Arquivo mensal: abril 2015

A contradição do relativismo – agora inteiro

A pedido de um leitor, damos aqui a tradução completa do importante ensaio “A contradição do relativismo”, de Frithjof Schuon, capítulo de abertura da grande obra que é Lógica e Transcendência (Logique et Transcendance, Éditions Traditionnelles, Paris, 1982) e do qual tínhamos, em nota anterior, traduzido somente uma parte.

O texto pode ser encontrado na página de ensaios ou simplesmente clicando aqui.

Esperamos que todos tenham tempo para ler (ou reler !) esta grande, incrível peça de verdadeira filosofia e de verdadeira inteligência.

A recusa da Misericórdia

Mais um extrato de Schuon, complementando o do post anterior, ao qual se segue imediatamente no texto de origem:

Já se disse que o homem moderno perdeu o senso do pecado; podemos explicitar de que se trata sublinhando o fato de que ele não mais tem o sentimento de sua pequenez ou que ele é insensível a todas as violações que a decadência de sua natureza provoca – em suma, que ele se tornou insensível a ponto de estar contente com si mesmo e de não ter mais nenhuma consciência da ambiguidade de sua condição. A sombra vazia dessa consciência ele chama de “angústia”, e ele odeia todos aqueles que, tendo tal consciência e aceitando as consequências positivas que ela implica, escapam da “angústia” e por isso mesmo da “revolta”; esses dois complexos, ele os quereria universais, porque está na natureza do homem não querer se perder sozinho.

A responsabilidade pode ser total, mas não absoluta; é o que explica a intervenção da Misericórdia celeste; esta basta amplamente para satisfazer o argumento de nossa fragilidade. Há um ponto em que o homem é sempre inteiramente responsável: é a recusa da Misericórdia; e essa recusa, eco longínquo do orgulho de Lúcifer, é o que provoca o mais certamente a queda nos estados infernais. De resto, o que nos julga é nossa norma que trazemos em nós mesmos, e que é uma imagem do cosmo inteiro e ao mesmo tempo do Espírito divino que irradia em seu centro; o ímpio crê que basta fechar os olhos para lhe escapar, que basta fazer de conta que não é homem, em suma, viver abaixo de si mesmo; ele quer ignorar que ser homem é passar pela porta estreita, e ele recusa a Misericórdia que quer lhe abrir a passagem.

(Frithjof Schuon, Trésors du Bouddhisme, p. 64 e 65, Nataraj, França, 1997.)

Homens, cabras e formigas

Uma questão que cria muitas dificuldades na consciência do homem atual é a da danação, mesmo quando tornada menos absoluta pelas reservas metafísicas que se impõem: como pode o ser humano merecer tal desgraça, e que interesse pode ter Deus no castigo? A imortalidade, seja qual for o seu conteúdo – ou sejam quais foram seus riscos – é a medida da majestade quase divina do homem; “a nobreza obriga” [noblesse oblige] . É no mínimo curioso que os homens que são mais preocupados com sua autonomia real ou ilusória queiram ser tratados como irresponsáveis quando se trata de pagar a dívida de sua liberdade; perante o Céu que revela normas e dá ordens, o homem chama atenção para sua liberdade e sua independência, ele reconhece, por consequência, sua responsabilidade; mas ele se declara irresponsável e transfere a culpa para a natureza e para o destino, portanto para Deus – “não fui eu quem criou o mundo” –, tão logo o Céu fale de juízo, ou tão logo seja questão de “reações concordantes”, de justiça imanente, de karma. Uma coisa que deveria fazer refletir – e que o orgulho, sob pretexto de inteligência, impede de levar em consideração – é o fato de que os homens aceitaram por milênios, e sem muita dificuldade, a ideia dos castigos póstumos, o que se explica por seu senso ainda suficientemente intacto da majestade teomórfica do gênero humano; eles sentiam que há algo de absoluto no homem, e também que Deus nos conhece melhor do que nós nos conhecemos a nós mesmos; que Ele não tem como não levar em conta a irresponsabilidade real que nossa natureza comporta. Mas o homem moderno vive abaixo de si mesmo, e ele gostaria de impor ao Céu sua própria avaliação, arbitrária e cômoda, da condição humana; ele gostaria, como sugeriu Voltaire, de “sentar-se sob sua figueira e comer seu pão sem se perguntar o que há nele”; ora, para fazer isso, não há necessidade de ser homem; todo animal consegue fazê-lo sem dificuldade. É nossa natureza deiforme que nos dita nossa conduta; nossa verdadeira natureza é o que Deus nos pede, ou o que, aos olhos do Absoluto, é nosso destino. O fato de que os melhores homens – para dizer o mínimo – nunca se limitaram a “comer seu pão sob uma figueira sem se perguntar nada” prova que o homem voltairiano se engana, que seu sonho é irrealizável e só compromete a ele mesmo; dado que Platão, Virgílio e Santo Agostinho existiram, não mais podemos dizer que o homem é uma cabra ou uma formiga.

(Frithjof Schuon, Trésors du Bouddhisme, p. 65, Nataraj, França, 1997.)