Cristãos e Muçulmanos: Atitudes Cristãs em relação ao Islã (5)

CRISTÃOS E MUÇULMANOS: O QUE ELES DIZEM UNS DOS OUTROS?

Introdução

1) Atitudes 2) A Importância da Ortodoxia 3) O Ciclo Descendente

Atitudes cristãs em relação ao Islã

1) Os Evangelhos e os Atos dos Apóstolos    2) A Virgem Maria    3) Papas    4)  Cardeais    5) Bispos católicos    6) Monges católicos    7) Reis e cavaleiros    8)  Cristianismo oriental    9) Protestantes    10) Ministro de Estado    11) Cronistas

Atitudes islâmicas em relação ao Cristianismo

1) Alcorão    2) Mohammed    3) Califas    4) Sufis    5) Sultões e santos    6) Historiadores


5) BISPOS CATÓLICOS

 a) Bispos católicos da Nigéria

As palavras de encerramento da primeira Carta Pastoral Conjunta dos Bispos Católicos da Nigéria desde a independência daquele país:

Expressamos sentimentos de amor fraterno para com nossos concidadãos muçulmanos… Estimamos seu profundo espírito de oração e sua notável fidelidade ao jejum penitencial… Estamos unidos contra as tendências materialistas e secularistas. (Catholic Herald , 21/10/1960.)

 

 b) O bispo de Gerona († 954) e o príncipe Al-Hakam († 976)[1]

Uma das ideias preconcebidas que mais dificultam a compreensão de como se desenvolveu a cultura na região da Catalunha é a que sustenta que entre cristãos e muçulmanos não houve outros contatos que não os do campo de batalha. Um estado de guerra não era nem permanente, nem geral … E nunca se tratava de aniquilar o inimigo, mas meramente de arrancar dele o mais importante botim.

As relações comerciais entre cristãos e muçulmanos eram constantes; viajantes que passavam pelas duas regiões cruzavam a fronteira; frequentemente chegavam embaixadores de nossos príncipes à corte de Córdoba, que era tão resplandecente quanto a do imperador de Bizâncio; os exércitos, comandados por príncipes e bispos, se punham a serviço de muçulmanos, até mesmo para lutar contra outros cristãos.

Nada poderia ser mais falso do que imaginar uma permanente cruzada, quando com frequência havia relações pacíficas e mesmo amigáveis. Este termo não é demasiado forte, se pensarmos que Gotmar II, que foi bispo de Gerona de 940 a 954, dedicou uma de suas obras ao príncipe Al-Hakam, filho do califa ‘Abd Ar-Rahmân III. A obra era a Chronica gesta Francorum, ou, mais exatamente, uma série genealógica de Clóvis a Louis IV d’Outremer (481-939), na qual o autor se distancia de seu tema para indicar acontecimentos que tiveram uma ligação estreita com a história muçulmana. Escrita em 940, a obra foi encontrada oito anos depois em Fostat, no Egito, pelo historiador árabe Al-Massadé, que a resumiu no capítulo 35 de seus Prados Dourados. É certo que a amizade entre o bispo Gotmar e a família dos Omíadas datava de uma viagem feita pelo prelado à cidade de Córdoba. Quando, e em que função? Talvez como embaixador, mas não temos detalhes. Seja como for, o maravilhoso escrínio, coberto de prata lavrada e esmaltado, que é conservado na Catedral de Gerona e traz o nome de Al-Hakam, talvez seja um testemunho da gratidão do príncipe pelo trabalho historiográfico do bispo.

 

c) O bispo de Trípoli[2]

Jemberié (meu servo) ficou muito surpreso quando, abrindo a porta uma noite, viu-se face a face com o bispo de Trípoli, que tinha vindo me visitar. A ideia de que um tão elevado dignitário estivesse prestes a entrar um recém-caiado fonduq o deixou um tanto confuso, dado que ele não conseguia decidir o que era maior: a honra de tal visita ou a vergonha e ser obrigado a receber pessoa tão eminente numa choupana até havia pouco usada apenas por pastores de camelos. O vigário apostólico, contudo, não se incomodou com tais considerações.

