Arquivo mensal: janeiro 2015

Um novo ensaio de Schuon

Oferecemos ao leitor a tradução inédita, do francês, de um pequeno mas muito bonito ensaio de Schuon que faz parte do livro O Jogo das Máscaras (Le Jeu des Masques, Editions L’Age d’Homme, Suíça, 1992).

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Ter consciência do Real

A razão de ser da inteligência humana e, consequentemente, do homem é a consciência do Absoluto, além, mas também no interior, da consciência das contingências. Se é para se distrair em futilidades ou para levar uma vida de formigas, não valeria a pena nascer no estado humano, e o fenômeno da inteligência humana – reduzida a um luxo inútil – não seria explicável.

Em conexão com a vocação do homem, é necessário compreender corretamente o argumento ontológico de Santo Anselmo: ele não significa que a capacidade de imaginar não importa o quê prove a existência da coisa imaginada; ele significa que a capacidade de conceber Deus prova uma envergadura espiritual que só se explica pela realidade de Deus. Segundo o mesmo Doutor, a fé vem antes do conhecimento (credo ut intelligam); em suma, a fé é apresentada aqui como a qualificação para a intelecção, o que quer dizer que, a fim de poder compreender, é preciso ter o senso do transcendente e do sagrado. Mas o inverso também é verdade: “Eu compreendo a fim de que eu acredite” (intelligo ut credam) – o que ninguém jamais disse – poderia significar que antes de possuir uma certeza quase existencial das realidades transcendentes é importante apreender a doutrina. Sob certo aspecto, a predisposição do coração é a chave para a verdade metafísica refletida na mente; sob outro aspecto, este conhecimento conceitual é a chave da ciência do coração.

“Bem-aventurados os que terão acreditado sem ter visto”: trata-se aqui do homem exterior, imerso no dédalo dos fenômenos. A fé é a intuição do transcendente; a incredulidade provém da camada de gelo que cobre o coração e exclui essa intuição. Em linguagem mística, o coração humano é seja “líquido”, seja “endurecido”; ele também já foi comparado a um espelho que está seja polido, seja enferrujado. “Os que terão acreditado”: os que colocam a intuição do sobrenatural acima de um raciocínio rasteiro e separado de suas raízes.

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A vocação do homem, dissemos, é a consciência do Absoluto; a parábola da viúva perseverante e do juiz injusto nos lembra que esta consciência, que é “agora”, deveria ser “sempre”, ou seja, que seu próprio conteúdo exige a totalidade; ela deveria ser “sempre”, sob pena de não ser “nunca”. Contudo, “orar sem cessar”, como quer São Paulo, não poderia implicar uma continuidade perfeita, irrealizável na vida terrena; de fato, a perseverança opera por ritmos – rigorosos ou aproximativos –, e são eles que fazem o papel de perpetuidade. Os vazios inevitáveis entre os atos espirituais são recipientes da graça – os anjos fazem por nós o que não podemos fazer –, de modo que a vida de oração não sofre nenhuma descontinuidade.

Nada nos dá o direito de esquecer o Essencial; por certo, nossa existência terrena está tecida de prazeres e de labores, de alegrias e de pesares, de esperanças e de temores, mas nada disto tem medida comum com a consciência do Absoluto e com nosso dever quase-ontológico de praticá-la. “Deixai os mortos enterrarem seus mortos”, disse Cristo, e acrescentou: “E sigai-me”; a saber, na direção do “reino de Deus que está dentro de Vós” [1].

A fim de sermos assim fiéis a nós mesmos, necessitamos de argumentos irrecusáveis: chaves que nos permitam permanecer na consciência do Sumo Bem a despeito dos problemas do mundo e da alma. O argumento fundamental é que “Brahma é real, o mundo é ilusório” (Brahma satyam jagan mithyâ), o que põe um fim a todas as artimanhas da mâyâ terrena; sem dúvida, este argumento é intelectual e psicologicamente dos mais exigentes, dado que ele pressupõe uma intuição concreta do Real, não apenas uma ideia abstrata; assim, ele deve se acompanhar de outras ideias-chaves, mais próximas de nossa experiência terrena e cotidiana.

