Arquivo mensal: julho 2015

Schuon fala de dois livros

Echoes of Japan acaba de ser lançado em francês, pela Dervy-Livres; esse pequeno livro é uma pérola. O que me faz pensar num grande livro, Honen, the Buddhist Saint ; para muitos de meus amigos, é uma de suas leitura favoritas; entre os livros de espiritualidade, é o que eu chamaria de chave da felicidade.

“É precisamente isso que importa na vida: saber combinar a ciência metafísica com um aspecto do real que nos faz felizes; ou melhor, descobrir nas realidades espirituais um aspecto vital que coincide com a felicidade. Ora, como o prova a noção de Ânanda, e como o prova a dimensão apaziguante e beatífica do Nirvâna, não se trata – a rigor – de um aspecto entre outros, trata-se, ao contrário, de uma realidade fundamental, à qual temos o direito – se assim posso dizer – em razão de nossa própria natureza; ou de nossa própria essência, a qual coincide com O que é.”

(Carta de Frithjof Schuon de 22 de julho de 1985, trinta anos atrás.)


Notas

a) Ânanda = beatitude; Nirvâna =  extinção; ambos termos sânscritos.

b) Echoes of Japan: livro de Hari Prasad Shastri. Tradução do título: Ecos do Japão. Há versões em diversas línguas.

c) Hônen, the Buddhist Saint: livro editado por Harper Coates e Ryugaku Ishizuka. Há uma versão mais recente, em que Joseph Fitzgerald editou o trabalho de Coates e Ishizuka, transformando-o, de cinco volumes, em um único, mas muito bom. Foi publicada pela World Wisdom Books, dos EUA.

Provação, injustiça, destino

“A injustiça é uma provação, mas a provação não é uma injustiça. As injustiças vêm dos homens, enquanto as provações vêm de Deus; o que, da parte dos homens, é injustiça e, por consequência, mal, é provação e destino da parte de Deus. Temos o direito, ou eventualmente o dever, de combater determinado mal, mas temos de nos resignar à provação e aceitar o destino; isso quer dizer que é preciso combinar as duas atitudes, dado que toda injustiça que sofremos da parte dos homens é ao mesmo tempo uma provação que nos chega da parte de Deus.

“Na dimensão horizontal ou terrestre, podemos escapar do mal combatendo-o e vencendo-o; na dimensão vertical ou espiritual, ao contrário, podemos escapar, senão à provação em si, ao menos ao seu peso, e isso aceitando o mal enquanto vontade divina, ao mesmo tempo em que o transcendemos interiormente enquanto jogo cósmico, como se pode transcender qualquer outra manifestação de Mâyâ. Pois o ruído do mundo não entra no Silêncio divino, que trazemos no fundo de nós mesmos e no qual se extinguem e se reabsorvem, como os acidentes na substância, tanto o mundo quanto o eu.

“O homem tem o dever de se resignar à vontade de Deus, mas ele tem da mesma forma o direito de superar espiritualmente o sofrimento da alma, na medida em que isso lhe é possível; e isso não é possível, precisamente, sem a atitude prévia de aceitação e de resignação, que é a única que liberta plenamente a serenidade da inteligência e que abre a alma ao socorro do Céu.”


Notas: (a) Mâyâ: desdobramento universal, arte divina, potência de ilusão; (b) épreuve, em francês, significa tanto “provação” quanto “prova”.

Carta de data desconhecida. Extraída do livro de cartas de Frithjof Schuon: Vers l’Essentiel – Lettres d’un Maître Spirituel, Ed. Les Sept-Flèches, Lausanne, 2013., pp. 198 e 199.

Comentário sobre a nudez sagrada

Swami_Bhaskarananda_Saraswati

“No que diz respeito à nudez sagrada, eu diria que ela se baseia na correspondência analógica entre o ‘mais exterior’ e o ‘mais interior’: o corpo é então considerado como o ‘coração exteriorizado’, e o coração, por seu lado, ‘absorve’, por assim dizer, a projeção corporal; ‘os extremos se tocam’. Diz-se, na India, que a nudez favorece a irradiação dos fluídos espirituais; e também que a nudez feminina em particular manifesta Lakshmî e, por esse fato, tem um efeito benéfico sobre o ambiente. De maneira totalmente geral, a nudez exprime – e ‘realiza’ virtualmente – um retorno à essência, à origem, ao arquétipo, portanto ao estado celeste: ‘E é por isso que, nua, eu danço’, como dizia Lallâ Yogeshwarî.”

(Carta de Frithjof Schuon de 6 de fevereiro de 1992.)

* * *

Notas

a) Na foto acima, Swami Bhaskarananda Saraswati (1833-1899). Sannyasin e santo hindu. No Hinduísmo, a nudez representa a pureza.

b) Lallâ Yogeshwarî, ou Lalleshwari, viveu de 1320 a 1392. Foi uma mística e poeta espiritual hindu.

c) Numa das versões do mito da vinda de Pte-San-Win, a Mulher Bisão Branco, que trouxe aos índios das pradarias o rito do cachimbo sagrado, ela estava nua. Dois homens a viram. Um teve pensamentos impuros e foi transformado em cinzas. O outro, de alma pura, recebeu dela o cachimbo e o rito. Os dois homens podem representar os dois lados em cada um de nós – “são dois no homem”, disse São Paulo –, um que deve ser eliminado, outro que deve ser espiritualmente transformado.

