Cristãos e Muçulmanos: Atitudes Cristãs em relação ao Islã (10 e 11)

CRISTÃOS E MUÇULMANOS: O QUE ELES DIZEM UNS DOS OUTROS?

Introdução

1) Atitudes 2) A Importância da Ortodoxia 3) O Ciclo Descendente

Atitudes cristãs em relação ao Islã

1) Os Evangelhos e os Atos dos Apóstolos    2) A Virgem Maria    3) Papas    4)  Cardeais    5) Bispos católicos    6) Monges católicos    7) Reis e cavaleiros    8)  Cristianismo oriental    9) Protestantes    10) Ministro de Estado    11) Cronistas

Atitudes islâmicas em relação ao Cristianismo

1) Alcorão    2) Mohammed    3) Califas    4) Sufis    5) Sultões e santos    6) Historiadores


10) MINISTRO DE ESTADO

Coronel Juan Beigbeder, Ministro dos Negócios Estrangeiros da Espanha

Aquele pequeno departamento (o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Espanha em 1940) era presidido pelo Coronel Beigbeder, uma das personagens mais interessantes que já conheci. Sua família era de origem bretã. Como muitos outros oficiais espanhois, ele tinha construído sua reputação no Marrocos. “Somos todos mouros”, ele me disse uma vez, e certamente sua figura quixotesca, magro e de pele morena, tinha mais a ver com o Riff e com o deserto do que com aquela sala pequena e atulhada em que ele trabalhava no Ministério dos Negócios Estrangeiros. De tempos em tempos, os ventos da África irrompiam no calor sufocante de Madri e, em meio a uma discussão de alta política, ele começava a entoar em árabe um trecho do exemplar do Alcorão, repleto de magníficas iluminuras, que estava sempre em sua mesa.

Extraído de Ambassador on Special Mission, por Sir Samuel Hoare [Lord Templewood], (Collins, Londres, 1946), p. 50

 

11) CRONISTAS

a) Irmã Mary Campion (Irmã Missionária Médica)[1]

Adeus, Karachi!

Nunca poderei esquecer minhas duas últimas semanas. Eu de repente comecei a descobrir em todas as coisas algo sobre que escrever! Mesmo os pequenos burrinhos pareciam “notícia”, quando passavam tilintando diante de nosso portão frontal com aqueles sininhos alegremente amarrados em suas pernas; e que dizer do altivo camelo – aquele bom navio do deserto –, que, com o focinho erguido, faz seu trajeto “estando acima” do resto do tráfego.

Seria muito triste para mim deixar todas aquelas mulherzinhas vestidas de burkha que se comprimem em nosso posto médico e se referem a suas crianças como “sagrada família”. E que lindas crianças elas são: grandes olhos negros, ainda mais negros pela sombra do rímel aplicado desde que nascem. Olham para os outros solenemente, com seus brincos, pulseiras, colares, pequenas senhorinhas vestidas com o silwar – largas calças – e envolvidas numa fina musselina ou véu de gaze, com que tão graciosamente cobrem a cabeça.

E havia nossas visitas ao pequeno Sherif, um menininho cuja mãe e eu tínhamos nos tornado amigas desde que eu quase me sentara sobre sua filhinha nascida dois dias antes! Como eu poderia saber que a pequena estava enterrada sob a colcha quando a mãe me convidou a me sentar? Gentilmente, ela me fez um sinal para que me afastasse um pouco, e com toda calma, então, ergueu a colcha. E lá estava ela, a pequena Sa’îda, com seu quilo e meio de peso, aquecida e confortável em seu bem-arranjado ninho. Ele deve ter-lhe feito muito bem, pois ela é hoje uma saudável menininha de dois anos!

Fomos até lá pela primeira vez, passando por ali uma noite, o marido nos pediu que examinássemos sua esposa, que tinha “febre”. Voltamos muitas vezes, porque a família tinha-se tornado nossa amiga, e a visão do pequeno Sherif correndo em nossa direção, vindo dentre os enormes búfalos, gritando “Irmã, Irmã”, e então puxando-nos pela mão para nos levar para a pequena choupana chamada de “casa” – essa visão era sempre uma recepção maravilhosa. Sherif não enxerga bem, e sua mãe tem estado doente, mas a cortesia e o refinamento inatos daquele pequeno lar constituem uma lição a aprendermos com o Oriente.

