Arquivo mensal: maio 2016

O culto moderno do trabalho

“O culto moderno do trabalho se baseia, por um lado, no fato de que o trabalho é necessário para a maioria dos homens, e, por outro lado, na tendência humana de fazer de uma coação inevitável uma virtude. No entanto, a Bíblia apresenta o trabalho como uma espécie de punição: “Comerás teu pão com o suor do teu rosto”; antes do pecado original e da queda, o primeiro casal humano ignorava o trabalho. Em todos os tempos e em toda parte houve santos contemplativos que, sem ser com isso preguiçosos, não trabalhavam, e todos os mundos tradicionais nos oferecem – ou nos ofereciam – o espetáculo de mendicantes a quem se davam esmolas sem nada exigir deles, salvo, eventualmente, orações; nenhum hindu pensaria em censurar um Râmâkrishna ou um Maharshi pelo fato de que eles não exerciam nenhum ofício. É a impiedade generalizada, a supressão do sagrado na vida pública e as coações do industrialismo que tiveram por efeito que se faça do trabalho um “imperativo categórico” à margem do qual, crê-se, só há preguiça culpável e corrupção.

“Seja como for, há trabalho e trabalho: há – desde sempre – a agricultura nobre e o artesanato no lar ou nas oficinas das antigas corporações e há – desde o século XIX – a escravidão industrial nas fábricas; escravidão tanto mais embrutecedora, se não aviltante, por ser seu objeto a máquina e por não oferecer na maior parte do tempo nenhuma satisfação propriamente humana ao trabalhador. No entanto, mesmo este trabalho – em geral mais quantitativo que qualitativo – pode ter subjetivamente um caráter sagrado ou santificado graças à atitude espiritual do trabalhador, se este, sabendo que não pode mudar o mundo e que deve viver – e fazer viver os seus – segundo as possibilidades que lhe são acessíveis, se esforça por combinar seu labor com a consciência de nossos fins últimos e a “lembrança de Deus”; ora et labora.

“Dito isto, é preciso acrescentar que a liberdade consiste bem mais em nossa satisfação com a situação que é a nossa do que na ausência total de coações, a qual não é praticamente realizável neste mundo e, além disso, não é sempre uma garantia de felicidade.”

(Extraído do ensaio “O Sentido Espiritual do Trabalho”, do livro A Transfiguração do Homem, de Frithjof Schuon – Sapientia, 2009.)