Ele era um homem nos seus cinquenta anos, atarracado, obeso e de pescoço curto. Olhava para as pessoas com os olhos semicerrados, através de óculos de vidros espessos, o nariz erguido como um cão farejador em busca de uma pista, e com os dedos, num dos quais usava o anel episcopal, cofiando a espessa barba. Depois de ter ouvido um argumento e ter-se decidido em relação a ele, ele juntava as mãos como se em oração e, com voz profunda e grave, definia a situação ou dava seu parecer numas poucas frases precisas e sem adornos que não admitiam mais discussão.

Ele tinha um excelente conhecimento do hebraico, do árabe, do persa, do turco e do albanês. Ninguém, em toda a cidade, com exceção do chefe da família Muntasser, era capaz de conversar com ele em árabe clássico, o qual era uma delícia de ouvir. Quando os sobrinhos do chefe estavam presentes, ouviam de boca aberta, sem entender uma palavra, e o bispo voltava-se para o chefe e, falando no dialeto local, dizia que estava surpreso de encontrar jovens muçulmanos incapazes de entender sua própria língua; fingindo indignação, ele chamava atenção para o fato de que ele, um cristão e um estrangeiro, conhecia o árabe melhor do que eles, que eram árabes e muçulmanos. O velho Muntasser divertia-se a valer e esfregava as mãos de prazer diante do embaraço dos jovens.

A lei canônica islâmica não tinha segredos para o bispo; o conhecimento que ele tinha dela era tal que a Alta Corte com frequência lhe submetia as mais complicadas questões, pedindo sua opinião.

A primeira vez que me convidou para ir à sua casa ele se recusou a me deixar examiná-lo, falou-me de seu diabetes como se não tivesse nenhuma ligação consigo, e terminou contando-me a história de Muhyi’d-Dîn Ibn ‘Arabî, um famoso místico árabe que viveu por volta do ano 1200, do qual eu não tinha nunca ouvido, mas de cuja vida ele conhecia todos os detalhes.

Eu já tinha perdido o fio desta história quando o cádi entrou com um pacote de papéis sob o braço. Os dois se aproximaram e, curvando a cabeça, começaram a falar rapidamente e em voz baixa. Os papéis eram passados de um para o outro, virados e revirados, enquanto ambos deslizavam seus indicadores pelas linhas do texto, parando aqui e ali para enfatizar frases e palavras. De pouco em pouco, o bispo batia numa folha com as costas da mão, exclamando que não havia nenhuma dúvida: o caso era exatamente aquele! O cádi concordava, mas então sussurrava uma sugestão que fazia reiniciar todo o exame do problema.

***

Por uma ou outra razão, o bispo afeiçoou-se a mim. A incorrigível coloquialidade de meu árabe o divertia. Numa voz agradável, com as mãos pousadas sobre as coxas, ele me perguntava em que antros eu tinha aprendido aquelas expressões não-ortodoxas.

Ele tinha uma excepcional capacidade de identificar situações grotescas e divertidas, e isto contrastava estranhamente com sua aparência grave, seu porte digno, e suas vestimentas episcopais solenes, com seus botões de cor de ametista.

A comunidade judaica tinha por chefe um rabino que era universalmente respeitado por sua integridade e pela solidez de sua doutrina. Ele era um meritório talmudista, mas era prejudicado por um nariz de proporções tão melancólicas que como que pendia sobre a boca. O rabino trazia sempre um ar tão desolado que a todo momento parecia ter acabado de deixar o Muro das Lamentações. Eu uma vez perguntei ao bispo qual a razão daquele ar tão infeliz, e o que poderia ser feito para consolá-lo.

“Nada”, respondeu, balançando gravemente a cabeça, “absolutamente nada. Este homem, que conhece o Talmude como poucos o conhecem, tem todas as razões para ter tal aparência. Eu me pergunto quantas vezes você mesmo não deixou que seu rosto mostrasse seu desagrado quando esperava por um trem que estava atrasado meia hora. Ora, você dificilmente pode esperar uma expressão jovial e alegre da parte de quem tem estado esperando o Messias há milhares de anos.”

