Arquivo da categoria: Religio Perennis

Pôr-se diante de Deus com um coração íntegro

Shrî Ramakrishna (1836 – 1886)

Todas as vezes que o homem se põe diante de Deus com um coração íntegro – ou seja, “pobre” e sem se inflar – ele se põe no solo da certeza absoluta, tanto a de Deus como a de sua salvação condicional. E é por isso que Deus nos fez dom dessa chave sobrenatural que é a prece: a fim de que nós possamos nos pôr diante dele, como no estado primordial e como “sempre e em toda parte”; ou como na Eternidade.

Dissemos: “Quando o homem se põe diante de Deus com um coração íntegro”. Isto exige implicitamente que o homem seja bonae voluntatis: não que ele não tenha jamais pecado, mas que ele viva sempre na intenção de fazer o que o aproxima de Deus, ao mesmo tempo em que se abstém do que afasta de Deus; e que ele manifeste essa intenção por seu comportamento, sem o que, precisamente, ele não poderia se pôr diante de Deus com um coração íntegro.

Tudo isto está ligado à “fé que salva”. A fé não exige que o homem ganhe sua salvação por tais ou quais obras; ela exige a prece e, como uma espécie de prolongamento desta, o cumprimento do dever, na abstenção como na ação. Esse cumprimento, quer seja habitual ou se imponha por circunstâncias particulares, encontra-se santificado pela obra por excelência, a primeira de todas, a prece; e ele participa assim, mais ou menos indiretamente conforme sua natureza, da alquimia libertadora de que a prece é o principal suporte.

Schuon, Resumo de Metafísica Integral (inédito em português), capítulo “A Religião Irrefutável”.

O homem nobre se identifica ao principial

Titus Burckhardt (1908-1984)

Não é de surpreender que para o sincerismo em moda o segredo seja coisa detestável, pois, desse ponto de vista, ser sincero é não esconder nada, e esconder alguma coisa é ser desonesto ou hipócrita. Ora, por razões evidentes, o homem tem um direito natural ao segredo: ele tem o direito de não mostrar um sentimento que só diz respeito a ele e, a fortiori, uma graça espiritual; um santo pode querer dissimular se não suas virtudes, ao menos sua santidade. A sinceridade consiste, portanto, menos em se mostrar em todas as coisas tal como se é do que em não querer parecer mais do que se é; o que não se poderia censurar ao dignitário investido de uma função social ou espiritual, pois suas atitudes normativas se referem ao princípio que ele representa, não à sua individualidade.

Para a mentalidade “de nosso tempo”, ao contrário, a sinceridade é a vulgaridade, e inversamente; o que pressupõe a opinião de que o homem é normalmente vulgar; assim, a vulgaridade tornou-se quase oficial. No entanto, a dignidade está ligada à piedade, ao amor tanto quanto ao temor; mesmo o pecador tem direito à dignidade visível, ou seja, ela se impõe a ele porque ele é homem “feito à imagem de Deus”, apesar de sua insuficiência ou de sua traição. Por certo, há homens perversos que afetam maneiras dignas — impostores, por exemplo —, mas eles o fazem por falsas razões, portanto por hipocrisia; a verdadeira dignidade não poderia ser afetada, ela é sincera por definição. O homem é nobre na medida em que ele se identifica com o principial e, portanto, com o necessário; com o arquétipo, não com o acaso.

Schuon, O Jogo das Máscaras (inédito em português), capítulo “Da Intenção”.

Nova iniciativa editorial

A Editora Stella Maris publicou recentemente, em português, Tesouros do Budismo, de Frithjof Schuon. O livro está disponível na Amazon de diversos países, inclusive na Amazon da Espanha, que atende Portugal. Nos próximos dias deve estar disponível na Amazon do Brasil.

Outro livro de Schuon que está em fase final de produção pela editora é Raízes da Condição Humana.

O Jogo das Máscaras também está sendo produzido, para publicação no primeiro semestre de 2025.

Em função da iniciativa da Editora Stella Maris, retiramos deste website os livros de Schuon que estavam disponíveis online, pois nossa intenção é publicá-los como livros físicos.

Lamentamos pelo inconveniente aos leitores que estiveram procurando os livros aqui, um dos quais hoje nos escreveu a respeito.

Aproveitamos para chamar a atenção para a seção espanhola do website sobre Schuon FSchuon.info, seção essa que tem dezessete artigos e outros conteúdos. Pode ser acessada clicando aqui.

