Cristãos e Muçulmanos: Introdução

CRISTÃOS E MUÇULMANOS: O QUE ELES DIZEM UNS DOS OUTROS?

Introdução

1) Atitudes 2) A Importância da Ortodoxia 3) O Ciclo Descendente

Atitudes cristãs em relação ao Islã

1) Os Evangelhos e os Atos dos Apóstolos    2) A Virgem Maria    3) Papas    4)  Cardeais    5) Bispos católicos    6) Monges católicos    7) Reis e cavaleiros    8)  Cristianismo oriental    9) Protestantes    10) Ministro de Estado    11) Cronistas

Atitudes islâmicas em relação ao Cristianismo

1) Alcorão    2) Mohammed    3) Califas    4) Sufis    5) Sultões e santos    6) Historiadores


1) Atitudes

Os terríveis acontecimentos dos últimos anos[1], com suas consequências também terríveis, levaram o público ocidental a perguntar, mais ou menos pela primeira vez: que tipo de religião é o Islã? As pessoas de boa índole que buscam uma conciliação respondem que o Islã é “uma religião de paz”. Bem, está certo, mas o mesmo se pode dizer de todas as outras religiões, embora não devamos esquecer o que disse Cristo: “Não vim para trazer a paz, mas a espada” – e que um princípio análogo a este também está presente em todas as religiões.

Muito mais importante é o fato de que toda religião afirma ser, acima de tudo, “uma religião da verdade”. Nas palavras de Cristo, é a verdade que “os libertará”. Deste modo, toda religião afirma duplamente ser um veículo da verdade e fornecer um meio de salvação. Não fosse assim, não se trataria de uma religião, mas de uma ideologia fabricada pelo homem, incapaz de salvar qualquer um. A verdade e um meio de salvação são as características que definem uma religião.

O Cristianismo deveria ser bem conhecido das pessoas nascidas e criadas no mundo ocidental – embora já não se possa tomar isso como certo. Quanto ao Islã, ele é caracterizado por aqueles que são chamados de “cinco pilares”. São eles: a fé, a oração, o jejum, a esmola e a peregrinação. A fé (îmân) de que “não há deus a não ser Deus”; a oração (salât) cinco vezes ao dia; o jejum (sawm) durante o mês sagrado do Ramadã; a esmola (zakât) “aos pobres, às viúvas, aos órfãos”; e a peregrinação (hajj) – uma vez na vida, se possível – à “pedra negra” abraâmica da Caaba, na Meca.

Quando nós do Ocidente procuramos determinar qual deveria ser nossa atitude para com o Islã, o melhor que podemos fazer é considerar cuidadosamente as declarações e atitudes das Escrituras e dos porta-vozes (cultos e humildes, antigos e modernos) de ambas as religiões sobre a questão de suas relações mútuas. Mutatis mutandis, os fiéis muçulmanos mostrariam sabedoria se fizessem o mesmo. Só isso poderá nos fornecer o conhecimento fundamental que é indispensável para um entendimento realmente sério e profundo.

Os exemplos aqui apresentados foram selecionados somente a partir da forma tradicional ou pré-moderna da religião ou denominação. A razão para isto é que as formas modernas da religião – que estão hoje em todo lugar – são subjetivas, arbitrárias e flutuantes, e carecem da autoridade e da permanência que são a marca de autenticidade de uma verdadeira religião.

O objetivo desta compilação é pôr à disposição dos homens contemporâneos de boa-fé algumas dessas atitudes e declarações tradicionais do Cristianismo a respeito do Islã, e do Islã a respeito do Cristianismo.

 

2) A Importância da Ortodoxia

O significado do termo “ortodoxia” foi quase totalmente apagado da mente das pessoas. Mais que nunca, a ortodoxia é vista simplesmente como uma forma de intolerância: um grupo de pessoas tentando impor seus pontos de vista aos outros. Nesse sentido, contudo, é útil lembrar o primeiro item do “Caminho Óctuplo” do budismo: “visões corretas” ou “pensamento correto”. É óbvio por que o “pensamento correto” deve gozar de uma posição elevada, pois, tanto lógica como praticamente, tem prioridade sobre o “fazer correto”. E qual é a palavra (derivada do grego) que significa “pensamento correto”? “Ortodoxia”, precisamente.