No plano de nosso relacionamento humano com Deus, o primeiro argumento que se impõe é a evidência de que o mundo não pode ser diferente do que ele é e que não podemos mudá-lo; que é preciso, portanto, resignarmo-nos ao que não pode não ser, e resistir a toda tentação de revolta – mesmo que inconsciente – contra o destino e contra a natureza das coisas; é o que se chama “aceitar a vontade do Céu”. À qualidade de resignação se junta a de confiança; a Divindade é substancialmente benevolente, sua bondade intrínseca tem primazia em relação a seu rigor quase acidental; estar consciente disto é permanecer na paz e saber que tudo está nas mãos de Deus.

Em muitos casos, pouco importa que nosso justo direito seja salvaguardado; o egoísmo – ou, digamos, a parcialidade de não suportar nenhuma injustiça – é um sério obstáculo em nosso relacionamento com o Céu, e é por isto que Cristo prescreveu amar os inimigos[2]  e oferecer a face esquerda. Em poucas palavras, é preciso saber esquecer-se de si mesmo diante de Deus e em vista de nossos fins últimos, e isto tanto mais quanto, em última análise, é só neste clima de desapego que podemos ter acesso à certeza ao mesmo tempo transcendente e imanente de que “a alma não é senão Brahma” (jivo brahmaiva nâparah) [3].

Às qualidades de resignação e confiança deve se juntar a de gratidão: com frequência, a recordação das boas coisas de que gozamos – e das quais, eventualmente, outros não gozam – pode atenuar uma provação e contribuir para a serenidade exigida pela consciência do Absoluto. Outro argumento, por fim, é baseado em nossa liberdade: somos livres para fazer o que queremos fazer, para ser o que queremos ser; nenhuma sedução ou provação pode nos impedir de recorrer à consciência salvífica do Sumo Bem.

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Em nossa consciência de Deus, nosso desejo de libertação se encontra com a vontade de Deus de nos libertar; a oração é ao mesmo tempo uma questão e uma resposta. Se “a beleza é o esplendor do verdadeiro”, o mesmo pode-se dizer da bondade; se o bem tende a se comunicar, é porque ele tende também a nos libertar.

A injunção de Cristo para “amar a Deus com todo o teu coração, com toda o tua alma, com toda a tua força e com toda a tua mente” nos relembra que a consciência do Absoluto é absoluta: que não podemos conhecer e amar Aquilo que é a única coisa que é senão com tudo o que somos. A unicidade do objeto exige a totalidade do sujeito; o que indica que, em última análise, o objeto e o sujeito se encontram na Realidade pura, ao mesmo tempo Essência indiferenciada e Causa suprema, portanto Origem de todas as diferenciações. Quem diz Absoluto, diz Infinito e, por consequência, manifestação e diversidade; e a projeção do Bem implica ontologicamente o retorno ao Bem.

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Discernimento e contemplação; concentração e perseverança; resignação e confiança; humildade e caridade. A espiritualidade é o que é o homem: feita de inteligência, de vontade e de sentimento – as três faculdades tendo a qualidade principial de objetividade, sob pena de não serem humanas –, a espiritualidade tem como elementos constitutivos a Verdade, a Via e a Virtude; esta dando origem a dois polos complementares, a humildade e a caridade, precisamente. A Via está ligada à Verdade; a Virtude está ligada à Verdade e à Via.

A humildade prolonga – em modo moral – o elemento Verdade ou Conhecimento porque este nos ensina a proporção das coisas; o homem não poderia conhecer a Realidade metafísica sem se conhecer a si mesmo. A Caridade, por sua vez, prolonga o elemento Via ou Realização porque este elemento apela essencialmente para a Graça; o homem não poderia merecer a misericórdia sem ser ele mesmo misericordioso. Aquele que se eleva indevidamente a si mesmo será abaixado, e aquele que se abaixa – em conformidade com a natureza das coisas – será elevado; e isto por participação na elevação do Real. E do mesmo modo: aquele que rejeita injustamente seu próximo será rejeitado por Deus, e aquele que aceita seu próximo – em conformidade com a justiça e com a generosidade –,  Deus o aceitará; Ele que está oculto no “próximo” em virtude da onipresença do Si. Ter-se-á compreendido que a caridade se refere mais particularmente à imanência, e a humildade, à transcendência.

A priori, a metafísica é abstrata; mas ela não seria o que é se não desse origem a posteriori a prolongamentos concretos no plano de nossa existência humana e terrena. O Real engloba tudo o que é; a consciência do Real implica tudo o que somos.


