Meditações de Viagem

Frithjof Schuon

Muitas questões surgem para uma pessoa simplesmente porque ela se deixa atrair e aprisionar no domínio em que há questões, em vez de permanecer no domínio da certeza. Se algo a deixa confusa, ela deveria antes de tudo voltar à certeza de que não é este mundo como tal, mas o mundo vindouro, que é importante, e acima de tudo de que Deus é a Realidade; e ela deveria dizer a si mesma: em face desta verdade, que fundamentalmente é a solução para todas as questões, esta ou aquela questão simplesmente não se coloca; basta que ela tenha a Resposta das respostas. E então Deus lhe dará uma luz também para o que é terreno e particular.

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O Profeta disse: “Guardai-vos das suspeitas, pois o diabo quer causar a discórdia entre vós”, ou algo do tipo. Nunca se deve ficar ruminando as coisas, nem que seja porque o ininteligível ou o absurdo faz parte da matéria da qual o mundo é feito. Em face de alguma dificuldade aparentemente insolúvel, há que se dizer a si mesmo: em primeiro lugar, toda coisa, toda ocorrência tem uma causa, quer a conheçamos ou não; o fato de não a conhecermos não deduz nada dela e nada lhe acrescenta. Em segundo lugar: esta causa não faz diferença diante da verdade de que Deus é a Realidade; o que é, é, e o que não é, não é. O ser humano às vezes se deixa vencer pela amargura, porque permitiu que a possibilidade correspondente — a da sobriedade espiritual — fosse totalmente suprimida em seus sonhos e prazeres; mas quem age com  magnanimidade para com seus semelhantes e, ao mesmo tempo, mantém certa frieza em face do mundo – uma espécie de antecipação de toda desilusão, um pré-conhecimento do nada de tudo que é terrestre, uma recusa a sonhar — não será tomado de surpresa por alguma amargura inesperada que surja, e não será espoliado do bem insubstituível do amor. Conhece o homem e conhece a ti mesmo; só Deus é bom.

Muitas vezes me surpreende o quanto a maioria dos homens se perde nos fenômenos, o quanto eles se identificam com seu próprio mundo cotidiano de aparências e quão pouca força de imaginação têm; isso já me surpreendia mesmo quando criança, na medida em que eu era capaz de perceber isso; eu o percebia sem dúvida nenhuma, pois de outra forma não teria me sentido tantas vezes como alguém de fora, não participante,  como se fosse um espectador. Para o homem contemplativo, a experiência de mundos muito diferentes – o Ocidente, o Islã, os Índios americanos — pode e deve ter um significado espiritual particular; as formas se tornam transparentes; elas atuam como suportes, sim, mas não nos confinam mais. O que é distração para um, pode ser para outro um planar.

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O que é distração para um, pode ser para outro concentração, penetração, o caminho para si mesmo. Isso é válido para todos os tratos com as formas. Na minha juventude eu costumava chamar este ponto de vista de “exteriorização com vistas à interiorização”. Em uma palavra: seja o que for que possamos amar, ele dá no sagrado, se o compreendermos corretamente e, por assim dizer, pensarmos até o fim. A quintessência de todos os valores é o sagrado.

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Nós homens não temos uma escala de medição que nos permita saber realmente o que somos; nós não sabemos, quando estamos em algum lugar, quem é que está lá. Mas, quando Deus ressoa em nosso coração, então sabemos que Deus está lá — que Ele está onde nós estamos. Talvez não saibamos se somos bons ou maus, mas sabemos com certeza que Deus é Deus.

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Na vida espiritual, é preciso elevar-se acima de si mesmo; é esse o milagre libertador, do ponto de vista humano. E isso quase ninguém consegue fazer.

Não se surpreender com nada; seria uma perda de tempo. Pois não há nada que possa prejudicar ou pôr em questão essa verdade — a de que Deus é a Realidade. Tudo o mais é indiferente, por mais difícil que nos seja assumir esse ponto de vista.