Para levar a questão mais adiante: 2 + 2 = 4 é ortodoxo; 2 + 2 = 5 é não-ortodoxo. Um tanto simples, mas também válido para níveis muito mais elevados. E outra maneira de ver a questão é a seguinte: mesmo nas circunstâncias de hoje em dia, muitas pessoas ainda mantêm a noção de “pureza moral” e lhe atribuem um alto valor. Ora, a ortodoxia é a “pureza intelectual”, e como tal é um prelúdio indispensável para a graça. Vista dessa maneira — e longe de “dizer aos outros em que acreditar” —, a ortodoxia não é senão uma referência à primazia e prioridade da verdade. A ortodoxia é, de fato, o princípio da verdade que percorre os mitos, símbolos e dogmas, que são a própria linguagem da revelação.

Assim como a moralidade, a ortodoxia pode ser universal (conformidade à verdade em si mesma) ou específica (conformidade às formas de determinada religião). Ela é universal quando declara que Deus é incriado, ou que Deus é absoluto e infinito, e é específica quando afirma que Deus é Trinitário (Cristianismo) ou que Deus assume a forma tríplice de Brahmâ, Vishnu e Xiva (Hinduísmo).

O afastamento da ortodoxia é a heresia, seja intrínseca (o ateísmo ou o deísmo, por exemplo) ou extrínseca (por exemplo, um adepto de uma religião semítica rejeitando as divindades dos panteões hindu e grego).

A ortodoxia é normal, a heresia anormal. Isto permite o emprego de uma metáfora tirada da medicina: o estudo das várias ortodoxias tradicionais diz respeito ao fisiologista religioso, enquanto o estudo das heresias (fosse ele meritório) compete ao patologista religioso.

O filósofo católico inglês Bernard Kelly sabia que o encontro das religiões mundiais era inevitável e, dadas as necessidades específicas de nossa época, ele percebeu que havia aí um lado positivo. Seu desejo era que este encontro pudesse ser, não destrutivo, mas “para a glória maior de Deus”; em outras palavras, não para a perda das almas, mas para sua salvação. Como que prevendo o caos moderno, seu primeiro princípio neste domínio foi o da necessidade, acima de tudo o mais, da ortodoxia – não apenas do lado do Cristianismo, mas também da parte das religiões não-cristãs que, tanto no Oriente com no Ocidente, vinham sendo usurpadas pelo secularismo de um lado e deformadas pelo denominacionalismo ou “fundamentalismo” do outro. Qual o sentido, perguntou, de comparar, digamos, o mormonismo com o Baha’ismo, um Teilhard de Chardin com um Aurobindo, um jesuíta tendencioso com um ayatollah “fundamentalista? Eis como Kelly se expressou:

A confusão é inevitável sempre que culturas baseadas em tradições espirituais profundamente diferentes misturam-se sem proteções rígidas que preservem sua pureza. O cruzado com a cruz brasonada no peito e a tanga e o bastão de Mahatma Gandhi quando visitou a Europa são imagens do tipo de precaução sensata quando se viaja em um território espiritualmente estrangeiro. O viajante moderno com seu chapéu coco e terno listrado está protegido por essa vestimenta contra qualquer falta de seriedade ao discutir negócios. De proteções mais importantes ele não sabe nada. O completo secularismo do mundo ocidental moderno, em todos os lugares aonde chegou sua influência, abriu as comportas para uma confusão que varre para longe os contornos do espírito… As normas tradicionais… fornecem os critérios para a cultura e a civilização. A ortodoxia tradicional é, assim, o pré-requisito de qualquer discurso entre as Tradições.”

 

3) O Ciclo Descendente

Os hindus dizem que um ciclo temporal completo (um Mahâyuga) consiste em quatro yugas, os quais correspondem ao conceito grego das quatro idades: idade de ouro, de prata, de bronze e de ferro. O nome hindu para a Idade de Ferro é Kali-Yuga, que significa literalmente “Idade Sombria”, e os hindus asseveram, não somente que estamos na Kali-Yuga, mas que estamos agora em sua última fase. Qualquer um que esteja consciente do gigantesco declínio moral e social das últimas décadas não terá dúvidas de que essa noção seja plausível. E isto tanto mais quanto a doutrina cristã (e islâmica) a respeito do “final dos tempos” é quase idêntica a este conceito da “última fase” da Kali-Yuga.

