Cristãos e Muçulmanos: Atitudes Cristãs em relação ao Islã (6)

CRISTÃOS E MUÇULMANOS: O QUE ELES DIZEM UNS DOS OUTROS?

Introdução

1) Atitudes 2) A Importância da Ortodoxia 3) O Ciclo Descendente

Atitudes cristãs em relação ao Islã

1) Os Evangelhos e os Atos dos Apóstolos    2) A Virgem Maria    3) Papas    4)  Cardeais    5) Bispos católicos    6) Monges católicos    7) Reis e cavaleiros    8)  Cristianismo oriental    9) Protestantes    10) Ministro de Estado    11) Cronistas

Atitudes islâmicas em relação ao Cristianismo

1) Alcorão    2) Mohammed    3) Califas    4) Sufis    5) Sultões e santos    6) Historiadores


6) MONGES CATÓLICOS

a) Adelhard de Bath

(Monge beneditino inglês do século 12)

Para que não se pense que alguém tão ignorante quanto eu elaborei estes pensamentos por mim mesmo, declaro que eles vieram de meu estudo dos árabes. Não gostaria – caso algo que eu diga desagrade certas mentes limitadas – que fosse eu a desagradá-los, pois sei muito bem o que os verdadeiramente sábios devem esperar do homem comum. Portanto, eu tomo o cuidado de não falar por mim mesmo; falo apenas pelos árabes.

b) O Monge e o Califa

História de um monge beneditino alemão do séc. 10 e de ‘Abd Ar-Rahmân III (que reinou de 912 a 961)[1]

A maneira paciente e sutil com que ‘Abd Ar-Rahmân lidou com um embaixador particularmente obstinado fornece um caso histórico que poderia ser estudado com proveito por qualquer diplomata iniciante decidido a superar a média de competência em sua profissão. A data é 957, quando uma embaixada foi enviada a ‘Abd Ar-Rahmân III por Otão, o Grande, então Rei da Alemanha, e que depois seria Imperador. O ponto central que se levantou foi de fato o mesmo daquela velha adivinha: “O que acontece quando uma força irresistível encontra um objeto inamovível?” Evidentemente, não há resposta; a única esperança é evitar que se choquem, e foi isso que causou ao Califa tanto incômodo, pois, embora em sua própria esfera seu poder fosse irresistível, a vontade do monge da história não era menos inamovível.

O impasse aconteceu assim. Por razões que não são conhecidas, ‘Abd Ar-Rahmân tinha enviado uma embaixada alguns anos antes ao “grande chefe de Alemanya”. A carta que ele enviara continha as frases costumeiras sobre a grande do Califado do Ocidente, mas fora longe demais, e continha algumas expressões desagradáveis a ouvidos cristãos. Como ‘Abd Ar-Rahmân não era nem um tolo nem um fanático, é provável que as passagens objetáveis fossem devidas à asneira de algum oficial da corte, mas elas deixarão o Rei Otão furioso, e ele deteve os embaixadores por três anos, enquanto se recusava firmemente a ter quaisquer outros contatos com eles.

Contudo, algo tinha de ser feito, e então Otão decidiu enviar uma contraembaixada, não tanto para lidar com questões políticas quanto para responder no mesmo gênero às passagens da carta do Califa que eram ofensivas. A carta foi composta pelo irmão de Otão, São Bruno, o Grande, Arcebispo de Colônia, na mesma língua da carta do Califa, o grego, considerada língua intermediária entre o árabe e o latim, e ela devolvia insulto por insulto; por isso, um mensageiro destemido se fazia necessário, um homem que não tremesse diante da cólera do Califa.

Um monge chamado João, da abadia beneditina de Gorze (ou Görtz), na Alsácia-Lorena, ofereceu-se para a missão, já preparado para o sacrifício de sua vida, se necessário (Johannes sese offert spe martyrii); ele depois tornou-se abade do monastério e foi canonizado como São João de Gorze. Com ele, como companheiro, foi um discípulo chamado Garamannus (Hermann?), que escreveu um relato da missão inteira. Apesar da carta descortês, a Abadia de Gorze forneceu por si mesma ricos presentes para o monge levar ao Califa.

