Cristãos e Muçulmanos: Atitudes Islâmicas em relação ao Cristianismo (5)

CRISTÃOS E MUÇULMANOS: O QUE ELES DIZEM UNS DOS OUTROS?

Introdução

1) Atitudes 2) A Importância da Ortodoxia 3) O Ciclo Descendente

Atitudes cristãs em relação ao Islã

1) Os Evangelhos e os Atos dos Apóstolos    2) A Virgem Maria    3) Papas    4)  Cardeais    5) Bispos católicos    6) Monges católicos    7) Reis e cavaleiros    8)  Cristianismo oriental    9) Protestantes    10) Ministro de Estado    11) Cronistas

Atitudes islâmicas em relação ao Cristianismo

1) Alcorão    2) Mohammed    3) Califas    4) Sufis    5) Sultões e santos    6) Historiadores


5) SULTÕES E SANTOS

a) Abu Walîd: O Santo Muçulmano[1]

A capela principal da Catedral de Toledo tem um detalhe curioso ao qual poucos dão atenção, embora seja provavelmente algo que não se encontra em nenhuma outra igreja cristã do mundo: entre as imagens de santos, bispos e monarcas católicos – defensores da fé –, há uma bela estátua multicolor de um muçulmano, doutor de teologia de sua religião.

Esta catedral não foi iniciada antes de 1227, e a estátua em questão, como toda a estatuária circundante, é posterior a essa data em ao menos um século; mesmo assim, duzentos e cinquenta anos após sua morte, a memória deste santo muçulmano ainda era tão cultuada em Toledo que puseram sua imagem numa das duas mais proeminentes posições, perto do altar principal.

Seu nome era Abu Walîd, e quando a cidade capitulou diante dos cristãos, em 1085, ele era o principal faqîh (doutor da lei islâmica) de Toledo. A aljama (em árabe, al-masjid al-jami’, ou seja, a “mesquita da sexta-feira” ou “mesquita congregacional”) era a antiga e visigótica Categral de Santa Maria, que tinha sido convertida para o uso islâmico quando a cidade caíra diante de Tariq, o Bérbere, em 719, e tinha sido consideravelmente enriquecida durante os três séculos e meio que desde então se haviam passado.

Quando o rei mourisco Yahya rendeu-se a Alfonso VI, fê-lo sob a condição de que os muçulmanos que preferissem permanecer em Toledo pudessem continuar a usar a aljama. Alfonso aceitou essa condição e comprometeu sua honra de monarca em que a cumpriria, como de fato cumpriu. Mas isso causou um profundo descontentamento entre os cristãos. Com que fundamento, alguns deles perguntaram, podia o rei permitir que os muçulmanos os privassem, no coração de sua própria capital, de seu direito à igreja que seus antepassados tinham construído para a Santa Virgem, e que ela mesma tinha consagrado com uma aparição milagrosa? A inscrição ao lado do pilar, citando os Salmos, dizia: “Adoremos no local onde seu pé se pôs.” Quem era o rei para impedi-los de adorar naquele local?

Na primeira ocasião em que Alfonso se ausentou de Toledo, os descontentes do povo, liderados pela rainha Constanza, bem como os do clero, liderados pelo Arcebispo Bernardo, fizeram um acordo secreto quanto ao dia e à hora para o golpe e, no dia 25 de outubro de 1987, entraram à força na aljama, desalojaram os muçulmanos que ali estavam e restauraram a adoração cristão no local, com o próprio Bernardo presidindo-a.

O ressentimento dos muçulmanos por esta quebra de confiança só foi excedido pela indignação do próprio rei quando recebeu a notícia de como seu compromisso solene tinha sido violado; e Alfonso ficou ainda mais furioso por imaginar que os muçulmanos bem poderiam suspeitar que ele estivesse a par da trama. Portanto, marchou o rei de volta a Toledo a toda pressa, com a intenção de punir os autores do ultraje e fazer valer a lei. E as consequências, mesmo para a própria rainha, teriam sido sérias, não tivesse Alfonso sido interceptado, na aldeia de Magán, pelo idoso Abu Walîd e outros notáveis dentre os mouros, os quais tinham vindo ao seu encontro, por iniciativa e acordo próprio, para interceder junto a ele.

Todos mostraram-se agradecidos pelas intenções honoráveis do rei e confiantes de que este as levaria adiante; mas, insistiram, se isso fosse feito, e o rei devolvesse a mesquita para o Islã, o resultado só poderia ser um ódio amargo dos muçulmanos pelos cristãos e a uma permanente inimizade entre os dois povos; portanto, pediram-lhe que não tomasse nenhuma atitude, simplesmente deixasse as coisas ficar como estavam. No entanto, como o senso de honra do rei e o juramento que tinha feito não permitiriam isso, Abu Walîd e seus companheiros liberaram formalmente o rei de seu compromisso e renunciaram oficialmente ao direito de seu povo à aljama.