Nos homens há sempre uma oscilação entre a consciência de ser uma manifestação divina e o mandamento — ou a necessidade — de se submeter a Deus. Há aí muitas confusões, mal-entendidos e presunções: o homem frequentemente pensa que é absolutamente bom, porque em seu gênio ele manifesta algo divino; mas ele esquece que o homem como tal continua sempre sendo homem. O mesmo acontece com as civilizações: são ao mesmo tempo boas e não boas, são duramente atingidas por causa do mal que têm em si, mas sobrevivem ao golpe porque são boas e divinas. César era divino e ainda assim um homem.

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Se uma pessoa soubesse realmente que Deus é Deus, e que somente Deus é Deus, então saberia todo o mais. Assim sendo, toda vez que os malabarismos do mundo deixarem surgir em nós dúvidas sobre isso ou aquilo, devemos nos refugiar na verdade suprema de que Deus é a Realidade. Seria realmente estranho se conhecêssemos e compreendêssemos desde o início todas as possibilidades. No plano dos fenômenos — que é também o plano das trevas e, portanto, da absurdez —, enxergar desde o início, neste plano, através de todos os artifícios de Maya simplesmente não seria humano.

Em primeiro lugar: encontrar nossa alegria em Deus, não no mundo; como consequência: não nos desapontarmos se não a encontrarmos no mundo.

Segundo: submetermo-nos a Deus e julgar o mundo a partir dessa submissão. Não se deixar sangrar até a morte por essa absurdez do mundo e com isso se deixar desviar da submissão a Deus.

Em terceiro lugar: não esquecer que o inimigo maligno suscita absurdidades para nos confundir e nos desviar de Deus. Nossa submissão a Deus não pode depender de nossa compreensão de todos os enigmas; ela é incondicional, depende apenas da Verdade das verdades. A submissão a Deus já era antes do mundo, antes de nós mesmos. Nós não a criamos, nós entramos nela; ela é nosso Ser profundo e eterno.

Nossa confiança em Deus deve nos preservar de desesperar do mundo; ela deve ser mais forte que toda absurdez. Caso contrário, seria como se duvidássemos da Verdade das verdades. Ora, essa Verdade é o nosso verdadeiro ser.

Pura Verdade, puro Ser, pura Interioridade.

No eu, há algo que convida o diabólico. Em outras palavras, no eu — na medida em que Deus não o penetra ativamente — há algo diabólico. Por isso não se pode encontrar um modus vivendi definitivo com Deus com base neste eu vacilante, não se pode, satisfeito com si mesmo, agarrar-se a Deus por um fio. É preciso sempre de novo enxergar através do eu — esse tecido impermanente e absurdo — e, vendo através dele, é preciso superá-lo e assim, em certo sentido, recriá-lo. É preciso estar sempre consciente da relatividade do eu, para não cair numa falsa e instável plenitude existencial.

O eu gostaria de ter uma relação definitiva e totalmente lógica com Deus e com o mundo, mas o mundo não é puramente lógico, e a lógica de Deus — se assim se pode dizer — transcende a lógica do homem e às vezes a rompe.

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Uma viagem não é meramente um deslocamento de um lugar para outro, mas também um deslocamento de si para si mesmo; deste modo, toda viagem é uma peregrinação, toda viagem leva ao escrínio sagrado do Coração. Se uma viagem é ou não um sucesso, depende não tanto de realizarmos isto ou aquilo quanto de nos superarmos e deixarmos para trás uma parte de nosso eu inferior — de superarmos algo que na realidade não é “nós mesmos”.

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Alegramo-nos na expectativa de algo e eis que surge alguém e estraga a nossa alegria. Isso não deveria ser assim, pois Deus está sempre presente, com toda a sua verdade libertadora e toda a sua bondade salvadora, e também com toda a sua beleza que faz feliz. Por trás do véu das coisas, seu puro Ser jaz escondido como um som dourado.

