Arquivo mensal: setembro 2018

A religião é “ecologicamente” indispensável ao psiquismo humano

Mais um extrato de nosso mestre, desta vez do livro O Jogo das Máscaras:

A tradição fala a cada homem a linguagem que ele pode compreender, com a condição de que ele de fato a queira escutar; esta reserva é essencial, pois a tradição (…) não pode “ir à falência”; é antes da falência do homem que se deveria falar, pois foi ele que perdeu a intuição do sobrenatural e o senso do sagrado. Foi o homem que se deixou seduzir pelas descobertas e invenções de uma ciência ilegitimamente totalitária; ou seja, uma ciência que não reconhece seus próprios limites e que por este motivo ignora o que os supera. Fascinado tanto pelos fenômenos científicos quanto pelas conclusões errôneas que deles tira, o homem terminou por ser submergido por suas próprias criações; ele não está disposto a se dar conta de que uma mensagem tradicional se situa num plano totalmente diferente, nem de quão mais real é esse plano. Os homens se permitem deslumbrar-se tanto mais facilmente quanto o cientismo lhes dá todas as desculpas que eles querem para justificar seu apego ao mundo das aparências e, por consequência, também sua fuga diante de toda presença do Absoluto.

O humanismo espinozista, deísta, kantiano e franco-maçônico queria realizar um homem perfeito fora das verdades que dão ao fenômeno humano todo o seu sentido. Como era preciso substituir um Deus por outro, esse falso idealismo deu lugar ao abuso de inteligência característico do século XIX, particularmente ao cientismo e, com ele, ao industrialismo; este devendo, por sua vez, trazer consigo uma nova ideologia, também ela ao mesmo tempo achatada e explosiva, a saber, esse humanismo paradoxalmente inumano que é o marxismo. A contradição interna deste último é que ele quer construir uma humanidade perfeita destruindo o homem; ou seja, os ateus militantes, mais passionais do que realistas, querem ignorar que a religião é, por assim dizer, uma questão de ecologia. Admitindo que a religião comporta um elemento de “ópio” – não somente “para o povo” –, este elemento é “ecologicamente” indispensável para o psiquismo humano; de qualquer modo, sua ausência traz consigo abusos incomparavelmente mais graves do que o faz sua presença, pois vale mais ter bons sonhos do que ter pesadelos. Seja como for, só a religião, ou a espiritualidade, oferece esta significação integral, e esta felicidade ancorada na natureza deiforme do homem, sem as quais a vida não é nem inteligível, nem digna de ser vivida.

Um poema-conselho de Frithjof Schuon

O que pode fazer uma pessoa, se ela quer salvar sua alma,
mas não conhece nem via, nem método;
Ou se, por uma ou outra razão,
ela se separa das escolas conhecidas?

Se ela não pode fazer outra coisa — eu aconselharia:
recita sem cessar um verso dos Salmos
e faz o que é bom, evita o que é proibido —
tu te salvarás, podes confiar.

Em nossa atitude não deve nunca haver orgulho;
Caminha em Deus, se queres caminhar só.
Não é pecado, viver à margem do mundo —
Em todos os tempos houve eremitas.

* * *

No original alemão:

Was kann man tun, wenn man will selig werden
Doch keinen Weg, keine Methode kennt;
Oder sich von den allbekannten Schulen
Aus diesem oder jenem Grunde trennt?

Wenn man nicht anders kann — ich würde raten:
Sage ein Psalmwort ohne Unterlass,
Und tu das Gute, meide das Verbotne —
Du wirst dich retten, darauf ist Verlass.

Hochmut darf nie in unsrer Haltung sein;
Gehe in Gott, wenn du willst gehn allein.
Es ist nicht Sünd, am Rand der Welt zu leben —
Einsiedler hat es jederzeit gegeben.

 

(Frithjof Schuon, Das Weltrad / La roue cosmique VI, VII,Sinngedichte / Poésies didactiques Band/Volume 10, Editions Les Sept Flèches, Sottens, Suisse, 2010.)

* * *

Uma nota de tradução: uma tradução literal de “wenn man will selig werden” seria “se se quer se tornar abençoado” ou “…bem-aventurado”; contudo, o termo “selig” é usado de forma idiomática para significar o encontro com Deus na hora da morte ou “salvar a alma”; foi esta última acepção que o excelente tradutor do francês usou, e seguimos sua escolha.

De fato, consultando o The Oxford Duden German Dictionary, edição de 1994, vemos as seguintes traduções (aqui damos a tradução em português do sentido dado em inglês):

selig: 1. Adj. a) (Rel.) abençoado; bis an sein seliges Ende até o dia de sua morte; Gott hab’ ihn selig: que sua alma descanse em Deus.

(Foto: Frithjof Schuon nos alpes suíços nos anos 1960.)