Esse ato prudente e generoso, lealmente apoiado pela população islâmica, devolveu a Toledo sua catedral preservando a honra de ambas as partes, e daquele dia em diante os mouros de Toledo viveram em perfeita paz e harmonia com seus irmãos cristãos; mesmo hoje, a arquitetura e o artesanato da cidade dão testemunho da feliz irmandade de artistas das duas tradições.

Se Abu Walîd está hoje no Céu com Santo Ildefonso, como tenho certeza de que está, então ele foi canonizado pelas palavras de Nosso Senhor, quando disse: “Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus.” O santo faqîh está hoje em seu nicho da catedral, não como uma simples indicação de cortesia, mas por ter direito a isso, pela graça de Deus.

Abu Walid 2O santo muçulmano Abu Walîd (c. 1086): uma escultura policrômica do século XIII. Esta estátua foi colocada do lado direito do Altar Superior da Catedral de Toledo, na Espanha, dois séculos após a morte de Abu Walîd, e está lá até hoje.

 b) Ibn Ahmar e São Ferdinando (Rei Ferdinando III de Espanha)

Quando Ferdinando III morreu, em 1252, o Sultão Ibn Ahmar, da dinastia Nasrid de Granada,[2] enviou condolências ao seu filho e sucessor Alfonso X (“Alfonso, el Sábio”, que reinou de 1252 a 1284), assim como lhe enviou cem cavaleiros muçulmanos, os quais, com velas acesas, fizeram a vigília junto ao corpo do santo monarca. Ferdinando foi posteriormente canonizado, e seu filho Alfonso foi um dos mais notáveis dos sábios cristãos da Idade Média. (De Spain under the Crescent Moon, de Angus Macnab, Fons Vitae, Louisville, Kentucky, 1999, p.179.)

c) O Sultão do Egito e a Espanha Moura

Visitas de São Francisco de Assis (1182 – 1226)

St. FrancisSão Francisco e o Sultão (antiga miniatura)

É fato bem conhecido que, no começo da quinta Cruzada, São Francisco de Assis, acompanhado de vários de seus irmãos, avançou muito além do território em poder dos cruzados para fazer uma visita ao Sultão Al-Mâlik al-Kamil no Cairo. São Francisco não fez essa viagem como parte da Cruzada – na verdade, ele se opunha às opiniões teológicas mais amplamente adotadas, favoráveis àquele movimento. Seu propósito, para si mesmo e para seus companheiros, era encontrar o povo muçulmano e viver no meio dele como “irmãos menores”. Em seu livro Francis and Islam, o estudioso holandês Jan Hoeberichts escreve: “São Francisco de Assis manifestava uma oposição completa e única à justificação teológica dos métodos violentos da Cristandade.” O Dr. Hoebericths estudou filosofia e teologia em universidades franciscanas na Holanda e na Itália, e é conferencista na área de teologia moral. Ele também passou 28 anos em áreas muçulmanas no subcontinente indiano.

Mary O’Shaughnessy, da Diocese Episcopal de Nova York, baseando-se no trabalho do Dr. Hoebericht, escreve: “A intenção de São Francisco era viver entre aquele povo que era retratado como mau e ‘inimigo de Cristo’. Francisco, contudo, percebeu que o espírito de Deus estava vivo e operante em meio aos muçulmanos; ele admirou seu reconhecimento público e repetido de Deus e seu chamado à oração, e apreciou a profunda reverência que eles mostravam a seu livro sagrado, o Alcorão. Enquanto a maioria dos sacerdotes cristãos daquele época fazia sermões inflamados contra o Islã, Francisco proibiu seus irmãos de tomar parte nessa atividade. Acima de tudo, o que Francisco queria de seus irmãos era que eles simplesmente vivessem com os sarracenos e em meio a eles.”

