Arquivo da categoria: Religio Perennis

Só há uma questão: nossa relação com Deus

Sitting Bull, Sioux, com o cachimbo sagrado (1877).

A única questão que se coloca é nossa relação com Deus. Nunca se perguntar “Qual é meu valor?”, nem: “Sou digno de ter uma relação com Deus?” Pois, em primeiro lugar, a questão de nosso valor não se coloca; só conta nossa relação sincera com Deus, e fora dela não há valor humano decisivo.

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A nobreza da sexualidade deriva de seu Protótipo divino

Manjuvajra abraçando sua consorte, com lamas auxiliares. Séc. 13. Metropolitan Museum of Art.

Se a moral muçulmana difere da cristã — e não é de forma nenhuma o caso no que diz respeito à Guerra Santa, nem à escravidão, mas unicamente no que tange à poligamia e ao divórcio [*] —, é porque ela está ligada a um outro aspecto da Verdade total: o Cristianismo, aliás como o Budismo, só leva em conta na sexualidade o lado carnal, portanto substancial ou quantitativo; o Islã, ao contrário, como o Judaísmo e as tradições hindu e chinesa — não falamos de certas vias espirituais que rejeitam o amor sexual por razões de método —, leva em conta, na sexualidade, o lado essencial ou qualitativo, poderíamos dizer “cósmico”, e, de fato, a santificação da sexualidade confere a ela uma qualidade que supera seu caráter carnal e o neutraliza, ou em certos casos até mesmo o abole, como no das Cassandras e Sibilas da Antiguidade ou no do Shrî Chakra tântrico, e enfim no dos grandes espirituais, entre os quais convém citar Salomão e Mohammed.

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No homem, a Terra e o Céu se encontram

Erudito visita templo taoísta nas profundezas das montanhas.

O Confucionismo reparte os homens em governantes e governados: dos primeiros ele exige o senso do dever, e dos segundos, a piedade filial. Vê-se aqui que a lei social não se destaca do sentido espiritual da revelação inteira: ela tem necessariamente concomitâncias espirituais que dizem respeito ao homem enquanto tal, ou seja, considerado independentemente da sociedade. Todo homem, com efeito, governa ou determina algo que está colocado, de alguma maneira, sob sua dependência, nem que seja apenas sua própria alma feita de imagens e de desejos; por outro lado, todo homem é governado ou determinado por alguma coisa que o supera de alguma maneira, nem que seja somente seu intelecto.

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O conhecimento é também purificador e redentor

Ilustração: manuscrito de tradução de texto de Hermes Trismegistus feita por Marsilio Ficino.

Se a fé no sentido comum do termo é considerada como uma virtude, o que mostra que ela não é algo intelectual, é evidente que a certeza implicada por um conhecimento, dado que ela traz em seu fruto em si mesma, não poderia ser meritória, assim como não é meritória nenhuma evidência adquirida pelas faculdades sensíveis; mas isto não priva de forma nenhuma o Conhecimento de sua qualidade “paraclética”, purificadora e verdadeiramente “redentora”, ideia que, aliás, está contida na concepção da “fé que salva”.

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Em nossos dias, chama-se de “miséria” a situações normais

Dizem-nos que, em vez de aliviar a miséria, é preciso ensinar aos homens a sair dela; ora, este aspecto da caridade é extremamente limitado, pois as causas da miséria podem estar na carência de técnicas; elas também podem estar na incapacidade de lidar com o dinheiro, ou até mesmo na preguiça; o que quer dizer que elas são tanto materiais como morais.

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O saber da morte é prova da imortalidade

Um traço essencial que distingue o homem do animal é que o homem sabe que deve morrer, enquanto o animal não o sabe. Ora, esse saber da morte é uma prova de imortalidade; é somente porque o homem é imortal que suas faculdades lhe permitem constatar sua impermanência terrestre. Quem diz consciência da morte, diz fenômeno religioso; e explicitemos que esse fenômeno faz parte da ecologia no sentido total do termo, pois sem religião — ou sem religião autêntica — uma coletividade humana não poderia sobreviver muito tempo; ou seja, ela não poderia continuar sendo humana.

Frithjof Schuon, “Prerrogativas do estado humano”, in Le Jeu des Masques [O Jogo das Máscaras], l’Age d’Homme, Lausanne, 1992, pp. 23-24

A emoção pode acompanhar a objetividade

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Jesus Cristo e os mercadores no templo, por Giotto.