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Se ao menos fosse mais fácil para um homem — mas a maioria das pessoas é incapaz de fazê-lo — sair de si mesmo e ver a si mesmo de fora — um exterior que é na realidade o interior! Então ele estaria em um vasto e prateado silêncio e veria seu eu como algo bem pequeno; como algo sufocante, em ebulição e ruidoso.

O que torna a realização espiritual tão difícil é que o eu é algo de invertido, como se estivesse do lado avesso, como um estranho para a Realidade. No interior dessa inversão, não é tão difícil perseguir reflexos da Realidade, se a aptidão correspondente está presente; mas sair dessa inversão para o ar livre — isso é difícil, humanamente falando.

Há algo de vingativo e autodestrutivo no homem que, uma vez despertado, não quer mais recuar e quer submergir e consumir tudo; há algo de luciferino nessa vingança que por causa de um “sim” ou de um “não” quereria destruir uma vida, como se não houvesse prazer maior do que a sensação da injustiça sofrida. Mas, em certo sentido, só Deus pode ter totalmente razão, e é diante d’Ele, não dos homens, que devemos nos curvar; ou, em outras palavras: se às vezes temos que nos curvar diante dos homens e generosamente fazer concessões — não renunciando à justiça e à verdade, mas superando a ofensa como tal e agindo em termos de amor ao próximo —, isso  é acima de tudo porque o devemos a Deus; porque não somos bons o suficiente para reivindicar integralmente nossos direitos. Não podemos forjar uma divindade da vingança a partir de um direito não reconhecido, uma verdade não reconhecida, e nos vingar do mundo e de nós mesmos e, de fato, da existência em geral e, também, de certa forma, de Deus. Só Deus é bom e, em certo sentido, só a Deus se pode fazer uma injustiça absoluta e total. Perante Deus, o homem tem sempre em si pecado suficiente para, mesmo na injustiça sofrida, poder de certa forma permanecer com a consciência culpada. Um homem pode ter razão, mas no eu já existe algo como uma injustiça. A chave para tudo isso é a muito simples mas imensurável e inesgotável Verdade das verdades, a saber: que não há divindade a não ser o Deus Uno.

Há nos seres humanos avidez e dureza; contra isso a Oração se ergue como uma força que esfria, apaga e ao mesmo tempo é inabalável. Enquanto a avidez é quente e agressiva, a dureza é fria e fechada em si; é egoísmo para com o próximo e indiferença para com Deus. É a tibieza e a palidez do homem mundano, cuja alma se esmigalha em cotidianidades mesquinhas e ruidosas e não tem nenhum calor unificador nem beleza e amor libertadores; uma alma assim não é música, mas tagarelice e estrépito; e esse é o complemento da avidez, que, como fera insaciável, está sempre à espreita de novas vítimas para sua luxúria.

Em seguida vem o mal da preguiça, a negligência diante de Deus e das coisas últimas; e depois, como complemento natural, o mal da pressa, da inquietação, da curiosidade fragmentadora e da tensão constritiva; o homem se deixa arrastar para lá e para cá pelo mundo e nunca alcança o descanso ou o relaxamento, a não ser na preguiça, que não quer saber nada de Deus e da Eternidade e que mata a alma.

A raiz de todo o mal reside no fato de que o homem não quer ir além de si mesmo; e isso vale também para o mal do pensamento pela metade, vago e não contemplativo, para o preconceito e a inconsistência lógica, em suma, para a incapacidade de distinguir o verdadeiro do falso e o essencial do não-essencial. Pensa-se apenas até onde se quer e não além; o eu pensa, mas o pensamento não o ilumina, não sai dele e não exibe o seu nada.

Há também o mal da superficialidade ou exterioridade: a incapacidade de ser, em vez de meramente agir e pensar; a incapacidade de separar-se da forma e do movimento e de apreender o ser; ou, em outras palavras, a insistência no fazer, não no ser; na forma, não no conteúdo. Assim, o homem permanece na divisão, no “eu e o mundo”, longe do recolhimento contemplativo e longe de toda unidade.

