Arquivo mensal: janeiro 2014

Uma distinção fundamental

Repetimos aqui uma nota que publicamos em dezembro de 2011 no blogue Vera Philosophia.

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Frithjof Schuon faz uma distinção fundamental entre metafísica, filosofia e teologia.

Ela está no começo de seu primeiro livro em francês, De l’unité transcendante des religions (Éditions du Seuil, Paris, 1979), publicado em 1948. Há uma tradução para o português, recém-lançada: A Unidade Transcendente das Religiões, IRGET, 2011. (Há uma tradução brasileira anterior, de Fernando Guedes Galvão, publicada na década de 1950, mas com muitos erros sérios.)

Vamos ao texto:

    “… na realidade, esta [a metafísica] tem um caráter transcendente que a torna independente de um pensamento puramente humano, seja este qual for. Para bem definir a diferença que há entre os dois modos de pensamento, diremos que a filosofia procede da razão, faculdade totalmente individual, enquanto a metafísica está ligada exclusivamente ao Intelecto; este último, Mestre Eckhart assim definiu, com pleno conhecimento de causa: ‘Há na alma algo que é incriado e incriável; se toda a alma fosse assim, ela seria incriada e incriável, e esse algo é o Intelecto.’ Encontra-se no esoterismo muçulmano uma definição análoga, mas mais concisa ainda e mais rica em valor simbólico: ‘O sufi (ou seja, o homem identificado ao Intelecto) não é criado.’
    “Se o conhecimento puramente intelectual supera por definição o indivíduo, se, portanto, ele é de essência supra-individual, universal ou divina e está ligado à Inteligência pura, isto é, direta e não-discursiva, é evidente que esse conhecimento não somente vai além da raciocinação, mas também além da fé no sentido comum deste termo; dito de outro modo, o conhecimento intelectual supera igualmente o ponto de vista especificamente teológico, o qual, por sua vez, é no entanto incomparavelmente superior ao ponto de vista filosófico ou mais precisamente racionalista, pois, como o conhecimento metafísico, ele emana de Deus e não do homem; mas, enquanto a metafísica procede inteiramente da intuição intelectual, a religião procede da Revelação; esta é a palavra de Deus enquanto Ele se dirige às suas criaturas, enquanto a intuição intelectual é uma participação direta e ativa no conhecimento divino, não uma participação indireta e passiva como é a fé. Em outros termos, dir-se-á que na intuição intelectual não é o indivíduo enquanto tal que conhece, mas enquanto ele, em sua essência profunda, não é distinto de seu Princípio divino; assim, a certeza metafísica é absoluta em razão da identidade entre o conhecedor e o conhecido no Intelecto.”
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Esquematicamente:

Metafísica
Conhecimento pela intuição intelectual; participação direta no conhecimento divino; certeza absoluta; não é o indivíduo que conhece, mas sua essência divina. Emana de Deus.

Teologia
Tem origem na Revelação e se baseia na fé; a fé é uma participação indireta e passiva no conhecimento divino. Emana de Deus.

Filosofia
Procede da razão. Conhecimento indireto. Emana do homem.

Cristianismo e Budismo, por Schuon

Publicamos também hoje novo ensaio de Frithjof Schuon, intitulado “Cristianismo e Budismo”, contido no livro O Olho do Coração (L’Oeil du Coeur), livro este não existente em português. Esta tradução foi publicada há mais de vinte anos na Revista Thot, de São Paulo. A versão que aqui apresentamos foi revisada.

Um grande e belo ensaio de Frithjof Schuon que temos a honra de oferecer aos leitores de língua portuguesa.

Leia-o seguindo este enlace.

Da Sacralidade das Águas

Publicamos hoje um novo texto de Titus Burckhardt, intitulado Da Sacralidade das Águas. Este ensaio já foi publicado antes com o título O Simbolismo da Água, em tradução feita a partir da excelente tradução inglesa de William Stoddart. Esta versão que aqui oferecemos é traduzida do original alemão.

