Arquivo da categoria: Religio Perennis

Um meio de graça pode realmente santificar a alma

Shrî Anandamayi Ma (1896-1982), santa hindu dos tempos recentes.

Há almas que, plena ou suficientemente conformes à vocação humana, entram diretamente no Paraíso: são quer os santos, quer os santificados. No primeiro caso, são as grandes almas iluminadas pelo Sol divino e dispensadoras de raios benfazejos; no segundo caso, são as almas que, não tendo nem defeitos de caráter, nem tendências mundanas, estão livres — ou foram libertadas — de pecados mortais, e santificadas pela ação sobrenatural de meios de graça de que elas fizeram seu viático. Entre os santos e os santificados há sem dúvida possibilidades intermediárias, mas só Deus é juiz de sua posição e de seu nível.

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Só na prece somos perfeitamente nós mesmos

Monge com Bíblia ortodoxa na Igreja de Santa Maria em Axum, Etiópia.

Todas as vezes que o homem se põe diante de Deus com um coração íntegro — ou seja, pobre e sem se inflar —, ele se coloca no solo da certeza absoluta, a de sua salvação condicional, bem como a de Deus. E é por isso que Deus nos deu essa chave sobrenatural que é a prece: a fim de que nós pudéssemos nos colocar diante d’Ele, como no estado primordial, e como sempre e em toda parte; ou como na eternidade.

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A verdade é a essência da beleza

Jovem balinesa. C. 1930.

Assim como há um discernimento das realidades principiais, o qual se impõe a nós porque temos uma inteligência, da mesma forma há um discernimento das realidades formais — tanto morais quanto estéticas —, o qual se impõe porque temos uma alma. Isto quer dizer que a compreensão metafísica deve se acompanhar do senso da beleza em todos os níveis; inversamente, não há interiorização do belo sem um conhecimento metafísico paralelo. “A beleza é o esplendor do verdadeiro”: o que implica que a verdade, portanto a realidade, é a essência da beleza.

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Um vício pode ser substancial ou acidental

Padrões em tapete marroquino. O homem e o universo são feitos de aspectos e tendências.

É possível que um homem tenha um desejo sincero de humildade — portanto de objetividade em relação a si mesmo — e realize em função disto um modo de humildade real, mas que ao mesmo tempo ele não suporte nenhuma humilhação, mesmo merecida ou leve; neste caso, a humildade se acha comprometida em maior ou menor medida por um elemento de orgulho, que se manifestará também por uma certa propensão a humilhar os outros, e isto nem que seja subestimando e interpretando desfavoravelmente algo que poderia ter uma interpretação favorável.

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Amar as virtudes como à luz e ao ar fresco

Dignidade não é orgulho. New Chest, Piegan (foto: Edward Curtis).

Todo homem ama estar à luz e ao ar fresco; ninguém gosta de estar preso numa torre sombria e sem ar; é assim que é preciso amar as virtudes, e é assim que é preciso detestar os vícios. Nenhum homem que pode desfrutar da luz e do ar pensaria em proclamar “o sol sou eu” ou “o céu sou eu”; amamos a ambiência da luz e do ar, e é por isso que entramos nela. É assim que é preciso entrar nas virtudes: porque elas se impõem por sua natureza e porque amamos sua ambiência.

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A natureza virgem é um vestígio do Paraíso terrestre

O Matterhorn, nos Alpes (foto de Liridon, Wikimedia Commons).

No plano exterior e portanto contingente, mas que tem sua importância na ordem humana, a religio perennis está em relação com a natureza virgem e ao mesmo tempo com a nudez primordial, a nudez da criação, do nascimento, da ressurreição, ou a do grande sacerdote no Santo-dos-Santos, a do eremita no deserto, do sadhu ou sanyâsi hindu, a do pele-vermelha em prece silenciosa no alto de uma montanha.

A natureza inviolada é ao mesmo tempo um vestígio do Paraíso terrestre e uma prefiguração do Paraíso celeste; os santuários e os costumes diferem, mas a natureza virgem e o corpo humano permanecem fiéis à unidade primeira.

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O homem primordial é a imagem do Criador

Shrî Ramana Maharshi (1879-1950).

O homem primordial sabia por si mesmo que Deus existe; o homem caído não o sabe, é algo que ele tem que aprender. O homem primordial tinha sempre consciência de Deus; o homem caído, apesar de ter aprendido que Deus existe, deve se forçar a ter sempre consciência dele. O homem primordial amava Deus mais que o mundo; o homem caído ama o mundo mais que Deus, ele deve portanto praticar a renúncia.

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Uma sociedade só é útil se favorece a religião

Shrî Ramakrishna Paramahansa (1836-1886).

Fala-se habitualmente do dever de se fazer útil à sociedade, mas se se omite de levantar a questão de saber se essa sociedade é útil, isto é, se ela realiza a razão de ser do homem e, portanto, de uma comunidade humana; evidentemente, se o indivíduo deve ser útil à coletividade, esta, por sua vez, deve ser útil ao indivíduo. A qualidade humana implica que a coletividade não poderia ser o objetivo e a razão de ser do indivíduo, mas que, ao contrário, é o indivíduo que, em sua posição solitária diante do Absoluto e, portanto, pela prática de sua função mais elevada, é o objetivo e a razão de ser da coletividade.

