Arquivo mensal: janeiro 2017

A imagem budista

600px-kamakura_daibutsu_dec08-2

O grande Buda de Kamakura, estátua de bronze que é uma das mais célebres imagens do Japão.

“Nosso primeiro encontro, intenso e inesquecível, com o Budismo e o Extremo-Oriente ocorreu em nossa infância, diante de um grande Buda japonês em madeira dourada , flanqueado por duas Kwannon ; subitamente confrontado com esta visão de majestade e de mistério, teríamos podido dizer, parafraseando paradoxalmente César: Veni, vidi, victus sum. (*) Mencionamos esta lembrança porque ela põe à luz essa concretização profundamente impactante de uma vitória infinita do Espírito – ou esta extraordinária condensação da Mensagem na imagem do Mensageiro – que a estátua sacramental do Buda representa, e que representam da mesma forma e por reverberação as imagens dos Bodhisattva e de outras personificações espirituais, como essas Kwannon que parecem saídas de uma rio celeste de luz dourada, de silêncio e de misericórdia.”

* * *

(*) “Vim, vi e fui vencido”, paráfrase da famosa frase “vim, vi e venci” (nota do tradutor).

Frithjof Schuon, Tesouros do Budismo, capítulo de mesmo nome, tradução inédita.

[Foto de Eckhard Pecher – Own work, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=5682979%5D

A importância das virtudes

“O homem é feito de pensamento, de vontade e de amor: ele pode pensar o verdadeiro ou o falso, ele pode querer o bem ou o mal, e ele pode amar o belo ou o feio. Ora, o pensamento do verdadeiro – ou o conhecimento do real – exige, por um lado, a vontade do bem e, por outro, o amor ao belo, portanto à virtude, pois esta não é senão a beleza da alma; assim, os Gregos, que eram tanto pensadores quanto estetas, englobavam a virtude na filosofia. Sem a beleza da alma, todo querer é estéril e mesquinho e se fecha à graça; e, de uma maneira análoga: sem o esforço da vontade, todo pensamento espiritual permanece no fim das contas superficial e ineficaz, e leva à pretensão. A virtude coincide com uma sensibilidade proporcional – ou conforme – à Verdade, e é por isso que a alma do sábio plana acima das coisas, e por isso mesmo acima de si mesma, se assim podemos dizer; de onde o desinteressamento, a nobreza e a generosidade das grandes almas. Evidentemente, a consciência dos princípios metafísicos não poderia quadrar com a pequenez moral, com o a ambição e a hipocrisia: ‘Sede perfeitos como vosso Pai no Céu é perfeito.’ “

Frithjof Schuon, Nos Caminhos da Religião Perene, neste website, 2015.

O mais interior corresponde ao mais exterior

“O homem (….) foi posto no mundo para que haja alguém que possa retornar a Deus. É o que sugere, entre outros sinais, esta teofania ‘sobrenaturalmente natural’ que é o corpo humano: o homem sendo imago Dei, seu corpo simboliza necessariamente o retorno libertador à origem divina, e neste sentido ele é ‘lembrança de Deus’. É verdade que também o animal nobre – como o cervo, o leão, a águia, o cisne – exprime tal ou qual aspecto da majestade divina, mas ele não manifesta o retorno libertador da forma à essência; ele permanece na forma, de onde sua ‘horizontalidade’. O corpo humano, ao contrário, é “vertical”, ele é um sacramento, quer ele seja masculino ou feminino; a diferença dos sexos marca uma complementaridade de modo e não, evidentemente, uma divergência de princípio. A nudez sagrada – na India, por exemplo – exprime a exteriorização do que é o mais interior e, correlativamente, a interiorização do que é o mais exterior; “ é por isto que, nua, eu danço”, como dizia Lallâ Yogîshwarî após ter realizado o Si imanente. Os extremos se tocam; a forma natural pode veicular a essência sobrenatural, esta pode se manifestar por aquela.”

Frithjof Schuon, Le Jeu des Masques, L’Age d’Homme, Lausanne, 1992, p. 35.