Iniciação cristã

“Não se pode fazer uma distinção sistemática entre o sobrenatural e o espiritual, pois o primeiro intervém necessariamente no segundo, de diferentes formas. Também o intelecto tem um aspecto sobrenatural, mas isso está acima da perspectiva teológica comum, para a qual no homem só há a vontade e a razão.

“Não há que buscar nos padres nada que se situe fora de suas funções; portanto, há que se dirigir somente a sua função sacramental e, se for o caso, a sua autoridade teológica; mas a teologia se encontra também nos livros. [Lembrete do editor: carta escrita antes do Concílio Vaticano II. Hoje tal conselho só se aplicaria, no Catolicismo, a padres tradicionalistas, e mesmo, acreditamos, com muitas reservas; no Cristianismo Ortodoxo, por outro lado, a teologia e os ritos estão preservados, embora a mentalidade moderna esteja presente em toda parte.]

“No Cristianismo, são o batismo, a confirmação e a comunhão que constituem o que se pode chamar de iniciação; o caráter total desses sacramentos exclui a existência, ao seu lado, de ritos iniciáticos mais ou menos secretos que se sobreporiam a eles, como os há no Orfismo, no Sufismo etc. A particularidade do Cristianismo é precisamente esse caráter aberto dos meios iniciáticos; é, ao menos, uma particularidade no mundo semítico e ocidental. Neste ponto, há divergência entre a tese de Guénon e a minha. Não se pode conceber, com efeito, que possa haver, no Cristianismo, uma fonte de graças mais profunda e mais preciosa que o sangue do Cristo, ou que possa haver almas ou inteligências para as quais essa fonte não seria boa. A diferença exoterismo-esoterismo é, aqui, unicamente uma questão de perspectiva e de método. Por certo, há uma participação puramente exotérica nos sacramentos, de modo que não se poderia, sem abuso de linguagem, qualificar a massa dos cristãos de ‘iniciados’, mas os religiosos são iniciados, pelo fato de que seguem uma via espiritual; o mesmo vale para os padres santos, como o Cura d’Ars. Quanto à via intelectiva, a gnose, ela é representada sobretudo por Clemente de Alexandria, Mestre Eckhart e Angelus Silesius; mas é sempre uma gnose especificamente cristã, ou seja, que se mantém próxima à perspectiva do amor.

“Por consequência, os dois fatos (…) aos quais fazeis alusão em vossa carta não podem ser iniciações no sentido próprio e técnico do termo, pois o Céu não age nunca sem razão suficiente; por outro lado, tais fatos podem ser contatos ‘acidentais’ – e ao mesmo tempo ‘providenciais’ – com o mundo das Essências, quer o consideremos de uma maneira subjetiva ou de uma maneira objetiva e cósmica. Qual pode ser o valor prático de tais ‘encontros’ com os ‘estados superiores’? São chamados, vocações para uma vida contemplativa. Seria necessário, após ter experimentado tais ‘fissuras’ no endurecimento individual, fazer da vida uma prece contínua e secreta. Mas isso só é possível com a ajuda do Nome de Deus, ou seja, da invocação de Cristo, da ‘prece de Jesus’. Para trilhar uma tal via, é preciso ter, antes de tudo, os conhecimentos teóricos indispensáveis, e uma pureza de intenção que exclua todo individualismo, consciente e inconsciente. Em tal plano, há múltiplas ilusões. Mas, com Deus, tudo é possível.”

* * *

Carta escrita em 31 de maio de 1955. Extraída do livro de cartas de Frithjof Schuon: Vers l’Essentiel – Lettres d’un Maître Spirituel, Ed. Les Sept-Flèches, Lausanne, 2013., pp. 15 e 16.

Dez mil acessos

Este website chegou a 10 mil acessos. Não sabemos quantos desses são de pessoas que se detiveram para ler alguma coisa, com maior ou menor atenção, com interesse profundo ou meramente acadêmico, e quantos são de pessoas que apenas examinaram superficialmente o conteúdo. Além disso, o número em si não diz muito. Perto de um website com dez acessos, dez mil é muito. Perto de um com um milhão, é pouco.

É somente a certeza da grande importância da Filosofia Perene que nos permite atribuir algum valor a esses dez mil acessos. E, mesmo assim, um valor ainda relativo. Pois, a bem dizer, o que importa de fato é o resultado: um único leitor que tire real proveito do que vai aqui já justificaria totalmente o esforço despendido neste trabalho. Isso sem nenhum exagero.

Seja como for, agradecemos aos leitores que aqui vêm e àqueles que divulgam o que aqui é publicado. Pelos poucos comentários, sabemos que a obra de Frithjof Schuon aqui exposta – e também os ensaios de Titus Burckhardt, em menor medida, e ainda os de outros autores – tem sido de ajuda não só para uma, mas para várias pessoas, e de diversas formas.

Agradecemos a Deus esta oportunidade de sermos útil a outros. O que recebemos da obra de Frithjof Schuon foi muito, e a gratidão nos leva a querer compartilhar isso com outros que possam estar interessados “no Verdadeiro, no Belo e no Bom” ou “na única coisa necessária”.