Arquivo mensal: junho 2014

“Um mundo de cenários”

O texto abaixo foi escrito por Schuon em 1957, muito antes dos computadores pessoais e muito antes da internet. O que queremos ressaltar publicando-o é a ligação entre crer em Deus e o ambiente — as formas — em que vivemos. O trecho foi extraído de Castes et Races, Lyon, Derain, 1957, pp. 17 e 18. Há versão brasileira: O Sentido das Raças, São Paulo, Ibrasa, 2002, pp. 33 e 34.

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Como definir a posição ou a qualidade do operário moderno? Responderemos em primeiro lugar que o “mundo operário” é uma criação totalmente artificial, devida à máquina e à vulgarização científica que a esta se liga; dito de outro modo, a máquina cria infalivelmente o tipo humano artificial que é o “proletário” ou, antes, ela cria um “proletariado”, pois se trata, em tal caso, essencialmente de uma coletividade quantitativa e não de uma “casta” natural, ou seja, que tivesse seu fundamento em determinada natureza individual. Se se pudesse suprimir as máquinas e reintroduzir o antigo artesanato, com todos os seus aspectos de arte e de dignidade, o “problema operário” deixaria de existir; isto vale mesmo para as funções puramente servis ou para os ofícios mais ou menos quantitativos, pela simples razão de que a máquina é inumana e anti-espiritual em si. A máquina mata, não somente a alma do operário, mas a alma enquanto tal, portanto também a do explorador: o par explorador-operário é inseparável do maquinismo, pois o artesanato impede esta alternativa grosseira por sua própria qualidade humana e espiritual. O universo maquinista é acima de tudo o triunfo da ferragem pesada e dissimulada; é a vitória do metal sobre a madeira, da matéria sobre o homem, da astúcia sobre a inteligência; expressões tais como “massa”, “bloco”, “choque”, tão frequentes no vocabulário do homem industrializado, são totalmente significativas para um mundo que está mais perto dos insetos do que dos humanos. Não há nada de surpreendente no fato de que o “mundo operário”, com sua psicologia “maquinista-cientificista-materialista” seja particularmente impermeável às realidades espirituais, pois ele pressupõe uma “realidade ambiente” totalmente artificial: ele exige máquinas, portanto metal, ruídos, forças ocultas e pérfidas, uma ambiência de pesadelo, do vaivém ininteligível, numa palavra, uma vida de insetos na feiúra e na trivialidade; no interior de tal mundo, ou antes de tal “cenário”, a realidade espiritual parecerá uma ilusão patente ou um luxo desprezível. Em não importa qual ambiência tradicional, ao contrário, é a problemática do “operário” — portanto maquinista — que não teria mais nenhuma força persuasiva; para torná-la verossímil é preciso portanto começar por criar um mundo de cenários que lhe corresponda e cujas próprias formas sugerem a ausência de Deus; o Céu deve ser inverossímil; falar de Deus deve soar falso.