regards sur les Mondes Anciens, o qual apareceu no Brasil sob o título O Homem no Universo, com publicação pela editora Perspectiva.

No menu superior, vá a “ensaios” e encontre ali o caminho para o arquivo com o texto.

Livro de William Stoddart

remembering

A Editora Kalon acaba de lançar o livro Lembrar-se num Mundo de Esquecimento, de William Stoddart. Stoddart, um dos seguidores de Frithjof Schuon, procura aplicar os ensinamentos deste a uma série de aspectos do mundo moderno e da vida espiritual.

Alguns capítulos:

  • Progresso ou “Kali Yuga”?
  • Sentido por trás do absurdo Civilização tradicional e civilização moderna
  • Obstáculos Ideológicos à vida espiritual
  • O conflito religioso e étnico
  • Que é misticismo?

O livro pode ser encontrado à venda na Estante Virtual.