[1] O mesmo significado nesta outra sentença: “Quanto a ti, quando orares, retira-te em teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai que está no segredo…” E também: “Todo aquele que põe a mão no arado e olha para trás não está apto para o Reino de Deus.” [2]. É a condenação, não da defesa de um direito vital, mas do excesso na defesa desse direito; justiça não é vingança. [3] Consciência que, por um lado, transcende o ego e, por outro, pertence a sua essência transpessoal.

“A corrupção do que é melhor é a pior corrupção”

“A animalidade pode manifestar modos de decadência tanto quanto modos de perfeição, mas a espécie animal não pode decair; só o homem, participando da liberdade divina e criado para escolher livremente Deus, pode fazer mal uso de sua liberdade, sob a influência desse modo cósmico que é o mal. Seja como for – se se pode usar um simbolismo um pouco insólito –, assim como o bumerangue, por sua própria forma, está predestinado a retornar para junto daquele que o lançou, assim também o homem está predestinado, por sua forma, a retornar para junto de seu protótipo divino; quer ele o queira ou não, o homem está ‘condenado’ à transcendência.

“Humanamente falando, o raio cósmico privativo e subversivo não é senão o princeps hujus mundi; a pior das perversões é a do homem, pois que corruptio optimi pessima. A tendência “tenebrosa” e “descendente” não somente se afasta do Sumo Bem, mas também se volta contra ele; de onde a equação entre o diabo e o orgulho. E isto nos permite inserir aqui a seguinte consideração: muito próximos do orgulho estão a dúvida, a amargura e o desespero; o grande mal, para o homem, não é somente afastar-se de Deus, é também duvidar da Misericórdia. É ignorar que mesmo no fundo do abismo a corda de salvamento está sempre presente: a Mão divina está estendida, contanto que tenhamos a humildade e a fé que nos permitem apanhá-la. A projeção cósmica afasta de Deus, mas esse afastamento não pode ter nada de absoluto; o Centro está presente em toda parte.

“Está na natureza do mal insinuar-se em todas as ordens, na medida do possível: toda criatura tem, certamente, o direito de viver na ambiência que a natureza lhe reservou, mas no homem esse direito dá origem aos vícios de exterioridade, de superficialidade, de mundanidade, em suma, de ‘horizontalidade’ ingênua e irresponsável. Mas o obstáculo não está somente na ambiência tentadora, ele já está na condição humana em si, e trata-se do abuso da inteligência: poder-se-ia caracterizá-lo pelos termos titanismo, icarismo, babelismo, cientificismo, civilizacionismo. De resto, não há excesso que não tenha sua fonte indireta em alguma verdade ou realidade: assim, o niilismo e o desespero poderiam se referir, muito abusivamente, à ilusão universal; ou, digamos, ao aspecto de ilusão da projeção cosmogônica. De uma maneira inversamente análoga, o aspecto de identidade, que reduz – ou remete – Mâyâ a Atmâ, dá origem, indireta e caricaturalmente, à “autolatria” de certos pseudo-vedantisnos, e também à idolatria em geral; toma-se a imagem pela coisa real, o eu empírico pelo Si imanente, o psíquico pelo espiritual; quod absit.”

(Frithjof Schuon, Le Jeu des Masques, Editions L’Age d’Homme, Lausanne, 1992.)

