Arquivo mensal: fevereiro 2014

Um conhecimento que fere nossa natureza

Um extrato do livro de Schuon intitulado Perspectives Spirituelles et Faits Humains (Maisonneuve & Larose, Paris, 1989, pp. 185/186):

“O conhecimento só salva com a condição de engajar tudo o que somos: quando ele é um caminho que labora e que transforma, e que fere nossa natureza como o arado fere a terra.

“Isso quer dizer que a inteligência e a certeza metafísica não salvam por si mesmas, e não impedem por si mesmas quedas de titãs. É o que explica as precauções psicológicas e outras de que toda tradição espiritual cerca o dom da doutrina.

“Quando o conhecimento metafísico é efetivo, ele produz o amor e destrói a presunção. Ele produz o amor: a saber, o direcionamento espontâneo da vontade para Deus, e a percepção de ‘mim mesmo’ — e de Deus — no próximo.

“Ele destrói a presunção: pois o conhecimento não permite ao homem se superestimar, nem subestimar os outros; ao reduzir a cinzas tudo o que não é Deus, ele ordena todas as coisas.

“Tudo o que São Paulo diz da caridade se refere à sabedoria efetiva, pois esta é amor; ele a opõe à teoria enquanto conceito humano. O Apóstolo quer que a verdade seja contemplada com todo o nosso ser; ele chama de ‘amor’ esta totalidade da contemplação.

“O conhecimento metafísico é sagrado. É próprio das coisas sagradas exigir do homem tudo o que ele é.”

Um problema de tradução

No primeiro parágrafo da tradução espanhola de Comprendre l’Islam, objeto da nota anterior, só agora vejo que está escrito: “El Islam es el encuentro entre Allâh como tal y el hombre como tal. Allâh como tal, es decir,…” No entanto, o original francês não usa o termo Allâh, mas a palavra Deus: “O Islã é a junção entre Deus como tal e o homem como tal. Deus como tal, ou seja…”

Se o autor quisesse usar o termo Allâh, ele o teria usado, como faz muitas vezes em outros de seus escritos. Mas aqui ele optou por usar o termo Deus, e devemos respeitar essa opção. Um tradutor não deve achar que sabe mais que o autor, nem deve querer “adaptá-lo” para determinados leitores.

O próprio Frithjof Schuon, num ensaio sobre a tradução, diz que ela deve ser literal sempre que possível. É preciso ter em mente que Schuon escreve com total precisão e economia no uso das palavras, diferentemente da maior parte dos escritores de hoje. Mudar seus termos e suas estruturas desnecessariamente, diz ele, implica possíveis perdas de nuances, quando não a falsificação de ideias importantes.

No caso em questão, “o Islã é a junção entre Deus como tal e o homem como tal”. Se substituímos Deus por Allâh, damos à afirmação uma conotação restritiva. Não é ao Deus Pessoal em sua Face voltada ao Islã que o autor se refere, mas, como ele mesmo diz, a Deus em si mesmo, a “Deus como tal”.

Que a tradução conste de um sítio eletrônico islâmico pode explicar isso, mas, como se diz popularmente, “explica, mas não justifica”.

Louvamos a publicação do texto, a disponibilização de uma tradução na internet. Mas pensamos ter o direito de fazer estas observações.

Outro problema: falta nesta tradução espanhola o prefácio do autor.

Compreender el Islam, na internet

O livro Comprendre l’Islam, de Frithjof Schuon, em sua versão espanhola, intitulada Compreender el Islam, está disponível na internet para leitura ou descarregamento em formato PDF.

Este livro, por suas profundas comparações com o Cristianismo, nos fornece não só uma visão magistral do Islã como, também, uma compreensão muito bonita e profunda da fé cristã.

Clique aqui para aceder ao sítio onde ele está.

Um conhecimento doutrinal é suficiente?

Gostaria de trazer à atenção do leitor dois extratos do livro de Titus Burckhardt intitulado Introduction aux Doctrines Ésotériques de l’Islam, publicado por Dervy-Livres, Paris, em 1985.

