Arquivo mensal: janeiro 2017

Os abusos estão na natureza humana

“Quando se confronta o mundo moderno com as civilizações tradicionais, não se trata simplesmente de buscar em cada lado os bens e os males; como há bem e mal em tudo, trata-se essencialmente de saber de qual lado acha-se o mal menor. Se alguém nos diz que há, fora da tradição, tal ou qual bem, responderemos: sem dúvida, mas é preciso escolher o bem mais importante, e é necessariamente a tradição que o representa; e, se nos dizem que há na tradição tal ou qual mal, responderemos: sem dúvida, mas é preciso escolher o menor mal, e é ainda a tradição que o comporta. É ilógico preferir um mal que comporta alguns bens a um bem que comporta alguns males. Continuar lendo

Só no plano espiritual se encontra a justiça perfeita

“Convém denunciar aqui outro preconceito do espírito moderno e evolucionista, a saber, a exigência de um máximo de ‘liberdade’ para o animal humano, ou, em outros termos, o ideal de uma ausência quase total de coerções para o homem considerado independentemente de seu conteúdo ou de sua qualidade e independentemente, também, de seu fim metafísico; ora, é só a liberdade proporcional a nossa natureza que abre as portas para a Liberdade eterna que trazemos no fundo de nós mesmos, e não a liberdade que larga a fraqueza do homem — sobretudo do homem coletivo — às forças da dissolução e ao suicídio espiritual. Continuar lendo

Um parágrafo sobre os limites da ciência

“A lógica pura e simples é só muito indiretamente uma maneira de conhecer; ela é antes de tudo a arte de combinar dados verdadeiros ou falsos, segundo uma certa necessidade de causalidade e nos limites de uma certa imaginação, de modo que um raciocínio aparentemente impecável pode ser errôneo em função da falsidade de suas premissas; estas dependem, normalmente, não da razão ou da experiência, mas da inteligência pura, e isto na própria medida em que a coisa a conhecer é de uma ordem elevada. Não é a exatidão da ciência que censuramos, longe disso, mas o nível exclusivo dessa exatidão, o qual a torna inadequada e inoperante; o homem pode medir uma distância com seus passos, mas ele não poderia ver com seus pés, se podemos nos exprimir assim. A metafísica e o simbolismo, os únicos a fornecer as chaves decisivas para o conhecimento das realidades suprassensíveis, são na realidade ciência altamente exatas — de uma exatidão que supera em muito a dos fatos físicos —, mas essas ciências escapam à ratio por si mesma e aos métodos que ela inspira de uma forma quase exclusiva.”

Frithjof Schuon, Images de l’Esprit – Shintô, Bouddhisme, Yoga, Le Courrier du Livre, Paris, 1982.

…eles se colocam no lugar daquilo que negam…

“Se o descrente se revolta com a ideia de que todos os seus atos serão pesados, de que será julgado e eventualmente condenado por um Deus que lhe escapa, de que deverá expiar suas faltas e mesmo simplesmente seu pecado de indiferença, é porque ele não tem o sentido do equilíbrio imanente, nem o da majestade da Existência, e do estado humano em particular. Existir não é pouca coisa; a prova é que ninguém poderia tirar do nada um só grão de poeira; e, da mesma forma, a consciência não é pouca coisa: não poderíamos dar nem uma parcela dela a um objeto inanimado. O hiato entre o nada e o menor objeto é absoluto, e é esta, no fundo, a absolutez de Deus. (1) Continuar lendo