Os dois monges viajaram a pé até Viena, onde tomaram um barco para descer o Ródano e, depois, seguiram por mar até Barcelona. A primeira cidade muçulmana a que chegaram foi Tortosa, onde o governador os tratou com grande consideração e os ajudou no resto de sua viagem até Córdoba.

Lá chegando, ficaram alojados numa casa a duas milhas do palácio real, e foram tratados com generosidade real, mas não foram convidados a apresentarem as cartas de credenciamento. Sua situação era de fato a de um luxuoso aprisionamento. Quando perguntaram a razão da demora, disseram-lhes que, dado que os embaixadores de Córdoba tinham sido detidos por três anos na Alemanha, eles ficariam retidos em Córdoba por nove anos. Na verdade, contudo, o Califa estava protelando qualquer ação com o intuito de ganhar tempo para decidir o que fazer. Ele se via agora numa situação impossível, pois tinha uma ideia bem clara do conteúdo das as cartas, e também o tinham, infelizmente, alguns de seus súditos. Ora, se ele recebesse os embaixadores e os deixasse ler as cartas, seria obrigado a acusá-los de ofender o Islã e o Profeta. Contudo, matar um convidado, mesmo que seja seu pior inimigo – para não falar de um embaixador – é um crime aos olhos dos muçulmanos. Por outro lado, se ouvisse o conteúdo das cartas sem retaliação, seria ele que estaria cometendo um crime, pois a lei dizia que qualquer um que tolerasse a blasfêmia era tão culpado quanto o próprio blasfemador. Se isto se aplicava a todos os muçulmanos, até os mais humildes, que dizer do próprio Califa, Comendador dos Crentes? Outras consequências indesejáveis poderiam ser a um estado de tensão com os cristãos e, no pior dos cenários, uma guerra com o Império Alemão!

Depois de muita consideração, o Califa comissionou um judeu de destaque, como uma terceira parte, neutra, para tentar persuadir os monges a visitar o palácio sem apresentar seus documentos. João se recusou a isso, e os dois monges foram mantidos em isolamento por mais alguns meses. O personagem seguinte a visitá-los foi o bispo mozárabe dos cristãos de Córdoba. Como o bispo e o monge podiam falar à vontade em latim, ficou-nos um relato da conversa, que mostra aspectos interessantes do estado da Igreja sob o domínio muçulmano naquela época. Os dois clérigos começaram por falar de todo o tipo de coisas, mas por fim o bispo revelou a verdadeira razão de sua visita, qual fosse, o desejo de ‘Abd Ar-Rahmân de receber a embaixada apenas com os presentes.

“E o que devo fazer com as cartas?”, perguntou João. “Não fui enviado especialmente para entregá-las? Foi ele o primeiro a pronunciar blasfêmias, e tudo o que fazemos é refutá-las.”

O texto não está completo, mas podemos ler uma grande parte da resposta do bispo:

“O senhor não conhece as condições sob as quais vivemos. O Apóstolo nos proíbe de resistir aos poderes do mundo… É uma grande consolação para nós… viver de acordo com nossas próprias leis… Os mais fervorosos observadores dos preceitos cristãos são os que recebem maior consideração, enquanto os judeus [que não reconheciam o Messias] são menosprezados pelas duas comunidades. Nossa situação exige de nós a conduta que seguimos, e não fazemos nada contrário à nossa religião. Em outros aspectos, comportamo-nos com obediência, e é por isso que acredito que seria melhor suprimir aquela carta, que pode desnecessariamente alimentar as paixões contra o sr. e contra nós.”

João hesitou por um instante, mas logo se recompôs e recusou-se a ceder:

“Como pode o senhor usar tal linguagem, bem o senhor, que passa por ser um bispo? Não é o senhor um confessor da fé, e não foi elevado ao posto que ocupa a fim de defendê-lo? … E, contudo, por considerações humanas o senhor se afasta da verdade e, longe de incentivar os outros a proclamá-la, foge ao seu dever. Teria sido melhor, e mais apropriado a um verdadeiro cristão, sofrer todos os apertos da miséria a aceitar do inimigo um alimento prejudicial à salvação dos outros.”

João então criticou certo número de práticas da igreja mozárabe.

“Como é possível que leveis tal vida? Ouvi dizerem que vos submeteis ao que a Igreja Católica considera odioso: contaram-me que os vossos fiéis se circuncidam, apesar da ordem do Apóstolo, e se abstêm de certos alimentos, somente porque os médicos deles os proíbem.”

