Arquivo mensal: março 2014

O significado espiritual da Divina Comédia

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Publicamos hoje neste espaço um profundo e surpreendente artigo de Titus Burckhardt a respeito da Divina Comédia, intitulado “É Porque Dante está Certo”.

Ele começa assim:

Entre os traços que atestam a grandeza incomparável da Divina Comédia, não é dos menos importantes o fato de que, a despeito de a amplitude e a variedade de sua influência terem sido excepcionalmente grandes — ela chegou mesmo a moldar a língua de uma nação —, tal obra foi raramente compreendida na totalidade de seu significado. Já durante a vida de Dante, aqueles que se aventuraram no oceano do espírito na trilha de sua nau (Paradiso, II, 1 ss.) estavam destinados a ser uma companhia reduzida. Eles mais ou menos desapareceram com o Renascimento; o modo de pensamento individualista desse período, oscilando entre a paixão e a razão calculista, já estava muito afastado do espírito de Dante, voltado para o interior. Mesmo Miquelângelo, embora tivesse por seu conterrâneo florentino a mais alta consideração, já não o podia compreender (continue a ler clicando aqui).

Orientação sobre as virtudes

Publicamos hoje ensaio de Schuon, inédito em português, a respeito das virtudes. Este ensaio é um belo exemplo da profundidade e a precisão do aconselhamento espiritual do grande mestre alemão. O texto, que foi publicado em Résumé de Métaphysique Intégrale (Le Courrier du Livre, Paris, 1985), começa assim:

Segundo Santo Agostinho, “todos os outros vícios se ligam ao mal para que ele se faça; só o orgulho se liga ao bem para que ele pereça”. E, do mesmo modo, o Cura d’Ars: “A humildade está para as virtudes como o cordão está para o rosário; retira o cordão, e todas as contas escapam; elimina a humildade, e todas as virtudes desaparecem.” Isso quer dizer que o orgulho consiste em se glorificar por suas virtudes, quer diante dos outros, quer diante de si mesmo somente; o que destroi as virtudes por duas razões: em primeiro, porque elas são tomadas de Deus, a quem na realidade elas pertencem, e porque assim a pessoa se põe – como Lúcifer – no lugar da Fonte divina; e, em seguida, porque se atribui de facto um valor desproporcional a um fenômeno necessariamente relativo. “Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que faz a direita.”

Leia mais aqui.

Um extrato de correspondência

Extrato de correspondência com orientação espiritual de Frithjof Schuon, publicado no livro A Transfiguração do Homem (Sapientia, 2009).

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O Jardim

Um homem vê um jardim florido, mas sabe: ele não verá sempre essas flores e esse verde, pois morrerá um dia; e ele sabe também: esse jardim não estará sempre lá, pois o mundo, por sua vez, desaparecerá. E ele sabe ainda: esta relação com o belo jardim é dada pelo destino, pois, se o homem se encontrasse no meio do deserto, ele não veria o jardim; ele o vê somente porque o destino o colocou, ele, homem, ali e não em outro lugar.

Mas na região mais interior de nossa alma mora o Espírito, e nele o jardim está contido como em germe; e se nós amamos esse jardim — e como não o amaríamos, visto ser de uma beleza paradisíaca? —, faremos bem em buscá-lo lá onde ele sempre esteve e onde sempre estará, a saber, no Espírito; mantém-te no Espírito, em teu próprio centro, e terás o jardim e por acréscimo todos os jardins possíveis. E do mesmo modo: no Espírito não há morte, pois nele tu és imortal; e no Espírito a relação entre o contemplador e o contemplado não é somente uma possibilidade frágil, mas, ao contrário, reside na natureza mesma do Espírito e é eterna como ele.

O Espírito é consciência e vontade: consciência de si mesmo e vontade em relação a si mesmo. Mantém-te no Espírito pela consciência, e aproxima-te do Espírito pela Vontade ou pelo Amor, e nem a morte nem o fim do mundo podem te tirar o jardim ou anular tua visão. O que és agora no Espírito, tu o serás depois da morte; e o que possuis agora no Espírito, tu o possuirás depois da morte. Diante de Deus, não há ser nem propriedade a não ser no Espírito; o que era exterior deve tornar-se interior, e o que era interior será exterior: busca o jardim em ti mesmo, em tua indestrutível Substância divina, e esta te dará um jardim novo e imperecível.