Em nossos dias, louva-se a “objetividade” de um homem que afirma calmamente e friamente que dois mais dois são cinco, e acusa-se de subjetividade ou de emotividade o homem que replica com indignação que dois mais dois são quatro; não se quer admitir que a objetividade é a adequação ao objeto, e não tal ou qual modo de expressão; que o critério da objetividade é a realidade, não o tom, nem a mímica; nem, sobretudo, uma placidez fictícia, inumana e insolente.

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Na pobreza espiritual o homem tem tudo

O santo Padre Pio.

A pobreza é não se apegar, na existência, nem ao sujeito nem ao objeto. Fala-se muito das ilusões sutis e das seduções que desviam o peregrino espiritual da via reta e provocam sua queda. Ora, essas ilusões só podem seduzir aquele que deseja alguma vantagem para si, como poderes ou dignidades ou glória, ou que deseja gozos interiores ou visões celestes ou vozes, e assim por diante, ou um conhecimento tangível dos mistérios divinos.

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O individualismo fecha as almas à gnose

É natural e plausível que toda aspiração elevada exija uma qualificação correspondente, na própria medida em que ela incita o homem a se superar. A aptidão espiritual proporcional à gnose exige, para ser completa, não somente uma qualificação intelectual, que é a capacidade de discernimento, de penetração e de aprofundamento, mas também uma qualificação moral, que é a tendência à interiorização e que implica as virtudes fundamentais.

No esoterismo concreto, o dos Sufis, por exemplo, não constatamos em parte alguma uma predominância da exigência intelectual sobre a exigência moral, muito ao contrário: a contemplatividade interiorizante acompanhada das virtudes tem, em média, mais peso do que a inteligência discriminativa.

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O sagrado é a presença do centro

O Buda Amida.

O sagrado é a presença do centro na periferia, do imutável no movimento; a dignidade é essencialmente uma expressão do sagrado, pois também na dignidade o centro se manifesta no exterior; o coração transparece nos gestos. O sagrado introduz nas relatividades uma qualidade de absoluto, ele confere a coisas perecíveis uma textura de eternidade.

Frithjof Schuon, Pérolas do Peregrino.

Um paradoxo: somos contrários e conformes a Deus

Sem analogia com Deus, não seríamos nada. Thangka tibetano.

Que sejamos conformes a Deus — “feitos à sua imagem” — é certo, sem o que nós não existiríamos. Que sejamos contrários a Deus é também certo, sem o que nós não seríamos diferentes.

Sem analogia com Deus, nós não seríamos nada. Sem oposição a Deus, nós seríamos Deus.

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Ajudar o mundo, mas indo à fonte do Bem

Alexandre Magno ergue muro para conter Gog e Magog. [Ver nota]

Alguns moralistas muito profanos que preferem o homem a Deus, isso quando não substituem Deus pelo homem, espantam-se ou indignam-se com a indiferença que os santos, tanto ocidentais como orientais, por vezes pareceram manifestar em relação às desgraças humanas do mundo em que eles viviam.

Ora, há para essa atitude uma dupla razão: em primeiro lugar, muitas desgraças no corpo de um mundo tradicional devem ser vistas como “males menores”, ou seja, como canais necessários de calamidades em si inevitáveis, mas suscetíveis de serem reduzidas a um mínimo; esse é um ponto de vista que os modernos nunca compreenderam, pois eles nem mesmo sabem que há no cosmo coisas que não poderiam ser evitadas a nenhum custo, e cuja supressão aparente e artificial só engendra reações cósmicas tanto mais “avassaladoras”.

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O caminho para Deus é uma inversão

Budista tibetana, esposa do lama Dzongsar Khyentse Chökyi Lodrö.

O caminho para Deus implica sempre uma inversão: da exterioridade é preciso passar à interioridade, da multiplicidade à unidade, da dispersão à concentração, do egoísmo ao desapego, da paixão à serenidade.

Frithjof Schuon, Pérolas do Peregrino.

A religião essencial dentro de cada religião

Pintura de Schuon.

Rigorosamente falando, há uma só filosofia, a Sophia Perennis; ela é também — considerada em sua integralidade — a única religião. A Sophia tem duas origens possíveis, uma intemporal e uma temporal: a primeira é “vertical” e descontínua, e a segunda, “horizontal” e contínua; dito de outro modo, a primeira é como a chuva que pode descer do céu a todo momento; a segunda é como um ribeiro que brota de uma fonte.

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