Arquivo mensal: novembro 2014

Uma divisória mínima

“Na realidade, o que separa o homem da Realidade divina é uma divisória mínima: Deus está infinitamente próximo do homem, mas este está infinitamente longe de Deus. Esta divisória, para o homem, é uma montanha; o homem se põe diante de uma montanha que ele deve desfazer com suas próprias mãos. Ele cava a terra, mas em vão, a montanha continua ali; o homem, entretanto, continua a cavar, em nome de Deus. E a montanha se desvanece. Ela jamais existiu.”

(Frithjof Schuon, Les Perles du Pèlerin)

Outro ensaio de Schuon em português

Apresentamos aos leitores um outro ensaio de Frithjof Schuon traduzido para o português, intitulado “Religio perennis“. Foi publicado originalmente no livro Regards sur les mondes anciens (Olhares sobre os Mundos Antigos), de 1968, o qual foi lançado no Brasil sob o título O Homem no Universo. Ele começa assim:

“Uma das chaves para a compreensão de nossa verdadeira natureza e de nosso destino último é o fato de que as coisas deste mundo nunca são proporcionais à extensão real de nossa inteligência. Esta é feita para o Absoluto, ou ela não é; entre as inteligências deste mundo, só o espírito humano é capaz de objetividade, o que implica — ou o que prova — que só o Absoluto permite a nossa inteligência poder inteiramente o que ela pode, e ser inteiramente o que ela é. Se fosse necessário ou útil provar o Absoluto, o caráter objetivo e transpessoal do intelecto humano já bastaria como testemunho, pois este intelecto é o sinal irrecusável de uma Causa primeira puramente espiritual, de uma Unidade infinitamente central mas contendo todas as coisas, de uma Essência a uma vez imanente e transcendente. Já se disse mais de uma vez que a Verdade está inscrita, numa escrita eterna, na própria substância de nosso espírito; o que as diferentes Revelações fazem é “cristalizar” e “actualizar”, em diversos graus, conforme o caso, um núcleo de certezas que não só reside eternamente na Onisciência divina como também dorme, por refração, no núcleo “naturalmente sobrenatural” do indivíduo, bem como no núcleo de cada coletividade étnica ou histórica, ou mesmo da espécie humana como um todo.” (clique aqui para continuar a ler)

Alguns erros encontrados num livro de Schuon em português

Abaixo relacionamos alguns equívocos da tradução de O Esoterismo como Princípio e como Caminho, publicado pela Editora Pensamento.

O primeiro texto é o da edição brasileira, errado ou impreciso. O segundo, como deveria ter sido traduzido.

Página 11

a) Os kantianos nos pedirão a prova da existência dessa forma de conhecimento; mas há aqui um primeiro erro, ou seja, não passa de um conhecimento que podemos provar de facto.

a) Os kantianos nos pedirão para provar a existência dessa maneira de conhecer; ora, há aí um primeiro erro, a saber, crer que só é conhecimento aquilo que podemos provar de facto.

b) A fé equivale a um conhecimento objetivado pelo coração.

b) A fé equivale a um conhecimento cardíaco objetivado. Continuar lendo

Compreender sem crer

Mais um extrato de um livro de Frithjof Schuon:

“É um fato de observação corrente que o homem possa crer sem compreender; tem-se muito menos consciência da possibilidade inversa, que consiste em compreender sem crer, e ela parece mesmo uma contradição, pois a fé só parece se impor àquele que não compreende. No entanto, a hipocrisia não é somente a dissimulação daquele que finge ser melhor do que é; ela é também a desproporção entre a certeza e o comportamento, e, sob este aspecto, a maior parte dos homens são mais ou menos hipócritas, pois pretendem admitir verdades que eles só muito debilmente põem em prática. Crer sem agir em consequência é, no plano da simples crença,  o que é, no plano intelectual, uma compreensão sem fé e sem vida; pois crer realmente é identificar-se à verdade que se aceita, seja qual for o nível dessa adesão. A piedade está para a crença religiosa como a fé operativa está para a compreensão doutrinal, ou, ainda, como a santidade está para a verdade.