Já dissemos acima que o pensamento não sai do eu; agora dizemos que, no homem exterior, o Si mesmo mais interior não se despreende do pensamento, o Ser não se liberta do pensamento.

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Há algo de diabólico na matéria de sonho do mundo, algo demoníaco que nos prepara armadilhas e gostaria de nos fazer cair, ou que gostaria de nos empurrar para o redemoinho da autodestruição. Mas por trás de tudo isso está Deus, que quer testar nossa fé, nossa consistência lógica e nossa integridade, e que não nos nega Sua Graça na medida em que permanecermos abertos a ela. Ele quer nossa vitória sobre nós mesmos, pois nossas almas pertencem somente a Ele.

Mais uma vez: que às vezes devamos renunciar a algo de nosso bom direito para ajudar nosso semelhante, talvez não o devamos absolutamente a nosso semelhante, mas o devemos certamente a Deus.

Deus não quer acima de tudo nosso direito, mas Seu Direito; que o nosso direito fique prejudicado, se o Seu for mais fortemente afirmado. Pois o nosso bom direito só pode realmente ter sentido se for o d’Ele.

É direito de Deus possuir nossas almas, possuí-las completamente, quer com isso soframos injustiças ou não. O direito de Deus é aquele que nos traz, de uma forma ou de outra, a Deus.

Também se pode dizer o seguinte: Deus cuida de nossos direitos; não podemos cuidar de nossos pequenos direitos melhor do que Ele. O homem não pode afirmar seus direitos sem se colocar um pouco no injusto — num ou noutro nível —, enquanto que só Deus está totalmente certo. De resto, um direito humano pode ser um direito divino, a saber, na medida em que a Verdade e a Honra de Deus estejam em jogo. As palavras não são suficientes para descrever tudo isso exaustivamente.

Quando se diz: “Não julgueis para não serdes julgados”, isso não significa que não devamos julgar corretamente as coisas por meio do conhecimento que nos foi dado por Deus, mas meramente que não devemos condenar injustamente com base na paixão. Isso significa, consequentemente: julgue como você mesmo desejaria ser julgado, portanto com base na verdade e com o máximo de indulgência possível. Não digo: com toda a indulgência, porque o amor ao próximo não pode nunca falsificar a verdade. Podemos e devemos ver as circunstâncias atenuantes existentes — portanto que estão na natureza das coisas —, mas, ao contrário, não temos o direito de inventar tais circunstâncias; essa é uma distinção essencial. Há também circunstâncias atenuantes que são tão gerais que não têm nenhum peso; levá-las em consideração seria confundir planos diferentes; ora, a justiça é, acima de tudo, colocar cada coisa em seu devido lugar.

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É natural que o mais perfeito sofra sob o menos perfeito, mas não que ele censure o mundo pela existência da imperfeição; pois o que é, deve ser. Devemos dar a uma tolice seu nome verdadeiro, mas não podemos razoavelmente nos surpreender com a existência de tolos; e, se há tolos, então também deve haver tolices. Além disso, pode acontecer que, por conta de alguma tolice interior nossa, levemos nosso semelhante a também cometer uma; que ele seja tolo na medida em que nós mesmos o sejamos.

Todo o mal deriva em última análise do fato de que os homens se esqueceram do seu ser; eles já não se colocam no puro Ser, não estão mais conscientes dele, mas estão completamente presos em sua ação e são puxados e empurrados pelas coisas de um lado para o outro. Os homens não sabem mais o que é a existência, não sabem que carregam consigo um esqueleto e que estão encerrados em seus cinco sentidos; eles sabem ainda menos o que está no centro de suas almas, a saber, o Reino dos Céus e a Glória de Deus, e que basta passar por um portal para escapar do ruído do eu e do mundo e estar num silêncio dourado.

Repousa no Ser e confia em Deus. Vive interiormente e confia em Deus. Rejubila-te no Ser e no interior e confia em Deus.

Repousa no Ser: não no fazer, não na mudança.

Vive para o Interior, não para o exterior, não nas formas.

