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A importância da pureza da inteligência

The Spirituality and Symbology of the Mandala - Kashgar

A qualificação intelectual reside muito menos na capacidade — sempre relativa e frequentemente ilusória — de compreender determinadas concepções metafísicas do que na qualidade puramente contemplativa da inteligência; essa qualidade implica a ausência de elementos passionais, não no homem, mas em seu espírito **. A pureza da inteligência é infinitamente mais importante do que sua capacidade efetiva: “Bem-aventurados os que têm o coração puro”, disse Cristo, e não: “aqueles que são inteligentes”.

O “coração” significa o intelecto, e por extensão a essência individual, a tendência fundamental, do homem; nos dois sentidos, ele é o centro do ser humano.


Schuon, Perspectives Spirituelles et Faits Humains, 1989, p. 102.

** Nota do editor: esprit, em francês, significa aqui o “pensamento”.

São Luís, Luís XIV e o sentido das formas exteriores

Vetores de Saint Louis Rei Da França Gravura 1894 e mais imagens de Luís IX  - iStock
São Luís, Rei de França.

Quando multiplicamos 3 por 4, o produto é 12; não é nem 11, nem 13, mas exprime exatamente as potências conjugadas do multiplicando e do multiplicador. Da mesma forma — metaforicamente falando —, quando se multiplica a religião cristã pela humanidade ocidental, o produto é a Idade Média; não é nem a época das invasões bárbaras, nem a do Renascimento. Quando um organismo vivo atingiu seu crescimento máximo, ele é o que ele deve ser; ele não deve nem deter-se no estado infantil, nem continuar a crescer. A norma não é a hipertrofia, ela é o limite exato do desenvolvimento normal. E o mesmo vale para as civilizações.

Luís IX de França – Wikipédia, a enciclopédia livre
São Luís.

Se comparamos São Luís com Luís XIV, podemos evidentemente limitarmo-nos a dizer que eles representam épocas diferentes, o que é quer um truísmo, quer um erro; é um truísmo afirmar que cada homem vive em sua época, e é um erro declarar que a diferença entre os dois reis de França, ou, mais precisamente, entre os mundos nos quais eles vivem e que eles encarnam, não é mais que uma diferença de tempo. A diferença real é que São Luís representa o Cristianismo ocidental no pleno desenvolvimento de suas possibilidades normais e normativas, enquanto que Luís XIV representa outra coisa, a saber, esse sucedâneo de religião, ou de cristandade, que é a pretensa “Civilização”; o Cristianismo ainda está incluído nela, por certo, mas a ênfase está em outra parte, ela está posta num humanismo titanesco e mundano, e estranhamente hostil à natureza, conforme o exemplo romano.

Louis XIV - HISTORY
Luís XIV.

As formas exteriores são critérios, sob este aspecto. É quer falso, quer insuficiente pretender que São Luís portava as vestes de sua época e que Luís XIV fazia o mesmo, mutatis mutandis; a verdade é que São Luís portava as vestes de um rei cristão ocidental, enquanto Luís XIV portava as de um monarca já mais “civilizado” do que cristão, o primeiro epíteto referindo-se evidentemente ao “civilizacionismo” e não à civilização no sentido geral do termo. A aparência de São Luís é a de uma ideia que chegou ao termo de seu amadurecimento; ela marca não uma fase, mas uma coisa acabada, uma coisa que é inteiramente o que ela deve ser [1]. A aparência de um rei da Renascença e da época seguinte é a de uma fase, não de uma coisa; e não é bem de uma fase que deveríamos falar, aqui, mas de um episódio extravagante; enquanto não temos nenhuma dificuldade de levar a sério a aparência não só de um Luís IX, mas também a de um faraó ou de um imperador da China, ou de um chefe pele-vermelha, se se quiser, é-nos impossível escapar à impressão de ridículo que emana dos célebres retratos de certos reis. Esses retratos, ou melhor, essas poses e esses atavios que os retratos fixam sem humor e sem piedade, deveriam, acreditava-se, combinar todas as sublimidades imagináveis, e inconciliáveis numa só fórmula, pois não se pode ter tudo ao mesmo tempo; não se pode juntar numa mesma pessoa o esplendor hierático e quase incorpóreo de um imperador cristão com o esplendor nu e paradisíaco de um heroi antigo.

