Arquivo mensal: maio 2015

Nota sobre a calúnia

“Em verdade, àqueles que gostam que se espalhe a calúnia em relação àqueles que creem, a eles caberá uma dolorosa punição neste mundo e no mundo vindouro.  Deus sabe. Vós não sabeis.” [Alcorão, 24:19]

Cristo foi caluniado. Moisés foi perseguido. O Profeta foi caluniado. O Buddha foi caluniado.

Santos e sábios foram caluniados e perseguidos. Vem-nos à mente São Pedro. Dante Alighieri. O Cura d’Ars. São Francisco de Assis. O Cheikh Al-Buzidi. O Cheikh Al-Alawî.

Mas cremos que a lista não teria fim.

Uma lenda budista conta que alguém veio ao Buddha para ofendê-lo. O Buddha, serenamente, lhe perguntou: “Quando alguém lhe traz um presente e você não o aceita, com quem fica o presente?” O ofensor respondeu: “Com quem o trouxe.” O Buddha lhe disse, então: “Pois bem, você me trouxe suas injúrias, mas não vou aceitá-las. Elas ficarão, então, com você mesmo.” [citamos de memória]

Um conto oriental diz que trouxeram uma velha caluniadora, que tinha difamado um homem honrado, para ser julgada. O juiz mandou que ela escrevesse o nome da vítima da calúnia num papel, picasse o papel em minúsculos pedacinhos e andasse pela cidade espalhando-os. Deveria voltar só quando tivesse terminado.

A caluniadora o fez, e foi trazida de volta à presença do juiz. Ele ordenou, então, que ela andasse por toda a cidade pegando de volta os pedacinhos de papel e, com eles, recompusesse o nome de sua vítima. “Mas isso é impossível, senhor!”, disse ela.

“Da mesma forma”, disse ele, “é impossível recompor inteiramente o nome honrado de quem foi caluniado”. E deu sua sentença de muitas chibatadas, dizendo que o caluniador não tem perdão.

Titus Burckhardt conta em Fez, Cidade do Islã, a história de um doutor em jurisprudência islâmica, na Idade Média, que condenou injustamente a obra de Al-Ghazali e ordenou que seus livros fossem queimados. À noite, sonhou que o grande sufi se queixava como Profeta, e que o Profeta condenava o jurisconsulto a receber certo número de chibatadas. Ao acordar, de manhã, reparou, com grande temor, que suas costas doíam e apresentavam marcas de diversas chibatadas. Só então foi ele ler com a devida humildade a obra de Ghazali, e o resultado foi que revogou sua proibição. [citamos de memória]

Repetimos a terrível advertência do Alcorão: “Em verdade, aqueles que gostam que se espalhe a calúnia em relação àqueles que creem, a eles caberá uma dolorosa punição neste mundo e no mundo vindouro.  Deus sabe. Vós não sabeis.” [24:19]

E a seguinte frase, por todos nós conhecida, mas por muitos de nós esquecida:

“Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós.”

Em A Transfiguração do Homem, último de seus livros filosóficos, Frithjof Schuon aborda rapidamente a questão do trabalho, sob o aspecto de sua integração na espiritualidade:

O culto moderno do trabalho se baseia, por um lado, no fato de que o trabalho é necessário para a maioria dos homens, e, por outro lado, na tendência humana de fazer de uma coação inevitável uma virtude. No entanto, a Bíblia apresenta o trabalho como uma espécie de punição: “Comerás teu pão com o suor do teu rosto”; antes do pecado original e da queda, o primeiro casal humano ignorava o trabalho. Em todos os tempos e em toda parte houve santos contemplativos que, sem ser com isso preguiçosos, não trabalhavam, e todos os mundos tradicionais nos oferecem — ou nos ofereciam — o espetáculo de mendicantes a quem se davam esmolas sem nada exigir deles, salvo, eventualmente, orações; nenhum hindu pensaria em censurar um Râmâkrishna ou um Maharshi pelo fato de não exercerem nenhum ofício. Foram a impiedade generalizada, a supressão do sagrado na vida pública e as coações do industrialismo que tiveram por efeito que se faça do trabalho um “imperativo categórico” à margem do qual, crê-se, só há preguiça culpável e corrupção.

Seja como for, há trabalho e trabalho: há — desde sempre — a agricultura nobre e o artesanato no lar ou nas oficinas da antigas corporações, e há — desde o século XIX — a escravidão industrial nas fábricas; escravidão tanto mais embrutecedora, se não aviltante, por ser seu objeto a máquina e por não oferecer na maior parte do tempo nenhuma satisfação propriamente humana ao trabalhador. No entanto, mesmo este trabalho — em geral mais quantitativo que qualitativo — pode ter subjetivamente um caráter sagrado ou santificado graças à atitude espiritual do trabalhador, se este, sabendo que não pode mudar o mundo e que deve viver — e fazer viver os seus — segundo as possibilidades que lhe são acessíveis, se esforça por combinar seu labor com a consciência de nossos fins últimos e a “lembrança de Deus”; ora et labora.

Dito isto, é preciso acrescentar que a liberdade consiste bem mais em nossa satisfação com a situação que é a nossa do que na ausência total de coações, a qual não é praticamente realizável neste mundo e, além disso, não é sempre uma garantia de felicidade.

O extrato fala por si. Na edição brasileira, está nas páginas 56 e 57. No original francês, nas páginas 54 e 55.