O mesmo website tem conteúdo de e sobre Schuon em inglês, francês, alemão, italiano e português.

(Alberto Queiroz)

O pecador decide o que é bom, contra a natureza das coisas

Enoque (à esquerda) e Elias: ícone polonês do séc. 17.

Eva e Adão sucumbiram à tentação de querer ser mais do que podiam ser; a serpente representa a possibilidade dessa tentação. Os construtores da torre de Babel, assim como os Titãs, Prometeu e Ícaro, quiseram se colocar indevidamente no lugar de Deus; também eles sofreram o castigo humilhante de uma queda. Segundo a Bíblia, a árvore proibida era a do discernimento entre o “bem” e o “mal”; ora, esse discernimento, ou essa diferença, já faz parte da própria natureza do Ser, sua origem não poderia, por consequência, estar na criatura; reivindicá-la para si é querer ser igual ao Criador, e é essa a própria essência do pecado; de todo pecado. O pecador, com efeito, decide o que é bom, em oposição à natureza objetiva das coisas; ele se engana voluntariamente sobre as coisas e sobre si mesmo, de onde a queda, que não é senão a reação da realidade.

A grande ambiguidade do fenômeno humano reside no fato de que o homem é divino sem ser Deus: alcoranicamente falando, ele dá nomes a todas as criaturas, e é por isso que os anjos devem se prostrar diante dele; a não ser o Anjo supremo, o que indica que a divindade e, por consequência, a autoridade e a autonomia do homem são relativas, ainda que “relativamente absolutas”. Assim, a queda do homem como tal não podia ser total, como o prova a priori a natureza, e o destino, do patriarca Enoque, pai de todos os “pneumáticos”, se assim se pode dizer.

Schuon, O Jogo das Máscaras, tradução inédita de Le jeu des masques, l’Age d’Homme, Suíça, 1992.

Só indivíduos podem ser salvos do modernismo, não coletividades

Caro Professor Needleman,

Em seu prefácio à segunda edição de The Sword of Gnosis, o sr. diz que o que é necessário é não somente a verdade, mas também um choque que a torne aceitável ao homem moderno. Ora, isso pressupõe que o homem moderno esteja aberto, não a qualquer choque, mas a um interiorizante, o que, precisamente, não é o caso.

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Um só dever: o reconhecimento cotidiano do Eterno

Um chefe da tribo Pés Negros. Foto de Edward Curtis.

“Todo aquele que viveu muito na natureza virgem sabe que há uma força magnética que aumenta na solidão e se dissipa rapidamente na vida entre os homens; e mesmo os inimigos dos índios da América reconheceram que nenhum outro homem o iguala do ponto de vista da força inata, ou do equilíbrio que se mantém impassível em qualquer ambiência (…)

“É a verdade pura e simples que o índio, enquanto se mantinha sob a influência das ideias de sua raça, olhava as grandes aquisições do homem branco sem nenhuma inveja e não tinha nenhum desejo de imitá-las (…) Ele as desprezava, assim como um espírito elevado, que está totalmente absorto numa obra difícil, despreza o leito demasiado macio, o gosto pelos alimentos refinados e os divertimentos superficiais de um vizinho rico. Ele estava persuadido de que a virtude e a felicidade são independentes dessas coisas, e talvez mesmo incompatíveis com elas (…)

“Ele achava revoltante e quase inconcebível que houvesse entre essas pessoas quem tivesse a pretensão de lhe ser superior, muitas ímpias (…)

“Os historiadores da raça vermelha devem reconhecer que não foi nunca o índio que quebrou em primeiro sua palavra (…) O antigo índio combinava sua atitude altiva com uma modéstia muito particular. A pretensão espiritual lhe era desconhecida por sua própria natureza e por sua educação (…) Ele só tinha um dever inevitável: (…) O reconhecimento quotidiano do Invisível e do Eterno.”

Charles A. Eastmann, citado por Frithjof Schuon.

O culto da inteligência afasta da verdade

A certeza metafísica não é Deus, embora seja algo dele. É por isso que os Súfis fazem acompanhar mesmo suas certezas desta fórmula: “E Deus é mais sábio” (wa ‘Llâhu a’lam).

O culto da inteligência e a paixão mental afastam da verdade: a inteligência se restringe quando o homem se fia somente dela; a paixão mental expulsa a intuição intelectual como o vento extingue a luz de uma vela.

