Um paradoxo: somos contrários e conformes a Deus

Sem analogia com Deus, não seríamos nada. Thangka tibetano.

Que sejamos conformes a Deus — “feitos à sua imagem” — é certo, sem o que nós não existiríamos. Que sejamos contrários a Deus é também certo, sem o que nós não seríamos diferentes.

Sem analogia com Deus, nós não seríamos nada. Sem oposição a Deus, nós seríamos Deus.

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Ajudar o mundo, mas indo à fonte do Bem

Alexandre Magno ergue muro para conter Gog e Magog. [Ver nota]

Alguns moralistas muito profanos que preferem o homem a Deus, isso quando não substituem Deus pelo homem, espantam-se ou indignam-se com a indiferença que os santos, tanto ocidentais como orientais, por vezes pareceram manifestar em relação às desgraças humanas do mundo em que eles viviam.

Ora, há para essa atitude uma dupla razão: em primeiro lugar, muitas desgraças no corpo de um mundo tradicional devem ser vistas como “males menores”, ou seja, como canais necessários de calamidades em si inevitáveis, mas suscetíveis de serem reduzidas a um mínimo; esse é um ponto de vista que os modernos nunca compreenderam, pois eles nem mesmo sabem que há no cosmo coisas que não poderiam ser evitadas a nenhum custo, e cuja supressão aparente e artificial só engendra reações cósmicas tanto mais “avassaladoras”.

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O caminho para Deus é uma inversão

Budista tibetana, esposa do lama Dzongsar Khyentse Chökyi Lodrö.

O caminho para Deus implica sempre uma inversão: da exterioridade é preciso passar à interioridade, da multiplicidade à unidade, da dispersão à concentração, do egoísmo ao desapego, da paixão à serenidade.

Frithjof Schuon, Pérolas do Peregrino.

A religião essencial dentro de cada religião

Pintura de Schuon.

Rigorosamente falando, há uma só filosofia, a Sophia Perennis; ela é também — considerada em sua integralidade — a única religião. A Sophia tem duas origens possíveis, uma intemporal e uma temporal: a primeira é “vertical” e descontínua, e a segunda, “horizontal” e contínua; dito de outro modo, a primeira é como a chuva que pode descer do céu a todo momento; a segunda é como um ribeiro que brota de uma fonte.

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Um meio de graça pode realmente santificar a alma

Shrî Anandamayi Ma (1896-1982), santa hindu dos tempos recentes.

Há almas que, plena ou suficientemente conformes à vocação humana, entram diretamente no Paraíso: são quer os santos, quer os santificados. No primeiro caso, são as grandes almas iluminadas pelo Sol divino e dispensadoras de raios benfazejos; no segundo caso, são as almas que, não tendo nem defeitos de caráter, nem tendências mundanas, estão livres — ou foram libertadas — de pecados mortais, e santificadas pela ação sobrenatural de meios de graça de que elas fizeram seu viático. Entre os santos e os santificados há sem dúvida possibilidades intermediárias, mas só Deus é juiz de sua posição e de seu nível.

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Só na prece somos perfeitamente nós mesmos

Monge com Bíblia ortodoxa na Igreja de Santa Maria em Axum, Etiópia.

Todas as vezes que o homem se põe diante de Deus com um coração íntegro — ou seja, pobre e sem se inflar —, ele se coloca no solo da certeza absoluta, a de sua salvação condicional, bem como a de Deus. E é por isso que Deus nos deu essa chave sobrenatural que é a prece: a fim de que nós pudéssemos nos colocar diante d’Ele, como no estado primordial, e como sempre e em toda parte; ou como na eternidade.

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A verdade é a essência da beleza

Jovem balinesa. C. 1930.

Assim como há um discernimento das realidades principiais, o qual se impõe a nós porque temos uma inteligência, da mesma forma há um discernimento das realidades formais — tanto morais quanto estéticas —, o qual se impõe porque temos uma alma. Isto quer dizer que a compreensão metafísica deve se acompanhar do senso da beleza em todos os níveis; inversamente, não há interiorização do belo sem um conhecimento metafísico paralelo. “A beleza é o esplendor do verdadeiro”: o que implica que a verdade, portanto a realidade, é a essência da beleza.

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Um vício pode ser substancial ou acidental

Padrões em tapete marroquino. O homem e o universo são feitos de aspectos e tendências.