A visita ao Cairo não foi a única entrada de São Francisco no mundo muçulmano. Logo depois de retornar do Egito para a Itália, ele fez outra longa e árdua viagem, desta vez para a Espanha moura. Não há registro de que tenha encontrado com nenhum bispo ou abade de destaque nem na Espanha cristã (a caminho do sul), nem em meio à população cristã da Espanha muçulmana. Relatos cristãos dizem apenas que o propósito de São Francisco, ao fazer esta viagem, continua um mistério, e passam sob silêncio o que ele pode ter feito enquanto estava entre os muçulmanos. Admitem, contudo, que não há evidências de que ele tenha desenvolvido qualquer atividade evangelizadora.

d) Saladino (1137 – 1193)

Salâh ad-Dîn Yûsuf ibn Ayyûb, conhecido no Ocidente como Saladino, nasceu de uma família curda em Tikrit, no atual Iraque, em 1137. Tornou-se famoso como guerreiro, mas é célebre antes de tudo pela retomada de Jerusalém das mãos dos cruzados, em 1187.

Saladino cresceu em Balbek e em Damasco, na Síria. Já na infância se dedicou a sérios e profundos estudos do Alcorão, da teologia e da poesia árabe, e essa dedicação aos estudos o acompanhou por toda a sua vida, mesmo quando já tinha se tornardo seu destino liderar campanhas militares.

Saladino começou sua carreira miliatar ingressando na equipe de seu tio Asad ad-Dîn Shirkuh, que era o comandante do exército sírio. Shirkuh, acompanhado pelo jovem sobrinho, liderou de 1164 a 1168 uma campanha para obter suserania sobre os então governantes do Egito, xiitas Fatímidas. O esforço guerreiro foi no final bem-sucedido e, em 1169, com a idade de 32 anos, Saladino foi nomeado vizir de Al-Adid, o califa que estava destinado a ser o último califa da dinastia Fatímida. Por volta da mesma época, Saladino tinha se tornado comandante supremo do exército. Quando da morte de Al-Adid, em 1171, Saladino declarou que o califado xiita tinha chegado ao fim e proclamou um retorno ao Islã sunita. Em 1174, já sendo o único governante do Egito, ele se tornou o primeiro califa da dinastia sunita aiúbida. Além do Egito, o império de Saladino incluía a Síria, a Palestina, a maior parte da Arábia e o Iêmen.

Quando os cruzados tomaram Jerusalém em 1099, assassinaram todos os seus habitantes, homens, mulheres e crianças, incluindo os judeus e a numerosa população de cristãos não-católicos; e se vangloriaram de que em partes da cidade o sangue chegava aos joelhos. Quando, após a batalha de Hattin, em 1187, Saladino retomou Jerusalém, ele e suas tropas adentraram a cidade com uma civilidade que contrastava profundamente com as ações sangrentas dos cruzados, oitenta anos antes. Saladino poupou a vida aos vencidos, deu-lhes tempo para partir e permitiu que se fossem com segurança. Afinal, tratava-se de uma cidade santa, e tinha sido capturada pelos muçulmanos numa “guerra santa”. Quando capturou os líderes dos cruzados, Guy de Lusignon e Raynald de Châtillon, poupou a vida do primeiro, mas ordenou que se executasse o segundo porque, algum tempo antes, Châtillon tinha atacado e matado um grupo de peregrinos muçulmanos desarmados que estavam a caminho da Meca. Saladino tratou muito bem todos os católicos, tanto soldados como civis – e ainda melhor os cristãos orientais, que tinham sempre se oposto aos cruzados!

Assim, por tais virtudes cavalheirescas, Saladino, apesar de sua oposição aos poderes cristãos, alcançou uma grande reputação na Europa, sendo muito admirado e mesmo considerado como um modelo de príncipe. O autor francês René Grousset escreve a respeito: “Sua generosidade e sua piedade isenta de fanatismo – aquela flor de liberalidade que tinha sido o modelo de nossos antigos cronistas – granjeou-lhe não menos popularidade entre os cruzados que entre os sarracenos” (The Epic of the Crusaders, Orion Press, 1970). No século XIV já havia um poema épico sobre os seus feitos, e Dante o incluiu entre as almas pagãs virtuosas no Limbo. Sir Walter Scott, em seu romance The Talisman, também o retratou sob uma luz favorável.

O historiador Ismail Abaza escreveu: “Saladino é uma figura romântica em quem é difícil achar muitas falhas. Com efeito, alguns de seus mais ardorosos admiradores foram seus biógrafos cristãos… O que sempre atraiu os europeus a Saladino foi seu senso quase perfeito de um refinado cavalheirismo. Conta-se que os cavaleiros cruzados aprenderam com ele muito sobre o cavalheirismo.”

O mesmo autor ainda escreve: “Em suas batalhas contra os cruzados europeus, Saladino com frequência tinha a ajuda de cristãos orientais, vítimas dos exércitos ocidentais como quaisquer outros nas terras do leste europeu. Os orgulhosos geórgios, por exemplo, preferiam Saladino ao Papa, e o mesmo acontecia com os coptas do Egito.”