A monomania da mente, com suas concomitâncias de pretensão inconsciente, de parcialidade, de insaciabilidade e de pressa é incompatível com a santidade; esta, com efeito, introduz no fluxo do pensamento um elemento de humildade e de caridade, portanto de calma e de generosidade — elemento que, longe de prejudicar o impulso espiritual ou a força por vezes violenta da verdade, liberta a mente das tensões passionais; ele garante assim a integridade do pensamento e a pureza da inspiração.

Segundo os Súfis, a paixão mental deve ser classificada entre as associações com Satã, como as outras formas da “idolatria” passional; ela não poderia ter diretamente Deus por objeto; se Deus lhe fosse o objeto direto, ela perderia suas características negativas específicas. Além disso, ela não tem em si mesma nenhum princípio de repouso, pois exclui toda consciência de seus próprios limites e carências.

Schuon, Perspectives spirituelles et faits humains, Les Cahiers du Sud, 1953, pp. 178-179.


Afirmação que penso que vale a pena reter: “O culto da inteligência e a paixão mental afastam da verdade”. Pessoas que dão a impressão de serem muito inteligentes podem sê-lo de forma unidimensional, sem penetrar nas profundezas dos conceitos. Aqueles que de fato têm a intuição intelectual não têm e, portanto, não manifestam essa paixão e esse culto. (N. do E.)

A ciência moderna feriu de morte a religião

A ciência moderna teve por efeito, entre outros, ferir mortalmente a religião, trazendo à luz, concretamente, problemas que só o esoterismo pode resolver, e que nada resolve de fato, dado que o esoterismo não é escutado — e ele nunca foi tão pouco escutado. Diante desses problemas novos, a religião está desarmada, e ela toma emprestados, de forma inábil e como que tateando, os argumentos do adversário, o que a obriga a falsificar insensivelmente sua própria perspectiva e a cada vez mais negar-se a si própria; sua doutrina, por certo, não é atingida, mas as falsas opiniões tomadas emprestadas a seus negadores a devoram sorrateiramente “desde dentro”, como o testemunha a exegese moderna, o achatamento demagógico da liturgia, o darwinismo telhardiano ou a “arte sagrada” de obediência surrealista e “abstrata”.

Schuon, Regards sur les mondes anciens, L’Harmattan, 2016, p. 46.

A oração é a porta estreita

O que é o mundo, senão um escoamento de formas, e o que é a vida, senão uma taça que, aparentemente, se esvazia entre duas noites? E o que é a oração, senão o único ponto estável — feito de paz e de luz — neste universo de sonho, e a porta estreita que leva a tudo o que o mundo e a vida buscaram em vão?

Na vida de um homem, estas quatro certezas são tudo: o momento presente, a morte, o encontro com Deus, a eternidade. A morte é uma saída, um mundo que se fecha; o encontro com Deus é como uma abertura para uma infinitude fulgurante e imutável; a eternidade é uma plenitude de estar na pura luz; e o momento presente é, em nossa duração, um lugar quase inapreensível no qual já somos eternos — uma gota de eternidade no vai-e-vem das formas e das melodias.

A oração dá ao instante terrestre todo seu peso de eternidade e seu valor divino; ela é a barca santa que conduz, através da vida e da morte, à outra margem, ao silêncio de luz — mas no fundo não é ela que atravessa o tempo repetindo-se, é o tempo que, por assim dizer, se detém diante de sua unicidade já celeste.

Schuon, Les stations de la sagesse, L’Harmattan, 2011, p. 144.


Qu’est-ce que le monde, sinon un écoulement de formes, et qu’est-ce que la vie, sinon une coupe qui, apparemment, se vide entre deux nuits ? Et qu’est-ce que l’oraison, sinon le seul point stable – fait de paix et de lumière – dans cet univers de rêve, et la porte étroite vers tout ce que le monde et la vie ont recherché en vain ?

Dans la vie d’un homme ces quatre certitudes sont tout : le moment présent, la mort, la rencontre avec Dieu, l’éternité. La mort est une sortie, un monde qui se ferme ; la rencontre avec Dieu est comme une ouverture vers une infinitude fulgurante et immuable ; l’éternité est une plénitude d’être dans la pure lumière ; et le moment présent est, dans notre durée, un lieu presque insaisissable où nous sommes déjà éternels – une goutte d’éternité dans le va-et-vient des formes et des mélodies.

