Cristãos e Muçulmanos: Atitudes Islâmicas em relação ao Cristianismo (3 e 4)

CRISTÃOS E MUÇULMANOS: O QUE ELES DIZEM UNS DOS OUTROS?

Introdução

1) Atitudes 2) A Importância da Ortodoxia 3) O Ciclo Descendente

Atitudes cristãs em relação ao Islã

1) Os Evangelhos e os Atos dos Apóstolos    2) A Virgem Maria    3) Papas    4)  Cardeais    5) Bispos católicos    6) Monges católicos    7) Reis e cavaleiros    8)  Cristianismo oriental    9) Protestantes    10) Ministro de Estado    11) Cronistas

Atitudes islâmicas em relação ao Cristianismo

1) Alcorão    2) Mohammed    3) Califas    4) Sufis    5) Sultões e santos    6) Historiadores


3) CALIFAS

a) Os Quatro Califas “Bem-Guiados” (khulafâ rashidûn)

Não se ouve nada sobre qualquer tentativa organizada de forçar a aceitação do Islã pela população não-muçulmana, ou sobre qualquer perseguição sistemática para eliminar a religião cristã. Tivessem os primeiros califas escolhido um ou outro desses meios de ação, poderiam ter varrido do mapa o Cristianismo tão facilmente quanto Ferdinando e Isabela expulsaram o Islã da Espanha.

Extraído de The Preaching of Islam: a History of the Propagation of the Muslim Faith, por Thomas W. Arnold (missionário protestante do século XIX), publicado em 1896

b) Califa Omar (581-644)

Segundo dos Quatro Califas Bem-Guiados

Está registrado que, nos primeiros dias do Islã, o Califa Omar recusou um convite do Patriarca Ortodoxo de Jerusalém para que rezasse na igreja do Santo Sepulcro, por temer que, se o fizesse, os muçulmanos, dali em diante, poderiam querer transformá-la numa mesquita.

O Califa Omar viu alguns cristãos leprosos quando passava por Jabiya, na Síria. Ele imediatamente ordenou que lhes fosse dada uma grande soma de dinheiro do fundo de caridade, e que recebessem sua esmola diária, querendo dizer que deveriam ser alimentados sem ser cobrados por isso.

4) SUFIS

O Sufismo é a dimensão interior ou mística do Islã. Os grandes sufis dos primeiros séculos, como Ibn ‘Arabi, Rûmî e Al-Ghazali podem ser comparados com sábios e santos cristãos como Santo Agostinho, São Benedito, São Domingo e São Francisco. As ordens sufis podem ser consideradas análogas às ordens monásticas cristãs, com a exceção de que os sufis não vivem em monastérios, mas no mundo.

a) Ibrahim ibn Adham (falecido em 777)

Ibrahim ibn Adham nasceu em Balkh, no Afeganistão, na primeira metade do século VIII. Ele era um rico príncipe, filho de um dos reis do Coraçone. Um dia, quando estava caçando, ouviu uma voz que lhe falava: “Não foi para isto que foste criado.” Ibrahim se deteve e disse: “Eis que me chega uma advertência vinda do Senhor dos Mundos.” Ali mesmo, largou seu cavalo e trocou suas roupas luxuosas pelas roupas simples de um pastor. Daí em diante, viajou de terra em terra como peregrino. Sua conversão do luxo para a austeridade foi muitas vezes comparada com a história do príncipe Gautama, o Buddha.

Ibrahim Ibh Adham foi um dos primeiros gnósticos ou sufis sapienciais. Ele aprendeu a gnose com um monge cristã chamado Pai Simeão. Eis seu próprio relato:

“Eu aprendi a gnose (ma’rifa) com um monge chamado Pai Simeão. Eu o visitei em sua cela, e lhe perguntei: ‘Pai Simeão, há quanto tempo tens estado nesta tua cela?’ Ele respondeu: ‘Há setenta anos.’ E eu perguntei: ‘De que te alimentas?’ Ele disse: ‘Ó hanifita, o que te leva a fazer tal pergunta?’ Mas respondeu: ‘De um grão-de-bico por noite.’ Eu disse: ‘O que te move, em teu coração, de modo que esse grão-de-bico te é suficiente?’ Ele respondeu: ‘Eles vêm a mim um dia por ano e enfeitam minha cela e andam por ela em procissão, assim fazendo-me reverência; e sempre que meu espírito se cansa da adoração, eu o faço lembrar daquela hora, e suporto os trabalhos de um ano por aquela hora. Suporta, ó hanifita, os trabalhos de uma hora, pela glória da eternidade.’ Então, a gnose desceu e penetrou em meu coração.” (Extraído de Hilyat al-auliyâ [“a Crônica dos Santos”] de Abu Nu’aim al-Isfahânî.)

b) Muhyi ‘d-dîn ibn ‘Arabi (1165-1240)

