Arquivo mensal: dezembro 2014

Inteligência, vontade, sentimento

A inteligência humana é, virtual e vocacionalmente, a certeza do Absoluto. A ideia do Absoluto implica, por um lado, a do relativo e, por outro lado, a das relações entre um e outro, a saber, a prefiguração do relativo no Absoluto e a projeção do Absoluto no relativo; a primeira relação dando origem ao Deus pessoal, e a segunda, ao Anjo supremo (1) .

A vontade humana é, virtualmente e vocacionalmente, a tendência para o Bem absoluto; os bens secundários, quer sejam necessários ou simplesmente úteis, são determinados indiretamente pela escolha do Bem supremo. A vontade é instrumental, não inspiradora: nós conhecemos e amamos não o que queremos, mas queremos o que conhecemos e amamos; não é a vontade que determina nossa personalidade, é a inteligência e o sentimento (2).

O sentimento humano – a alma, se se quiser – é, virtualmente e vocacionalmente, o amor à Suma Beleza e a suas reverberações no mundo e em nós mesmos; neste último caso, as belezas são as virtudes, e também, num plano menos eminente, os dons artísticos. “Deus”, “eu” e “os outros”: eis as três dimensões às quais correspondem respectivamente a piedade, a humildade e a caridade, ou, digamos, as qualidades contemplativas, caracteriais e sociais.

Na piedade – e ela é essencialmente o senso do sagrado, do transcendente, do profundo – as virtudes complementares de humildade e de caridade se dirigem ao Sumo Bem e fazem dele seu objeto; o que quer dizer que a qualidade de piedade coincide, no fim das contas, com a santidade, a qual implica a priori a alegria por Deus e a paz nele. Neste contexto, a humildade se torna a consciência de nosso nada metafísico, a caridade se torna a consciência da imanência divina nos seres e nas coisas; ter o senso do sagrado é sentir que todas as qualidades ou valores não somente provêm do Infinito, mas também atraem a ele. A alma é quintessencialmente o amor da Suma Beleza, dissemos: de um ponto de vista menos fundamental e mais empírico, diremos que a substância da alma é a procura inconsciente de um Paraíso perdido, o qual na realidade está “dentro de vós”.

Se as virtudes fundamentais são belezas, toda beleza sensível, inversamente, manifesta virtudes: ela é “piedosa” – ou seja, ascendente” ou “essencializante” – porque ela manifesta arquétipos celestes; ela é “humilde” porque ela se submete às leis universais e por este fato exclui todo excesso; e ela é “caridosa” no sentido de que ela irradia e enriquece sem jamais pedir nada em troca.

Acrescentemos que, no mundo humano, só a espiritualidade engendra a beleza, sem a qual o homem normal e não pervertido não pode viver.

Notas

(1) Esse anjo é o Metatron da Kabbala, o Rûh do Alcorão e a Buddhi – ou Trimûrti – do Vedânta; é também o Espírito Santo da doutrina cristã enquanto ele ilumina os corações.

(2) As palavras “sentimentos” e “sentimental” evocam com muita frequência a ideia de uma oposição à razão e ao razoável, o que é abusivo, pois um sentimento pode ser justo e um raciocínio pode ser falso.

(Extraído de Le Jeu des Masques, de Frithjof Schuon; l’Age d’Homme, Lausanne, 1992.)

O nascimento de Cristo, numa visão mística

Tomamos a liberdade de, excepcionalmente, publicar algo que não foi escrito por Frithjof Schuon ou por outro autor perenialista.

* * *

“A Santíssima Virgem passou o Sabbath na gruta de Natal, em oração e meditação e em grande fervor espiritual. José saiu várias vezes, provavelmente para ir à sinagoga em Belém. Eu os vi compartilhando o alimento que havia sido preparado no dia anterior, e rezando juntos. Na tarde do Sabbath, quando é costume judeu sair para uma caminhada, José levou a Santa Virgem através do vale, por trás da gruta, até o túmulo de Maraha, ama-de-leite de Abraão. Passaram algum tempo nesta gruta, que era mais ampla que a gruta de Natal, e na qual José tinha preparado um lugar para Nossa Senhora sentar-se. O resto do tempo eles passaram sob a árvore sagrada perto da gruta, em prece e meditação, até pouco após o fim do Sabbath, quando José a trouxe de volta.

