Cristãos e Muçulmanos: Atitudes Islâmicas em relação ao Cristianismo (6)

CRISTÃOS E MUÇULMANOS: O QUE ELES DIZEM UNS DOS OUTROS?

Introdução

1) Atitudes 2) A Importância da Ortodoxia 3) O Ciclo Descendente

Atitudes cristãs em relação ao Islã

1) Os Evangelhos e os Atos dos Apóstolos    2) A Virgem Maria    3) Papas    4)  Cardeais    5) Bispos católicos    6) Monges católicos    7) Reis e cavaleiros    8)  Cristianismo oriental    9) Protestantes    10) Ministro de Estado    11) Cronistas

Atitudes islâmicas em relação ao Cristianismo

1) Alcorão    2) Mohammed    3) Califas    4) Sufis    5) Sultões e santos    6) Historiadores


6) HISTORIADORES

a) De Maurische Kunst [1] [Arte Moura], de Ernst Kuhnel (nasc. 1882)

Vemos príncipes muçulmanos e católicos não somente aliados, quando o poder de um perigoso co-religionário tinha de ser dobrado, mas também ajudando uns aos outros generosamente a suprimir desordens e revoltas. O leitor ficará sabendo, sem dúvida para sua surpresa, que, numa das batalhas pelo Califado de Córdoba, em 1010, forças catalãs salvaram a situação, e nesta ocasião três bispos deram suas vidas pelo “Comendador dos Crentes” (amîr al-mu’minîn). Almanzor tinha em seu círculo vários condes que se juntaram a ele com suas tropas, e a presença de guardas cristãos nas cortes da Andaluzia estava longe de ser excepcional. Quando um território inimigo era conquistado, as convicções religiosas da população eram respeitadas o mais possível; lembremos apenas que Almanzor – que normalmente não era demasiado escrupuloso – cuidou, no assalto a Santiago, de proteger contra toda profanação a igreja que continha o túmulo do Apóstolo, e que, em muitos outros casos, califas aproveitaram as oportunidades de manifestar seu respeito pelas coisas sagradas do inimigo. Em circunstâncias similares, os cristãos tinham uma atitude similar: por séculos, o Islã foi respeitado nos territórios reconquistados, e foi somente no século XVI que ele foi sistematicamente perseguido e exterminado, sob instigação de um clero fanático que tinha se tornado por demais poderoso. Durante toda a Idade Média, por outro lado, a tolerância para com a convicção do outro e o respeito pelos sentimentos do inimigo acompanharam as incessantes batalhas entre mouros e cristãos, contribuindo para diminuir grandemente as misérias e os rigores da guerra, e conferindo aos combates um caráter o mais cavalheiresco possível. A despeito do abismo linguístico, o respeito pelo adversário, bem como uma elevada estima por suas virtudes – e, na poesia de ambos os lados, uma compreensão de seus sentimentos – tornou-se um elo comum nacional. Essa poesia dá um testemunho eloquente do amor ou da amizade que frequentemente unia muçulmanos e cristãos por cima de todos os obstáculos.

b) De La Civilisation des Arabes [2] de Gustave Le Bon

A força não teve nenhum papel na propagação do Alcorão, pois os árabes sempre permitiram que aqueles que eles conquistaram mantivessem sua religião… Longe de ser imposto à força, o Alcorão foi difundido somente pela persuasão. Só a persuação pôde induzir povos que, mais tarde, conquistaram os árabes, como os turcos e os mongois, a adotá-lo.

Os exércitos árabes nunca alcançaram a Indonésia, e esse é o país islâmico de maior população em todo o mundo. Foram os comerciantes árabes – e especialmente os sufis entre eles – que converteram a Indonésia e a península malaia ao Islã.

Também vêm à mente os mongois, que varreram tudo o que estava em seu caminho, mas que terminaram adotando a religião do povo que conquistaram.

Na Iugoslávia, foi principalmente a comunidade herética Bogomil que, no período de domínio turco, se converteu ao Islã. Os sérvios se mantiveram ortodoxos e os croatas se mantiveram católicos.