O seguinte episódio vale a pena reproduzir: “Em abril de 1191, um bebê de três meses da uma cristã tinha sido roubado do campo francês e vendido no mercado. Os francos a encorajaram a ir ao próprio Saladino expor sua queixa. Ela o fez, e Saladino usou seu próprio dinheiro para comprar a criança de volta. Uma testemunha ocular da cena escreveu o seguinte: ‘Ele deu então a criança à mãe, que, com lágrimas escorrendo pelo rosto, a pegou no colo, apertando-a contra si. As pessoas a observavam e choravam e eu (Ibn Shaddad) estava de pé entre a gente. A mãe amamentou a criança por certo tempo, e então Saladino ordenou que se lhe trouxesse um cavalo e ela retornou ao campo franco’” (de The Rare and Excellent History of Saladin, por Bahâ’u’d-Dîn ibn Shaddad, traduzido por Donald S. Richards, 1981).

Quando de sua morte, Saladino tinha libertado quase toda a Palestina dos exércitos da Inglaterra, da França, da Flandres e da Áustria.

Saladino morreu de uma febre em Damasco em 1193. Quando abriram seu tesouro, descobriram que não havia nele recursos suficientes para pagar seu funeral. Ele tinha doado a maior parte dele em caridade.

e) O Califa de Damasco e São João de Damasco (676 – c. 764)

São João de Damasco, ou São João Damasceno, nasceu em Damasco e teve uma elevada função na corte do califa. Foi lá que ele escreveu e publicou, com aquiescência do califa, seu famoso tratado em defesa das imagens – algo que ele não poderia ter feito se vivesse no Império Bizantino, dado que as imagens tinham sido proibidas pelo Imperador Leão II, que era um iconoclasta. Em relação a isso, o Metropolitano Kalistos Ware coloca as coisas de uma interessante maneira quando se refere à “segurança de sua posição fora do Império” ! Essa não foi a única ocasião em que cristãos se sentiram mais seguros sob autoridades muçulmanas do que sob autoridades cristãs.

 f) O Emir na Turquia e São Gregório Palamas (1296 – 1359)

São Gregório Palamas foi retido pelos turcos por um ano, e durante esse período teve discussões amigáveis com o filho do emir. Em sua mútua amizade, nunca entrou em questão o santo cristão converter-se ao Islã, nem o príncipe muçulmano se converter ao Cristianismo.

Louis9_profilebust g) O governador da Tunísia e São Luís, Rei de França (1214 – 1270)

São Luís, Rei de França, quando estava na Tunísia, teve discussões amigáveis com os círculos governantes, sem que nunca se tivesse pensado numa “conversão” numa direção ou na outra.

h) Rei Mohammed V do Marrocos (1909 – 1961)

Este relato não diz respeito a cristãos, mas a judeus

Durante os anos da Segunda Guerra Mundial, as autoridades francesas de Vichy foram coagidas por seus invasores nazistas a fazer pressão sobre os judeus do Marrocos, que na época estava sob domínio francês.

O Rei Mohammed V do Marrocos resistiu bravamente às sugeridas medidas opressoras, que o governo de Vichy tentou pôr em vigor. “Os judeus são meus súditos”, ele declarou, “e estão sob minha proteção.”

Quando os franceses tentaram introduzir a prática nazista de forçar os judeus a trazer uma estrela amarela, o rei declarou que seria o primeiro a usar tal estrela.

Os esforços do rei em defesa dos judeus do Marrocos foram gratamente reconhecidos por autoridades judaicas após o fim da guerra.

 

[1] Esta foi uma de uma série de conferências radiofônicas, sob o título geral de “Espanha sob o Crescente”, proferidas por Angus Macnab, na década de 1950, para o serviço inglês da Rádio Espanhola e transmitidas para a América do Norte. O episódio em questão também está incluído no livro de Macnab de mesmo título – Spain under the Crescent Moon, Fons Vitae, Louisville, Kentucky, 1999.

[2] Foi Ibn Ahmar que pronunciou as famosas palavras inscritas repetidamente nas paredes da Alhambra: “Não há vencedor a não ser Deus!” (lâ ghâliba illâ ‘Llâh). Ao retornar para casa depois de uma bem-sucedida campanha, o povo de Granada o recebeu com gritos de “Vencedor! Vencedor!”, ao que ele replicou: “Não há vencedor a não ser Deus!” Essa é uma variante do credo islâmico fundamental: “Não há deus a não ser Deus” (lâ ilâha illâ ‘Llâh).

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