Arquivo mensal: agosto 2014

A Contradição do Relativismo

Trecho do primeiro ensaio de Logique et Transcendance (Éditions Traditionnelles, Paris, 1982), de Frithjof Schuon.

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A Contradição do Relativismo

O relativismo reduz todo elemento de absolutez à relatividade, fazendo uma exceção totalmente ilógica com esta própria redução. Ele consiste, em suma, em declarar que é verdadeiro que não existe verdade, ou que é absolutamente verdadeiro que só existe o relativamente verdadeiro; o mesmo valeria dizer que não existe linguagem, ou escrever que não existe escrita. Ou seja: toda ideia se vê reduzida a uma relatividade quer psicológica, quer histórica, quer social; a asserção se anula pelo fato de que ela se apresenta a si mesma como uma relatividade psicológica, histórica ou social, e assim por diante. A asserção se anula, se é verdadeira, e, em se anulando logicamente, prova que é falsa; sua absurdidade inicial é a pretensão implícita de só ela escapar, como por encanto, de uma relatividade declarada como única possibilidade.

O axioma do relativismo é que “não se pode nunca sair da subjetividade humana”; neste caso, esta asserção não tem nenhum valor de objetividade, ela cai sob seu próprio veredito. É por demais evidente que o homem pode perfeitamente sair da subjetividade, sem o que ele não seria homem; e a prova disso é que podemos conceber essa subjetividade e sua superação. Para o homem totalmente encerrado em sua subjetividade, esta não seria nem mesmo concebível; o animal vive sua subjetividade, mas não a concebe, pois não tem, como o homem, o dom da objetividade.

O relativismo social não perguntará se é verdade que dois e dois são quatro, ele perguntará de que meio vem aquele que faz tal afirmação; sempre sem se dar conta de que, se o meio determina o pensamento e tem primazia em relação à verdade, ele o faz em todos os casos, ou seja, todo meio determina o pensamento e todo pensamento é determinado por um meio. Se nos objetassem que um certo meio particular favorece a percepção da verdade, poderíamos facilmente devolver o argumento referindo-nos a uma outra hierarquia de valores, o que prova que o dito argumento não é senão uma petição de princípio ou, no melhor dos casos, um cálculo de probabilidade sem nenhum alcance concreto. E o mesmo vale para o relativismo histórico: a partir do momento em que todo pensamento humano ocorre necessariamente num momento dado – não quanto ao conteúdo, mas quanto ao processo mental –, todo pensamento só teria um valor relativo, ele seria “obsoleto” e “superado” desde o seu nascimento; então, já não valeria a pena pensar, pois o homem não pode escapar à duração.

De resto, o objeto ou a preocupação do relativismo não é sempre a verdade como tal, ele pode ser não importa qual expressão ou modalidade desta, particularmente os valores morais ou estéticos; pode-se reduzir toda retidão a um fator contingente e mais ou menos insignificante e abrir assim a porta a todas as assimilações abusivas, a todas as degradações e a todas as imposturas. O relativismo aplicado aos fatos tradicionais é acima de tudo o erro de confundir elementos estáticos com elementos dinâmicos: fala-se de “épocas” ou de “estilos” e esquece-se que o de que se trata é a manifestação de dados objetivos e estáveis, portanto definitivos à sua maneira. No crescimento de uma árvore, determinada fase corresponde evidentemente a determinado momento da duração; o que não impede que o tronco seja o tronco, que os ramos sejam os ramos e os frutos, os frutos; o tronco de uma macieira não é senão um momento em relação à maçã, esta não é senão um outro momento em relação ao tronco e ao ramo. A época dita “gótica” tinha, por sua própria natureza, o direito de sobreviver, no setor que é o seu, até o final dos tempos, pois os dados étnicos que a determinaram não mudaram e não podem mudar, a menos que a Cristandade latino-germânica se torne mongol; a civilização gótica, ou romano-gótica, não foi superada pela “evolução”, ela não deixou de ser transmutando-se, ela foi assassinada por uma força extra-cristã, o neopaganismo do Renascimento. Seja como for, um dos traços marcantes do século XX é a confusão tornada habitual entre a evolução e a degeneração: não há nenhuma degeneração, nenhuma diminuição, nenhuma falsificação que não seja desculpada com a ajuda do argumento relativista de “evolução”, reforçando-o com as assimilações mais abusivas e mais errôneas. É assim que o relativismo, habilidosamente infundido na opinião pública, por um lado abre a porta a todas as corrupções e por outro lado cuida para que nenhuma reação sã possa frear este deslizamento para baixo.

Enquanto os erros que tendem a negar a inteligência objetiva e intrínseca se destroem a si mesmos postulando uma tese que é desmentida pela própria existência do postulado, o fato de que há erros não prova uma falibilidade inevitável da inteligência; pois o erro não deriva da inteligência como tal, ele é, ao contrário, um fenômeno privativo que faz a atividade da inteligência se desviar, em função de um elemento de paixão ou de cegueira, sem poder abalar a própria natureza da faculdade cognitiva.

Um exemplo patente da contradição clássica de que se trata aqui, e que caracteriza em grande parte todo o pensamento moderno, nos é fornecido pelo existencialismo, o qual postula uma definição do mundo que é impossível se ele próprio é possível, pois das duas, uma: ou o conhecimento objetivo, portanto absoluto em seu gênero, é possível, e então ele prova que o existencialismo é falso; ou o existencialismo é verdadeiro, mas então sua promulgação é impossível, pois não há no universo existencialista nenhum lugar para uma intelecção objetiva e estável.

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O ensaio continua por diversas páginas. Um texto admirável do grande sábio de nossos tempos, infelizmente inédito em português.

(trad. de Alberto Queiroz)