Os dois extratos tratam da seguinte questão: o conhecimento doutrinal basta para a realização espiritual? O grande sábio suíço diz que não, e que, se não há uma via espiritual, a compreensão das verdades espirituais despertada pelo estudo da doutrina pode facilmente, aos poucos, se desvanecer.

Vejamos o que diz Burckhardt:

“O presente trabalho é uma introdução ao estudo da doutrina sufi. Mas é importante antes de tudo definir o ponto de vista segundo o qual abordamos este tema: este ponto de vista não é o da erudição pura e simples, seja qual for o interesse científico dos resumos doutrinais que figuram neste estudo; queremos sobretudo contribuir com os esforços daqueles que, no mundo moderno, procuram compreender as verdades permanentes e universais de que toda doutrina sagrada é um modo de expressão.

“Digamos logo de início que a ciência acadêmica é uma ajuda totalmente secundária e muito indireta para que se assimile o conteúdo intelectual das doutrinas orientais, e, aliás, nem é esse o objetivo de um método científico, que aborda as coisas necessariamente desde o exterior, portanto sob seu aspecto puramente histórico e contingente. Há doutrinas que só se compreendem ‘desde o interior’, por um trabalho de assimilação ou de penetração cujas modalidades, que são essencialmente intelectuais [1], superam, por isso mesmo, o pensamento discursivo; este chega mesmo a se tornar um obstáculo na medida em que ele está marcado por convenções mentais, sem falar das ideias preconcebidas agnósticas e evolucionistas que determinam o espírito da maioria dos ocidentais. É por esta razão que quase todos os eruditos europeus que estudaram o Sufismo se enganam a respeito de sua verdadeira posição: o homem de cultura moderna, com efeito, não mais está habituado a pensar em símbolos (…) a formação universitária e o saber livresco autorizam aqui a ocupar-se de coisas que, no Oriente, estão naturalmente reservadas àqueles que são dotados de intuição espiritual e que se consagram ao estudo dessas coisas em virtude de uma afinidade real e sob a direção dos herdeiros de uma tradição viva.” (pp. 9-10)

“A assimilação das verdades doutrinais é indispensável; contudo, ela não opera por si só uma transformação na alma, salvo em certos casos muito excepcionais, em que a alma está tão bem disposta à contemplação que elementos de doutrina bastam para a fazer nela [na contemplação] mergulhar, como uma solução supersaturada que, sofrendo um mínimo impulso, pode subitamente se transmutar em cristais. Em si, a inteligência doutrinal é puramente estática; ela pode livrar a alma de certas tensões, mas não pode realmente transformá-la sem o concurso da vontade, a qual representa o elemento dinâmico da via. Ocorre mesmo, muito facilmente, que a intuição das verdades metafísicas, a princípio despertada pelo estudo da doutrina, se esfarele pouco a pouco no espírito daquele que, crendo possuir essas verdades, só adere a elas mentalmente, como se a vontade não devesse tomar nisso nenhuma parte. Ora, a vontade deve tornar-se ‘pobre’ perante Deus, o que equivale a dizer que ela deve se conformar à virtude espiritual: esta representa uma espécie de concentração latente da alma, uma base sólida e natural da concentração diretamente operativa, cujo objetivo é transpassar o véu da consciência continuamente absorvida pela corrente das formas. ‘A virtude espiritual (al-ihsân) – disse o Profeta – é que tu adores a Deus como se tu O visses, e, se tu não O vês, Ele no entanto te vê’.

“Conforme a natureza particular do ‘caminho’ (…) a compreensão doutrinal exerce um papel mais ou menos importante; ela não exige necessariamente um saber doutrinal muito extenso, pois é em profundidade, não na superfície, que ela deve se desenvolver.” (pp. 115-117)

Nota [1]: Por ‘intelecto’ entendemos não a razão ou o pensamento discursivo, mas o ‘órgão’ do conhecimento imediato, da certeza, ou seja, a pura inteligência, que supera a razão. Este ‘órgão’, a teologia ortodoxa, particularmente Máximo, o Confessor, chama de Noûs.