O jagadguru de Kanchipuram e os sacramentos cristãos

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Jagadguru Chandrashekarendra Saraswati Swamigal

por Mateus Soares de Azevedo

Segundo a doutrina católica (e também da Igreja Ortodoxa), sete são os sacramentos (“signos visíveis de uma influência espiritual invisível”, segundo Santo Agostinho):

  1. Batismo
  2. Crisma (ou confirmação)
  3. Confissão (ou penitência)
  4. Eucaristia
  5. Matrimônio
  6. Ordenação sacerdotal
  7. Extrema-Unção (ou unção dos enfermos).

Há, certamente, diversas interpretações e classificações dos sacramentos. A eucaristia, por exemplo, é considerado o centro em torno do qual giram todos os demais sacramentos. Já o batismo é visto como a “porta” para os outros seis. Este último e a penitência são os “sacramentos dos mortos”, pois dão “vida” aos que estão espiritualmente mortos pelo erro e o pecado. Os cinco restantes são os “sacramentos dos vivos”, dado que sua recepção pressupõe o estado de graça.

Há ainda os “sacramentos individuais” — batismo, crisma, penitência, eucaristia e extrema-Unção —, que dizem respeito ao indivíduo em seu caráter privado. E há os “sacramentos sociais” do matrimônio e da ordenação, que afetam prioritariamente o homem como ser social.

Em suma, as classificações neste campo parecem ser quase tão numerosas como as escolas teológicas.  Seja como for, as interpretações acima estão marcadas por certa “exterioridade”; elas veem os Sacramentos como que “de fora”, e não em sua natureza intrínseca. Foi, pois, uma visão mais interior e “esotérica” que me chamou a atenção na interpretação sugerida pelo jagadguru indiano, como se verá abaixo.

Na década de 1960, William Stoddart fez uma viagem à Índia, onde, no sul do país, se encontrou com o 68º jagdaguru (guru: mestre; jagad: mundo; jagadguru = “mestre universal”) de Kanchi, Jagadguru Chandrashekarendra Saraswati Swamigal [1894-1994]. O jagadguru é um descendente tradicional de Shânkara e representa a “via do conhecimento”, ou jnâna (gnose), no Hinduísmo.

No encontro com o jagadguru, Stoddart expôs a doutrina dos sacramentos do Cristianismo. O sábio hindu lhe transmitiu então sua interpretação destes “meios de graça”, segundo a visão vedantina. Ele classificou os ritos hindus como dikshas (“iniciáticos”) ou samskaras (“mediadores de graças”), assinalando que os primeiros correspondem, no Cristianismo, ao batismo e ao crisma, ao passo que os demais correspondem à eucaristia, à penitência e à extrema–unção (que veiculam “graças santificantes”) e ao matrimônio e à ordenação (os quais conferem “graças de estado”).

Podemos, assim, encarar os sacramentos segundo três grupos distintos:

  1. Os que conferem uma iniciação;
  2. Os que conferem uma “graça de estado”;
  3. Os mediadores de “graças santificantes”.

Vale lembrar que, de acordo com a doutrina católica, além das graças “iniciática”, “santificante” e “de estado”, há a “graça atual”. Enquanto as três primeiras são mediadas pelos sacramentos, esta última o é diretamente pelo Espírito Santo — inspirando o fiel, por exemplo, a fazer uma oração ou protegendo-o de várias maneiras.

Esta me parece uma visão interessante e estimulante de uma doutrina e uma prática que estão no coração da mensagem cristã. Trata-se de um excelente exemplo de autêntico “ecumenismo”, o qual não opera somente no plano “diplomático” ou superficial, mas que pode ser profundamente espiritual. A este respeito, vale notar, com Frithjof Schuon, que as divergências entre as religiões não se devem unicamente à incompreensão dos homens; elas existem nas próprias Escrituras — portanto, na Vontade Divina. Em outras palavras, não são somente os teólogos das distintas confissões que “causam” as divergências, elas estão inscritas nos próprios dogmas.