Muhyi’d-Dîn ibn ‘Arabî nasceu em Múrcia, no sudeste da Espanha, em 1165. É considerado um dos maiores místicos sapienciais ou teosóficos do Islã e se tornou conhecido como Muhyi’d-Dîn (“o Revivificador da Religião”) e como ash-Shaikh al-Akbar (“o Maior dos Cheikhs”). Além de fazer a peregrinação a Meca, Ibn ‘Arabî fez muitas viagens pelo mundo islâmico. Chegou a morar no leste da Turquia, onde recebeu muitas dádivas do sultão de Konya, e mais tarde, foi para Aleppo, na Síria, onde o rei, filho de Saladino, também o recebeu com grandes honras. Ibn ‘Arabî por fim estabeleceu-se em Damasco, onde morreu em 1240, e onde seu túmulo é até hoje venerado.

Ibn ‘Arabî era um escritor prolífico, e é famoso acima de tudo por seus profundos escritos sobre filosofia e metafísica.

As linhas mais famosas de sua poesia inspirada são as seguintes:

“Meu coração tornou-se capaz de todas as formas: ele é um pasto para as gazelazs, um claustro para os monges cristãos, um templo de ídolos, a Caaba do peregrino, as tábuas da Torá e o livro do Alcorão. Eu pratico a religião do Amor. Seja qual for a direção em que avancem suas caravanas, a religião do Amor será minha religião e minha fé.”(Tarjumân al-Ashwâq [“O Intérprete do Amor”], XI, 13-15)

Em seus escritos, Ibn ‘arabî refere-se a Mohammed como “Selo da Profecia” e a Cristo como “Selo da Santidade”. Eis seu comentário a respeito de Cristo:

“O Selo da Santidade, acima do qual não há outro santo, é nosso senhor Jesus. Encontramos vários contemplativos do coração de Jesus… Eu me uni a ele várias vezes em meus êxtases, e por seu ministério me voltei a Deus em minha conversão… Ele me deu o nome de amigo e prescreveu-me a austeridade e a nudez do espírito.” (Al-Futûhât al-Makkîya [“As Revelações Mequenses”], II, 64-65)

 c) Jalâl ad-n mî (1207-1273)

Jalâl ad-Dîn Rûmî nasceu em Balkh, na Pérsia, mas ainda novo partiu dali, acompanhando seu pai, Bahâ’ ad-Dîn Walad, reputado estudioso, que tinha tido uma divergência com os governantes locais. Depois de vários anos vivendo entre uma e outra cidade, a família foi convidada pelo sultão seljúcida de Rûm a se estabelecer em Iconium, hoje Konya, na Turquia. Para mostrar seu respeito por Bahâ’ ad-Dîn, o Sultão foi ao seu encontro quando ele se aproximava de Konya, apeou do cavalo e conduziu pelas rédeas a montaria de Bahâ’ ad-Dîn até o interior da cidade. Rûm (“Roma”) tem esse nome por causa do passado bizantino da região; e é por causa dele que Jalâl ad-Dîn se tornou conhecido como Rûmî, “o homem de Roma”, isto é, do Império Romano do Oriente, ou Bizâncio.

Rûmî é o autor do Mathnâwî (“Pares de Versos de Profundo Sentido Espiritual”), vasta obra de ensinamentos sufis que é considerada o maior tesouro da língua persa. O Mathnâwî é a expressão exterior da realização interior de seu autor, bem como daquela força espiritual que se perpetua até os dias de hoje na ordem de dervixes que Rûmî fundou, e que tem seu centro em Konya.

Os discípulos de Rûmî referiam-se a ele como Maula-nâ (“nosso Mestre”), e a sua ordem é chamada Mevlevi (em árabe, Maulâwi). Além de dervixes (“fuqarâ”, em árabe), Rûmî teve também numerosos discípulos cristãos.

Os membros da ordem Mevlevi são conhecidos como “dervixes dançantes” por usarem a dança e a música como suportes para seu método de realização espiritual. Além da dança e da música empregadas em sua ordem, Rûmî está ligado à música de outra maneira: o canto dos versos do Mathnâwî tornou-se ele próprio uma arte.

É célebre esta declaração de Rûmî:

“Não sou cristão nem judeu, nem parse nem muçulmano. Não sou do leste nem do oeste, nem da terra nem do mar… Pus de lado a dualidade e vi que os dois mundos são um. Eu busco o Um, conheço o Um, vejo o Um, invoco o Um. Ele é o Primeiro, Ele é o Último, Ele é o Exterior, Ele é o Interior.”

d) Al-Ghazâli (1058 – 1111)

Abu Hamîd at-Tusi Al-Ghazâli, místico, teólogo e jurista, nasceu em 1058 em Tus, perto de Meshed, no nordeste do Irã. Sua língua nativa era o persa, mas, ainda muito cedo, estudou o árabe ao ponto de dominar totalmente este idioma. Al-Ghazâli viajou por muitos lugares e ensinou em diversas localidades, mas morreu em sua terra natal de Tus em 1111.

