Um carta de Frithjof Schuon sobre a poesia

Apresentamos hoje um extrato de uma longa carta de Frithjof Schuon sobre a poesia escrita em 12 de janeiro de 1971. O mestre, como sempre, vai à essência do tema.

*

A poesia é a “linguagem dos deuses”; e “noblesse oblige“; quero dizer com isso que o poeta tem certas responsabilidades. Na poesia, a musicalidade das coisas, ou sua essencialidade cósmica, irrompe no plano da linguagem; e esse processo exige a grandeza, portanto também a autenticidade, da imagem e do sentimento. O poeta tem espontaneamente a intuição da musicalidade subjacente dos fenômenos; sob a pressão de uma imagem ou de uma emoção — esta combinando-se, aliás, naturalmente, com imagens concordantes —, o poeta exprime uma beleza arquetípica; sem essa pressão, não há poesia, o que implica que a verdadeira poesia tem sempre um aspecto de necessidade interior, de onde seu perfume insubstituível. São necessárias, portanto, a grandeza subjetiva e objetiva do ponto de partida ou do conteúdo e, então, a musicalidade profunda da alma e da linguagem; ora, a da linguagem deve ser tirada dos recursos desta, o que constitui a arte formal da poesia. Dante não tinha somente grandeza, ele também sabia, por um lado, infundir essa grandeza na linguagem e, por outro lado, manejar a linguagem de forma a torná-la adequada a sua visão interior. Quando Shakespeare descreve, num tom de canto popular, uma situação qualquer, ele consegue as mais das vezes apresentar-lhe a quintessência e remeter assim as aparências a sua musicalidade cósmica, de onde um sentimento de liberação característico de toda verdadeira poesia.

(…)

Em geral, sou hostil à poesia, porque quase ninguém a sabe fazer — fazendo-se abstração, aqui, dos motivos espirituais — e também porque a maior parte dos verdadeiros poetas se deixa enganar por seu talento e se perde na prolixidade, em vez de deixar a musa atuar, musa que por vezes é muito parcimoniosa. Ora, deixar a musa atuar não é dizer pouco! Isso implica que haja uma pressão interior que não tolera nenhuma hesitação nem nenhuma tagarelice, e essa pressão deve ser função de alguma ordem de grandeza; de onde a “cristalinidade musical” da poesia, a força convincente de sua necessidade interior. Não há beleza sem grandeza; essas duas qualidades devem estar tanto na alma do poeta quanto na forma que ele sabe dar à linguagem. Gema de perfeição e vibração de infinitude!

*

[Frithjof Schuon, Vers l’Essentiel – Lettres d’un Maître spirituel, Edition Les Sept Flèches, Lausanne, Suíça, 2013, pp. 109 e 110.]

Um novo website em espanhol sobre a Filosofia Perene

Sophia Perennis

Iniciou-se em espanhol um excelente website sobre a Filosofia Perene, intitulado Sophia Perennis. Com ensaios de Schuon, Titus Burckhardt e outros autores perenialistas, é uma ótima uma opção para os leitores brasileiros e portugueses que se interessam pelo Verdadeiro, pelo Bom e pelo Belo.

O endereço é este: https://sites.google.com/site/sofiaperenne/

Desejamos a todos boas leituras, boas reflexões.

Martin Lings fala sobre René Guénon

Republicamos aqui um texto publicado no website Sabedoria Perene. Trata-se de um “Tributo a René Guénon” feito por Martin Lings. Ele começa assim:

No que diz respeito ao início da vida de René Guénon o nosso conhecimento é muito limitado devido à sua extrema reticência. A sua objectividade, a qual é um aspecto da sua grandeza, fê-lo compreender os males do subjectivismo e individualismo no mundo moderno, o que o impeliu, talvez em demasia, na direcção oposta; evitando de todas as formas falar sobre si próprio. Desde a sua morte, têm sido escritos livros atrás de livros e os seus autores têm, sem dúvida, sentido uma enorme frustração por serem incapazes de descobrir diversas coisas e, em resultado, livros atrás de livros contêm erros factuais.

Continue a ler clicando aqui.