L’oraison donne à l’instant terrestre tout son poids d’éternité et sa valeur divine ; elle est la sainte barque qui conduit, à travers la vie et la mort, vers l’autre rive, vers le silence de lumière – mais ce n’est pas elle, au fond, qui traverse le temps en se répétant, c’est le temps qui s’arrête pour ainsi dire devant son unicité déjà céleste.

Schuon, Les stations de la sagesse, L’Harmattan, 2011, p. 144.

Comentário sobre a nota anterior

“Nada é mais arbitrário do que rejeitar as provas clássicas de Deus, pois cada uma delas é válida em relação a uma certa necessidade de explicação. Essa necessidade de explicação cresce não em proporção ao conhecimento, mas em proporção à ignorância.”

Comentário: Schuon explica nesta passagem, que está na nota anterior, publicada ontem, que a coisa se dá de forma simplesmente oposta ao que pensa o homem racionalista. O fundamento do conhecimento é, na realidade, não racional, mas intuitivo. Quanto maior o conhecimento intuitivo, menor a necessidade de explicação racional.

Ele diz, no começo de A Unidade Transcendente das Religiões, no capítulo “Dimensões Conceituais”:

“A filosofia, no que ela tem de limitativo — e é isso, aliás, o que constitui seu caráter específico — se baseia na ignorância sistemática do que acabamos de enunciar”.

E diz também, no prefácio do mesmo livro: “A fim de sermos absolutamente claro, insistiremos em que o modo racional de conhecimento não supera de forma nenhuma o domínio das generalidades e não atinge por si só nenhuma verdade transcendente.”

Para quem quiser ler ou reler este claríssimo e profundíssimo prefácio, ele está disponível clicando aqui:

Prefácio de A Unidade Transcendente das Religiões, de Frithjof Schuon.

Para o sábio, cada flor prova o Infinito

Flores de cerejeira (Wikimedia Commons)

Uma coisa é o conhecimento metafísico, outra coisa é sua actualização na mente. Toda a ciência que o cérebro pode conter não é nada diante da Verdade, ainda que essa ciência seja uma riqueza incomensurável do ponto de vista humano. Já o conhecimento metafísico é como uma semente divina no coração; os pensamentos não são mais que luzes ínfimas que dele nos vêm. A marca deixada pela Luz divina nas trevas humanas, a passagem do Infinito ao finito, o contato entre o Absoluto e o contingente, tudo isso é o mistério da intelecção, da revelação, do avatâra.

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A alma pode conhecer tudo o que ela é

Azulejos de Marrakesh.

Por certo, Deus é inefável, nada pode descrevê-lo, ele não pode ser contido em palavras; mas, por outro lado, a verdade existe, o que quer dizer que há pontos de referência conceituais que explicam suficientemente a natureza de Deus; sem o que nossa inteligência não seria humana, o que equivale a dizer que ela não existiria ou, simplesmente, que ela seria inoperante em relação àquilo que constitui a razão de ser do homem. Deus é incognoscível e cognoscível ao mesmo tempo, paradoxo que implica — sob pena de absurdez — que as relações sejam diferentes, em primeiro lugar no plano do simples pensamento e depois em virtude de tudo o que separa o conhecimento mental do do coração; o primeiro sendo um “perceber” e o segundo, um “ser”. “A alma é tudo o que ela conhece”, dizia Aristóteles; seria preciso acrescentar que a alma pode conhecer tudo o que ela é; e que, em sua essência, ela não é senão O que é, e que é a única coisa a ser.

Schuon, Du Divin à l’humain, Le Courrier du Livre, 1981, p. 74

* * *

Certes, Dieu est ineffable, rien ne peut le décrire, ou ne peut l’enfermer dans des mots ; mais d’un autre côté, la vérité existe, c’est-à-dire qu’il est des points de repère conceptuels qui rendent suffisamment compte de la nature de Dieu ; sans quoi notre intelligence ne serait pas humaine, ce qui revient à dire qu’elle n’existerait pas, ou simplement qu’elle serait inopérante à l’égard de ce qui fait la raison d’être de l’homme. Dieu est inconnaissable et connaissable à la fois, paradoxe qui implique – sous peine d’absurdité – que les rapports sont différents, d’abord sur le plan de la simple pensée et ensuite en vertu de tout ce qui sépare la connaissance mentale de celle du cœur ; la première étant un « percevoir », et la seconde un « être ». « L’âme est tout ce qu’elle connaît », disait Aristote ; il faut ajouter que l’âme peut connaître tout ce qu’elle est ; et qu’elle n’est autre en son essence que Ce qui est, et Ce qui seul est.