Outra coisa de que eu sentiria falta seriam os chamados à oração, que diariamente ressoam tão tristemente na cidade muçulmana, especialmente o da manhã, ao alvorecer, quando quase todo o mundo está adormecido e nós estamos levantando para dizer nossa oração da manhã, a prima. Este adhân – chamado à oração – matinal, feito dos minaretes, termina, muito apropriadamente, com as palavras “orar é melhor que dormir”. E é comum dobrar a um ou outro lado, no final de um corredor do hospital, e se deparar com uma velha senhora prostrada no soalho, dizendo “Deus é Grande!”. Ou ver nosso chowkedar (porteiro), de pé e em silêncio, sob a palmeira, em nosso pátio frontal, ao anoitecer, com as mãos cruzadas em oração, o céu já meio escuro compondo uma imagem perfeita.

E havia os pescadores. Homens corpulentos, grandes, nossos amigos desde o primeiro dia. Suas esposas e filhas são mulheres adoráveis, com aquela frescura e espontaneidade que lhes vêm de viver perto do mar. Que dizer da forma como dançariam para nós suas simples danças populares, batendo palmas e balançando o corpo ao som das ondas ao longe, e ao som das canções do Oriente cantadas por um grupo de mulheres que marcam o ritmo num velho tambor a seus pés?

Às vezes, levamos nossas enfermeiras até lá para um piquenique, algo que grandemente apreciam. A comunidade de pescadores nos cede uma de suas casas, com todas as cadeiras que conseguem obter, alguns tapetes de palha para o chão, e um par de camas de cordas – e ela é nossa por um dia.

À noite, quando os barcos de pescadores retornam, todos vão ver e apreciar o que foi possível pescar. Da última vez que os acompanhei, havia até mesmo um filhote de tubarão!

O pescado é levado ao mercado todos os dias, a camelo, e, enquanto esperam a chegada dos barcos, os camelos são banhados no mar. É divertido observá-los, gemendo e se opondo de início, mas depois, de repente, parecendo apreciar a água!

Quando algum membro de uma família de pescadores cai doente, eles nos pagam a hospitalização em peixes! Toda manhã, lá está em nosso saguão Ahmed ou Ali esperando para ouvir notícias do doente, e para nos dar o grande peixe que está aos seus pés!

Em verdade, esta era uma terra de pessoas de grande coração, com uma grande capacidade para a amizade, e foi com o perfume de suas flores numa guirlanda em meu pescoço que acenei meu adeus a este bravo país que tinha sido meu lar por quatro anos.

Igreja e mesquita

A Igreja de Maria Madalena e a Mesquita de Omar, em Jerusalém. A mesquita de Omar é geralmente conhecida como “Domo da Rocha”. Diz-se que foi aqui que Abraão estava prestes a sacrificar seu filho, e também que foi deste lugar que o Profeta Mohammed ascendeu ao Céu.

b) Jerusalém, 1934 & 1937[2]

Do ponto de vista de que estou escrevendo este livro, o mais importante trabalho de escultura que tive nestes anos foi a entalhadura de dez painéis no Novo Museu de Jerusalém – um edifício nobre. Isso exigiu minha estada na Terra Santa por quatro meses, em 1934, e voltei a ela em 1937.

Gostaria de poder avaliar adequadamente a influência de Jerusalém. Fui muito afortunado de ter de trabalhar ali. Não sou muito bom com viagens, de modo que, a menos que tenha um trabalho a fazer, prefiro ficar em casa. Mas em Jerusalém eu tinha trabalho, e um contrato bom e longo. E esse trabalho incluía trabalhar no andaime com trabalhadores árabes. Eu usava roupas árabes, o que significa estar vestido mais esplendidamente do que reis e príncipes europeus, e frequentava cafés e suqs árabes com Laurie Cribb, que tinha viajado comigo. Era tudo maravilhoso.

Pois a Palestina é a Terra Santa. Para mim, foi como viver com os apóstolos. Foi como viver na Bíblia. Era a antítese de tudo o que a Inglaterra representa. Não estou dizendo, com isso, que não há nada de errado na Palestina. Onde estiver o homem, haverá o pecado, e a violência, e o egoísmo e a doença. Além disso, existem pobres na Palestina, mais pobres do que possamos conceber em nossas cidades atualizadas. Isso a despeito de tudo o que a Terra Santa é, e eles vivem uma vida santa, enquanto a Inglaterra é não-santa e as pessoas só podem viver vidas santas em segredo.