Ninguém sabe exatamente quando começou a Kali-Yuga, mas ela certamente inclui todo o período dito “histórico”, de aproximadamente três mil anos. Significativamente, desde o começo ela foi marcada pela presença do mal. Por exemplo, já há muitos séculos, o Budismo foi expulso da India, com horrível crueldade; houve a entrada dos exércitos muçulmanos na India, algo que, ao menos no começo, foi marcado por massacres e pela destruição de templos; houve guerras incessantes em países budistas como o Tibete e o Japão; e houve a pilhagem, os saques e a rapinagem das Cruzadas, de que foram vítimas principalmente os indefesos cristãos não-católicos e judeus shtetl que os cruzados encontraram no caminho para a Terra Santa – onde os muçulmanos, ao contrário, tinham como se defender. Alguns séculos depois, houve a subjugação e a humilhação dos índios nômades das pradarias da América do Norte pelos protestantes e a supressão violenta dos índios da América Central e do Sul pelos católicos.

Durante a Kali-Yuga, tem ocorrido uma série de quedas ou revoluções, cada uma das quais introduziu uma nova e pior fase[2]. Uma queda decisiva foi a Renascença, no século XV, que, tanto intelectual quanto artisticamente, pôs um fim na Idade Média (já dois séculos depois de seu zênite), bem como na civilização cristã integral (a “era das catedrais”, a “era da fé”). Desde então, tem havido uma sucessão de quedas análogas: em seguida à monstruosidade da arte barroca[3] do século XVII, tivemos no século XVIII o “Iluminismo” (sintetizado por Voltaire, Rousseau e pelos enciclopedistas) e, continuando-o, a Revolução Francesa; a seguir, veio a Revolução Industrial e, depois, nos séculos XIX e XX, o nefasto quinteto composto por Darwin, Marx, Freud, Jung[4] e Teilhard de Chardin. Hoje, a influência destes cinco revolucionários pode ser vista e sentida em toda a parte à nossa volta, a de Teilhard de Chardin sendo particularmente manifesta no Concílio Vaticano 2º, ocorrido de 1962 a 1965. Este concílio coincide com a “revolução hippie” dos anos 1960. Com esta última queda, tudo o que pudesse ser reconhecido como “moralidade” começou a desaparecer do domínio público; a moralidade foi substituída pelo “politicamente correto”. E, tendo mencionado os cinco principais revolucionários, é preciso citar também alguns dos principais destruidores nos campos da arte, da arquitetura, da música e da literatura, como Picasso, Le Corbusier, Schoenberg, James Joyce, para não falar de toda uma legião de outros.

Um aspecto particularmente característico da Kali-Yuga – e especialmente de sua “última fase” – é não simplesmente a frequência e a atrocidade da violência e das guerras, mas acima de tudo o fato de que essas guerras em sua maioria tomam a forma do conflito interreligioso.

Contra toda evidência, o humanista secular sustenta que, por meio da “ciência” e da “razão”,[5] a religião no fim desaparecerá. Isso está longe de ser verdade: a religião, a crença em Deus, está profundamente inscrita no coração dos homens; ela não pode ser extinta. Apesar disso, não é difícil ver que a religião também tem um lado negativo, que é o fato de que todas as grandes religiões mundiais estão ancoradas em imensas coletividades religiosas que, para dizer o mínimo, estão sujeitas, numa constante aceleração, à “transformação e decadência”: estas coletividades, e seus autoescolhidos líderes, exploram a religião, distorcem-na e a transformam num “denominacionalismo” superficial e de espírito competitivo. Embora a mensagem eterna presente no coração de cada religião não possa mudar, fica muito claro que ela pode ser esquecida.

