Cristãos e Muçulmanos: Atitudes Cristãs em relação ao Islã (9)

CRISTÃOS E MUÇULMANOS: O QUE ELES DIZEM UNS DOS OUTROS?

Introdução

1) Atitudes 2) A Importância da Ortodoxia 3) O Ciclo Descendente

Atitudes cristãs em relação ao Islã

1) Os Evangelhos e os Atos dos Apóstolos    2) A Virgem Maria    3) Papas    4)  Cardeais    5) Bispos católicos    6) Monges católicos    7) Reis e cavaleiros    8)  Cristianismo oriental    9) Protestantes    10) Ministro de Estado    11) Cronistas

Atitudes islâmicas em relação ao Cristianismo

1) Alcorão    2) Mohammed    3) Califas    4) Sufis    5) Sultões e santos    6) Historiadores


9) PROTESTANTES

a) O contato com o Islã por parte de um presbiteriano

O carro com os turistas britânicos ia rápido pela estrada marroquina, lançando poeira sobre os camelos que ao longo dela andavam, os burros que nela trabalhavam e os passivos pedestres. Dentro do carro, o roliço guia bérbere indicava os vários pontos de interesse. O excelente inglês de Mohammed (ele falava várias línguas fluentemente), seus olhos pestanejantes, sua túnica de longas listas, sua adaga numa bainha de prata, seu fez vermelho e seu ar de benevolência faziam dele o mais apropriado bem como o mais pitoresco guia da viagem. Era impossível não gostar dele.

Árvores que transmitiam a sensação de frescor, jardins sombreados, flores de cores brilhantes, paredes brancas – um lugar atraente. “Senhoras e senhores, este é o cassino. Muito bom? É claro que ele é somente para cristãos e hebreus.”

Mais tarde, no almoço, Mohammed, sorridente, recusou-se a servir-se da garrafa de vinho a ele passada por um incoerente inglês. Retribuiu a cortesia, contudo, oferecendo sua própria bebida, uma garrafa de água mineral, gesto que foi rejeitado com uma pilhéria. Mohammed permaneceu impassível.

Ele era, definitivamente, imperturbável. Não lhe surpreendia ver seus passageiros boquiabrirem-se quando um homem se prostrava em oração na calçada – embora ele não desse atenção à pergunta “Por que ele está fazendo isso?”

Mohammed sabia tudo sobre os cristãos. Ele tinha estado na Inglaterra. Com seus próprios olhos ele tinha visto como a religião dos cristãos não impunha freios ao jogo, à bebida e a outras coisas que ele, um muçulmano, não faria. E, portanto, esses turistas, esses cristãos, não o surpreendiam – as mulheres com suas risadas exageradas e roupas imodestas, os homens com sua arrogante ignorância das civilizações não-britânicas. Sua religião tinha pouco para recomendar-se a Mohammed. Não que ele fosse lhes dizer isso: o melhor seria que eles vissem nele o que um muçulmano podia ser.

Faria qualquer diferença argumentar com Mohammed que nem todos os cristãos frequentavam cassinos, bebiam demais ou se comportavam de maneira ignorante ou imprópria? O fato é que em muitos casos, tanto em casa como no estrangeiro, a palavra “cristão” não significa agora tanto “o que pertence ao Cristo” como “o que pertence à civilização ocidental ou segue seu padrão”. Os significados encontrados no dicionário constituem leitura interessante, indo desde “aquele que acredita na religião de Cristo” até “ser humano”. Assim, todo o tipo de coisas são “cristianizadas” – cortes de cabelo, aperitivos, corridas de carros, hotéis de beira de estrada, poodles. O nome de Cristo tornou-se tão integrado na língua inglesa que sua origem se perdeu ou foi esquecida.

Será que algo pode ser feito para restaurar o prestígio do nome pelo qual nós, como membros da Igreja de Cristo, deveríamos ser conhecidos? Podemos resgatá-lo de ser meramente sinônimo de “qualquer cidadão do Ocidente”?

E.B.S., Life and Work, The magazine of the Church of Scotland (Edinburgo), julho de 1964.

b) Arthur J. Arberry (1905-1969)

Professor de Árabe na Universidade de Cambridge, Inglaterra[1]

Ao fazer a presente tentativa de desenvolver o trabalho de meus predecessores, e de produzir algo que pudesse ser aceito como ecoando, por mais fragilmente que fosse, a sublime retórica do Alcorão árabe, tive de me esforçar para estudar os ritmos intrincados e ricamente variados que – além da mensagem em si mesma – constituem a inegável reinvindicação do Alcorão de estar à altura das maiores obras-primas literárias da humanidade. Este traço muito característico – “a sinfonia inimitável”, como a chamou Pickthall, “cujos próprios sons levam os homens às lágrimas e ao êxtase – tem sido quase totalmente ignorado pelos tradutores anteriores.

Todas as versões anteriores do Alcorão, como o próprio texto original, tendo sido escritas como prosa contínua, a natureza rapsódica de sua composição foi em grande parte perdida para o ouvido e a visão; ao mostrar o texto como apresentado aqui, uma fraca impressão pode ser dada de sua dramática e comovente beleza. Chamei minha versão de interpretação, admitindo a reivindicação ortodoxa de que o Alcorão é intraduzível.

Há uma característica de antigo uso que eu deliberadamente retive: é absolutamente necessário, se se quer evitar confusão, marcar a distinção entre a segunda pessoa do singular e a segunda pessoa do plural.

Esta tarefa foi empreendida, não levianamente, e levada à sua conclusão num período de grande aflição pessoal, durante o qual ela confortou e sustentou o escritor de uma maneira pela qual ele será sempre grato.

Peço a Deus que esta interpretação, pobre eco que é de seu glorioso original, possa instruir, agradar e, em algum grau, inspirar aqueles que a lerem.

 * * *

O Professor Arberry era uma autoridade no Sufismo, e descreveu o Cheikh argelino Ahmad al-’Alawî (1869-1934) como alguém “cuja erudição e santidade lembram a época dourada dos místicos medievais”.[2] (Vide item 4.g.)

c) Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)

Aqui vão dois elogios do Islã pelo ilustre poeta.

Spanien

 Herrlich ist der Orient/ ubers Mittelmeer gedrungen./ Nur wer Hafis liebt und kennt,/ weiss was Calderón gesungen.

Espanha

Da forma mais gloriosa / Saltou o Oriente o Mediterrâneo. / Só quem a Hafiz[3] conheceu e amou / entende o que Calderón[4] cantou.

Allheit

Gottes is der Orient! / Gottes is der Okzident! / Nord- und sudliches Gelände / ruht im Frieden seiner Hände. / Er, der einzige Gerechte, / will fur jedermann das Rechte. / Sei von seinen hundert Namen / Dieser hochgelobet! Amen.

Universalidade

Deus é do Oriente! / Deus é do Ocidente! / Terras do Norte e do Sul / estão na Paz de suas Mãos. / Ele que é o único Justo / Quer justiça para cada um. / De todos os Seus cem nomes, / que este seja altamente louvado! Amém.

(do Westöstlicher Diwan)

 

[1]. Extratos do prefácio de The Koran Interpreted (1955), uma tradução do Alcorão.

[2]. Luzac’s Oriental List, outubro-dezembro de 1961.

[3]. Mohammed Shams ad-Dîn (m. 1389), mais conhecido como Hâfiz, foi o maior poeta lírico da Pérsia.

[4]. Pedro Calderón de la Barca (1600-1681), dramaturgo espanhol, autor de La Vida es Sueño.

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