René Guénon: Definições

Há neste website, também, um belo ensaio de Frithjof Schuon sobre a obra de Guénon.

Ele começa assim:

A definição da obra de René Guénon se apoia em quatro termos: intelectualidade, universalidade, tradição e teoria. A obra é “intelectual”, pois diz respeito ao conhecimento — no sentido profundo e integral desse termo — e o considera em conformidade com sua natureza, ou seja, à luz do Intelecto (…)

Pode-se lê-lo clicando aqui.

A única coisa que conta absolutamente…

Os dois grandes obstáculos da vida terrestre são a exterioridade e a matéria; ou, mais precisamente, a exterioridade desproporcional e a matéria corruptível. A exterioridade é a falta de equilíbrio entre nossa tendência para as coisas exteriores e nossa tendência para o interior, o “reino de Deus”; e a matéria é a substância inferior — inferior com relação a nossa natureza espiritual — na qual estamos aprisionados na terra.

O que se impõe é, não rejeitar o exterior só admitindo o interior, mas realizar um equilíbrio com o interior — uma interioridade espiritual, precisamente — que tire da exterioridade sua tirania ao mesmo tempo dispersante e compressiva e que, ao contrário, nos permita “ver Deus em toda parte”; ou seja, perceber nas coisas os símbolos e os arquétipos, em suma, integrar o exterior no interior e fazer dele um suporte para  interioridade. A beleza, percebida por uma alma espiritualmente interiorizada, é interiorizante; não confundir uma interioridade orgulhosa ou narcisista com a interioridade santa.

E no que diz respeito à matéria: o que se impõe é, não negá-la — se isso fosse possível —, mas subtrair-se a sua tirania sedutora; distinguir nela o que é arquetípico e puro do que é acidental e impuro; tratá-la com nobreza e sobriedade. “Tudo é puro para aquele que é puro.”

* * *

A razão de ser do homem é a consciência que o Si divino tem de Si mesmo, e que deve se reverberar na contingência em virtude da Infinitude do Princípio divino.

Nossa relação com o mundo é algo de condicional, de relativo; nossa relação com o Céu, ao contrário, é algo de incondicional e de imprescritível. A única coisa que conta absolutamente é nossa consciência do Absoluto; todo o resto está nas mãos de Deus.

(Frithjof Schuon, A Transfiguração do Homem, Editora Sapientia, 2009, pp. 67 e 68.)

A religião é “ecologicamente” indispensável ao psiquismo humano

Mais um extrato de nosso mestre, desta vez do livro O Jogo das Máscaras:

A tradição fala a cada homem a linguagem que ele pode compreender, com a condição de que ele de fato a queira escutar; esta reserva é essencial, pois a tradição (…) não pode “ir à falência”; é antes da falência do homem que se deveria falar, pois foi ele que perdeu a intuição do sobrenatural e o senso do sagrado. Foi o homem que se deixou seduzir pelas descobertas e invenções de uma ciência ilegitimamente totalitária; ou seja, uma ciência que não reconhece seus próprios limites e que por este motivo ignora o que os supera. Fascinado tanto pelos fenômenos científicos quanto pelas conclusões errôneas que deles tira, o homem terminou por ser submergido por suas próprias criações; ele não está disposto a se dar conta de que uma mensagem tradicional se situa num plano totalmente diferente, nem de quão mais real é esse plano. Os homens se permitem deslumbrar-se tanto mais facilmente quanto o cientismo lhes dá todas as desculpas que eles querem para justificar seu apego ao mundo das aparências e, por consequência, também sua fuga diante de toda presença do Absoluto.