“Maria tinha dito a São José que aquela noite, à meia-noite, seria a hora do nascimento da criança, pois então os nove meses desde a Anunciação estariam completos. Ela lhe pediu para fazer todo o possível de sua parte de modo que pudessem mostrar, à criança prometida por Deus e concebida sobrenaturalmente, tanta honra quanto lhes estava ao alcance. Pediu-lhe também que se juntasse a ela em orações pelas pessoas de coração endurecido que lhes tinham recusado abrigo.

“José sugeriu à Santa Virgem que poderia chamar algumas mulheres piedosas que conhecia em Belém, para que viessem auxiliá-la. Ela recusou, contudo, dizendo que não precisava de ajuda humana. Pouco antes do fim do Sabbath, José foi a Belém, e tão logo o Sol se pôs comprou rapidamente algumas coisas necessárias —um banco, uma mesinha baixa, algumas vasilhas pequenas e algumas frutas secas e uvas passas. Munido de tais coisas, apressou-se a voltar à gruta e então ao túmulo de Maraha, e levou a Santa Virgem de volta à Gruta de Natal, onde ela se deitou em seu leito, no canto leste. José preparou mais comida, e eles comeram e rezaram juntos. Ele então separou completamente seu local de dormir do resto da caverna, cercando-o com estacas e pendurando nelas tapetes que encontrara na gruta. Alimentou o burro, que estava à esquerda da entrada da Gruta, perto da parede; encheu então a manjedoura com juncos e grama ou limo e estendeu por cima uma coberta, que pendia das bordas.

“Ao ter-lhe a Santa Virgem dito que a hora se aproximava e que devia ir para seu quarto e rezar, José pendurou mais algumas lâmpadas incandescentes na Gruta e foi para fora, já que tinha ouvido um barulho. Lá, encontrou a jumenta, que até então tinha estado andando livremente pelo vale dos pastores. Ele a amarrou sob a cobertura em frente à Gruta e lhe serviu forragem.

“Quando José voltou para dentro e se deteve à entrada de seu local de dormir olhando para a Santa Virgem, viu-a com o rosto voltado para leste, ajoelhada no leito, de costas para ele. Viu-a como que rodeada por chamas — toda a gruta estava como que cheia de luz sobrenatural. José a contemplou como Moisés fizera com a Sarça Ardente; então, entrou em sua pequena cela cheio de santo temor e prostrou-se, o rosto na terra, em oração.

“Eu vi a radiância em torno de Nossa Senhora tornar-se cada vez maior. A luz das lâmpadas que José acendera já não era visível. Nossa Senhora ajoelhou-se em seu tapete, em um amplo manto ali estendido, o rosto voltado para leste. À meia-noite, estava tomada em um êxtase de oração. Eu a vi levantada do chão, de modo que se podia ver o chão sob ela. Suas mãos estavam cruzadas sobre o peito. A radiância à sua volta aumentou; tudo, mesmo coisas sem vida, estavam num alegre movimento interior — as rochas do teto, das paredes e do solo da gruta tornaram-se como vivas àquela luz. Então eu já não vi o teto da gruta; um caminho de luz se abriu acima de Maria, subindo com glória sempre maior em direção às alturas do céu. Nesse caminho de luz, havia um maravilhoso movimento de glórias interpenetrando-se umas às outras, e, conforme se aproximaram, pareciam mais claramente sob a forma de coros de espíritos celestes. Enquanto isso, a Santa Virgem, tomada em êxtase, estava agora olhando para baixo, adorando seu Deus, cuja mãe ela tinha-se tornado e que jaz no solo à sua frente, sob a forma de um indefeso recém-nascido. Eu vi nosso Redentor como uma criança pequenina, brilhando com uma luz que superava toda a radiância circundante, e jazendo no tapete, junto aos joelhos da Santa Virgem. Pareceu-me que ele era a princípio bem pequeno e então cresceu aos meus olhos. Mas o movimento da intensa radiância era tamanho que não posso dizer ao certo como vi tudo.