Conhecido na Europa ocidental, durante a Idade Média, pelo nome latino Algazel, e considerado por alguns “o maior muçulmano depois de Mohammed”, Ghazâli combinou a ortodoxia teológica com o misticismo, e a erudição com um profundo entendimento da alma humana.

Ele foi um daqueles muçulmanos que sabiam que os Evangelhos cristãos eram inteiramente válidos. Ele tinha consciência de que eles não tinham sido “alterados”, ao menos no sentido literal entendido por muitos islamitas.

Além disso, apesar da suspeita geral de “encarnacionismo” que há no Islã em relação à doutrina cristã da Trindade, Al-Ghazâli tinha um entendimento profundo dessa doutrina. Este ponto é discutido em detalhe por Louis Massignon em seu artigo “Le Christ dans les Évangiles selon Al-Ghazali”, em La Revue des Études Islamiques, 1932, seção IV.

DamascusabdulKader

e) O Emir Abd Al-Qadir [ou Abd El-Kader] (1808 – 1883)

“Quando pensamos quão poucos homens há realmente religiosos, quão pequeno é o número de defensores e paladinos da verdade – quando vemos pessoas ignorantes imaginando que os princípios do Islã são a rigidez, a severidade, a extravagância e a barbárie – é hora de repetir estas palavras: ‘A paciência é bela, e Deus é a fonte de todo auxílio’ ” (Sabr jamîl, wa ‘Llâhu’l-musta’ân) (Alcorão, capítulo “José”, 12, 18).

Abd Al-Qadir, guerreiro e sufi, nasceu na Argélia e morreu em Damasco. Seu túmulo ficava ao lado do de Muhyi-d’Dîn ibn ‘Arabî, em Damasco, até que, em 1966, seus restos foram devolvidos à sua Argélia natal.

Mulay Arabi ad-Darqawi

f) Mulay ‘Ali ad-Darqâwi

Cheikh marroquino que viveu na primeira metade do século XX

“O texto que Mulay ‘Alî leu para mim em voz alta, e ao qual ele ocasionalmente fazia breves comentários em dialeto marroquino, era uma coleção de profecias, em parte simbólicas e em parte literais, feitas por Mohammed e alguns de seus sucessores imediatos, com relação ao fim do mundo. Mulay ‘Ali tinha sem dúvida escolhido este texto para me mostrar o que Cristo significava para ele. De fato, ela falou da Segunda Vinda como se fosse iminente e, em determinado momento, apontou para si mesmo e disse: ‘Se nosso Senhor ‘Isâ (Jesus) retornasse à terra antes que eu morresse, eu imediatamente me ergueria e o seguiria!’ ” (Extraído de: Titus Burckhardt, Fez, City of Islam, Islamic Texts Society, Cambridge, Inglaterra,1992. p.109.)

al-Alawi

g) Ahmad al-’Alawî (1869-1934) [Cheikh argelino]

O Cheikh Ahmad al-‘Alawî foi o descendente espiritual, no século XX, do Cheikh Abu’l-Hassan ash-Shâdhilî (1196-1258), que fundou uma ordem espiritual ou tarîqa que se tornou conhecida como Shâdhilîta (e, depois, Shâdhilîta-Darqâwîa). O professor A.J. Arberry, que já tivemos oportunidade de mencionar, referiu-se ao Cheikh al-‘Alawî como “alguém cuja erudição e santidade lembram a idade de ouro dos místicos medievais”.[1] A vida e os ensinamentos do Cheikh al-‘Alawî estão relatados com grande riqueza de detalhes no livro A Sufi Saint of the Twentieth Century, de Martin Lings.

Um orientalista francês escreveu sobre ele o seguinte:

“O Cheikh estava sempre sedento de conhecimento de outras religiões. Ele parecia estar muito bem informado em relação às Escrituras cristãs e mesmo em relação à tradição patrística. O Evangelho de São João e as Epístolas de São Paulo, em particular, o atraíam. Sendo um metafísico extremamente sutil e penetrante, ele era capaz de reconciliar a pluralidade com a unidade na concepção Trinitária das três Pessoas numa identidade consubstancial.” (Augustin Berque, Un Mystique moderniste, Revue Africaine, 1936, p.739, citado por M. Lings, A Sufi Saint of the Twentieth Century (Londres, 1971, p. 82.)

Um dos famosos ditos atribuídos ao Cheikh Al-‘Alawî é o seguinte: “A Verdade se derrete como neve nas mãos daquele cuja alma não se derrete como neve nas mãos da Verdade.”

[1] Luzac’s Oriental List, outubro-dezembro, 1961.

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