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Manter certa frieza em face do mundo

Índio norte-americano, em foto de Edward Curtis, 1923.

O Profeta disse: “Guardai-vos das suspeitas, pois o diabo quer causar discórdia entre vós”, ou algo do tipo. Nunca se deve ficar ruminando as coisas, nem que seja porque o ininteligível ou o absurdo faz parte da matéria da qual o mundo é feito. Em face de alguma dificuldade aparentemente insolúvel, há que se dizer a si mesmo: em primeiro lugar, toda coisa, todo acontecimento tem uma causa, quer a conheçamos ou não; o fato de não a conhecermos não deduz nada dela e nada lhe acrescenta. Em segundo lugar: esta causa é indiferente diante da verdade de que Deus é a Realidade; o que é, é, e o que não é, não é.

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Assimilar as mensagens dos mundos tradicionais

Bodhisattva Avalokiteshvara, China, dinastia Song (Museu de Arte Asiática de São Francisco, CA – EUA).

Desde a minha infância, sempre gostei muito dos museus, e pude passar horas assimilando visualmente as mensagens dos diversos mundos tradicionais. A assimilação visual, no meu caso, veio antes da assimilação conceitual; e não penso somente na arte sacra, penso também no artesanato, incluindo o mais modesto, pois acontece de ele veicular tanta espiritualidade quanto a arte sacra propriamente dita.

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As provações fazem parte da via espiritual

Seção de imagem ortodoxa de São Jorge matando o dragão. Veja a imagem inteira abaixo.

A via espiritual engloba todos os acontecimentos da vida; não há nada que não esteja relacionado a ela de alguma maneira. As provações [*] da vida são, não perturbações desprovidas de sentido, mas aspectos quer de nós mesmos, quer da Realidade, portanto elementos necessários e inevitáveis da via. Para fazê-las dar frutos, é preciso aceitá-las como vindo da parte de Deus: com gratidão e louvor. É só assim que o homem pode esperar comprender o sentido da provação ou, quando se trata de uma situação aparentemente sem saída, esperar poder se livrar dela, se Deus quiser.

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Carta sobre uma influência psíquica maléfica

O filósofo e mestre espiritual Frithjof Schuon, já perto do fim de sua vida.

“Sentir uma doença é não mais tê-la”, dizia Lao-Tsé. O que quer dizer que o remédio contra um mal está na consciência que temos desse mal; o remédio é dado por essa própria consciência.

Antes de mais nada, quero lhe dizer duas coisas: em primeiro, que o senhor não tem nada a temer; e, em segundo, que a provação pela qual o senhor passou foi providencial; o que aconteceu com o senhor devia lhe acontecer, e isso para o seu bem. Pois o senhor tinha demasiada autoconfiança e, por esse fato, não tinha suficiente prudência; o senhor tinha demasiada curiosidade intelectual, sem ter suficiente fé; demasiado senso crítico, sem ter suficiente senso das proporções.

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Nossa vocação: conhecer, querer, amar

Krishna e Radha.

Conhecer, querer, amar: eis toda a natureza do homem e, por consequência, toda a sua vocação e todo o seu dever. Conhecer totalmente, querer livremente, amar nobremente; ou, em outros termos: conhecer o Absoluto, e ipso facto suas relações com o relativo; querer o que se impõe a nós em função desse conhecimento; e amar o verdadeiro e o bem, e o que os manifesta neste mundo; portanto amar o belo, que conduz a eles.

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O monge é atual porque intemporal

Monge budista. Sul da Ásia. Aprox. 1930.

Um mundo é absurdo na medida em que o contemplativo, o eremita, o monge nele parecem ser um paradoxo ou um “anacronismo”. Ora, o monge é atual precisamente porque é intemporal: vivemos na época da idolatria do “tempo”, e o monge encarna tudo o que é imutável, não por esclerose ou por inércia, mas por transcendência.

Schuon, Regards sur les mondes anciens, Éditions Traditionnelles, 1980, p. 153.
Traduzido para esta nota direto do originall. O livro tem edição brasileira: O Homem no Universo, Perspectiva, 2001 (p. 172).


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Toda obra santa deve começar em nós mesmos

Monge ortodoxo.

“Pai nosso que estais nos céus”: a explicitação “nos céus” indica a transcendência em relação ao estado terrestre, este considerado, em primeiro lugar, do ponto de vista objetivo e macrocósmico e, depois, do ponto de vista subjetivo e microcósmico. Com efeito, a “terra” ou o “mundo” pode ser não só a ambiência na qual vivemos e que nos determina, mas também nossa alma individual e mais ou menos sensorial, assim como os “céus” podem ser não só os mundos paradisíacos, mas também nossas virtualidades espirituais; pois “o reino de Deus está dentro de vós”.

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