Cristãos e Muçulmanos: Atitudes Cristãs em relação ao Islã (7)

CRISTÃOS E MUÇULMANOS: O QUE ELES DIZEM UNS DOS OUTROS?

Introdução

1) Atitudes 2) A Importância da Ortodoxia 3) O Ciclo Descendente

Atitudes cristãs em relação ao Islã

1) Os Evangelhos e os Atos dos Apóstolos    2) A Virgem Maria    3) Papas    4)  Cardeais    5) Bispos católicos    6) Monges católicos    7) Reis e cavaleiros    8)  Cristianismo oriental    9) Protestantes    10) Ministro de Estado    11) Cronistas

Atitudes islâmicas em relação ao Cristianismo

1) Alcorão    2) Mohammed    3) Califas    4) Sufis    5) Sultões e santos    6) Historiadores


7) REIS E CAVALEIROS CATÓLICOS

a) A Sicília no Período Normando (aprox. 1070-1200)

No ano 827 d.C., os árabes (também conhecidos como sarracenos ou mouros) invadiram a Sicília vindos do Norte da África e gradualmente chegaram, por volta de 843, a controlar toda a ilha, tirando-a das mãos do imperador bizantino. O historiador italiano Vincenzo Salerno registra que sob o domínio dos árabes prevaleceu a tolerância religiosa, e que não havia conversões forçadas ao Islã. Ele menciona que as comunidades minoritárias (cristãos e judeus) pagavam impostos à administração islâmica, mas, em sua opinião, muitos sicilianos provavelmente deram boas-vindas à mudança, dado que os impostos tinham sido maiores sob o domínio bizantino.

Salerno diz também: “A influência árabe foi simplesmente colossal. Sob sua administração, a população da ilha dobrou, pois dezenas de vilas foram fundadas e as cidades, repovoadas, particularmente Palermo, que se tornou uma das maiores e mais belas cidades árabes depois de Bagdá e Córdoba. A língua árabe era amplamente falada e teve uma grande influência sobre a fala siciliana, que por fim emergiu como uma língua românica (latina) durante o período subsequente (normando). Até a chegada dos árabes, a língua mais popular fora um dialeto do grego. Sob os árabes, a Sicília tornou-se uma comunidade poliglota; em algumas localidades, falava-se grego, em outras falava-se predominantemente o árabe. Ao lado das mesquitas, havia igrejas e sinagogas.” (Vide adiante uma inscrição poliglota num túmulo cristão.)

A influência islâmica foi particularmente visível nas artes. Ainda existem muitos exemplos disso, particularmente na arquitetura. (Vide adiante a ilustração de uma placa esculpida numa coluna da Catedral de Palermo, com versículos alcorânicos em árabe.)

Salerno escreve: “Os normandos conquistaram Messina em 1061, e chegaram aos portões de Palermo uma década depois, tirando do poder o emir local, mas respeitando os costumes árabes. A conquista normanda da Sicília árabe foi mais lenta do que sua conquista da Inglaterra saxã, que começou em 1066, com a Batalha de Hastings. O reino siciliano dos normandos foi a síntese medieval da tolerância multicultural.

“É interessante considerar que em geral a alfabetização funcional entre os sicilianos era mais elevada em 870 sob o domínio árabe do que em 1870 sob o domínio dos italianos. Em certos aspectos sociais, a Sicília do século XIX ainda parecia muito árabe, especialmente fora das principais cidades, o que se estendeu até os primeiros anos do século XX.”

O rei normando Rogério I (1031-1101) introduziu o catolicismo romano na ilha, mas deu continuidade à política islâmica de coexistência frutífera entre as duas fés – ou antes, entre as três fés, pois o rei latino também via com favor a comunidade grega ortodoxa.

Rogério foi sucedido por Simon de Hauteville (1093-1105), em 1101. Ao morrer, apenas quatro anos depois, Simon foi sucedido pelo famoso Frederico II (1194-1250), que, do mesmo modo, deu continuidade à política de coexistência benigna. Com efeito, da última parte do século XI até o final do século XII, o que houve na Sicília foi uma era dourada de simbiose cristã-islâmica sob domínio cristão.

Depois de cerca de 1200, devido à inveja e à pressão papal, as coisas foram mudando gradualmente em favor do catolicismo romano e da hegemonia latina.

Column_with_arab_inscription_(Palermo_Cathedral)

 Acima: versículos alcorânicos numa coluna da Catedral de Palermo.

  byzantine3

Acima: Inscrição na lápide do túmulo de uma nobre cristã (1148) na Catedral de Palermo, Sicília. Em cima: hebraico; embaixo: árabe; à esquerda: latim; à direita: grego. As quatro línguas representam as quatro comunidades presentes na Sicília durante o período Normando (aprox. 1070 – 1200).

 

b) Os Templários

Hugo de Payns (c. 1070-1130) foi um nobre francês da região da Champagne. Como cavaleiro, participou da primeira Cruzada, em 1096. Em 1108, ele foi a Jerusalém uma segunda vez, e decidiu ali residir permanentemente. Foi o fundador da Ordem do Templo de Salomão (os Templários) e seu primeiro Grão-Mestre. Junto com São Bernardo de Claraval (1091-1153), criou a Regra Latina, o código de conduta daquela ordem.

Os cavaleiros templários, enquanto ordem militar-monástica, tinham como missão original trazer a Terra Santa para o controle cristão, mas, durante os séculos XII e XIII, tiveram um importante papel na criação de um clima de respeito pela erudição e espiritualidade da cultura islâmica, tanto na Espanha como na Terra Santa. Nestas duas localidades tão separadas entre si, eles perceberam o terreno comum que havia entre as camadas mais profundas das civilizações cristã e muçulmana.

Escreve Angus Macnab: “Não é de se supor que a Ordem tenha surgido totalmente armada, como Palas-Atena[1], da cabeça de Hugo de Payns, ou tenha sido o fruto de qualquer inteligência humana individual. A função oficial dos Templários, por eles professada, tinha por certo surgido das Cruzadas; mas está claro que, havia tempo, já tinham existido uma série de funções especiais que só esta Ordem poderia realizar. A interação entre a mais elevada espiritualidade cristã e a mais elevada espiritualidade islâmica (Sufismo) na Alta Idade Média exigia uma Ordem completamente soberana, acima de reis e bispos, não sujeito à legislação comum ou mesmo a interditos e excomunhões, e capaz, quando necessário, de se pôr de parte em relação a ambas as civilizações para agir como mediador ou árbitro entre elas. Tal foi o papel dos Templários, e seu efeito benéfico se mostrou mais de uma vez na história da Espanha medieval.” Macnab descreve dois eventos do tipo em seu livro Spain under the Crescent Moon (pp. 92-93).[2]

 

[1]. Referência ao mito grego em que Palas-Atena sai, já totalmente armada, da cabeça de Zeus fendida por uma machadada de Hefaístos. (N. do T.)

[2]. Para maiores detalhes sobre este pouco conhecido assunto, vide: L’Islam et le Graal, de Pierre Ponsoye (Éditions Denöel, Paris, 1957.)

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