Na Palestina, os ingleses, e os judeus, parecem achar que é sua missão reformar tudo e transformar os árabes em bons europeus… Exceto na velha cidade de Jerusalém, onde as ruas são apenas passeios para pedestres, os automóveis e os ônibus estão em toda parte… Os engenhosos judeus modernos estão erguendo engenhosas cidades modernas e introduzindo engenhosos modos modernos, incluindo a engenhosa moderna prostituição e as engenhosas roupas modernas. E essas coisas são boas? Não, não são.

Mas a discussão de tais juízos supera o escopo deste livro. Quero apenas deixar de alguma forma claro que desde que fui à Palestina minha mente está penetrada por uma categoria diferente de viver – uma categoria que antes eu apenas pressentia, mas que agora experimentei –, uma categoria não apenas humana, mas essencialmente santa. “Não sabeis que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Mas se um homem viola o templo de Deus, Deus o destruirá. Pois o templo de Deus é santo, o que vós sois.” “O que vós sois!” Eis o ponto principal…

Não vou escrever sobre as coisas belas… a beleza do deserto da Judeia, a beleza de Siloam, a beleza da igreja de Justiniano em Belém, nem mesmo sobre a beleza do Haram de Jerusalém, o lugar sagrado dos muçulmanos e o mais belo lugar que eu jamais vi.

A Palestina foi a última das revelações que me foram permitidas. Ela confirmou e abarcou todas as outras. Foi uma dupla revelação. Na Terra Santa eu vi de fato uma terra santa; também vi, por assim dizer olhos nos olhos, o rosto suado de Cristo. A semi-arruinada igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém, a semi-arruinada igreja da Natividade em Belém; tais coisas são simbólicas e somos incapazes de renová-las… Pelo decreto inscrutável de Deus, o suor não é para ser enxugado de seu rosto. Ele sofre menos se os coptas e os gregos e os romanos brigam entre si do que se, tendo abandonado a Cruz, eles entregam a noção toda da salvação à autoridade sanitária. É isso que nossa civilização está tentando fazer. Mas isso ainda não aconteceu em Jerusalém. Eles ainda não deram a César o que é de Deus.

Longe de encontrar na Palestina o desapontamento, eu só encontrei o bem; pois encontrei a beleza divina. E foi um duplo bem; pois eu vi não apenas a beleza, mas também as lágrimas e o suor. A ilusão caiu por terra. As grandezas sem sentido e ilusórias de Roma: Roma, a Cidade Sagrada enfeitada no refinamento dos salões de baile e dos bancos, a magnificência das estatísticas que atraem e enganam a alma, a aparência grandiosa da unidade doutrinal e ética. Parecia-me que faríamos melhor em abstermo-nos de nossas grandezas e esquecer nossos números – e em nos vangloriarmos um pouco menos de nossa unidade, enquanto, para os gentios e os pagãos e os infiéis, a coisa mais aparente a respeito dos cristãos é sua desunião sectária (e isto simbolizamos com precisão diabólica por nossas lutas sangrentas no próprio Santo Sepulcro – lutas detidas apenas pela polícia, e, diga-se, polícia muçulmana), e sua única união é uma união meramente secular. Pois, enquanto brigamos entre nós por causa da doutrina, estamos unidos na adoração comum do dinheiro e do sucesso material. Aqui eu não exagero. É isso que é terrível.

O que estou esforçando-me para dizer é que, assim como nunca vi ou imaginei algo mais amável que a Terra Santa – quer se pense nela como uma terra ou como habitações humanas –, nunca vi nada menos corrompido pelo pecado e pelo orgulho humanos. E entendi como nunca antes a virtude da pobreza, e como a paz na terra não pode ter outra base.

[1]. “Farewell, Karachi!” (The Medical Missionary, Osterley, Middlesex, vol. 15, nº 3, maio-junho 1961, p.41).

[2] Extraído de Autobiography, de Eric Gill (1882-1940), Jonathan Cape, Londres, 1940, pp. 248-255.

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