Arquivo mensal: outubro 2017

Três extratos de Schuon sobre a Virgem

K.I. escreve que há muitos santuários cristãos na India que são visitados por hindus. Isso não tem nada de surpreendente; é um aspecto do espírito hindu, baseado na Bhagavadgîtâ: “Sob qualquer forma que vós me adoreis, diz Krishna, é sempre a Mim que adorais.” Se hindus obtêm graças em tais lugares, são graças hindus; é o Céu hindu que atende às orações através de uma forma cristã ou outra. Fazendo-se exceção para a Virgem Santíssima, que pode ela mesma atender a um hindu se ela quer. […]

A Virgem Santíssima não é fundadora de religião, seu caso é portanto diferente do do Cristo; e como ela é — em linguagem hindu — uma encarnação plena e direta de Shrî Lakshmî, ou da Shakti enquanto tal, portanto também de Sarasvatî ou de Pârvatî, ela pode irradiar além das formas; é portanto concebível que ela atenda diretamente as preces dos hindus, dada a atitude característica deles baseada na Bhagavadgîtâ e em outros Textos sagrados.

[Carta de 22 de junho de 1970.]

Já me perguntaram mais de uma vez sobre a função respectiva do Logos masculino e do Logos feminino. Ora, o Cristo é a “Via” e a Virgem é o “Lugar”; ele é o Sacrifício e ela é o Templo. Eu poderia também dizer, o mais concretamente possível, que o Cristo personifica as Perfeições espirituais, enquanto que a Virgem Santíssima personifica o Retiro; ela é o ambiente santo sem o qual não há floração. Isto eu sei por experiência; a graça marial exclui toda curiosidade mundana e toda dissipação alienante; ela é como uma aura pura e bem-aventurada que nos acompanha em toda parte e de que não devemos sair. E isto não deixa de ter relação com o simbolismo de seu véu ou de seu manto, que protege e que é o abrigo dos santos.

[Carta 24 de de novembro de 1980]

A Virgem Santíssima personifica a beleza do Céu, ela é algo da Beleza de Deus.

[Carta de 4 de maio de 1971]

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Publico estes três extratos de cartas de Frithjof Schuon em função dos 300 anos, completados hoje, de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil.

 

 

Convém ser prudente ao julgar fenômenos de outros mundos religiosos

(…) cada religião possui uma aura energética — uma barakah — que produz fenômenos em conformidade com a perspectiva da religião considerada: num ambiente sufi, fenômenos miraculosos se produzem — ou são produzidos — que corroboram sobrenaturalmente a perspectiva que descrevemos [no que precede este extrato], a saber, a confiança na Causa divina única, e que encorajam eventualmente que se recorra a atitudes em grande parte irrazoáveis, mas heroicamente piedosas. Muitos fatos desse gênero parecem inverossímeis do ponto de vista cristão, mas é porque o estilo do Cristianismo é outro e produz, por consequência, outros prodígios; além disso, convêm ser prudente ao julgar fenômenos que se situam num mundo religioso que não o nosso, e cuja aparente inverossimilhança só faz ilustrar de uma maneira particularmente concreta a diferença profunda entre os universos tradicionais.

Frithjof Schuon, Approches du Phénomème Religieux, Le Courrier du Livre, Paris, 1984, p. 136.

A sexualidade deve englobar a devoção e a verdade

Krishna Radha

Em ambiente cristão, a sexualidade em si, portanto isolada de todo contexto que a distorça, é carregada facilmente com o opróbrio da “bestialidade”, enquanto que na realidade nada do que é humano é bestial por sua natureza; é por isso que somos homens e não animais. Contudo, para escapar à animalidade da qual participamos é preciso que nossas atitudes sejam integralmente humanas, ou seja, conformes à norma que nos impõe nossa deiformidade; elas devem englobar nossa alma e nosso espírito, ou, em outros termos, a devoção e a verdade. De resto, só é bestial a paixão cega do homem caído, não a sexualidade inocente dos animais; quando o homem se reduz a sua animalidade, ele se torna pior do que os animais, que não traem nenhuma vocação e não violam nenhuma norma.

Frithjof Schuon, L’Ésotérisme comme principe et comme voie, Dervy-Livres, Paris, 1978, p. 126.

O fervor, a Virgem, a luz

A qualidade de fervor é, com efeito, a disposição da alma que incita ao cumprimento do que chamaremos de “dever espiritual”; se este se impõe por uma lei exterior, é porque ele se impõe interiormente e a priori por nossa “natureza sobrenatural”; um hindu diria que é nosso dharma libertar nossa alma, como é o dharma da água correr ou o do fogo, queimar. Essa lei imanente, no Islã, se manifesta sob a forma da “lembrança de Deus” (dhikru ‘Llâh); ora, o Alcorão especifica que é preciso lembrar-se de Deus “muito” (dhikran kathîran) — o Novo Testamento diz “sem se cansar” — e é essa frequência ou essa assiduidade, junto com a sinceridade do ato de oração, que constitui a qualidade de fervor.

[Nota a esta passagem:]

“Ó Maryam, permanece em oração diante de teu Senhor; prosterna-te e inclina-te com aqueles que se inclinam.” (Sura A Família de Imrân, 43.) É nestes termos que o Alcorão apresenta o fervor como fazendo parte da própria substância de Maria, o Mandamento divino sendo, aqui, não uma ordem dada a posteriori, mas uma determinação existencial. A notar que a Virgem Santa é Stella Matutina, o que se liga ao Leste, que, em nosso simbolismo, indica o fervor. À parte esta significação particular, o Leste exprime a vinda da luz, e é assim que a tradição cristã entende o título marial de “Estrela da Manhã”; ora, o fervor é função da luz como esta e o calor, em princípio, formam um par.

(Frithjof Schuon, Approches du Phénomène Religieux, Le Courrier du Livre, Paris, 1984, p. 168.)

A ideia-força do Islã

“A ideia-força do Islã é o conceito da Unidade; este determina não somente a doutrina e a organização da sociedade, mas também toda a vida dos indivíduos e em particular sua piedade, a qual não se deixa, aliás, dissociar dos comportamentos legais deles. Trata-se, não somente de aceitar a ideia de Unidade, mas também de tirar dela todas as consequências que ela implica para o homem; ou seja, é preciso aceitá-la ‘com fé’ e ‘sinceridade’ a fim de se beneficiar da virtude salvadora que ela contém. Isto quer dizer que, em última análise, a ideia de Unidade implica fundamentalmente o mistério da União; assim como, numa ordem de ideias vizinha, a Unicidade implica complementarmente a Totalidade. Quem pode apreender o ponto geométrico pode apreender o espaço inteiro; a unicidade do objeto divino exige a totalidade do sujeito humano.”

[Frithjof Schuon, Approches du Phénomène Religieux, Le Courrier du Livre, Paris, 1984, pp. 161-162]