Convém ser prudente ao julgar fenômenos de outros mundos religiosos

(…) cada religião possui uma aura energética — uma barakah — que produz fenômenos em conformidade com a perspectiva da religião considerada: num ambiente sufi, fenômenos miraculosos se produzem — ou são produzidos — que corroboram sobrenaturalmente a perspectiva que descrevemos [no que precede este extrato], a saber, a confiança na Causa divina única, e que encorajam eventualmente que se recorra a atitudes em grande parte irrazoáveis, mas heroicamente piedosas. Muitos fatos desse gênero parecem inverossímeis do ponto de vista cristão, mas é porque o estilo do Cristianismo é outro e produz, por consequência, outros prodígios; além disso, convêm ser prudente ao julgar fenômenos que se situam num mundo religioso que não o nosso, e cuja aparente inverossimilhança só faz ilustrar de uma maneira particularmente concreta a diferença profunda entre os universos tradicionais.

Frithjof Schuon, Approches du Phénomème Religieux, Le Courrier du Livre, Paris, 1984, p. 136.

A sexualidade deve englobar a devoção e a verdade

Krishna Radha

Em ambiente cristão, a sexualidade em si, portanto isolada de todo contexto que a distorça, é carregada facilmente com o opróbrio da “bestialidade”, enquanto que na realidade nada do que é humano é bestial por sua natureza; é por isso que somos homens e não animais. Contudo, para escapar à animalidade da qual participamos é preciso que nossas atitudes sejam integralmente humanas, ou seja, conformes à norma que nos impõe nossa deiformidade; elas devem englobar nossa alma e nosso espírito, ou, em outros termos, a devoção e a verdade. De resto, só é bestial a paixão cega do homem caído, não a sexualidade inocente dos animais; quando o homem se reduz a sua animalidade, ele se torna pior do que os animais, que não traem nenhuma vocação e não violam nenhuma norma.

Frithjof Schuon, L’Ésotérisme comme principe et comme voie, Dervy-Livres, Paris, 1978, p. 126.

O fervor, a Virgem, a luz

A qualidade de fervor é, com efeito, a disposição da alma que incita ao cumprimento do que chamaremos de “dever espiritual”; se este se impõe por uma lei exterior, é porque ele se impõe interiormente e a priori por nossa “natureza sobrenatural”; um hindu diria que é nosso dharma libertar nossa alma, como é o dharma da água correr ou o do fogo, queimar. Essa lei imanente, no Islã, se manifesta sob a forma da “lembrança de Deus” (dhikru ‘Llâh); ora, o Alcorão especifica que é preciso lembrar-se de Deus “muito” (dhikran kathîran) — o Novo Testamento diz “sem se cansar” — e é essa frequência ou essa assiduidade, junto com a sinceridade do ato de oração, que constitui a qualidade de fervor.

[Nota a esta passagem:]

“Ó Maryam, permanece em oração diante de teu Senhor; prosterna-te e inclina-te com aqueles que se inclinam.” (Sura A Família de Imrân, 43.) É nestes termos que o Alcorão apresenta o fervor como fazendo parte da própria substância de Maria, o Mandamento divino sendo, aqui, não uma ordem dada a posteriori, mas uma determinação existencial. A notar que a Virgem Santa é Stella Matutina, o que se liga ao Leste, que, em nosso simbolismo, indica o fervor. À parte esta significação particular, o Leste exprime a vinda da luz, e é assim que a tradição cristã entende o título marial de “Estrela da Manhã”; ora, o fervor é função da luz como esta e o calor, em princípio, formam um par.

(Frithjof Schuon, Approches du Phénomène Religieux, Le Courrier du Livre, Paris, 1984, p. 168.)

A ideia-força do Islã

“A ideia-força do Islã é o conceito da Unidade; este determina não somente a doutrina e a organização da sociedade, mas também toda a vida dos indivíduos e em particular sua piedade, a qual não se deixa, aliás, dissociar dos comportamentos legais deles. Trata-se, não somente de aceitar a ideia de Unidade, mas também de tirar dela todas as consequências que ela implica para o homem; ou seja, é preciso aceitá-la ‘com fé’ e ‘sinceridade’ a fim de se beneficiar da virtude salvadora que ela contém. Isto quer dizer que, em última análise, a ideia de Unidade implica fundamentalmente o mistério da União; assim como, numa ordem de ideias vizinha, a Unicidade implica complementarmente a Totalidade. Quem pode apreender o ponto geométrico pode apreender o espaço inteiro; a unicidade do objeto divino exige a totalidade do sujeito humano.”

[Frithjof Schuon, Approches du Phénomène Religieux, Le Courrier du Livre, Paris, 1984, pp. 161-162]

A beleza também leva a Deus

Mencionamos (…) o isolamento do homem-centro em face da absurdez do mundo; ora, o fato de que seus comportamentos são eventualmente os mesmos que os do homem-periferia poderia dar a impressão de uma solidariedade com a ambiência mundana, mas essa é uma aparência enganosa, dado que maneiras de agir semelhantes podem esconder intenções dissemelhantes. Além de que o homem superior pode se mostrar “como os outros” para mascarar sua superioridade [1], precisamente — quer por caridade, quer por “instinto de conservação” —, há isto a considerar, e é o essencial: no homem contemplativo, o prazer não incha a individualidade, ele, ao contrário, convida a uma dilatação transpessoal, de modo que a “consolação sensível” dá lugar a uma abertura para o alto e não a um inchaço para baixo. Uma graça análoga intervém, aliás, em todo crente sincero quando ele aborda o prazer “em Nome de Deus” e se abre, assim, à Misericórdia: ele “convida” Deus e ao mesmo tempo busca refúgio junto a ele.