Traduções de Schuon

Um leitor entrou em contato para saber se há intenção de traduzir o livro Le Jeu des Masques (O Jogo das Máscaras), de Schuon. Perguntou também se há um plano para a tradução para o português do que falta da obra schuoniana. Aproveito a ocasião para fazer uma nota sobre este tema, de modo que a resposta siga para todos os leitores. Não há um plano. Até onde sei, há dois tradutores trabalhando nos livros de Schuon: Mateus Soares de Azevedo e eu próprio. Nós dois unimos forças, no passado, para traduzir alguns livros, mas agora estamos trabalhando separadamente, embora sempre em contato. Sei que Mateus Azevedo já tem alguns trabalhos prontos. De minha parte, tenho terminadas as traduções de Resumo de Metafísica Integral e de As Pérolas do Peregrino. Aguarda revisão a tradução de Em Busca da Religião Perene (Sur les Traces de la Religion Perenne). E, no momento, estou traduzindo, precisamente, O Jogo das Máscaras. A editora Sapientia, criada apenas para efetuar tais publicações, teve de ser fechada. Não havia condições para levar adiante um projeto que toma tempo, consome recursos e não consegue distribuir bem os livros. Ficará para outras editoras a tarefa de publicar Schuon. Ao menos, pudemos publicar três livros de nosso autor (A Transfiguração do Homem, Forma e Substância nas Religiões e Raízes da Condição Humana) e um de William Stoddart (Lembrar-se num Mundo de Esquecimento). Todos estão disponíveis na Estante Virtual (mas as cópias de A Transfiguração do Homem estão acabando). Paralelamente, tenho a intenção de publicar ao menos um livro de Schuon em formato digital. Trata-se do Em Busca da Religião Perene, e para isso já temos autorização dos detentores dos direitos. Estou estudando o alemão, há muitos anos, ainda que de forma não muito regular, também com a intenção de, no futuro (talvez no futuro próximo), traduzir algo também desta língua. Os poemas alemães de Schuon têm conselhos para todos e para todas as circunstâncias, bem como comentários sobre praticamente tudo. Eles são realmente incríveis, e lê-los no original é muito, muito precioso. Mas a tradução de poemas é coisa quase impossível em verso, e se faz com muita perda se apenas literal. Portanto, acho que os leitores brasileiros e portugueses deveriam lê-los, se quiserem lê-los, em inglês, francês ou espanhol. Há as cartas de Schuon, também riquíssimas em conselhos espirituais e práticos, conselhos que falam ao fundo do coração, e muitas delas foram lavradas originalmente em alemão; quem sabe será o caso de traduzir algumas dessas, um dia. Por fim, há muitos textos de Titus Burckhardt que não foram vertidos por ele próprio para o francês, e que seria o caso, se possível, de traduzir do alemão. A melhor coleção é a feita por William Stoddart, em inglês, chamada Espelho do Intelecto (Mirror of the Intellect). Parte desses ensaios foi traduzida do francês para o espanhol e publicada pela editora Taurus no volume Ciencia Moderna y Sabiduría Tradicional. No entanto, uma tradução do alemão é tarefa exigente, que demanda esforço e tempo. Será que vale a pena? É uma pergunta que já me fiz. Depois de aprender o alemão, passei a valorizar ainda mais o esforço de William Stoddart para fazer as traduções que fez. Burckhardt também tem outros livros maravilhosos escritos em alemão, como Fez, Cidade do Islã; Chartres e o Nascimento da Catedral; Siena, Cidade da Virgem e A Cultura Moura na Espanha. Esses livros podem ser encontrado em inglês, francês e em espanhol. Os dois primeiros, em inglês, foram traduzidos por William Stoddart, com a alta qualidade de sempre. O quarto teve uma tradução para o inglês complicada. Creio que todos podem ser lidos em espanhol e em francês. É claro, não seria ruim ter uma tradução direta do alemão para o português, mesmo porque há entre o alemão e nossa língua um traço comum que falta ao inglês, que são as sentenças longas, com orações intercaladas. Traduzir da tradução inglesa (que é uma referência por ter sido feita por Stoddart, que não só tinha contato com o autor como é uma autoridade no assunto) implica na perda dessa característica, tão bonita, da língua germânica. Mas será que o número de leitores compensaria o esforço? Cite-se, de qualquer forma, também, que um dos grande livros de Burckhardt é Introduction aux Doctrines Esotériques de L’Islam, traduzido em inglês como Introduction to Sufi Doctrine e em espanhol como Esoterismo Islámico. É um livro eminentemente intelectual, uma pequena joia, realmente. Burckhardt é também autor, entre outros, do grande Princípios e Métodos da Arte Sacra, que tem tradução portuguesa publicada no Brasil, mas não conheço essa tradução portuguesa para comentá-la. Isto o que tenho a dizer, no momento, sobre as traduções.

(Alberto Queiroz)

Consciência da morte e imortalidade

“Um traço essencial que distingue o homem do animal é que o homem sabe que ele deve morrer, enquanto o animal não o sabe. Ora, esse saber da morte é uma prova de imortalidade; é somente por ser o homem imortal que suas faculdades lhe permitem constatar sua impermanência terrestre. Quem diz consciência da morte, diz fenômeno religioso; e explicitemos que esse fenômeno faz parte da ecologia no sentido total do termo, pois sem religião – ou sem religião autêntica – uma coletividade humana não poderia sobreviver muito tempo; ou seja, ela não poderia continuar sendo humana.”