Rejubila-te no Ser e no interior: não no fazer e no exterior.

Ou, mais uma vez: a harmonia entre a consciência do Ser e a interioridade é alegria. A expiração simboliza a consciência do Ser, e a inspiração simboliza a interioridade.

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O jogo habitual de pensamentos não é ser, mas fazer e existir, escapar do Ser e separação do Ser; é movimento, não essência. O jogo dos pensamentos não é o mais profundo, não é a consciência pura, não é o testemunho mais interior, não o centro, mas forma e exterioridade, endurecimento e cisão, dualidade e não-consonância.

O jogo de pensamentos é alegria nisto ou naquilo, não alegria no Ser ou no centro, no mais íntimo; é alegria nas coisas, não alegria na Alegria.

Os homens fogem do Ser e do Si; eles velam o Ser puro com a existência e a ação, e o Si mais profundo com o eu e as coisas. Mas, com Deus, trata-se do puro Ser, que reconcilia todos os opostos.

Temos de realizar um equilíbrio entre o finito e o Infinito. Este equilíbrio só pode proceder do Infinito, só pode ser determinado pelo Infinito; o finito, a criatura, não consegue encontrar esse equilíbrio, não tem uma escala de medição para tanto. Pois essas escalas só poderiam vir da Misericórdia.

Há cem anos, algum poeta quebrava a cabeça com algum drama sem valor; em algum lugar do mundo, alguém está sonhando com o sucesso, algum estadista está avidamente absorto em algum projeto pequeno; um monge zen em Quioto varreu ontem o assoalho de tábuas; e hoje, aqui bem perto, um grilo canta na grama. O mundo é insano.

Poder-se-ia objetar que todo ser, todo homem, está completamente fechado em um estreito mundo da experiência, em um livro de imagens, em um sonho. Sim e não, e, em certo sentido: absolutamente não! Conheci homens veneráveis ​​nos quais não se podia perceber nenhum sinal de estarem fechados num mundo de sonhos, nem qualquer sinal de aridez; eles davam a impressão de ter experimentado tudo o que pode ser experimentado e de estarem conscientes de todos os limites possíveis e do Ilimitado.

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O homem interior está eternamente diante de Deus; para ele, não há outras perguntas nem outros enigmas exceto estar diante de Deus e esperar por Deus. Cabe ao homem exterior a abstenção do que é desprovido de sentido, prejudicial e mau — e ao mesmo tempo a realização do significativo, útil e bom — e a confiança em Deus.

O homem exterior vive no múltiplo, o homem interior vive no Um. O homem exterior gostaria de envolver o homem interior em sua dúvida e em sua inquietação, mas o homem interior deve, não obstante, determinar o exterior, incondicionalmente e sem perguntar por quê, de onde e para onde. Pois o interior é a antecipação de todas as respostas e soluções; é a resposta em si; nele não há hesitação, nem ambivalência. O interior faz de tudo o que é exterior uma vitória; ele é feito de tal maneira que tudo que é exterior se lhe torna um caminho para o Centro e para o Uno.

Pois as coisas e os eventos dizem de duas maneiras: assim é o Um, mas infinitamente mais maravilhoso; ou então: uma vez que o mundo é tão prejudicial, volta-te para o Um!

Às vezes, Deus permite que aconteçam coisas que no momento são incompreensíveis, a fim de que elas, de uma maneira ou de outra, se nos tornem um caminho para o interior. O absurdo está presente no tecido do mundo lado a lado com o inteligível; só Deus é o Sentido.

Quanto mais repousamos no puro Ser e participamos do puro Ser, mais a fenda entre o eu e o não-eu é transposta. “Ama o próximo como a ti mesmo”: quer dizer, liga-te ao puro Ser. Também quer dizer: só no interior, no Si, fecha-se a fissura da qual procedem todas as oposições. “O Reino dos Céus está dentro de vós.”