Extrinsecamente — em relação à fraqueza humana —, a norma moral pode ser “contra a natureza”; intrinsecamente, ela não o poderia ser. “Eles não têm vinho”, disse Maria nas bodas de Caná, com uma intenção que não podia se limitar à “carne”, não mais do que os simbolismos do Cântico dos Cânticos ou do Gîta Govinda. A ascese é útil ou necessária ao homem tal como ele é feito — ao homem excluído dos Paraísos terrestre e celeste —, mas a perspectiva ascética não poderia com isso ter o apanágio da verdade total, nem, por consequência, da legitimidade pura e simples. Os partidários de um ascetismo desconfiado ignoram usualmente que “il y a fagot et fagot”, como diria Molière: sem dúvida, toda diversão é um prazer, mas disso não se segue que todo prazer seja uma diversão, sem o que todo casamento seria coisa frívola, incluindo as bodas de Caná.

Levam a Deus não somente a verdade, o mérito e o sacrifício, mas também a beleza; a própria criação dá testemunho disso, e depois a arte sacra, incluindo a liturgia, as formas do culto. Afastam de Deus não somente o erro, o crime e a luxúria, mas também a feiura; não quando ela é acidental, pois então ela é neutra [2], mas quando é desejada e produzida, como é o caso deste universo de feiura organizada e desesperante que é o mundo moderno. De resto, o vício é uma espécie de feiura, como a virtude é uma espécie de beleza; “és toda bela, minha amada, não há nenhum vício em ti.”

A deiformidade do homem implica a beleza moral, nem que seja — de facto — a título de potencialidade. O pneumático é o homem que se identifica a priori a sua substância espiritual e por consequência permanece sempre fiel a si mesmo; ele não é uma máscara que ignora quem a porta, como o é o homem encerrado nos acidentes.

(Frithjof Schuon, Le Jeu des Masques, pp 46-48.)

[1] O mestre está ensinando a nós, homens comuns, como se comportam os verdadeiros espirituais. (N. do T.)

[2] E neutralizada por um contexto de beleza; é esse, sob certo aspecto, o sentido das quimeras sobre as catedrais. Por outro lado, não se censura a um homem o ser feio, mas pode-se censurar-lhe a feiura de sua expressão.

“O sentimento do adversário é o critério do verdadeiro e do falso”

Um extrato de Frithjof Schuon escrito em 1968, quando os efeitos devastadores do Concílio Vaticano II ainda não estavam tão claros. Mas Schuon sabia bem de que se tratava:

“O sucesso do materialismo ateu explica-se em parte pelo fato de ser uma posição extremada, e de um extremismo fácil, dado o mundo escorregadio que é sua moldura e dados os elementos psicológicos aos quais recorre; o Cristianismo também é uma posição extrema, mas, em vez de valorizá-la, dissimula-se esta posição — ao menos é esta tendência que parece prevalecer — e faz-se com que se adapte ao adversário, enquanto é precisamente o extremismo da mensagem cristã que, se se afirma sem disfarce — mas também sem “dinamismo” de encomenda —, tem o dom de fascinar e convencer. Ao capitular consciente ou inconscientemente diante dos argumentos do adversário, busca-se evidentemente lhe dar a impressão de que o absoluto cristão realiza o mesmo gênero de perfeição do absoluto progressista e socialista, e renegam-se aqueles aspectos — não obstante essenciais — do absoluto cristão que se chocam com as tendência adversas, de maneira que não há nada mais a lhe opor senão um semi-absoluto sem originalidade; pois as duas atitudes são falsas: dizer que o que sempre se teve em vista não é senão o progresso social, o que não passa de uma mentira ridícula e sem relação com a perspectiva cristão, e acusar-se — prometendo ao mesmo tempo fazer melhor no futuro — de ter negligenciado este progresso, o que é uma traição pura e simples; o que se deveria fazer é colocar cada coisa em seu lugar e lembrar a cada passo o que são, do ponto de vista religioso, o homem, a vida, o mundo, a sociedade. O Cristianismo é uma perspectiva escatológico, ele encara as coisas em função do mundo vindouro ou não as considera em absoluto; fingir que se adota outra maneira de ver as coisas — ou adotá-la realmente — e permanecer ao mesmo tempo na religião é um contra-senso ininteligível e ruinoso (…)

“Que a religião possa e deva, dependendo das ocasiões, adaptar-se a novas circunstâncias, é evidente e inevitável; mas é preciso atentar para não dar a priori razão às circunstâncias e nelas ver normas simplesmente porque existem e  agradam à maioria. Ao proceder a uma adaptação, é importante ater-se estritamente à perspectiva religiosa e à hierarquia de valores que ela implica; é preciso inspirar-se numa criteriologia metafísica e espiritual e não ceder a pressões, ou  mesmo deixar-se contaminar por uma falsa avaliação das coisas. Não se fala de ‘uma religião voltada para o social’, o que é um pleonasmo ou um absurdo, e até mesmo de uma ‘espiritualidade do desenvolvimento econômico’, o que, à parte a monstruosidade, é uma contradição de termos? Segundo estas tendências, o erro ou o pecado já não devem submeter-se aos imperativos da verdade e da espiritualidade, é, ao contrário, a verdade, a espiritualidade que deve se adaptar ao erro e ao pecado; e é o sentimento do adversário que é o critério do verdadeiro e do falso, do bem e do mal.”

Extraído de O Homem no Universo, Editora Perspectiva, São Paulo 2001, pp. 178-180. A tradução do ensaio em questão foi feita por Mateus Soares de Azevedo.