As verdades irrefutáveis das imagens

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A ingenuidade de certos conceitos que na prática são dogmáticos se explica, por um lado, pelo simbolismo natural das coisas e, por outro, por uma sábia preocupação de proteção; pois, se a verdade tem por função, no fim das contas, divinizar o homem, ela não poderia ter ao mesmo tempo a função de desumanizá-lo. Por exemplo, ela não poder ter o objetivo de nos levar a entrar nos horrores do infinitamente grande, nem nos do infinitamente pequeno, como quer a ciência moderna; para chegar a Deus, temos o direito de permanecermos crianças, e a bem dizer não temos escolha, dados os limites de nossa natureza. Continuar lendo

Uma ambiência que evoque nossa origem celeste

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A vocação sine qua non do homem é a de ser espiritual. A espiritualidade se exerce nos planos que constituem o homem, a saber, a inteligência, a vontade, a afetividade, a produção: a inteligência humana é capaz de transcendência, de absoluto, de objetividade; a vontade humana é capaz de liberdade, portanto de conformação ao que a inteligência apreende; a afetividade humana, que se une a cada uma das faculdades precedentes, é capaz de compaixão e de generosidade, pelo fato da objetividade do espírito humano, a qual faz a alma sair do egoísmo animal. Continuar lendo

“Nossa identidade profunda é nossa relação com Deus…”

Swami Ramdas

Nossa identidade profunda é nossa relação com Deus; nossa máscara é a forma que devemos assumir no mundo das formas, do espaço, do tempo. Nossa ambiência, assim como nossa personalidade, é forçosamente do domínio do particular, não do Universal; do ser possível, não do Ser necessário; do bem relativo, não do Sumo Bem. Portanto, não há que se perturbar por viver em certa ambiência e não em outra; e também não há que se perturbar por ser certo indivíduo e não outro. Sendo uma pessoa — sob pena de inexistência —, só se pode ser uma pessoa particular, ou seja, “tal ou qual pessoa” e não “a pessoa como tal”; esta só se situa no mundo das Ideias divinas, e “tal pessoa” é-lhe um reflexo na contingência.

O que é fundamental é manter, a partir do ser possível, o contato com o Ser necessário; com o Sumo Bem, que é a essência de nossos valores relativos, e cuja natureza misericordiosa inclui o desejo de nos salvar de nós mesmos; de nos libertar fazendo-nos participar de seu mistério ao mesmo tempo imutável e pleno de vida.

Frithjof Schuon, Le Jeu des Masques, L’Age d’Homme, Lausanne, 1992, pp 54-55.

(Foto: Swami Ramdas, 1884-1963)

Majestade aquilina e solar

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A fascinante combinação de heroicidade combativa e estoica e de estilo sacerdotal conferia ao Índio das Planícies e da Florestas** uma espécie de majestade ao mesmo tempo aquilina e solar, de onde essa beleza fortemente original e insubstituível que se liga ao pele-vermelha e contribui para seu prestígio de guerreiro e de mártir. Como os japoneses dos tempos dos samurais, o pele-vermelha era profundamente artista em sua própria manifestação pessoal: além do fato de que sua vida era um jogo perpétuo com o sofrimento e com a morte e, por esse fato, um tipo de karma-yoga cavaleiresco, ele sabia dar a esse estilo espiritual um revestimento estético de uma expressividade insuperável.

Um elemento que pode ter dado a impressão de que o índio é um individualista — por princípio e não somente de facto — é a importância crucial que assume para ele o valor moral do homem, o caráter, se se quer, de onde o culto do ato. O ato heroico e silencioso se opõe à palavra vã e prolixa do pusilânime; o amor ao segredo, a reticência em entregar o sagrado em discursos fáceis que o enfraquecem e o dilapidam, se explicam por isso. Todo o caráter do índio se deixa definir, em suma, por estas duas palavras, se tais elipses se permitem: ato e segredo; ato fulgurante, se necessário, e segredo impassível. Como uma rocha, o índio de antigamente repousava em si mesmo, em sua personalidade, para então traduzi-la em ato com a impetuosidade do raio; mas, ao mesmo tempo, ele permanecia humilde diante do Grande Mistério cuja natureza circundante era, para a ele, a mensagem permanente.


*Sitting Bull foi um chefe, guerreiro e medicine-man dos Hunkpapa Sioux. A foto acima foi feita por volta de 1883. (N. do E.)