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Isto é essencial na vida espiritual: que nossa atitude em relação ao mundo e ao próximo seja de dar, não de tomar, não uma expectativa. Aquele que não depende do que é agradável também não depende do que é desagradável; aquele que domina um, domina também o outro. A amargura não pode nos surpreender quando já está antecipada em nossa atitude para com o mundo; quando já está lá desde o início, mas em seu devido lugar; quando a bem dizer não é uma amargura, mas apenas uma justa avaliação do limitado e do efêmero; quando é um não-querer-receber, um não-querer-o-prazer, e quando é equilibrada pelo querer-dar e pelo querer-oferecer.

Uma viagem só tem, então, sentido quando é uma viagem rumo a Deus; e, quando é assim, então tudo está bem. Mesmo que não compreendamos o mundo, porque nele bem e mal estão por demais entrelaçados, minuciosamente entretecidos, demasiado ramificados — sabemos que só Deus é bom; e, se buscarmos nosso refúgio em Deus, então Deus nos dará aquele entendimento das coisas que precisamos.

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Em certo sentido, o homem, por causa de sua hipocrisia, está sempre sob risco da parte de Deus, porque ele, homem, pretende acreditar em algo ou saber algo que, em suas ações, ele mesmo desmente; como se surpreender, então, quando Deus, o Indulgente, às vezes mostra a ele, homem, que ele nem acredita no que supostamente acredita nem sabe o que supostamente sabe?

Estar em Deus, para que Ele esteja em nós. Se Deus não está em nós e não age em nós, é porque não estamos em Deus.

E se víssemos todas as belezas do mundo: o que poderíamos encontrar no mundo de mais bonito e mais feliz do que aquilo que já antes encontramos em Deus? E que desapontamento pode ser maior do que aquele que já antes experimentamos na separação de Deus? E também: que direito temos à felicidade no mundo se já não temos de antemão nossa felicidade em Deus?

Entre Deus e o homem há uma espécie de jogo de esconde-esconde, um perder-se-um-ao-outro e um sempre-de-novo-encontrar-se; um jogo entre aparência e realidade. Isso ocorre porque tudo o que é deste mundo é oscilante, porque só Deus é Deus.

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Há dissonâncias na vida que nos são ininteligíveis e insuportáveis porque elas têm o Maligno por autor; precisamente porque vêm do Maligno elas são o que são.

Na confiança em Deus reside um grande mistério ou milagre. Essa é a chave para o florescimento espiritual; interiormente o repouso em Deus, exteriormente a confiança em Deus, a entrega das coisas à Sabedoria e à Bondade Divinas. Pôr nossas preocupações em Suas Mãos e descansar junto a Ele, como uma criança despreocupada. Está tu interiormente junto a Deus, Ele estará exteriormente junto a ti. Neste sentido, o Profeta disse: “Aquele que protege a Deus em seu coração, Deus o protege no mundo.”

Na vida, mesmo que nos refugiemos no que é grande, encontramos sempre de novo a pequenez, e, quando ela nos fere, corremos o risco de responder à pequenez com pequenez: pois esta é sua maneira de atrair o homem para sua estreiteza. Quanto à grandeza, nós a temos somente de Deus e em Deus, pois tudo o que é verdadeiramente grande o é a partir de Deus; somente n’Ele reside nosso refúgio diante da pequenez mortal do mundo e nossa resposta ao que é pequeno. Quando o pequeno ou o vão te atacam, não te tornes tu mesmo pequeno e vão, mas sê grande agradecendo a Deus por essa experiência, que te mostra mais uma vez que as coisas mundanas são pequenas e vãs; e entrega tuas coisas a Deus, sem te atormentares com perguntas.

Não tentes resolver as coisas em seu próprio nível sem sentido; não forces o sem sentido a ter um sentido e não te tornes tu mesmo sem sentido; mas toma as coisas por sua raiz, que reside em ti mesmo; não contendas com o que é pequeno, mas entende por que ele é pequeno e por que está aí e deve estar aí; lembra-te do que é a grandeza e oferece ao teu próximo a grandeza onde puderes; pois todo ser está ligado a Deus e assim tem grandeza em si; a pequenez é apenas uma nuvem escurecedora e um alarido externo.