A falsidade da alegação de que o Islã foi difundido pela espada é definitivamente provado pelo fato de que as populações da Grécia e da Espanha (ambas sob domínio muçulmanos por vários séculos) se mantiveram cristãs. A comunidade monástica do Monte Athos, no nordeste da Grécia, floresceu durante o período em que a Grécia estava submetida aos turcos, mas, tão logo os turcos foram expulsos da Grécia, os monges to Monte Athos começaram a ter desgostos com o governo grego nacionalista – e secular.

c) De Muslim Spain,[3] por Duncan Townson

Na Espanha muçulmana, os que se tinham mantido cristãos eram bem tratados, como o eram por todo o Império Islâmico. Tanto os judeus como os muçulmanos eram considerados como “Povo do Livro”, isto é, como pessoas que tinham seus próprios escritos sagrados, o Velho e o Novo Testamentos da Bíblia. Em Córdoba, os cristãos continuaram a adorar na Catedral de São Vicente, embora não pudessem incomodar os muçulmanos com o canto de hinos ou o tocar de sinos.

Os muçulmanos e os cristãos normalmente se davam muito bem juntos, viviam em boa parte uma mesma vida e se vestiam da mesma maneira. Os muçulmanos gostavam de participar de celebrações cristãs e eram visitantes frequentes de monastérios em dias de santos. Mesmo a guerra não os dividia. Os cristãos na Espanha muçulmana eram leais ao emir e lutavam por seu governante muçulmano contra os reis cristãos do norte. Nos tempos de paz, os reis cristãos enviavam seus filhos a aprender boas maneiras na corte de Córdoba. Eles casavam suas filhas com príncipes muçulmanos e essas noivas se tornavam muçulmanas, também.

A língua e a literatura árabe fascinavam os cristãos espanhois, bem como a arquitetura e a ciência islâmicas. Um cristão de Córdoba chamado Álvaro escreveu em 854: “São inumeráveis os cristãos que podem se exprimir em árabe e compor poesia naquela língua com maior arte do que os próprios árabes.”

Uma recreação popular tanto para os ricos como para os pobres era reunir-se para piqueniques ou recepções em jardins. As pessoas em Córdoba tinham uma predileção por esses encontros, e qualquer ocasião era propícia. Casamentos e circuncisões – todos os meninos muçulmanos eram circuncidados – davam lugar a esplêndidas celebrações. Além disso, havia os dias de festa islâmicos e cristãos. Na festa cristã da Epifania, toda a população se juntava às procissões com tochas, que duravam a noite inteira. Havia peregrinações, em dias de santos, a monastérios cristãos onde os monges prodigalizavam uma grande hospitalidade… Os dias de festa eram ocasiões realmente especiais.

d) Extrato de Fez, Cidade do Islã,[4] por Titus Burckhardt (1908 – 1984)

Na Espanha medieval, muçulmanos, cristãos e judeus viviam lado a lado em paz, exceto quando problemas puramente políticos pudessem surgir. Para os governantes mouros, essa era uma situação natural, dado que a tolerância para com judeus e cristãos tem sua raiz na lei islâmica; contudo, os reis cristãos, a quem esta lei não se aplicava, também concediam frequentemente a seus súditos muçulmanos e judeus o mesmo direito. Isso não era de forma nenhuma o resultado de indiferentismo religioso, pois naqueles dias a religião tinha precedência sobre tudo o mais. Parece que foi a experiência que levou a esse respeito mútuo, ao pressentimento de que, por trás das aparências inabituais de outra forma religiosa, podia-se encontrar a mesma Verdade divina, e a uma disposição para deixar a Deus o julgamento nesta matéria. Além disso, apesar dos três sistemas dogmáticos que distinguiam as comunidades entre si, o mundo espiritual em que elas viviam era virtualmente o mesmo: vida e morte, Céu e terra, conhecimento e atividades práticas tinham para um deles o mesmo sentido e o mesmo valor. É significativo que o intercâmbio espiritual entre os mundos islâmico e cristão tenha se rompido subitamente com o racionalismo da Renascença, e que ao mesmo tempo tenha começado a intolerância da monarquia espanhola: os judeus foram convertidos à força ou perseguidos e os mouros, expulsos.