** Da América do Norte. (N. do E.)

Extraído de “Chamanisme Peau-rouge”, em Regards sur les Mondes Anciens, de Frithjof Schuon, Éditions Traditionnelles, Paris, 1980. [Este livro foi publicado no Brasil com o título O Homem no Universo.]

 

“Respiramos a Presença de Deus…”

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A Presença divina tem, na ordem sensível, dois símbolos ou veículos — ou duas “manifestações naturais” — de primeira importância: o coração em nós, que é nosso centro, e o ar à nossa volta, que nós respiramos. O ar é a manifestação do éter, que tece as formas, e ele é ao mesmo tempo o veículo da luz, a qual, também ela, manifesta o elemento etéreo (1). Quando respiramos, o ar penetra em nós, e — simbolicamente falando — é como se ele introduzisse em nós o éter criador junto com a luz; nós respiramos a Presença universal de Deus. Há também uma relação entre a luz e o frescor, pois as duas sensações são libertadoras; o que no exterior é luz, é, no interior, frescor. Nós respiramos o ar luminoso e fresco, e nossa respiração é uma oração, assim como o batimento de nosso coração; a luminosidade se refere ao Intelecto, e o frescor, ao Ser puro (2). Continuar lendo

Os dois momentos

Santa Bernadette de Lourdes

“Há dois momentos na vida que são tudo, e eles são o momento presente, em que estamos livres para escolher o que queremos ser, e o momento da morte, em que não temos mais nenhuma escolha e em que a decisão cabe a Deus. Ora, se o momento presente é bom, a morte será boa; se estamos agora com Deus — neste presente que se renova sem cessar, mas que continua sendo sempre este momento atual único —, Deus estará conosco no momento de nossa morte. A lembrança de Deus é uma morte na vida; ela será uma vida na morte.”

(Foto: corpo de Santa Bernadette de Lourdes)

Um carta de Frithjof Schuon sobre a poesia

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Apresentamos hoje um extrato de uma longa carta de Frithjof Schuon sobre a poesia escrita em 12 de janeiro de 1971. O mestre, como sempre, vai à essência do tema.

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A poesia é a “linguagem dos deuses”; e “noblesse oblige“; quero dizer com isso que o poeta tem certas responsabilidades. Na poesia, a musicalidade das coisas, ou sua essencialidade cósmica, irrompe no plano da linguagem; e esse processo exige a grandeza, portanto também a autenticidade, da imagem e do sentimento. O poeta tem espontaneamente a intuição da musicalidade subjacente dos fenômenos; sob a pressão de uma imagem ou de uma emoção — esta combinando-se, aliás, naturalmente, com imagens concordantes —, o poeta exprime uma beleza arquetípica; sem essa pressão, não há poesia, o que implica que a verdadeira poesia tem sempre um aspecto de necessidade interior, de onde seu perfume insubstituível. São necessárias, portanto, a grandeza subjetiva e objetiva do ponto de partida ou do conteúdo e, então, a musicalidade profunda da alma e da linguagem; ora, a da linguagem deve ser tirada dos recursos desta, o que constitui a arte formal da poesia. Dante não tinha somente grandeza, ele também sabia, por um lado, infundir essa grandeza na linguagem e, por outro lado, manejar a linguagem de forma a torná-la adequada a sua visão interior. Quando Shakespeare descreve, num tom de canto popular, uma situação qualquer, ele consegue as mais das vezes apresentar-lhe a quintessência e remeter assim as aparências a sua musicalidade cósmica, de onde um sentimento de liberação característico de toda verdadeira poesia.

(…)

Em geral, sou hostil à poesia, porque quase ninguém a sabe fazer — fazendo-se abstração, aqui, dos motivos espirituais — e também porque a maior parte dos verdadeiros poetas se deixa enganar por seu talento e se perde na prolixidade, em vez de deixar a musa atuar, musa que por vezes é muito parcimoniosa. Ora, deixar a musa atuar não é dizer pouco! Isso implica que haja uma pressão interior que não tolera nenhuma hesitação nem nenhuma tagarelice, e essa pressão deve ser função de alguma ordem de grandeza; de onde a “cristalinidade musical” da poesia, a força convincente de sua necessidade interior. Não há beleza sem grandeza; essas duas qualidades devem estar tanto na alma do poeta quanto na forma que ele sabe dar à linguagem. Gema de perfeição e vibração de infinitude!

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[Frithjof Schuon, Vers l’Essentiel – Lettres d’un Maître spirituel, Edition Les Sept Flèches, Lausanne, Suíça, 2013, pp. 109 e 110.]