Na santíssima Verdade e na Oração suprema não há estreiteza nem amargura, mas somente amplidão e uma paz suave e refrescante.

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O mundo como tal não pode nos fazer felizes; por que então permanecemos enraizados no mundo e ficamos zangados com ele por não nos dar o que não possui? Por que brigamos com ele, como se quiséssemos forçá-lo a dar o que não pode dar, precisamente porque ele é o mundo? Há dois modos de morrer: um é a morte natural, que em si não oferece solução, e o outro modo é o fazer nossa morada em Deus, a lembrança perpétua d’Ele, d’Ele que não é deste mundo.

A realização do não-eu não pode se dar sem o eu; faz o eu perfeito por meio do temor e do amor, da atividade e da confiança, e por meio da veracidade; persevera na concentração correta e, sobre esta base, medita no não-eu, na medida em que podes apreendê-lo, e na medida em que to é dado.

O difícil é, da matéria de sonho de que é feito o mundo, uma matéria que é tão imensurável quanto o espaço estrelado, sair para o silêncio dourado. Nessa matéria de sonho, todos os opostos estão contidos, o bem e o mal, o prazer e o sofrimento, o dia e a noite, e ao mesmo tempo ela em si é noite diante do Dia Uno e Eterno.

E esta matéria de sonho não poderia nos fazer mal, ela não seria nada se o eu não existisse — o eu cuja repetição contraditória em inúmeras criaturas vivas é a melhor evidência de que somente o Si possui Realidade e de que somente no Si somos o que somos na Realidade.

O que é difícil para o homem espiritual é que ele tem de viver em dois planos: por um lado, ele tem de reconhecer a matéria de sonho – na qual ele mesmo como eu está entretecido — pelo que ela é e colocá-la, por assim dizer, de lado; e, por outro lado, dentro da matéria de sonho, ele tem que discriminar corretamente entre as coisas, resolver os problemas que precisam ser resolvidos e ser justo com seu semelhante.

O homem oscila, além disso, entre a pretensão espiritual e o direito espiritual; é odioso aventurar-se retoricamente em coisas com as quais não se tem uma conexão real, dada por Deus; ao mesmo tempo, nosso espírito tem direito a tudo o que realmente ele pode compreender, na medida em que ele, de fato, é capaz de apreendê-lo e na medida da Divina Providência.

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O eu e o mundo: um necessita do outro. Não apenas o eu necessita do mundo como conteúdo e matéria nutritiva, mas também o mundo não pode surgir sem o seu complemento, pois ele quer ser experimentado e é insaciável em seu desejo de ser experimentado; faz parte de sua natureza fazer tudo que pode para manter aceso o fogo do eu; ou, visto de outra forma: para manter o gelo do eu em sua frieza e dureza; em suma, para evitar que escapemos do seu jogo. E é por isso que não devemos nos surpreender com nada com que o cosmo queira nos iludir.

Ao mesmo tempo, o “mundo” feito de matéria de sonho já está, de certo modo, desfeito por dentro, pois todas as suas imagens que nos vinculam a ele dão testemunho d’Aquilo que ele não é e que é infinitamente mais do que ele; Aquilo que ele gostaria de esconder e ainda assim deve revelar, caso contrário ele não teria existência.

Há apenas um Ser; há apenas uma Testemunha, um Espectador; e há apenas uma Alegria, que repousa em si mesma e, ao mesmo tempo, em uma profusão de doação de Si, derrama-se em mil formas e movimentos.

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Extratos de um diário escrito por Frithjof Schuon durante viagem à América do Norte, em 1963. Originalmente publicado em Studies in Comparative Religion (vol. 12, nºs  1 e 2, winter-spring, 1978).

Tradução da versão inglesa por Mateus Soares de Azevedo. Revisão da tradução com base no original alemão por Alberto V. Queiroz.

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