Katharinenkloster_Sinai_BW_2 Mosteiro de Santa Catarina, Sinai, Egito, o mosteiro que contém uma mesquita.

e) Monastério de Santa Catarina, no Monte Sinai

O Monastério de Santa Catarina, localizado aos pés do Monte Sinai (no Egito), onde Moisés recebeu os Dez Mandamentos, foi construído pelo Imperador Justiniano entre 527 e 565. Ele contém a Capela da Sarça Ardente, que foi erguida por determinação de Santa Helena, mão de Constantino I, no local em que Moisés viu a sarça ardente. Diz-se que, séculos antes, Alexandre Magno passou pelo Monte Sinai com seu vasto exército. O Sinai é mencionado tanto na Bíblia quanto no Alcorão, e o local é sagrado tanto para o Cristianismo como para o Islã.

O monastério é de confissão ortodoxa grega. Santa Catarina de Alexandria, cujo nome ele recebeu, foi cruelmente martirizada e, de acordo com a tradição, seus restos mortais foram levados por anjos para a área do Sinai. Por volta do ano 800, os monges do monastério do Sinai os encontraram. O monastério é muito frequentado pelos beduínos nômades que vivem na região, que prestam muitos serviços aos monges. Há uma pequena mesquita, com um minarete, dentro dos muros do monastério.

É fato historicamente registrado que os monges do Monastério de Santa Catarina enviaram uma delegação a Medina em 628, para pedir a Mohammed para estarem sob sua proteção. O pedido foi aceito e uma cópia da carta recebida, aparentemente do próprio Mohammed, está exposta na galeria dos ícones.[5] Ela proclama que os muçulmanos protegerão os monges e, além disso, que os monges estarão isentos de impostos. Assim, quando a península passou para o domínio dos conquistadores árabes, em 641, os monges e seu monastério, desde aquele início do período árabe, continuaram sem ser molestados. Diz uma lenda que Mohammed tinha visitado o monastério em uma de suas primeiras viagens como mercador.

Séculos depois, em 1517, o sultão otomano Selim I tornou-se, para os monges, um novo protetor. As autoridades turcas respeitaram os direitos do monastério e chegaram mesmo a conferir um status especial ao arcebispo, que era também o abade.

A biblioteca do monastério contém um vasto número de antigos códices, bem como muitos manuscritos em hebraico, siríaco, grego, árabe e cóptico. O museu, por sua vez, abriga um número imenso de mosaicos e ícones. Este grande acervo começa com uns poucos ícones que datam de época tão remota quando os séculos V e VI. Estes remanescentes são peças únicas, porque o próprio monastério é único no sentido de que escapou completamente da devastação feita pelos imperadores bizantinos iconoclastas dos séculos VIII e IX. É um paradoxo que a “iconodulia” tenha em várias ocasiões sido preservada graças à suserania de monoteístas semíticos contrários aos ícones.

Há séculos, os beduínos da região frequentam o monastério, ajudando no jardim e na cozinha. Por tais tarefas, eles recebem dos monges trigo e outros alimentos.

O Monastério de Santa Catarina no Monte Sinai é há muito tempo um centro de peregrinação tanto para cristãos como para muçulmanos.

Extraído de The Monastery of St. Catherine, de Dr. Evangelos Papaioannou (publicado pelo Monastério de Santa Catarina [sem data]).

[1] Berlim, 1924.

[2] Paris, 1884.

[3] Cambridge University Press, 1973, pp. 18, 25.

[4] Fez, City of Islam, Islamic Texts Society, Cambridge, England; Fons Vitae, Louisville, Kentucky, 1992, p.151.

[5] Ver também o item 2.c.

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