É possível que um homem tenha um desejo sincero de humildade — portanto de objetividade em relação a si mesmo — e realize em função disto um modo de humildade real, mas que ao mesmo tempo ele não suporte nenhuma humilhação, mesmo merecida ou leve; neste caso, a humildade se acha comprometida em maior ou menor medida por um elemento de orgulho, que se manifestará também por uma certa propensão a humilhar os outros, e isto nem que seja subestimando e interpretando desfavoravelmente algo que poderia ter uma interpretação favorável.

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Amar as virtudes como à luz e ao ar fresco

Dignidade não é orgulho. New Chest, Piegan (foto: Edward Curtis).

Todo homem ama estar à luz e ao ar fresco; ninguém gosta de estar preso numa torre sombria e sem ar; é assim que é preciso amar as virtudes, e é assim que é preciso detestar os vícios. Nenhum homem que pode desfrutar da luz e do ar pensaria em proclamar “o sol sou eu” ou “o céu sou eu”; amamos a ambiência da luz e do ar, e é por isso que entramos nela. É assim que é preciso entrar nas virtudes: porque elas se impõem por sua natureza e porque amamos sua ambiência.

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A natureza virgem é um vestígio do Paraíso terrestre

O Matterhorn, nos Alpes (foto de Liridon, Wikimedia Commons).

No plano exterior e portanto contingente, mas que tem sua importância na ordem humana, a religio perennis está em relação com a natureza virgem e ao mesmo tempo com a nudez primordial, a nudez da criação, do nascimento, da ressurreição, ou a do grande sacerdote no Santo-dos-Santos, a do eremita no deserto, do sadhu ou sanyâsi hindu, a do pele-vermelha em prece silenciosa no alto de uma montanha.

A natureza inviolada é ao mesmo tempo um vestígio do Paraíso terrestre e uma prefiguração do Paraíso celeste; os santuários e os costumes diferem, mas a natureza virgem e o corpo humano permanecem fiéis à unidade primeira.

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O homem primordial é a imagem do Criador

Shrî Ramana Maharshi (1879-1950).

O homem primordial sabia por si mesmo que Deus existe; o homem caído não o sabe, é algo que ele tem que aprender. O homem primordial tinha sempre consciência de Deus; o homem caído, apesar de ter aprendido que Deus existe, deve se forçar a ter sempre consciência dele. O homem primordial amava Deus mais que o mundo; o homem caído ama o mundo mais que Deus, ele deve portanto praticar a renúncia.

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Uma sociedade só é útil se favorece a religião

Shrî Ramakrishna Paramahansa (1836-1886).

Fala-se habitualmente do dever de se fazer útil à sociedade, mas se se omite de levantar a questão de saber se essa sociedade é útil, isto é, se ela realiza a razão de ser do homem e, portanto, de uma comunidade humana; evidentemente, se o indivíduo deve ser útil à coletividade, esta, por sua vez, deve ser útil ao indivíduo. A qualidade humana implica que a coletividade não poderia ser o objetivo e a razão de ser do indivíduo, mas que, ao contrário, é o indivíduo que, em sua posição solitária diante do Absoluto e, portanto, pela prática de sua função mais elevada, é o objetivo e a razão de ser da coletividade.

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Manter certa frieza em face do mundo

Índio norte-americano, em foto de Edward Curtis, 1923.

O Profeta disse: “Guardai-vos das suspeitas, pois o diabo quer causar discórdia entre vós”, ou algo do tipo. Nunca se deve ficar ruminando as coisas, nem que seja porque o ininteligível ou o absurdo faz parte da matéria da qual o mundo é feito. Em face de alguma dificuldade aparentemente insolúvel, há que se dizer a si mesmo: em primeiro lugar, toda coisa, todo acontecimento tem uma causa, quer a conheçamos ou não; o fato de não a conhecermos não deduz nada dela e nada lhe acrescenta. Em segundo lugar: esta causa é indiferente diante da verdade de que Deus é a Realidade; o que é, é, e o que não é, não é.

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Assimilar as mensagens dos mundos tradicionais

Bodhisattva Avalokiteshvara, China, dinastia Song (Museu de Arte Asiática de São Francisco, CA – EUA).

Desde a minha infância, sempre gostei muito dos museus, e pude passar horas assimilando visualmente as mensagens dos diversos mundos tradicionais. A assimilação visual, no meu caso, veio antes da assimilação conceitual; e não penso somente na arte sacra, penso também no artesanato, incluindo o mais modesto, pois acontece de ele veicular tanta espiritualidade quanto a arte sacra propriamente dita.

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