Arquivo da categoria: Religio Perennis

Nossa identidade profunda é nossa relação com Deus

Shrî Ramana Maharshi (1879-1950)

Nossa identidade profunda é nossa relação com Deus; nossa máscara é a forma que devemos assumir no mundo das formas, do espaço, do tempo. Nossa ambiência, assim como nossa personalidade, é necessariamente do domínio do particular, não do Universal; do ser possível, não do Ser necessário; do bem relativo, não do Sumo Bem. Não é o caso, portanto, de se se deixar perturbar pelo fato de ser determinado indivíduo e não um outro. Sendo uma pessoa — sob pena de inexistência —, só se pode ser uma pessoa particular, ou seja, “tal ou qual pessoa” e não a “pessoa como tal”; esta só se situa no mundo das Ideias divinas, e “tal pessoa” é um reflexo dela na contingência.

O que importa acima de tudo é manter, a partir do ser possível, o contato com o Ser necessário; com o Sumo Bem, que é a essência de nossos valores relativos, e cuja natureza misericordiosa comporta o desejo de nos salvar de nós mesmos; de nos libertar fazendo-nos participar de seu mistério ao mesmo tempo imutável e vivo.

Frithjof Schuon, extrato de O Jogo das Máscaras, livro inédito em português.

A única coisa que se impõe

Anandamayi Ma, santa hindu, mestra do Conhecimento e do Amor (1896-1982).

Eu sou eu mesmo e não um outro; e estou aqui, como sou; e isso se passa agora, necessariamente. Que devo fazer? A primeira coisa que se impõe, e a única que se impõe de uma maneira absoluta, é minha relação com Deus. Eu me recordo de Deus, e nesta recordação, e por ela, tudo está bem, porque é a recordação de Deus. Todo o resto está em Suas Mãos.


Frithjof Schuon, Les Perles du Pèlerin, Seuil, 1990, p.34.

A máquina tende a fazer do homem o que ela é

Tear na Grécia antiga: ofício contemplativo. Foto: Metropolitan Museum of Art.

É difícil negar, quando ainda se é sensível às normas verdadeiras, que a máquina tende a fazer do homem o que ela é; que ela o torna brusco, brutal, vulgar, quantitativo e estúpido como ela, e que toda a “cultura” se ressente disso. É o que explica em parte o “sincerismo” e a mística do “engajamento”: é preciso ser “sincero” porque a máquina não tem mistério e é incapaz de prudência bem como de generosidade; é preciso ser “engajado”, porque a máquina só tem valor por suas produções, ou porque ela exige uma supervisão constante e mesmo um verdadeiro “dom de si” [*], e assim devora o homem e o humano; é preciso abster-se, em arte e em literatura, de “complacência”, pois a máquina não é complacente e sua feiura, sua ruidosa agitação e sua implacabilidade se confundem, no espírito de seus escravos e de suas criaturas, com a “realidade”; e sobretudo é preciso não ter Deus, porque a máquina não tem Deus, ou porque ela mesma usurpa esse papel.

[*] Se se nos objeta que o mesmo acontecia nos antigos ofícios, responderemos que há aí uma diferença notável pelo fato de que esses ofícios tinham um caráter propriamente humano e portanto contemplativo, e, por esse fato, não comportavam nem a agitação nem o esmagamento próprios do maquinismo.


Frithjof Schuon, A Transfiguração do Homem, Sapientia, Brasil, 2009, pp. 23-24.

A resposta mais decisiva à questão da predestinação

A vida de um homem — assim como seu ciclo total de existência, do qual a vida terrestre e a condição humana são somente modalidades — está contida no Intelecto divino como um todo finito, ou seja, como uma possibilidade determinada que é o que ela é e consequentemente não pode deixar de ser si mesma em nenhum de seus aspectos. Pois uma possibilidade de existência não é senão uma expressão da absoluta necessidade do Ser, e é daí que vêm sua unidade exterior e sua homogeneidade interior: uma possibilidade de existência é algo que não tem como não ser.

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Adormecimento do ego e vigília da alma imortal

Mulay ‘Ali ad-Darqawi, mestre marroquino, na década de 1930. Foto de Titus Burckhardt.

A santidade é o adormecimento do ego e a vigília da alma imortal — do ego nutrido de impressões sensoriais e cheio de desejos, e da alma livre, cristalizada em Deus. A superfície movente de nosso ser deve dormir e por consequência se retirar das imagens e dos instintos, enquanto o fundo de nosso ser deve velar na consciência do divino e assim iluminar, como uma chama imóvel, o silêncio do santo sono.

Schuon, Pérolas do Peregrino.

Só há uma questão: nossa relação com Deus

Sitting Bull, Sioux, com o cachimbo sagrado (1877).

A única questão que se coloca é nossa relação com Deus. Nunca se perguntar “Qual é meu valor?”, nem: “Sou digno de ter uma relação com Deus?” Pois, em primeiro lugar, a questão de nosso valor não se coloca; só conta nossa relação sincera com Deus, e fora dela não há valor humano decisivo.

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A nobreza da sexualidade deriva de seu Protótipo divino

Manjuvajra abraçando sua consorte, com lamas auxiliares. Séc. 13. Metropolitan Museum of Art.