(Frithjof Schuon, Le Jeu des Masques, Editions L’Age d’Homme, Lausanne, 1992, p. 24.)

O verdadeiro, o bem e o belo

“Segundo uma lógica inicial e sintética, diremos que a inteligência visa ao verdadeiro, a vontade, ao bem, e o amor, ao belo. Mas, para fazer frente a certas objeções, é-nos necessário especificar que a inteligência é feita para conhecer todo o cognoscível e que ela tem também por objeto o bem e o belo, não somente o verdadeiro; da mesma forma, a vontade visa a tudo o que merece ser querido, portanto também ao belo e ao verdadeiro; e o amor, por sua vez, visa a tudo o que é amável, portanto também ao verdadeiro e ao bem. Dito de outro modo: do ponto de vista da inteligência, o bem e o belo são, evidentemente, verdades ou, digamos, realidades; do ponto de vista da vontade, a verdade e a beleza são bens; e, do ponto de vista do amor, a verdade e o bem têm sua beleza, o que é bem mais do que uma maneira de dizer.”

(Frithjof Schuon, Le Jeu des Masques, Editions L’Age d’Homme, Lausanne, 1992, p. 20.)

Uma pequena joia sobre as relações entre cristãos e muçulmanos

CM WS capa

Começamos este ano de 2015 desejando a todos os nossos leitores um ano cheio de bênçãos e paz, e também oferecendo-lhes, com muita satisfação, a publicação de nosso primeiro livro eletrônico.

Trata-se da obra Cristãos e Muçulmanos: o que eles dizem uns sobre os outros?, que nos é gentilmente cedida por seu compilador, William Stoddart, a quem vivamente agradecemos.

Este livro é, a nosso ver, uma pequena joia. Ele mostra, de forma irrefutável, ao mesmo inteligente e bela, como Cristianismo e Islã tiveram um reconhecimento mútuo e uma convivência espiritual ao longo dos séculos.

Os exemplos, alguns muito curtos, outros um pouco mais extensos, coletados por William Stoddart são preciosos e falam por si. Vejamos um deles:

“A comunidade ortodoxa oriental na península do Monte Atos, no nordeste da Grécia, ainda conserva os estatutos ou cartas originais conferidas ao Monte Atos pelos sultões turcos. Estes documentos foram escritos numa bonita caligrafia árabe, e sempre começam com as palavras: “Em Nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.” Eles garantiram a liberdade religiosa dos monges e também a independência do governo monástico.

“A comunidade monástica floresceu sob o domínio turco, mas, tão logo os turcos foram expulsos da Grécia, os monges do Monte Atos começaram a ter problemas com o governo grego modernista e secular.”

Ou este:

“Dentro da Caaba, em Meca, as paredes estavam cobertas com imagens de ídolos. Osmã, companheiro de Mohammed, estava pintando as paredes para cobrir essas imagens. Entre elas, havia um ícone da Virgem Maria e do Menino Jesus. Colocando sua mão sobre o ícone, para protegê-lo, Mohammed disse a Osmã que cobrisse de tinta todas as outras imagens, com exceção de uma de Abraão.”

Ou este:

“Está registrado que, nos primeiros dias do Islã, o Califa Omar recusou um convite do Patriarca Ortodoxo de Jerusalém para que rezasse na igreja do Santo Sepulcro, por temer que, se o fizesse, os muçulmanos, dali em diante, poderiam querer transformá-la numa mesquita.

“O Califa Omar viu alguns cristãos leprosos quando passava por Jabiya, na Síria. Ele imediatamente ordenou que lhes fosse dada uma grande soma de dinheiro do fundo de caridade, e que recebessem sua esmola diária, querendo dizer que deveriam ser alimentados sem ser cobrados por isso.”

Recomendamos vivamente aos leitores a leitura, além de tudo muito fácil e agradável, deste pequeno grande livro. Para chegar ao arquivo web, dividido em várias páginas, siga este enlace. Para o arquivo em pdf, clique aqui.

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Atualização de 2 de janeiro de 2014: por solicitação do autor, alteramos o título do livro para Cristãos e Muçulmanos: O Que Eles Dizem Uns dos Outros, alteração esta que já foi efetuada nas versões francesa e alemã da obra.