“Respiramos a Presença de Deus…”

A Presença divina tem, na ordem sensível, dois símbolos ou veículos — ou duas “manifestações naturais” — de primeira importância: o coração em nós, que é nosso centro, e o ar à nossa volta, que nós respiramos. O ar é a manifestação do éter, que tece as formas, e ele é ao mesmo tempo o veículo da luz, a qual, também ela, manifesta o elemento etéreo (1). Quando respiramos, o ar penetra em nós, e — simbolicamente falando — é como se ele introduzisse em nós o éter criador junto com a luz; nós respiramos a Presença universal de Deus. Há também uma relação entre a luz e o frescor, pois as duas sensações são libertadoras; o que no exterior é luz, é, no interior, frescor. Nós respiramos o ar luminoso e fresco, e nossa respiração é uma oração, assim como o batimento de nosso coração; a luminosidade se refere ao Intelecto, e o frescor, ao Ser puro (2). Continuar lendo

Os dois momentos

“Há dois momentos na vida que são tudo, e eles são o momento presente, em que estamos livres para escolher o que queremos ser, e o momento da morte, em que não temos mais nenhuma escolha e em que a decisão cabe a Deus. Ora, se o momento presente é bom, a morte será boa; se estamos agora com Deus — neste presente que se renova sem cessar, mas que continua sendo sempre este momento atual único —, Deus estará conosco no momento de nossa morte. A lembrança de Deus é uma morte na vida; ela será uma vida na morte.”

(Há 21 anos, na data de hoje, Frithjof Schuon deixava este mundo.)

Um carta de Frithjof Schuon sobre a poesia

Apresentamos hoje um extrato de uma longa carta de Frithjof Schuon sobre a poesia escrita em 12 de janeiro de 1971. O mestre, como sempre, vai à essência do tema.

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A poesia é a “linguagem dos deuses”; e “noblesse oblige“; quero dizer com isso que o poeta tem certas responsabilidades. Na poesia, a musicalidade das coisas, ou sua essencialidade cósmica, irrompe no plano da linguagem; e esse processo exige a grandeza, portanto também a autenticidade, da imagem e do sentimento. O poeta tem espontaneamente a intuição da musicalidade subjacente dos fenômenos; sob a pressão de uma imagem ou de uma emoção — esta combinando-se, aliás, naturalmente, com imagens concordantes —, o poeta exprime uma beleza arquetípica; sem essa pressão, não há poesia, o que implica que a verdadeira poesia tem sempre um aspecto de necessidade interior, de onde seu perfume insubstituível. São necessárias, portanto, a grandeza subjetiva e objetiva do ponto de partida ou do conteúdo e, então, a musicalidade profunda da alma e da linguagem; ora, a da linguagem deve ser tirada dos recursos desta, o que constitui a arte formal da poesia. Dante não tinha somente grandeza, ele também sabia, por um lado, infundir essa grandeza na linguagem e, por outro lado, manejar a linguagem de forma a torná-la adequada a sua visão interior. Quando Shakespeare descreve, num tom de canto popular, uma situação qualquer, ele consegue as mais das vezes apresentar-lhe a quintessência e remeter assim as aparências a sua musicalidade cósmica, de onde um sentimento de liberação característico de toda verdadeira poesia.

(…)

Em geral, sou hostil à poesia, porque quase ninguém a sabe fazer — fazendo-se abstração, aqui, dos motivos espirituais — e também porque a maior parte dos verdadeiros poetas se deixa enganar por seu talento e se perde na prolixidade, em vez de deixar a musa atuar, musa que por vezes é muito parcimoniosa. Ora, deixar a musa atuar não é dizer pouco! Isso implica que haja uma pressão interior que não tolera nenhuma hesitação nem nenhuma tagarelice, e essa pressão deve ser função de alguma ordem de grandeza; de onde a “cristalinidade musical” da poesia, a força convincente de sua necessidade interior. Não há beleza sem grandeza; essas duas qualidades devem estar tanto na alma do poeta quanto na forma que ele sabe dar à linguagem. Gema de perfeição e vibração de infinitude!

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[Frithjof Schuon, Vers l’Essentiel – Lettres d’un Maître spirituel, Edition Les Sept Flèches, Lausanne, Suíça, 2013, pp. 109 e 110.]

Um novo website em espanhol sobre a Filosofia Perene

Sophia Perennis

Iniciou-se em espanhol um excelente website sobre a Filosofia Perene, intitulado Sophia Perennis. Com ensaios de Schuon, Titus Burckhardt e outros autores perenialistas, é uma ótima uma opção para os leitores brasileiros e portugueses que se interessam pelo Verdadeiro, pelo Bom e pelo Belo.

O endereço é este: https://sites.google.com/site/sofiaperenne/

Desejamos a todos boas leituras, boas reflexões.

Martin Lings fala sobre René Guénon

Republicamos aqui um texto publicado no website Sabedoria Perene. Trata-se de um “Tributo a René Guénon” feito por Martin Lings. Ele começa assim:

No que diz respeito ao início da vida de René Guénon o nosso conhecimento é muito limitado devido à sua extrema reticência. A sua objectividade, a qual é um aspecto da sua grandeza, fê-lo compreender os males do subjectivismo e individualismo no mundo moderno, o que o impeliu, talvez em demasia, na direcção oposta; evitando de todas as formas falar sobre si próprio. Desde a sua morte, têm sido escritos livros atrás de livros e os seus autores têm, sem dúvida, sentido uma enorme frustração por serem incapazes de descobrir diversas coisas e, em resultado, livros atrás de livros contêm erros factuais.