Chartres Cathedral. Kings and Queens of the Old Testament. c. 1145-52 |  Chartres, Gothic art, Art history
Reis e uma rainha na Catedral de Chartres.

São Luís, ou qualquer outro príncipe cristão de sua época, poderia figurar entre os reis e as rainhas — sob a forma de colunas — da catedral de Chartres; os reis mais tardios e mais marcados pela mundanidade invasiva seriam impensáveis como estátuas sagradas [2]. Isso não quer dizer que todos os príncipes da Idade Média tenham sido individualmente melhores do que os do Renascimento ou das épocas seguintes, mas, evidentemente, não é essa a questão; trata-se aqui, unicamente, da atitude e da roupagem enquanto manifestações adequadas de uma norma ao mesmo tempo religiosa e étnica, portanto de um ideal que alia o divino ao humano. O rei, assim como o pontífice, não é somente um funcionário público, ele é também, por sua própria posição central, um objeto de contemplação, no sentido do termo sânscrito darshan: beneficiar-se do darshan de um santo é penetrar-se dos imponderáveis de sua aparência, se não do simbolismo de suas vestes pontificais, conforme o caso. São Luís é um dos soberanos que encarnam espiritualmente o ideal que eles representam por assim dizer liturgicamente, enquanto que a maior parte dos outros príncipes medievais representa esse ideal ao menos da segunda maneira, o que, repetimos, está longe de não ter importância do ponto de vista da inteligibilidade concreta da função real, com os subentendidos ao mesmo tempo terrestres e celestes.

Notas

[1] A aparência de um Clóvis ou de um Carlos Magno poderia ser a de um germano perfeito ou de um monarca perfeito, mas não podia resumir a Cristandade ocidental numa época em que os elementos constitutivos desta ainda não se tinham combinado e interpenetrado.

[2] As estátuas-colunas de Chartres têm o valor de um critério de ortodoxia formal, assim como de uma iconostase; a exibição de individualismo e de profanidade não poderia encontrar nelas nenhum lugar.


Frithjof Schuon, extrato do capítulo “Fenomenologia estética e teúrgica”, de O Esoterismo com Princípio e como Via, traduzido da edição francesa de 1978, pp. 195-197, para esta publicação.

“Natureza do Buda”

Quando se parte da ideia sumária — voltada unicamente para uma certa eficácia — de que o mundo  é impermanente  e nada mais, que ele é composto de “categorias” ou de “átomos” cambiantes e impermanentes e que só o Nirvana possui a permanência, esquece-se, estranhamente — a menos que se ache supérfluo pensar nisso — que seria impossível escapar à impermanência ou mesmo simplesmente conceber a ideia de impermanência e de libertação se não houvesse um elemento de permanência no impermanente ou de absolutez no relativo. Inversamente e a priori, é preciso que haja um elemento de relatividade no Absoluto, sem o que não existiriam nem o relativo, nem, com maior razão, a noção de relatividade e a saída do relativo; é o que mostra à sua maneira o símbolo do Yin-Yang, que mencionamos muitas vezes noutras ocasiões. 

Ora, esse elemento de absolutez ou de permanência no seio mesmo do contingente e do impermanente é precisamente nossa própria essência, que é “natureza do Buda”; recuperar nossa própria natureza fundamental é realizar a Permanência e escapar à “roda da existência”.

Frithjof Schuon, “Observações elementares sobre o enigma do Koan”, capítulo do livro O Olho do Coração (L’Oeil du Coeur, Dervy Livres, Paris, 1974). Imagem: estátua de Buda em Gal Vihara, Sri Lanka. Foto de Bernard Gagnon, via Wikimedia Commons. #frithjofschuon #sophiaperennis

A cidade sagrada

Ela que dá o silêncio à mente agitada —
Em que a alma a Paz divina encontrou.
Ela é Benares, cidade sagrada.
É a Ela que eu amo — é Ela que eu sou.