“A Santa Virgem permaneceu por algum tempo envolta em êxtase. Eu a vi cobrir o Menino com um pano, mas a princípio ela não O tocou ou pegou nos braços. Após certo tempo eu vi o Menino Jesus se mover, e depois eu O ouvi chorar. Então pareceu que Maria voltava a si, e pegou o Menino do tapete, envolvendo-O no pano que O cobria, e com Ele aos braços trouxe-O para si. Ficou ali, sentada, completamente envolvida, ela e o Menino, em seu véu, e penso que ela amamentou o Redentor. Eu vi anjos à sua volta em forma humana, prostrando-se e adorando o menino. Talvez fosse uma hora após o nascimento quando Maria chamou São José, que ainda estava prostrado em oração. Quando se aproximou, ele se lançou com o rosto ao chão, em devota alegria e humildade. Foi só quando Maria lhe pediu que carregasse, junto ao coração, em alegria e gratidão, o santo presente de Deus Altíssimo, que ele se ergueu, pegou nos braços o Menino Jesus, e louvou a Deus com lágrimas de felicidade.”

(Extraído de livro de Anna Catharina Emmerich, mística alemã do século XIX, com suas visões da vida da Virgem Maria. No Brasil, foi publicado com o título de Santíssima Virgem Maria, pela editora MIR.)

O gosto pela novidade

(…) acontece com muita frequência  que ocidentais mais ou menos próximos do Islã acusem os outros ocidentais de negligenciá-lo e de só ter em relação a ele preconceitos imperdoáveis, em vez de estudá-lo com amor; o que é totalmente injusto e mesmo propriamente absurdo, pois, mesmo fazendo abstração de todos os preconceitos possíveis – os ocidentais, por certo, não são os únicos a tê-los –, é um fato que o Islã rejeita os dogmas do Cristianismo, põe o Alcorão no lugar do Evangelho, o Profeta no lugar do Cristo, e pensa que a religião cristã deveria ceder seu lugar à religião muçulmana; ora, essas opiniões bastam e muito para tornar o Islã inaceitável e mesmo odioso aos olhos dos cristãos. O que importa, do ponto de vista da verdade total – já o dissemos e agora o repetimos – é saber que as teses anticristãs do Islã só têm, fundamentalmente, uma significação simbólica, extrínseca e “estratégica”, e isto em função de uma intenção espiritual positiva que evidentemente não tem relação com fenômenos históricos. A mesma observação se aplica, mutatis mutandis, às teses cristãs que procuram invalidar todas as outras religiões, e assim por diante. Deus quis – não podemos duvidar disso – que mundos religiosos diferentes e divergentes coexistam num mesmo planeta; no interior de um desses mundos, ele não pede contas sobre os outros; e é, aliás, com a mesma “lógica existencial” que cada indivíduo crê ser “eu”. Se Deus quer que haja diversas religiões, Ele não pode querer que uma religião seja a outra, e, portanto, cada uma deve ter barreiras sólidas.

Nas condições normais, o muçulmano só tem uma única religião, que o envolve e o penetra a tal ponto em que lhe é impossível sair dela, a não ser por apostasia; o leitor se surpreenderá com esse truísmo, mas verá imediatamente sua função se acrescentamos que o cristão médio, ao contrário, parece ter, na prática, três religiões ao mesmo tempo, em primeiro lugar o Cristianismo, depois a “civilização” e, por fim, a “pátria” ou a “nação” ou a “sociedade”, ou outra ideologia política qualquer, conforme as flutuações da moda ou conforme o meio; a religião propriamente dita é posta num canto, os reflexos humanos são compartimentados . Uma das causas desse fenômeno é um gosto inveterado pela novidade, já notório entre os Gregos da época dita clássica, e não menos entre os Celtas e os Germanos; portanto, a tendência à mudança e com isso à infidelidade, até mesmo à aventura luciferina; tendência neutralizada, é verdade, por mais de um milênio de Cristianismo. Mas há também – muito paradoxalmente – uma causa para essa incoerência cultural na própria religião – causa indireta, sem dúvida, mas que se combina ao longo do tempo com a causa que assinalamos –, a saber, o fato de que a doutrina e os meios do Cristianismo superam as possibilidades psicológicas da maioria; de onde uma cisão secular entre o domínio religioso, que tende a reter os homens numa espécie de gueto sagrado, e o “mundo” com seus convites sedutores – irresistíveis para ocidentais – à aventura filosófica, científica, artística e outra; aventura cada vez mais separada da religião, e no fim das contas voltando-se contra ela.

[Extraído de Sur les traces de la Religion Pérenne, de Frithjof Schuon (Le Courier du Livre, Paris, 1982, pp. 76-77)]