Continue a ler clicando aqui.

René Guénon: Definições

Há neste website, também, um belo ensaio de Frithjof Schuon sobre a obra de Guénon.

Ele começa assim:

A definição da obra de René Guénon se apoia em quatro termos: intelectualidade, universalidade, tradição e teoria. A obra é “intelectual”, pois diz respeito ao conhecimento — no sentido profundo e integral desse termo — e o considera em conformidade com sua natureza, ou seja, à luz do Intelecto (…)

Pode-se lê-lo clicando aqui.

A única coisa que conta absolutamente…

Os dois grandes obstáculos da vida terrestre são a exterioridade e a matéria; ou, mais precisamente, a exterioridade desproporcional e a matéria corruptível. A exterioridade é a falta de equilíbrio entre nossa tendência para as coisas exteriores e nossa tendência para o interior, o “reino de Deus”; e a matéria é a substância inferior — inferior com relação a nossa natureza espiritual — na qual estamos aprisionados na terra.

O que se impõe é, não rejeitar o exterior só admitindo o interior, mas realizar um equilíbrio com o interior — uma interioridade espiritual, precisamente — que tire da exterioridade sua tirania ao mesmo tempo dispersante e compressiva e que, ao contrário, nos permita “ver Deus em toda parte”; ou seja, perceber nas coisas os símbolos e os arquétipos, em suma, integrar o exterior no interior e fazer dele um suporte para  interioridade. A beleza, percebida por uma alma espiritualmente interiorizada, é interiorizante; não confundir uma interioridade orgulhosa ou narcisista com a interioridade santa.

E no que diz respeito à matéria: o que se impõe é, não negá-la — se isso fosse possível —, mas subtrair-se a sua tirania sedutora; distinguir nela o que é arquetípico e puro do que é acidental e impuro; tratá-la com nobreza e sobriedade. “Tudo é puro para aquele que é puro.”

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A razão de ser do homem é a consciência que o Si divino tem de Si mesmo, e que deve se reverberar na contingência em virtude da Infinitude do Princípio divino.

Nossa relação com o mundo é algo de condicional, de relativo; nossa relação com o Céu, ao contrário, é algo de incondicional e de imprescritível. A única coisa que conta absolutamente é nossa consciência do Absoluto; todo o resto está nas mãos de Deus.

(Frithjof Schuon, A Transfiguração do Homem, Editora Sapientia, 2009, pp. 67 e 68.)

A religião é “ecologicamente” indispensável ao psiquismo humano

Mais um extrato de nosso mestre, desta vez do livro O Jogo das Máscaras:

A tradição fala a cada homem a linguagem que ele pode compreender, com a condição de que ele de fato a queira escutar; esta reserva é essencial, pois a tradição (…) não pode “ir à falência”; é antes da falência do homem que se deveria falar, pois foi ele que perdeu a intuição do sobrenatural e o senso do sagrado. Foi o homem que se deixou seduzir pelas descobertas e invenções de uma ciência ilegitimamente totalitária; ou seja, uma ciência que não reconhece seus próprios limites e que por este motivo ignora o que os supera. Fascinado tanto pelos fenômenos científicos quanto pelas conclusões errôneas que deles tira, o homem terminou por ser submergido por suas próprias criações; ele não está disposto a se dar conta de que uma mensagem tradicional se situa num plano totalmente diferente, nem de quão mais real é esse plano. Os homens se permitem deslumbrar-se tanto mais facilmente quanto o cientismo lhes dá todas as desculpas que eles querem para justificar seu apego ao mundo das aparências e, por consequência, também sua fuga diante de toda presença do Absoluto.

O humanismo espinozista, deísta, kantiano e franco-maçônico queria realizar um homem perfeito fora das verdades que dão ao fenômeno humano todo o seu sentido. Como era preciso substituir um Deus por outro, esse falso idealismo deu lugar ao abuso de inteligência característico do século XIX, particularmente ao cientismo e, com ele, ao industrialismo; este devendo, por sua vez, trazer consigo uma nova ideologia, também ela ao mesmo tempo achatada e explosiva, a saber, esse humanismo paradoxalmente inumano que é o marxismo. A contradição interna deste último é que ele quer construir uma humanidade perfeita destruindo o homem; ou seja, os ateus militantes, mais passionais do que realistas, querem ignorar que a religião é, por assim dizer, uma questão de ecologia. Admitindo que a religião comporta um elemento de “ópio” – não somente “para o povo” –, este elemento é “ecologicamente” indispensável para o psiquismo humano; de qualquer modo, sua ausência traz consigo abusos incomparavelmente mais graves do que o faz sua presença, pois vale mais ter bons sonhos do que ter pesadelos. Seja como for, só a religião, ou a espiritualidade, oferece esta significação integral, e esta felicidade ancorada na natureza deiforme do homem, sem as quais a vida não é nem inteligível, nem digna de ser vivida.