* * *

Sie, die des Denkens Fluss zum Schweigen bringt,
Göttlich besänftigend der Seele Sinn —
Sie ist Benares, ist die heilge Stadt;
Sie ist es, die ich liebe — die ich bin.

(Fiz uma tradução aproximada deste pequeno e belo poema alemão de Schuon, com ajuda da tradução francesa.) #frithjofschuon #sophiaperennis

I due grandi momenti

Santa Bernadette

Ci sono due momenti nella vita che sono tutto, e cioè il momento presente, in cui siamo liberi di scegliere quello che vogliamo essere, e il momento della morte, nel quale non abbiamo più scelta alcuna e dove la decisione spetta a Dio.

Ora, se il momento presente è buono, la morte sarà buona; se siamo adesso con Dio — nel presente che si rinnova senza posa ma resta sempre questo solo momento attuale — Dio sarà con noi nel momento della nostra morte.

Il ricordo de Dio è una morte nella vita, sarà una vita nella morte.

In maniera analoga: se entriamo in Dio, Dio entrerà in noi.

Se dimoriamo in quel centro che è il suo Nome, Dio abiterà il centro costituito dal nostro cuore. Nell’intera estensione del mondo non c’è nient’altro che questa reciprocità; poiché il centro è in ogni dove, come il presente è sempre.

Tra il momento presente, nel quale ci ricordiamo di Dio, e la morte, in cui Dio si ricorderà di noi — e tale reciprocità è già in ogni Invocazione — c’è il resto della vita, la durata che s’estende dal momento presente fino a quello estremo; ma la durata è soltanto una successione di momenti presenti, giacché viviamo sempre “ora”; è pertanto, in una prospettiva concreta e operativa, sempre il medesimo istante in cui siamo liberi di ricordarci di Dio e di trovare la nostra felicitá in quel Ricordo.

Non siamo liberi di sfuggire alla morte, lo siamo però di scegliere Dio, in questo momento presente che riassume qualsiasi momento possibile. É vero che solo Dio è libero in assoluto; ma la nostra libertà è tuttavia reale sul suo piano — altrimenti la parola non esisterebbe — visto che manifesta quella di Dio e perciò vi partecipa. In Dio siamo liberi quanto possiamo esserlo, e nella misura che Dio ci reintegra nella sua Libertà infinita.

(Frithjof Schuon, La Trasfigurazione dell’Uomo, Edizioni Mediterranee, Roma, 2016, pp. 135-136.) #frithjofschuon #sophiaperennis

Inteligência, vontade e sentimento

Beatriz indicando o caminho a Dante

(…) as prerrogativas do estado humano consistem essencialmente numa inteligência, numa vontade e num sentimento capazes de objetividade e de transcendência. A objetividade é a dimensão “horizontal”: é a capacidade de conhecer, de querer e de amar as coisas como elas são, portanto sem deformação subjetivista; a transcendência, por sua vez, é a dimensão “vertical”: é a capacidade de conhecer, de querer e de amar Deus e, ipso facto, todos os valores que superam nossa experiência terrestre e que se referem mais ou menos diretamente à Ordem divina.

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Debolezza e forza

La debolezza è la convinzione abituale d’essere deboli; esser deboli vuol dire ignorare che ogni uomo ha acesso alla forza, a qualunque forza esista. La forza non è un privilegio dei forti, ma una potenzialità di ciascun uomo; il problema sta nel trovare l’acesso a quella forza.

Essere deboli vuol dire essere passivamente sottoposti alla durata; essere forti equivale a essere attivamente liberi nell’istante, nell’Eterno Presente.

Essere deboli equivale a cedere a delle pressioni, e si cede a delle pressioni poiché non si vedono gli effetti nelle cause. Il peccato è una causa, il castigo è l’effetto concordante. L’uomo è debole giacché manca di fede; la sua fede è astratta, ipocrita e inoperante; egli crede al Cielo e all’Inferno, ma agisce quasi che non ci credesse. Ora noi dobbiamo fuggire il male come fuggiremmo un fuoco che vedessimo avventarsi su di noi, e dobbiamo aggrapparci al bene come ci attaccheremmo a un’oasi che scorgessimo in mezzo a un deserto.