***

Foi o mesmo bispo que me apresentou para seu melhor amigo naquela cidade – o prefeito árabe de Trípoli.

A amizade entre o bispo e o Pashá era uma das mais extraordinárias que jamais vi. Nunca encontrei dois homens que fossem, na superfície, mais diametralmente opostos em temperamento, mas raramente testemunhei uma amizade mais profunda e mais próxima. O italiano era de origem modesta, enquanto o árabe era o cabeça de uma família principesca que outrora tinha governado o país; o bispo ligava-se à fé pura e simples de São Francisco de Assis, o príncipe era um muçulmano fervoroso e praticante; o humilde cristão tinha uma erudição enciclopédica, o nobre muçulmano era iletrado.

O Pashá nunca recusou dar esmola a um pedinte, mas, se o pedinte se dirigisse a ele como Sîdî (“meu Senhor”), ele diria: “Seu Senhor, meu Senhor, é Allâh.” Ele não era rico, mas todos os dias era preparada em sua cozinha comida para cerca de quarenta pessoas.

Eu tinha várias vezes perguntado ao bispo sobre sua amizade com o Pashá, esforçando-me, em minha curiosidade, por descobrir em que ela se baseava. Ele sempre respondia de forma evasiva; algumas vezes, ele simplesmente não respondia, e limitava-se e erguer os ombros e soprar em sua barba.

Quanto mais conheci o nobre árabe, contudo, mais descobri o que tinham em comum – por exemplo, sua indiferença à doença, seu completo descaso com considerações materiais, sua profunda compreensão do sofrimento e da miséria humanos, e sua caridade, intocada pelo egoísmo e desconhecendo limites. Ambos se submetiam a uma Vontade superior com a fé cega de crianças.

A certa altura, eu compreendi que, assim como os vários elementos de um mosaico formam um desenho simples quando postos juntos, as atitudes mentais dos dois amigos eram parte de uma concepção espiritual única que eu por fim fui capaz de reconhecer.

Um dia, quando estava ajudando o bispo a arrumar seus livros nas prateleiras de sua biblioteca, anunciei que tinha finalmente entendido por que ele e o Pashá eram amigos tão próximos; disse que a amizade entre os dois era uma amizade entre franciscanos. Ele continuou a virar as páginas de um livro que tinha nas mãos, como que procurando ali uma resposta. Após uns instantes de silêncio, fechou o livro e disse: ‘Você se expressa mal. Você deveria saber que um muçulmano não poderia ser um monge franciscano, e eu mesmo sou por demais indigno da túnica que uso para me chamar de franciscano. O Pashá é um homem de grande coração e humildade exemplar, que pratica as três virtudes canônicas da maneira mais admirável… Eu aprendi muito com este homem; é por isto que somos amigos.’

O mais jovem dos dois amigos morreu antes. Eu estava muito longe de Trípoli quando isso aconteceu, e somente depois fiquei sabendo que o vigário apostólico tinha morrido serenamente, rodeado de seus confrères e freiras, segurando a mão de seu velho amigo, o Pashá, que, de tão pesaroso, parecia transformado em pedra; naquele mesmo momento, na catedral, na mesquita e na sinagoga homens de diferentes fés pediam a Deus que adiasse a hora apontada.

 * * *

Parece altamente provável que tenha sido a este bispo de Trípoli que o Papa Pio XI, em 1934, dirigiu as palavras citadas no item 3.a).

[1] Nicolau d’Oliver, La Catalogne à l’époque romane [a Catalunha no período romanesco] (Leroux, Paris, 1932), p. 185.

[2] Extraído de A Cure of Serpents, pelo duque italiano Alberto Denti di Pirajno, Governador de Trípoli em 1941 e médico (Pan Books, Londres, 1957), PP. 151-160.

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