“A injustiça é uma provação, mas a provação não é uma injustiça”

(Notei agora que já tinha publicado esta carta, em julho de 2015. Mas, agora que o fiz, acho válido mantê-la aqui, repetida, dada a sua importância. Ela foi incorporada a um belo  ensaio publicados no livro O Esoterismo como Princípio e como Via, que, infelizmente, tem uma tradução brasileira não muito boa, como também já indiquei neste espaço.)

“A injustiça é uma provação, mas a provação não é uma injustiça. As injustiças vêm dos homens, enquanto que as provações vêm de Deus; aquilo que, da parte dos homens, é injustiça e, por consequência, mal, é provação e destino da parte de Deus. O homem tem o direito ou, eventualmente, o dever de combater um determinado mal, mas ele deve se resignar à provação e aceitar o destino; ou seja, é preciso combinar  as duas atitudes, dado que toda injustiça que sofremos da parte dos homens é ao mesmo tempo uma provação que nos chega da parte de Deus. Continuar lendo

‘Inteligência sem sabedoria’

“O sábio vê as causas nos efeitos e os efeitos nas causas; ele vê Deus em tudo e tudo em Deus. Uma ciência que penetra as profundezas do ‘infinitamente grande’ e do ‘infinitamente pequeno’ no plano físico, mas que nega os outros planos que, no entanto, revelam a razão suficiente da natureza sensível e dela fornecem a chave, é um mal maior que a ignorância pura e simples; é, em suma, uma ‘contraciência’, cujos efeitos últimos não têm como não ser mortais.

“Em outros termos, a ciência moderna é ao mesmo tempo um racionalismo totalitário que ignora a Revelação e o Intelecto e um materialismo totalitário que ignora a relatividade metafísica — e, portanto, a impermanência — da matéria e do mundo; ela ignora que o suprassensível — que está além do espaço e do tempo — é o princípio concreto do mundo, e também que ele está, por consequência, na origem dessa coagulação contingente e cambiante a que chamamos ‘matéria’ (1). A ciência dita ‘exata’ (2) é, na verdade, uma ‘inteligência sem sabedoria’, assim como, inversamente, a filosofia pós-escolástica é uma ‘sabedoria sem inteligência’.

Notas

(1) Interpretações recentes talvez ‘refinem’ a noção de matéria, mas de nenhum modo superam seu nível.

(2) Ela não é realmente ‘exata’, visto que nega coisas que não pode provar em seu terreno e com seus métodos, como se a impossibilidade de provas materiais ou matemáticas fosse prova de inexistência.

Frithjof Schuon, O Homem no Universo, Perspectiva, São Paulo, 2001, pp. 161 e 162. O original deste livro, Regards sur les Mondes Anciens, foi publicado em 1968.

A indiferença

“A indiferença ante a verdade e ante Deus é vizinha do orgulho e não existe sem a hipocrisia; sua aparente doçura é cheia de suficiência e de arrogância; nesse estado de alma, o indivíduo está contente com si mesmo, mesmo se se acusa de pequenas faltas e se mostra modesto, o que não o compromete em nada e, ao contrário, reforça sua ilusão de ser virtuoso. É o critério da indiferença que permite surpreender o ‘homem médio’ como ‘em flagrante delito’, pegar o vício mais dissimulado e mais insidioso por assim dizer pela garganta e provar a cada um sua pobreza e sua miséria; é essa indiferença que é em suma o ‘pecado original’, ou que o manifesta mais geralmente.”

Frithjof Schuon, O Homem no Universo, Perspectiva, São Paulo, 2001, p.70.

Os abusos estão na natureza humana

“Quando se confronta o mundo moderno com as civilizações tradicionais, não se trata simplesmente de buscar em cada lado os bens e os males; como há bem e mal em tudo, trata-se essencialmente de saber de qual lado acha-se o mal menor. Se alguém nos diz que há, fora da tradição, tal ou qual bem, responderemos: sem dúvida, mas é preciso escolher o bem mais importante, e é necessariamente a tradição que o representa; e, se nos dizem que há na tradição tal ou qual mal, responderemos: sem dúvida, mas é preciso escolher o menor mal, e é ainda a tradição que o comporta. É ilógico preferir um mal que comporta alguns bens a um bem que comporta alguns males. Continuar lendo

Só no plano espiritual se encontra a justiça perfeita

“Convém denunciar aqui outro preconceito do espírito moderno e evolucionista, a saber, a exigência de um máximo de ‘liberdade’ para o animal humano, ou, em outros termos, o ideal de uma ausência quase total de coerções para o homem considerado independentemente de seu conteúdo ou de sua qualidade e independentemente, também, de seu fim metafísico; ora, é só a liberdade proporcional a nossa natureza que abre as portas para a Liberdade eterna que trazemos no fundo de nós mesmos, e não a liberdade que larga a fraqueza do homem — sobretudo do homem coletivo — às forças da dissolução e ao suicídio espiritual. Continuar lendo

Um parágrafo sobre os limites da ciência

“A lógica pura e simples é só muito indiretamente uma maneira de conhecer; ela é antes de tudo a arte de combinar dados verdadeiros ou falsos, segundo uma certa necessidade de causalidade e nos limites de uma certa imaginação, de modo que um raciocínio aparentemente impecável pode ser errôneo em função da falsidade de suas premissas; estas dependem, normalmente, não da razão ou da experiência, mas da inteligência pura, e isto na própria medida em que a coisa a conhecer é de uma ordem elevada. Não é a exatidão da ciência que censuramos, longe disso, mas o nível exclusivo dessa exatidão, o qual a torna inadequada e inoperante; o homem pode medir uma distância com seus passos, mas ele não poderia ver com seus pés, se podemos nos exprimir assim. A metafísica e o simbolismo, os únicos a fornecer as chaves decisivas para o conhecimento das realidades suprassensíveis, são na realidade ciência altamente exatas — de uma exatidão que supera em muito a dos fatos físicos —, mas essas ciências escapam à ratio por si mesma e aos métodos que ela inspira de uma forma quase exclusiva.”

Frithjof Schuon, Images de l’Esprit – Shintô, Bouddhisme, Yoga, Le Courrier du Livre, Paris, 1982.

…eles se colocam no lugar daquilo que negam…

“Se o descrente se revolta com a ideia de que todos os seus atos serão pesados, de que será julgado e eventualmente condenado por um Deus que lhe escapa, de que deverá expiar suas faltas e mesmo simplesmente seu pecado de indiferença, é porque ele não tem o sentido do equilíbrio imanente, nem o da majestade da Existência, e do estado humano em particular. Existir não é pouca coisa; a prova é que ninguém poderia tirar do nada um só grão de poeira; e, da mesma forma, a consciência não é pouca coisa: não poderíamos dar nem uma parcela dela a um objeto inanimado. O hiato entre o nada e o menor objeto é absoluto, e é esta, no fundo, a absolutez de Deus. (1) Continuar lendo