Frithjof Schuon, La Trasfigurazione dell’Uomo, Edizioni Mediterranee, Italia, 2016, p. 113. Foto: Toro Seduto, in inglese Sitting Bull, in Lakota – Tatanka Yotanka. #frithjofschuon #sophiaperennis

Conhecer a Verdade, querer o Bem, amar o Belo

Inteligência total, vontade livre, sentimento capaz de desinteressamento: eis as prerrogativas que colocam o homem no ápice das criaturas terrestres. Total, a inteligência toma conhecimento de tudo o que é, no mundo dos princípios bem como no dos fenômenos; livre, a vontade pode escolher mesmo o que é contrário ao interesse imediato ou ao agradável; desinteressado, o sentimento é capaz de se olhar desde fora e, não menos, de se pôr no lugar dos outros. Todo homem o pode em princípio, enquanto que o animal não o pode, o que derruba a objeção de que nem todos os homens são humildes ou caridosos: por certo, os efeitos da “queda” enfraquecem as prerrogativas da natureza humana, mas eles não as poderiam abolir sem abolir o próprio homem. Dizer que o homem é dotado de uma sensibilidade capaz de objetividade significa que ele possui uma subjetividade não encerrada em si mesma, mas aberta para as outras e para o Céu; de fato, todo homem normal pode se encontrar numa situação em que ele manifestará espontaneamente a capacidade humana de compaixão ou de generosidade, e todo homem é dotado, em sua substância, do que podemos chamar de “instinto religioso”.

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A Porta aberta

Torii

Deus abriu uma porta no meio da criação, e esta porta aberta do mundo em direção a Deus é o homem; esta abertura é o convite de Deus para olharmos em direção a Ele, para tendermos a Ele, para perseverarmos junto a Ele e para retornarmos a Ele. E isto nos permite entender por que esta porta se fecha na morte quando foi desprezada durante a vida; pois ser homem não significa nenhuma outra coisa senão olhar para fora e atravessar a porta. Descrença e paganismo são tudo quanto dê as costas à porta aberta; em seu umbral, a luz e as trevas se separam.

A noção de inferno torna-se perfeitamente clara quando pensamos o quão insensato é — e o quanto é um desperdício e um suicídio — deslizar através do estado humano sem ser verdadeiramente homem, isto é, passar ao largo de Deus, e por consequência passar ao largo de nossa própria alma, como se tivéssemos direito às faculdades humanas independentemente do retorno a Deus e como se o milagre do estado humano tivesse uma razão suficiente independentemente do fim que está prefigurado no próprio homem; ou ainda: como se Deus não tivesse nenhum motivo ao dar-nos uma inteligência que discerne e uma vontade que escolhe.

Dado que esta porta é um centro — e ela tem de sê-lo, visto que leva a Deus —, ela corresponde a uma possibilidade rara e preciosa, que é única para a sua ambiência. E isto explica por que há uma danação; pois aquele que se recusou a passar pela porta não poderá nunca mais transpô-la. Daí a representação do pós-vida como uma alternativa implacável: para quem olha da porta — isto é, do estado humano —, não há escolha senão entre o interior e o exterior.

O que para o homem é tudo, é que a inteligência se torne de fato, graças ao conteúdo que lhe corresponde, aquilo que ela é em princípio, e, similarmente, que a vontade se torne realmente livre graças ao objeto que lhe corresponde. Em outros termos: a inteligência só é verdadeiramente inteligência na medida em que ela discerne entre o Real e o ilusório, e a vontade só é verdadeiramente livre na medida em que se esforça pelo Real.

Texto de Frithjof Schuon até onde sabemos ainda inédito no original francês, mas publicado em alemão em Perlen des Pilgers, Benziger Verlag, Dusseldorf e Zurique, 2000, pp. 68-69. #frithjofschuon #sophiaperennis