“Se partimos da ideia de que a espiritualidade abrange essencialmente dois fatores, a saber, o discernimento entre o Real e o ilusório e a concentração permanente no Real, a conditio sine qua non sendo a observância das regras tradicionais e a prática das virtudes concomitantes — se partimos dessa ideia, veremos que há uma relação entre o discernimento e a compreensão, por um lado, e entre a concentração e a fé, por outro; seja qual for seu nível, a fé é sempre uma participação de certa forma existencial no Ser ou no Real; é — para retomar um hadîth fundamental — ‘adorar a Deus como se tu o visses, e, se tu não o vês, ele, no entanto, te vê”. Em outros termos, a fé é a participação da vontade na inteligência: assim como no plano físico o homem adapta sua ação aos dados que lhe determinam a natureza, assim também ele deve agir, no plano espiritual, em conformidade com suas convicções; atividade interior mais ainda que exterior, pois ‘antes de agir, é preciso ser’, e nosso ser não é senão nossa atividade interior. A alma deve ser para o espírito como a beleza é para a verdade, e é isso que chamamos de ‘qualificação moral’ que deve acompanhar a ‘qualificação intelectual’.

Logique et Transcendance, Éditions Traditionnelles, Paris, 1982, pp. 219, 220.

Pode-se perguntar…

“Poder-se-ia perguntar por que o Espírito Santo permite as aberrações da Igreja oficial; ao que eu respondo, com todos os teólogos que não esqueceram sua teologia: em primeiro lugar, porque o homem é livre; e, em segundo lugar, porque ‘o escândalo há de vir; mas ai daquele por quem ele vier!’ Basta ler o Novo Testamento para lembrar-se que, perto do fim do mundo, as forças do mal se desencadeiam; isto em virtude de uma lei metafísica que quer que, no fim de um ciclo da humanidade, as possibilidades mais inferiores devam poder se esgotar; depois virá a intervenção divina. Todas as religiões ensinam isto, sob uma forma ou outra.”

Traduzido de: Vers l’Essentiel, Lettres d’un Maître Spirituel, de Frithjof Schuon, compiladas por Thierry Béguelin, Editions Les Sept Flèches, Lausanne, Suíça, 2013, página 47. Carta de 1/9/1976.

Os filósofos gregos, a necessidade do exoterismo

“Você se pergunta como homens como Platão, Sócrates, Pitágoras e Plotino puderam atingir seus graus, apesar de lhe parecer que não tivessem esse exoterismo cuja necessidade eu sublinho. Em primeiro lugar, não é verdade que eles fossem desprovidos de exoterismo. Eles viviam num marco tradicional que, por mais degenerado que possamos supor que fosse, nem por isso deixava de ter um arcabouço exotérico, portanto ‘religioso’ (ritos, cerimônias, crenças, morais); além disso, gênios espirituais da envergadura deles estavam sem dúvida em condições de ressuscitar por si mesmos a pureza original dessas formas exotéricas; enfim, se se quer admitir que para um Platão, por exemplo, não se pode nem mesmo falar de exoterismo degenerado (mas não é como vejo), é preciso não esquecer que a necessidade da ambiência exotérica não é uma regra sem exceção; ora, trata-se, nesses casos, de homens excepcionais, que se pode ligar ao mesmo tempo à categoria dos afrâds (os solitários não submetidos ao Polo ou Legislador de sua época) e à dos profetas menores, no sentido de que deixaram sua marca espiritual em toda uma civilização. Seja como for, quero lhe lembrar que todos esses homens eram não somente filósofos, mas também ‘crentes’, ‘praticantes’, aspecto que os historiadores modernos se obstinam a negligenciar.”

Traduzido de: Vers l’Essentiel, Lettres d’un Maître Spirituel, de Frithjof Schuon, compiladas por Thierry Béguelin, Editions Les Sept Flèches, Lausanne, Suíça, 2013, página 135.