Arquivo mensal: abril 2016

Tolice e pretensão, humildade e modéstia

“A opinião popular assimila espontaneamente, e não sem razão, o orgulho à tolice. De fato, pode-se ser pretensioso por tolice, como se pode ser tolo por pretensão; as duas coisas se combinam. Certamente, a falta de inteligência não obriga à pretensão, mas esta não tem como não prejudicar a inteligência; e, se a tolice, como se admite comumente, é a incapacidade de discernir entre o essencial e o secundário ou entre a causa e o efeito, ela comporta por isso mesmo uma parte de orgulho; uma tolice combinada com uma perfeita humildade e um perfeito desapego já não seria tolice, mas sim uma simplicidade de espírito que não incomodaria nenhum homem inteligente e virtuoso.

“Muito próxima da pretensão está a arrogância; mas esta é passiva, e aquela, ativa. É arrogante não aquele que, com direito e muita humildade, está consciente do valor daquilo que sabe ou daquilo que faz, mas aquele que está imbuído de seu próprio valor imaginário e o projeta sobre seu pequeno saber e sua atividade medíocre. Continuar lendo

O mal não é o que faz sofrer

Segundo a convicção unânime da cristandade antiga e de todas as outras humanidades tradicionais, a causa do sofrimento no mundo é a desarmonia interna do homem – o pecado, se se quiser – e não uma simples falta de ciência e de organização. Nenhum progresso e nenhuma tirania chegará jamais ao fim do sofrimento; só a santidade de todos chegaria a esse ponto, se fosse possível de fato realizá-la e transformar assim o mundo numa comunidade de contemplativos e num novo paraíso terrestre. Isso não quer dizer, certamente, que o homem não deva, em conformidade com sua natureza e com o simples bom senso, buscar vencer os males que se apresentam em sua vida; para isto, ele não tem necessidade de nenhuma injunção divina nem humana.

Mas procurar estabelecer num país um certo bem-estar com vistas a Deus é uma coisa, e procurar realizar a felicidade perfeita na terra fora de Deus é outra; este segundo objetivo, de resto, está destinado de antemão ao fracasso, precisamente porque a eliminação durável de nossas misérias depende de nossa conformidade ao Equilíbrio divino, ou de nossa fixação no “Reino dos Céus que está dentro de vós”. Enquanto os homens não tiverem realizado a “interioridade” santificante, a abolição das provações terrestres não é somente impossível, ela não é nem mesmo desejável; pois o pecador – o homem “exteriorizado” – tem necessidade de sofrimentos para expiar suas faltas e para se desenraizar do pecado, ou para escapar à “exterioridade” da qual o pecado deriva [1].

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