Saber da morte, ecologia total

“Um traço essencial que distingue o homem do animal é que o homem sabe que ele deve morrer, enquanto o animal não o sabe. Ora, esse saber da morte é uma prova de imortalidade; é somente por ser o homem imortal que suas faculdades lhe permitem constatar sua impermanência terrestre. Quem diz consciência da morte, diz fenômeno religioso; e explicitemos que esse fenômeno faz parte da ecologia no sentido total do termo, pois sem religião – ou sem religião autêntica – uma coletividade humana não poderia sobreviver muito tempo; ou seja, ela não poderia continuar sendo humana.”

Frithjof Schuon, Le Jeu des Masques, L’Âge d’Homme, 1992, cap. “Prérogatives de l’État Humain”.

“A injustiça é uma provação, mas a provação não é uma injustiça”

(Notei agora que já tinha publicado esta carta, em julho de 2015. Mas, agora que o fiz, acho válido mantê-la aqui, repetida, dada a sua importância. Ela foi incorporada a um belo  ensaio publicados no livro O Esoterismo como Princípio e como Via, que, infelizmente, tem uma tradução brasileira não muito boa, como também já indiquei neste espaço.)

“A injustiça é uma provação, mas a provação não é uma injustiça. As injustiças vêm dos homens, enquanto que as provações vêm de Deus; aquilo que, da parte dos homens, é injustiça e, por consequência, mal, é provação e destino da parte de Deus. O homem tem o direito ou, eventualmente, o dever de combater um determinado mal, mas ele deve se resignar à provação e aceitar o destino; ou seja, é preciso combinar  as duas atitudes, dado que toda injustiça que sofremos da parte dos homens é ao mesmo tempo uma provação que nos chega da parte de Deus. Continuar lendo

‘Inteligência sem sabedoria’

“O sábio vê as causas nos efeitos e os efeitos nas causas; ele vê Deus em tudo e tudo em Deus. Uma ciência que penetra as profundezas do ‘infinitamente grande’ e do ‘infinitamente pequeno’ no plano físico, mas que nega os outros planos que, no entanto, revelam a razão suficiente da natureza sensível e dela fornecem a chave, é um mal maior que a ignorância pura e simples; é, em suma, uma ‘contraciência’, cujos efeitos últimos não têm como não ser mortais.

“Em outros termos, a ciência moderna é ao mesmo tempo um racionalismo totalitário que ignora a Revelação e o Intelecto e um materialismo totalitário que ignora a relatividade metafísica — e, portanto, a impermanência — da matéria e do mundo; ela ignora que o suprassensível — que está além do espaço e do tempo — é o princípio concreto do mundo, e também que ele está, por consequência, na origem dessa coagulação contingente e cambiante a que chamamos ‘matéria’ (1). A ciência dita ‘exata’ (2) é, na verdade, uma ‘inteligência sem sabedoria’, assim como, inversamente, a filosofia pós-escolástica é uma ‘sabedoria sem inteligência’.

Notas

(1) Interpretações recentes talvez ‘refinem’ a noção de matéria, mas de nenhum modo superam seu nível.

(2) Ela não é realmente ‘exata’, visto que nega coisas que não pode provar em seu terreno e com seus métodos, como se a impossibilidade de provas materiais ou matemáticas fosse prova de inexistência.

Frithjof Schuon, O Homem no Universo, Perspectiva, São Paulo, 2001, pp. 161 e 162. O original deste livro, Regards sur les Mondes Anciens, foi publicado em 1968.

A indiferença

“A indiferença ante a verdade e ante Deus é vizinha do orgulho e não existe sem a hipocrisia; sua aparente doçura é cheia de suficiência e de arrogância; nesse estado de alma, o indivíduo está contente com si mesmo, mesmo se se acusa de pequenas faltas e se mostra modesto, o que não o compromete em nada e, ao contrário, reforça sua ilusão de ser virtuoso. É o critério da indiferença que permite surpreender o ‘homem médio’ como ‘em flagrante delito’, pegar o vício mais dissimulado e mais insidioso por assim dizer pela garganta e provar a cada um sua pobreza e sua miséria; é essa indiferença que é em suma o ‘pecado original’, ou que o manifesta mais geralmente.”

Frithjof Schuon, O Homem no Universo, Perspectiva, São Paulo, 2001, p.70.