Schuon, Du Divin à l’humain, Le Courrier du Livre, 1981, p. 74

A liturgia é um simbolismo que envolve os ritos

Monges tibetanos tocando suas alongadas trompas.

A liturgia é um simbolismo que envolve os ritos a fim de explicitar-lhes exteriormente o alcance e para realçar a descontinuidade real entre o sagrado e o profano, ou entre o divino e o humano, sobretudo o humano coletivo.

No Cristianismo, o elemento litúrgico é mais desenvolvido* do que no Judaísmo ou no Islã; a razão disso está em que, sendo de origem e de estrutura esotérica, o Cristianismo deve sublinhar tanto mais a separação entre o sagrado e o profano**; esta necessidade resulta não do esoterismo em si mesmo, mas de sua aplicação religiosa, portanto social, ou seja, de sua exoterização.

O elemento litúrgico se encontra, num ou noutro grau, em todo sistema ritual — particularmente, também, no Budismo — e sempre pelas mesmas razões fundamentais.

Notas
* Aqui não pensamos nas sobrecargas mais ou menos tardias das liturgias cristãs, mas em suas formas essenciais, que remontam aos Padres da Igreja.
** Distinção que existe em toda parte onde há coletividades tradicionais.

Schuon, Perspectives spirituelles et faits humains, Les Cahiers du Sud, 1953, pp. 83-84.

Ícone da Natividade, século VI, Monastério de Santa Catarina no Sinai.

O Cristianismo é que “Deus se fez o que nós somos, para nos fazer o que ele é” (Santo Irineu); é que o Céu se tornou terra, a fim de que a terra se torne Céu.

Cristo retraça no mundo exterior e histórico o que acontece, desde o começo do tempo, no mundo interior da alma. No homem, o Espírito puro se faz ego, a fim de que o ego se torne puro Espírito; o Espírito ou o Intelecto (Intellectus, não mens ou ratio) se faz ego encarnando-se na mente sob a forma de intelecção, de verdade, e o ego torna-se Espírito ou Intelecto unindo-se a ele.

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O objetivo da religião é salvar muitas almas

O santo Padre Pio (1887-1968).

Podemos nos espantar e mesmo nos escandalizar com a frequência, em ambiente religioso, de opiniões e atitudes mais ou menos ininteligentes, que se diga sem eufemismo; a causa indireta do fenômeno é que a religião, cujo objetivo é salvar o maior número possível, e não satisfazer as necessidades de explicação de uma elite intelectual, não tem motivo para se dirigir diretamente à inteligência propriamente dita. Em conformidade com sua finalidade e com a capacidade da maioria, a mensagem religiosa dirige-se globalmente à intuição, ao sentimento e à imaginação, depois à vontade, e à razão na medida em que a condição humana o exige; ela informa os homens sobre a realidade de Deus, a imortalidade da alma e as consequências que daí decorrem para o homem, e ela oferece a este os meios para se salvar. Ela não é, não quer ser e não pode ser e oferecer outra coisa, ao menos explicitamente; pois, implicitamente, ela oferece tudo.

Schuon, Résumé de métaphysique intégrale, Le Courrier du Livre, 1985, p. 81.


On peut s’étonner et même se scandaliser de la fréquence, en climat religieux, d’opinions et d’attitudes plus ou moins inintelligentes, soit dit sans euphémisme ; la cause indirecte du phénomène est que la religion, dont le but est de sauver le plus grand nombre possible et non de satisfaire le besoin de causalité d’une élite intellectuelle, n’a pas de motif de s’adresser directement à l’intelligence proprement dite. Conformément à sa finalité et à la capacité de la majorité, le message religieux s’adresse globalement à l’intuition, au sentiment et à l’imagination, puis à la volonté, et à la raison dans la mesure où la condition humaine l’exige ; il informe les hommes de la réalité de Dieu, de l’immortalité de l’âme et des conséquences qui en découlent pour l’homme, et il offre à celui-ci les moyens de se sauver. Il n’est pas, ne veut pas, et ne peut être et offrir autre chose, explicitement tout au moins ; car implicitement il offre tout.

Schuon, Résumé de métaphysique intégrale, Le Courrier du Livre, 1985, p. 81.