Embora hoje já se dê maior atenção ao problema da contaminação das águas do que na época em que o autor escreveu o texto, este continua plenamente válido, não só por tratar acima de tudo de princípios e da relação simbólica entre a água e a alma, mas também porque, se hoje se dá mais atenção a este assunto, nem por isso se conseguiu deter essa contaminação ou deterioração, muito ao contrário, excetuando-se alguns casos isolados.

Leia o texto seguinto este enlace.

Inteligência ou bom caráter?

Reproduzimos aqui nota que publicamos anteriormente no blogue Vera Philosophia.

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Extrato do ensaio “Da Inteligência”, em Racines de la Condition Humaine, La Table Ronde, Paris, 1990, pp. 20 e 21.

À questão de saber se vale mais ter inteligência ou um bom caráter, responderemos: um bom caráter. Por quê? Porque, quando se faz essa pergunta, não se pensa nunca na inteligência integral, que implica essencialmente o conhecimento de si; inversamente, um bom caráter implica sempre uma porção de inteligência, com a condição, evidentemente, de que a virtude seja real, não comprometida por um orgulho subjacente, como no caso do “zelo da amargura”.

O bom caráter se abre para a verdade (1), exatamente como a inteligência fiel à sua substância desemboca na virtude; poderíamos dizer também que a perfeição moral coincide com a fé, que ela não poderia ser um perfeccionismo social desprovido de conteúdo espiritual.

Se a faculdade cognitiva consiste em discernir entre o essencial e o secundário e, por via de consequência, ela implica a capacidade de apreender as situações e adaptar-se a elas, será concretamente inteligente o homem que apreende o sentido da vida e, por isso mesmo, o da morte; o que quer dizer que a consciência da morte deve determinar o caráter da vida, como, a priori, a consciência dos valores eternos vem antes da dos valores temporais.

Se nos perguntarem: o que é que prova a realidade dos valores eternos? — mas isto é uma digressão —, responderemos: entre outros o próprio fenômeno da inteligência, o qual seria de fato inexplicável — porque desprovido de razão suficiente — sem seus conteúdos mais fundamentais ou mais elevados. É o mistério do fenômeno da subjetividade, tão estranhamente incompreendido dos modernos, ao passo que ele é, precisamente, um sinal irrecusável de realidade imaterial e de transcendência.

Nota (1): “Errar é humano”, diz São Jerônimo, e Santo Agostinho acrescenta: “Mas é diabólico perseverar, por paixão, no erro”. A paixão coincide, aqui, com o orgulho, o qual anula na prática todas as virtudes; do mesmo modo, o erro corrompe a inteligência, em profundidade e com as reservas que se impõem no plano das coisas práticas ou profanas.

O Homem Conservador

Publicamos hoje mais um belo ensaio de Titus Burckhardt, intitulado “O Homem Conservador”. Este ensaio, em tradução nossa, já está na internet há muitos anos, publicado por outros, mas achamos que vale a pena reproduzi-lo também neste espaço.

Eis o começo:

“Deixando de lado quaisquer matizes políticos que a palavra possa ter, o conservador é alguém que procura conservar. E para dizer se ele está certo ou errado deveria ser suficiente analisar o que é que ele quer conservar. Se as formas sociais que defende – pois sempre se trata de formas sociais – estão em conformidade com o objetivo mais elevado do homem e correspondem à suas necessidades mais profundas, por que não deveriam elas ser tão boas quanto – ou mesmo melhores que – qualquer coisa de novo que a passagem do tempo possa trazer à luz? Pensar desta maneira seria normal, mas o homem de hoje já não pensa normalmente. Mesmo quando não despreza  automaticamente o passado e vê o progresso técnico como fonte de todo bem da humanidade, ele normalmente tem um preconceito contra qualquer atitude conservadora, pois, consciente ou inconscientemente, está influenciado pela tese materialista de que todo ‘conservar’ é inimigo de uma vida que está em constante mudança, e portanto leva à estagnação.”

 

Para lê-lo, siga este enlace.