Cristãos e Muçulmanos: Atitudes Cristãs em relação ao Islã (8)

CRISTÃOS E MUÇULMANOS: O QUE ELES DIZEM UNS DOS OUTROS?

Introdução

1) Atitudes 2) A Importância da Ortodoxia 3) O Ciclo Descendente

Atitudes cristãs em relação ao Islã

1) Os Evangelhos e os Atos dos Apóstolos    2) A Virgem Maria    3) Papas    4)  Cardeais    5) Bispos católicos    6) Monges católicos    7) Reis e cavaleiros    8)  Cristianismo oriental    9) Protestantes    10) Ministro de Estado    11) Cronistas

Atitudes islâmicas em relação ao Cristianismo

1) Alcorão    2) Mohammed    3) Califas    4) Sufis    5) Sultões e santos    6) Historiadores


8) CRISTIANISMO ORIENTAL

a) Bahirâ (monge sírio do século VI)[1]

Abut Tâlib, tio de Mohammed, algumas vezes o levava consigo em suas viagens. Numa ocasião, quando Mohammed tinha nove anos, ou, de acordo com outros, doze, eles viajaram até a Síria numa caravana de mercadores. Em Bustrâ, perto de uma das paradas em que a caravana mequense sempre se detinha, havia uma cela ocupada, geração após geração, por um monge cristão. Quando um morria, outro tomava o seu lugar, e herdava tudo o que estava na cela, incluindo alguns antigos manuscritos. Entre esses manuscritos, havia um que continha a predição de que seria enviado aos árabes um Profeta; e Bahirâ, o monge que agora vivia na cela, era muito versado nos conteúdos desse livro, que o interessava tanto mais quanto ele sentia que o surgimento desse Profeta aconteceria durante sua vida.

Bahirâ tinha muitas vezes visto as caravanas mequenses se aproximarem e fazerem sua parada não longe de onde ficava a cela, mas, quando esta nova caravana pôde ser vista, chamou-lhe a atenção algo que ele nunca tinha visto antes: uma pequena nuvem, bem baixa, movia-se vagarosamente sobre a caravana, de forma a estar sempre entre o sol e um ou dois dos viajantes. Com enorme interesse o monge observou-os enquanto se aproximavam. E, de repente, seu interesse se transformou em maravilhamento, pois, tão logo pararam, a nuvem deixou de se mover, permanecendo estacionada sobre a árvore debaixo da qual eles se tinham abrigado, enquanto a árvore abaixou seus ramos sobre os dois, de modo que ficaram numa dupla sombra. Bahirâ sabia que tal portento, embora discreto, era de grande significação. Somente uma grande presença espiritual poderia explicá-lo, e imediatamente ele pensou no esperado Profeta. Seria possível que ele finalmente tivesse vindo, e estivesse entre estes viajantes?

Sua cela tinha recebido recentemente um estoque de novas provisões. Reunindo tudo o que tinha, o monge mandou dizer à caravana: “Ó homens de Quraish, preparei alimentos para vós, e gostaria que viésseis a mim, todos, jovens e adultos, escravos e homens livres.” Eles, portanto, vieram até sua cela, mas, apesar do que lhes tinha sido dito, deixaram Mohammed para cuidar dos camelos e da bagagem. Conforme se aproximaram, Bahirâ perscrutou seus rostos, um a um, mas não pôde ver nada que correspondesse à descrição contida no antigo livro, nem parecia haver entre eles ninguém adequado à grandeza dos dois milagres. Talvez nem todos tivessem vindo. “Ó homens de Quraish”, disse ele, “que nenhum de vós fique para trás.” “Nenhum foi deixado para trás”, responderam, “exceto um menino, o mais jovem de todos nós.” “Não o trateis assim”, disse Bahirâ, “mas chamai-o também, para que ele esteja presente conosco na refeição.” Abu Tâlib e os outros se recriminaram por terem sido tão descuidados. “De fato, merecemos censura”, disse um deles, “por termos deixado para trás o filho de ‘Abdallâh, em vez de o termos convidado para participar conosco deste festim.” Mandaram, então, trazer o menino e o abraçaram e o fizeram sentar-se à refeição com todos.