Desta maneira, o autêntico entendimento entre as religiões só pode se dar no plano da pura metafísica, ou na dimensão esotérica, pois é somente aí que há verdadeira convergência. A rigor, pois, não há ecumenismo “exotérico”, dado que somente a Sophia Perennis pode se colocar no terreno da “unidade transcendente das religiões”. Por outro lado, é importante um entendimento básico e uma cooperação entre as grandes religiões mundiais, como Cristianismo, Islã, Budismo e Hinduísmo, na medida em que todas têm de confrontar igualmente poderosos inimigos comuns, como o ateísmo militante, o materialismo, o imoralismo, a pseudo-espiritualidade  etc. E, mesmo no interior de cada religião, os dois principais inimigos são comuns a todas elas: de um lado, o fanatismo militante e superficial e, de outro, o modernismo diluidor e achatador.

Ainda de acordo com Schuon, é infinitamente mais apropriado crer de forma inteligente em uma única religião, e praticá-la com sinceridade, do que sustentar superficialmente e sem comprometimento que todas as tradições são válidas:

“O grande mal — Schuon escreveu em uma carta de maio de 1964 — não é que os homens de diferentes religiões não se compreendam, mas sim que um número demasiadamente grande de homens, por influência da mentalidade moderna, não creiam mais [na verdade da religião]”.

As graças santificantes da invocação

A participação nos Sacramentos, como vimos, implica a recepção de certas graças. Graças “iniciáticas”, no caso do batismo e do crisma; graças “de estado”, no caso do matrimônio e da ordenação sacerdotal; e graças ’”santificantes” no caso da eucaristia, da confissão e da extrema-unção. Trataremos agora das graças santificantes envolvidas na invocação do Nome de Deus no Cristianismo.

Em “Comunion et Invocation”, Frithjof Schuon trata da invocação ritual e metódica do Nome Divino como um “sacramento” eficaz espiritualmente, a par com a própria Comunhão. Na verdade, ele sugere que a eucaristia e a invocação constituem um só e mesmo sacramento; a primeira em seu aspecto “passivo” e a segunda, “ativo” (isto porque, na comunhão, o fiel recebe “passivamente”, por assim dizer, o Corpo e o Sangue do Cristo, ao passo que, na invocação, o fiel recorda “ativamente” o Seu Nome).

Simbolicamente, ambas estas ações sagradas têm como órgão de realização a boca, que recebe o alimento do Céu, de uma parte, e pronuncia o Nome Celeste, de outra. Como diz a liturgia tradicional: “Panem caelestem accipiam et Nomen Domini invocabo…”, isto é, “Recebe o Pão Celeste e invoca o Nome do Senhor…”

Desnecessário enfatizar que, tanto para comungar como para invocar, são necessárias a graça “iniciática” do Batismo; uma graça de “estado” para o invocador;  e uma graça “atual” . A invocação requer a graça divina para ser realizada e, simultaneamente, confere divinas graças ao invocador. Em outros termos, a invocação é em si mesma uma graça e confere infinitas graças, Deo gratias.

Poder-se-ia dizer que as graças santificantes mediadas pela invocação do Nome podem ser classificadas em três tipos principais. Estes estão relacionados aos três grandes planos de toda espiritualidade:

  1. plano da ação;
  2. plano da devoção;
  3. plano do conhecimento, ou sapiencial.

1. Karma, 2. Bhakti e 3. Jnâna, para falar nos termos hindus do jagadguru.

Cada um destes três planos abrange um modo passivo e outro ativo, perfazendo assim seis “tipos” de graças santificantes, que podem ser classificadas da seguinte maneira:

I – Plano da Ação: 1. “interiorização purificadora”; 2. “perseverança espiritual”.

II – Devoção: 3. “paz santificante”; 4. “misericórdia salvadora”.

III – Conhecimento: 5. “extinção metafísica”;  6. “união divinizante”.

Em conclusão: a invocação do Santo Nome confere as graças santificantes do recolhimento (1) e da ação espiritual (2), no que concerne ao plano da ação, ou karma. Graças da serenidade (3) e do fervor  (4), no plano da devoção, ou bhakti. E graças de discernimento intelectual (5) e de identidade metafísica (6), no plano da gnose, ou jnâna.

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