“A necessidade nos força a isso”, respondeu o bispo, “caso contrário não poderíamos viver em meio a nossos conquistadores, e, além disso, tudo o que fazemos já era feito por nossos antepassados, e seu costume nos ensinou a fazer o mesmo.”

“Nunca”, disse João, “poderei aprovar que se faça qualquer coisa de diferente do que o que está ordenado, seja por amor ou por temor.”

E acrescentou que nada no mundo o faria abandonar sua resolução. Quando isso foi relatado ao Califa, que era um homem experiente no lidar com os corações humanos, este deixou que algum tempo se passasse antes de tentar qualquer outra coisa.

Seis ou sete semanas depois, quando outros mensageiros do Califa não tinham conseguido nada de diferente e estava claro que ameaças pessoas não produziriam nenhum resultado, sugeriu-se a João que sua atitude poderia redundar numa perseguição geral aos cristãos. Garamannus relata a questão assim:

“No dia do Senhor e em algumas das principais festas de nossa religião, como o Natal, a Epifania, a Páscoa, a Ascensão, Pentecostes, a festa de São João e outras, os cristãos obtiveram permissão de reparar uma igreja localizada fora da cidade e dedicada a São Martinho”,

e sem dúvida devem tê-lo feito em procissão, pois ele afirma que foram depois acompanhados por doze guardas, a quem ele chama de sagiones, na volta da igreja à cidade. João tinham sido autorizado a acompanhá-los, e durante o percurso um mensageiro lhe entregou uma carta – que chamava a atenção por seu tamanho, pois estava escrita num pergaminho retangular – que fazia as ameaças mencionadas acima. Contudo, nem mesmo isso fez o monge desviar de seu propósito.

Por fim, os próprios cristãos mozárabes aproximaram-se dele para tentar chegar a uma solução. João então sugeriu a única solução possível, ou seja, enviar um mensageiro ao Rei Otão pondo-o totalmente a par do assunto e pedindo instruções. O Califa concordou, mas, como não conseguia encontrar ninguém preparado para realizar uma jornada tão longa e arriscada, publicou um édito oferecendo um privilégio especial a qualquer um que se oferecesse para a missão, e todo o tipo de recompensas quando de sua volta.

No secretariado do palácio havia um funcionário cristão chamado Recemundus (Raimundo) que era conhecido por seu perfeito domínio do árabe e do latim. Este sentiu-se atraído pela possibilidade de uma promoção, mas, antes de se voluntariar, pediu autorização para visitar o embaixador para se informar sobre que tipo de homem era Otão, e se, caso aceitasse a missão, poderia ser aprisionado como represália pela detenção do embaixador em Córdoba. João lhe garantiu que não precisava se preocupar com isso, e lhe deu cartas de recomendação para a Abadia de Gorze. Raimundo voltou ao palácio preparado para assumir a embaixada, mas pediu que fosse indicado para o bispado de Iliberis, que então estava desocupado. As autoridades mozárabes concordaram, e Raimundo foi sagrado bispo. Ele recebeu as instruções necessárias e partiu em sua viagem. Em dez semanas, chegou a Gorze, onde foi bem recebido. Era agosto, e o bispo de Metz o reteve ali durante o outono e o inverno, e depois o acompanhou à corte do Imperador, em Frankfurt. Otão provavelmente ficou feliz de pôr um ponto final em toda aquela questão, e concordou com tudo o que foi sugerido; uma nova carta foi redigida, e Raimundo estava de volta a Gorze na Páscoa, e em Córdoba em junho de 959, acompanhado do novo embaixador, Dudo. A nova carta autorizava João a não apresentar a carta anterior e, em vez disso, a negociar um tratado de amizade e paz, para pôr um fim na incursão dos piratas e flibusteiros árabes que estavam causando muitos problemas em territórios do Império, incluindo o sul da França, a Lombardia e mesmo a Suíça. Esses piratas e flibusteiros não passavam de bandos de aventureiros que tinham chegado à Provença vindos da Catalunha, e o Emirado de Córdoba nunca lhes tinha dado qualquer proteção ou encorajamento.