Um rápido olhar para o rosto do rapaz foi o suficiente para explicar a Bahirâ os milagres; e, olhando-o com mais vagar durante a refeição, o monge percebeu vários traços, no rosto e no corpo, que correspondiam ao que estava no livro. Portanto, quando terminaram de comer, Bahirâ foi até aquele mais jovem convidado e lhe perguntou sobre seu modo de vida, e sobre seu sono, e sobre muitas coisas mais. Mohammed de bom grado respondeu às perguntas, pois o homem era venerável, e as questões eram corteses e benevolentes; nem hesitou ele em erguer seu manto quando o monge perguntou se poderia ver suas costas. Bahirâ já estava seguro, mas, agora, ficou duplamente convencido, pois ali, entre os ombros, estava a marca que ele esperava ver, o selo da profecia exatamente como descrito no livro, e no lugar preciso. Ele se voltou para Abu Tâlib e perguntou: “Qual o parentesco do menino para contigo?” “Ele é meu filho”, foi a resposta. “Ele não é teu filho”, disse o monge, “não pode ser que o pai deste menino esteja vivo.” “Ele é o filho de meu irmão”, disse Abu Tâlib. “E o que aconteceu a seu pai?”, perguntou o monge. “Ele morreu”, disse o outro, “quanto o menino ainda estava no ventre da mãe.” “É a verdade”, disse Bahirâ. “Leve-o de volta ao seu país e o proteja contra os judeus, pois, por Deus, se eles o virem e souberem dele o que eu sei, tramarão o mal contra ele. Grandes coisas estão reservadas a este filho de teu irmão.”

b) Patriarca Nestoriano Ishyob III (reinou de 649 a 660)

Estes árabes não lutam contra nossa religião cristã; não, eles defendem nossa fé, eles reverenciam nossos sacerdotes e santos, e fazem dádivas às nossas igrejas e monastérios.

c) Grão-Patriarca Michael III (reinou de 1169 a 1177)

“Que o muçulmano seja meu mestre em questões exteriores, em vez de o latino me dominar nas questões do espírito. Pois, se estou submetido ao muçulmano, ao menos ele não me forçará a compartilhar sua fé. Mas se estiver sob domínio franco e unido à Igreja Romana, pode ser que tenha de me separar de Deus.” (Citado por Sir Steven Runciman em Schism, p. 122)

O historiador Derek Baker comenta: “A experiência bizantina tanto com os latinos quanto com os turcos no século XII revelou que o prognóstico do patriarca estava em grande parte correto.” (Relations between East and West in the Middle Ages, Edinburgh University Press, 1973.)

Vide também: Osman Turan: “Les souverains seldjoukides e leurs sujets non-musulmans” (Studia Islamica, I, 1953, pp. 65-100)

 

d) Os Coptas

“O secretário particular de Saladino (1138-1193) e o chefe de seu gabinete de guerra eram ambos cristãos coptas, como o eram os egípcios que derrotaram a Sétima Cruzada.” (De From the Holy Mountain, Travels in the Shadow of Byzantium, por William Dalrymple, Flamingo, Londres, 2000.) (Para uma discussão completa de Saladino, vide pp. 88-90.)

e) Os Monges do Monte Atos

A comunidade ortodoxa oriental na península do Monte Atos, no nordeste da Grécia, ainda conserva os estatutos ou cartas originais conferidas ao Monte Atos pelos sultões turcos. Estes documentos foram escritos numa bonita caligrafia árabe, e sempre começam com as palavras: “Em Nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.” Eles garantiram a liberdade religiosa dos monges e também a independência do governo monástico.

A comunidade monástica floresceu sob o domínio turco, mas, tão logo os turcos foram expulsos da Grécia, os monges do Monte Atos começaram a ter problemas com o governo grego modernista e secular.

[1]. Extraído de Muhammad: His Life based on the Earliest Sources, de Martin Lings (Inner Traditions, Rochester, Vermont, 2005), pp. 29-30.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s