A queda acelerada da última fase da Kali-Yuga (o “final dos tempos”) se revela – em turbulenta profusão – nas “quedas” mencionadas acima: o Renascimento, o Iluminismo, a Revolução Francesa, a Revolução Industrial, a era das máquinas (levando no fim à era da tecnologia), o advento de uma legião de “anticristos” nos séculos XIX, XX e XXI (os quais, ao mesmo tempo ou em rápida sucessão, desencadearam um solapamento sem precedentes da fé), a “revolução” hippie e, para rematar tudo, o Concílio Vaticano 2º.[6]

Esta “última fase” da Kali-Yuga é algo que ainda está em nossa lembrança: as duas guerras mundiais, o comunismo, o nazismo, Hiroshima e Nagasaki. Mas ela também está conosco todos os dias: em tempos ainda mais recentes, o “terrorismo” e a “limpeza étnica” brotaram por toda parte; e por fim, seguindo-se ao ataque a Nova York em setembro de 2001 – e à reação fundamentalmente equivocada, quanto a seu alvo, que tal ataque produziu – há o surgimento em escala mundial do que é mal definido como “terrorismo islâmico”. Sim, de fato, é uma “Idade Sombria”. É uma história de ininterrupta escuridão, tanto em termos de impiedade quanto de sofrimento. E uma crença vã, ainda que teimosa, no “progresso” não pode fazer nada para alterá-la.

Trata-se, incontestavelmente, de uma espiral descendente – e aparentemente sem fim. Diante de tal quadro, que consolação, que esperança, poderíamos ter?

Quer as entendamos ou não, podemos, neste contexto, lembrar das palavras de Frithjof Schuon: La miséricorde perce partout (“A misericórdia brota em toda parte”). É possível que seja verdade? Bem, que cada um de nós considere, de forma implacável e objetiva, o que essas palavras podem significar.

Os exemplos seguintes de reconhecimento e respeito mútuo entre duas importantes religiões manifestam de forma poderosa essa “misericórdia que brota em toda parte”. Que eles possam nos ajudar a entender os ameaçadores “sinais dos tempos”, a resistir a eles e, interiormente, escapar deles.

Esta compilação é uma mensagem de esperança e de confiança em Deus.

 (William Stoddart)

[1] O autor se refere aos atentados terroristas de 2001, nos Estados Unidos, e à invasão americana do Iraque, bem como à guerra no Afeganistão.

[2] O Profeta Mohammed disse: “Não virá a vós nenhuma época que não seja seguida por uma pior.”

[3] A fim de que tal juízo não pareça peremptório, que se me permita explicá-lo: a pintura, a arquitetura e a estatuária barroca – em contraste com os estilos romanesco e gótico da Idade Média – indicam com muita clareza que a antiga ciência do simbolismo tinha-se perdido. Na arte barroca, há uma total ausência de profundidade, sutileza e de qualquer consciência do mundo invisível dos arquétipos. À diferença da arte medieval, a arte barroca é superficial, não profunda.

[4] Jung é geralmente visto como um anjo de luz. Seu erro fatal passa despercebido. Jung é totalmente incapaz de distinguir entre a alma e o Espírito (o Intellectus de Eckhart), o que na prática significa a “abolição” do Espírito. De um só golpe, ele abole a capacidade de objetividade e, também, de espiritualidade. O caos e os danos que resultam desse ato de cegueira antiplatônica são incalculáveis. Somos deixados perdidos num reino satânico em que tudo (a verdade, a moralidade, a arte) é relativo.

[5] Estes dois itens foram colocados entre aspas porque o que os humanistas seculares entendem por ciência e razão tem pouco a ver com a scientia e a ratio da filosofia greco-romana e medieval.

[6] Meus comentários severos ao Concílio Vaticano 2º são apresentados aqui sem as necessárias explicações quanto ao que ele realmente foi e em que contexto ele se deu. Para um tratamento completo da matéria, vide The Destruction of the Christian Tradition, de R.P.Coomaraswamy (World Wisdom Books, Bloomington, Indiana, 2006) e, para um resumo, vide Invincible Wisdom, de minha autoria (Sophia Perennis, San Rafael, CA. EUA, 2008), pp. 97-105. (Nota do tradutor: ver em português, de R.P.Coomaraswamy, A Destruição da Tradição Cristã, T.A.Queiroz, São Paulo, 1990, que é um livro diferente do homônimo inglês citado acima, mas cujo terceiro capítulo aborda a mesma questão.)

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