O humanismo espinozista, deísta, kantiano e franco-maçônico queria realizar um homem perfeito fora das verdades que dão ao fenômeno humano todo o seu sentido. Como era preciso substituir um Deus por outro, esse falso idealismo deu lugar ao abuso de inteligência característico do século XIX, particularmente ao cientismo e, com ele, ao industrialismo; este devendo, por sua vez, trazer consigo uma nova ideologia, também ela ao mesmo tempo achatada e explosiva, a saber, esse humanismo paradoxalmente inumano que é o marxismo. A contradição interna deste último é que ele quer construir uma humanidade perfeita destruindo o homem; ou seja, os ateus militantes, mais passionais do que realistas, querem ignorar que a religião é, por assim dizer, uma questão de ecologia. Admitindo que a religião comporta um elemento de “ópio” – não somente “para o povo” –, este elemento é “ecologicamente” indispensável para o psiquismo humano; de qualquer modo, sua ausência traz consigo abusos incomparavelmente mais graves do que o faz sua presença, pois vale mais ter bons sonhos do que ter pesadelos. Seja como for, só a religião, ou a espiritualidade, oferece esta significação integral, e esta felicidade ancorada na natureza deiforme do homem, sem as quais a vida não é nem inteligível, nem digna de ser vivida.

Um poema-conselho de Frithjof Schuon

O que pode fazer uma pessoa, se ela quer salvar sua alma,
mas não conhece nem via, nem método;
Ou se, por uma ou outra razão,
ela se separa das escolas conhecidas?

Se ela não pode fazer outra coisa — eu aconselharia:
recita sem cessar um verso dos Salmos
e faz o que é bom, evita o que é proibido —
tu te salvarás, podes confiar.

Em nossa atitude não deve nunca haver orgulho;
Caminha em Deus, se queres caminhar só.
Não é pecado, viver à margem do mundo —
Em todos os tempos houve eremitas.

* * *

No original alemão:

Was kann man tun, wenn man will selig werden
Doch keinen Weg, keine Methode kennt;
Oder sich von den allbekannten Schulen
Aus diesem oder jenem Grunde trennt?

Wenn man nicht anders kann — ich würde raten:
Sage ein Psalmwort ohne Unterlass,
Und tu das Gute, meide das Verbotne —
Du wirst dich retten, darauf ist Verlass.

Hochmut darf nie in unsrer Haltung sein;
Gehe in Gott, wenn du willst gehn allein.
Es ist nicht Sünd, am Rand der Welt zu leben —
Einsiedler hat es jederzeit gegeben.

 

(Frithjof Schuon, Das Weltrad / La roue cosmique VI, VII,Sinngedichte / Poésies didactiques Band/Volume 10, Editions Les Sept Flèches, Sottens, Suisse, 2010.)

* * *

Uma nota de tradução: uma tradução literal de “wenn man will selig werden” seria “se se quer se tornar abençoado” ou “…bem-aventurado”; contudo, o termo “selig” é usado de forma idiomática para significar o encontro com Deus na hora da morte ou “salvar a alma”; foi esta última acepção que o excelente tradutor do francês usou, e seguimos sua escolha.

De fato, consultando o The Oxford Duden German Dictionary, edição de 1994, vemos as seguintes traduções (aqui damos a tradução em português do sentido dado em inglês):

selig: 1. Adj. a) (Rel.) abençoado; bis an sein seliges Ende até o dia de sua morte; Gott hab’ ihn selig: que sua alma descanse em Deus.

(Foto: Frithjof Schuon nos alpes suíços nos anos 1960.)

O bom e o belo são verdades

“Segundo uma lógica inicial e sintética, diremos que a inteligência visa ao verdadeiro, a vontade, ao bom, e o amor, ao belo. Mas, para fazer frente a certas objeções, é-nos necessário especificar que a inteligência é feita para conhecer todo o cognoscível e que ela tem também por objeto o bom e o belo, não somente o verdadeiro; da mesma forma, a vontade visa a tudo o que merece ser querido, portanto também ao belo e ao verdadeiro; e o amor, por sua vez, visa a tudo o que é amável, portanto também ao verdadeiro e ao bom. Dito de outro modo: do ponto de vista da inteligência, o bom e o belo são, evidentemente, verdades ou, digamos, realidades; do ponto de vista da vontade, a verdade e a beleza são bens; e, do ponto de vista do amor, a verdade e o bem têm sua beleza, o que é bem mais do que uma maneira de dizer.”

Frithjof Schuon, Le Jeu des Masques, L’Âge d’Homme, Lausanne, 1992, p. 20.