Os novos embaixadores se apresentaram no palácio, mas ‘Abd Ar-Rahmân disse: “Não, por minha vida: que venham antes os primeiros embaixadores; ninguém verá meu rosto antes daquele monge corajoso que por tanto tempo desafiou minha vontade!” Mas, mesmo agora, havia dificuldades. Quando os vizires chegaram à morada do monge para conduzi-lo ao palácio, encontraram-no com o cabelo e a barba desalinhados e vestindo uma túnica monástica penitencial. Assim não seria possível, disseram os representantes, e o Califa lhe enviou como dádiva dez libras de prata para a compra de uma vestimenta adequada aos usos da corte. João mandou agradecer, mas deu o dinheiro aos pobres. “Não desprezo a dádiva de um rei”, disse, “mas não posso usar nenhuma outra vestimenta que não o hábito de minha ordem.” Quando o Califa ouviu isso, exclamou: “Que venha como quiser, mesmo vestido com um saco; não o receberei de forma pior por isso!”

Assim, finalmente, aconteceu a entrevista. Os monges foram levados ao palácio, com imenso esplendor, por ruas margeadas por tropas com uniforme de gala, e precedidos ao longo do caminho por dervixes dançantes. “Era o solstício de verão”, escreve Garamannus, “e da cidade até o palácio estes mouros não pararam de levantar uma poeira terrível.” Ele sem dúvida não tinha conhecimento da verdadeira natureza do canto sagrado dos dervixes (a palavra persa darvish sendo o equivalente da palavra árabe faqîr, significando “homem pobre”, no mesmo sentido da “santa pobreza” dos franciscanos), e da grande honra assim conferida pelos representantes de uma religião aos representantes da outra.

Os principais dignitários do Califado vieram ao encontro do embaixador cristão, e o levaram por entre salões deslumbrantes até a presença do Califa, que agora, quase no final de seu reinado de meio século, raramente aparecia em público, e, “como um deus” (quase numen quoddam), se ocultava dos olhos de seus súditos. Num ambiente de riquezas inexprimíveis, o Califa, as pernas cruzadas, sentava-se num divã; ele ofereceu a João a palma de sua mão para que a beijasse, uma honra que os príncipes muçulmanos reservavam apenas aos maiores entre a nobreza. Como cristão, deram ao monge uma cadeira para que se sentasse (os muçulmanos geralmente se sentam no chão, sobre tapetes), e, após um prolongado silêncio, ‘Abd Ar-Rahmân começou a falar das razões que o tinham forçado a protelar por tão longo período aquela entrevista. João respondeu, e seguiu-se uma conversa na qual o Califa se mostrou tão cortês e amigável que ganhou a simpatia de João apesar do natural preconceito com que o monge até então o vira. Os presentes foram oferecidos e aceitos, e o monge pediu permissão para retornar a seu país; mas ‘Abd Ar-Rahmân não permitiria seu regresso antes que o tivesse encontrado várias outras vezes e tivesse passado a conhecê-lo melhor.

Após esse encontro, João passou a ter elevada estima pelo Califa, tendo voltado do palácio a seu suntuoso alojamento convencido de que os árabes “não mereciam o nome de bárbaros que constantemente lhes era dado na Europa”. Em subsequentes audiências, já mais à vontade, ele e o Califa discutiram questões de estado. O Califa perguntou-lhe detalhadamente sobre o poder, a riqueza e os problemas militares de Otão; debateu muitos pontos com João, que não aceitava que ninguém fosse superior a Otão em armas e em cavalos. Nisto, ‘Abd Ar-Rahmân louvou sua lealdade, mas criticou a conduta de Otão de deixar sem punição a rebelião de seu filho e de seu genro, que não tinham hesitado em convocar os húngaros para devastar o império que tinham tentado usurpar.

Quanto ao resto, e aos acordos, se os houve, que foram concluídos entre os dois impérios, não temos informação, pois a crônica de Garamannus termina neste ponto; mas uma coisa é certa: antes que São João de Gorze (o “objeto inamovível”) voltasse para casa, ele tinha passado a nutrir um tão grande respeito e admiração por ‘Abd Ar-Rahmân (a “força irresistível”) quanto ‘Abd Ar-Rahmân já nutria por ele.

[1] Extraído de Spain under the Crescent Moon, de autoria de Angus Macnab (Fons Vitae, Louisville, Kentucky, 1999), pp. 62-70.

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