Se a moral muçulmana difere da cristã — e não é de forma nenhuma o caso no que diz respeito à Guerra Santa, nem à escravidão, mas unicamente no que tange à poligamia e ao divórcio [*] —, é porque ela está ligada a um outro aspecto da Verdade total: o Cristianismo, aliás como o Budismo, só leva em conta na sexualidade o lado carnal, portanto substancial ou quantitativo; o Islã, ao contrário, como o Judaísmo e as tradições hindu e chinesa — não falamos de certas vias espirituais que rejeitam o amor sexual por razões de método —, leva em conta, na sexualidade, o lado essencial ou qualitativo, poderíamos dizer “cósmico”, e, de fato, a santificação da sexualidade confere a ela uma qualidade que supera seu caráter carnal e o neutraliza, ou em certos casos até mesmo o abole, como no das Cassandras e Sibilas da Antiguidade ou no do Shrî Chakra tântrico, e enfim no dos grandes espirituais, entre os quais convém citar Salomão e Mohammed.

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No homem, a Terra e o Céu se encontram

Erudito visita templo taoísta nas profundezas das montanhas.

O Confucionismo reparte os homens em governantes e governados: dos primeiros ele exige o senso do dever, e dos segundos, a piedade filial. Vê-se aqui que a lei social não se destaca do sentido espiritual da revelação inteira: ela tem necessariamente concomitâncias espirituais que dizem respeito ao homem enquanto tal, ou seja, considerado independentemente da sociedade. Todo homem, com efeito, governa ou determina algo que está colocado, de alguma maneira, sob sua dependência, nem que seja apenas sua própria alma feita de imagens e de desejos; por outro lado, todo homem é governado ou determinado por alguma coisa que o supera de alguma maneira, nem que seja somente seu intelecto.

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O conhecimento é também purificador e redentor

Ilustração: manuscrito de tradução de texto de Hermes Trismegistus feita por Marsilio Ficino.

Se a fé no sentido comum do termo é considerada como uma virtude, o que mostra que ela não é algo intelectual, é evidente que a certeza implicada por um conhecimento, dado que ela traz em seu fruto em si mesma, não poderia ser meritória, assim como não é meritória nenhuma evidência adquirida pelas faculdades sensíveis; mas isto não priva de forma nenhuma o Conhecimento de sua qualidade “paraclética”, purificadora e verdadeiramente “redentora”, ideia que, aliás, está contida na concepção da “fé que salva”.

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Em nossos dias, chama-se de “miséria” a situações normais

Dizem-nos que, em vez de aliviar a miséria, é preciso ensinar aos homens a sair dela; ora, este aspecto da caridade é extremamente limitado, pois as causas da miséria podem estar na carência de técnicas; elas também podem estar na incapacidade de lidar com o dinheiro, ou até mesmo na preguiça; o que quer dizer que elas são tanto materiais como morais.

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O saber da morte é prova da imortalidade

Um traço essencial que distingue o homem do animal é que o homem sabe que deve morrer, enquanto o animal não o sabe. Ora, esse saber da morte é uma prova de imortalidade; é somente porque o homem é imortal que suas faculdades lhe permitem constatar sua impermanência terrestre. Quem diz consciência da morte, diz fenômeno religioso; e explicitemos que esse fenômeno faz parte da ecologia no sentido total do termo, pois sem religião — ou sem religião autêntica — uma coletividade humana não poderia sobreviver muito tempo; ou seja, ela não poderia continuar sendo humana.

Frithjof Schuon, “Prerrogativas do estado humano”, in Le Jeu des Masques [O Jogo das Máscaras], l’Age d’Homme, Lausanne, 1992, pp. 23-24

A emoção pode acompanhar a objetividade

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Jesus Cristo e os mercadores no templo, por Giotto.

Em nossos dias, louva-se a “objetividade” de um homem que afirma calmamente e friamente que dois mais dois são cinco, e acusa-se de subjetividade ou de emotividade o homem que replica com indignação que dois mais dois são quatro; não se quer admitir que a objetividade é a adequação ao objeto, e não tal ou qual modo de expressão; que o critério da objetividade é a realidade, não o tom, nem a mímica; nem, sobretudo, uma placidez fictícia, inumana e insolente.

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Na pobreza espiritual o homem tem tudo

O santo Padre Pio.

A pobreza é não se apegar, na existência, nem ao sujeito nem ao objeto. Fala-se muito das ilusões sutis e das seduções que desviam o peregrino espiritual da via reta e provocam sua queda. Ora, essas ilusões só podem seduzir aquele que deseja alguma vantagem para si, como poderes ou dignidades ou glória, ou que deseja gozos interiores ou visões celestes ou vozes, e assim por diante, ou um conhecimento tangível dos mistérios divinos.

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O individualismo fecha as almas à gnose

É natural e plausível que toda aspiração elevada exija uma qualificação correspondente, na própria medida em que ela incita o homem a se superar. A aptidão espiritual proporcional à gnose exige, para ser completa, não somente uma qualificação intelectual, que é a capacidade de discernimento, de penetração e de aprofundamento, mas também uma qualificação moral, que é a tendência à interiorização e que implica as virtudes fundamentais.

No esoterismo concreto, o dos Sufis, por exemplo, não constatamos em parte alguma uma predominância da exigência intelectual sobre a exigência moral, muito ao contrário: a contemplatividade interiorizante acompanhada das virtudes tem, em média, mais peso do que a inteligência discriminativa.

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O sagrado é a presença do centro

O Buda Amida.

O sagrado é a presença do centro na periferia, do imutável no movimento; a dignidade é essencialmente uma expressão do sagrado, pois também na dignidade o centro se manifesta no exterior; o coração transparece nos gestos. O sagrado introduz nas relatividades uma qualidade de absoluto, ele confere a coisas perecíveis uma textura de eternidade.

Frithjof Schuon, Pérolas do Peregrino.