Arquivo da categoria: Religio Perennis

A vida sobrenatural é centrípeta, mas dilata

Antiga imagem, possivelmente da Áustria ou da Baviera.

Há que distinguir entre a vida natural, que é centrífuga, e a vida sobrenatural, que é centrípeta; a primeira afasta a alma de Deus e a mergulha no mundo, enquanto a segunda afasta a alma do mundo e a reconduz a Deus. A vida natural ou centrífuga comporta um efeito de dispersão e outro de compressão: o profano ou o mundano por um lado se perde na multiplicidade das coisas e por outro lado se endurece em seus apegos passionais. A vida sobrenatural, ao contrário, comporta um efeito de dilatação e outro de concentração: o homem espiritual por um lado se dilata em direção do que é interior e por outro lado se une ao Único, uma coisa sendo função da outra.

Schuon, La conscience de l’Absolu, Hozhoni, 2016, p. 15.


Il faut distinguer entre la vie naturelle, qui est centrifuge, et la vie surnaturelle, qui est centripète ; la première éloigne l’âme de Dieu et l’enfonce dans le monde, tandis que la seconde éloigne l’âme du monde et la ramène à Dieu. La vie naturelle ou centrifuge comporte un effet de dispersion et un autre de compression : le profane ou le mondain, d’une part se perd dans la multitude des choses et d’autre part se durcit dans ses attachements passionnels. La vie surnaturelle au contraire comporte un effet de dilatation et un autre de concentration : l’homme spirituel, d’une part se dilate vers l’Intérieur et d’autre part s’unit à l’Unique, l’un étant fonction de l’autre.

Schuon, La conscience de l’Absolu, Hozhoni, 2016, p. 15.

    Há no homem duas subjetividades

    Para o espírito, o ego empírito é só um invólucro. Pintura de Schuon.

    Há no homem dois sujeitos — ou duas subjetividades — sem medida comum e de tendências opostas, ainda que haja também coincidência sob certo aspecto. Por um lado, há a anima ou o ego empírico, que é tecido de contingências tanto subjetivas, como as lembranças e os desejos, quanto objetivas; por outro lado, há o spiritus ou a inteligência pura, cuja subjetividade está enraizada no Absoluto e que, por este fato, não vê no ego empírico senão um invólucro, portanto algo de exterior e de alheio ao verdadeiro “eu mesmo”, ou antes ao “Si mesmo” ao mesmo tempo transcendente e imanente.

    Schuon, Forme et substance dans les religions, éd. L’Harmattan, 2012, p. 257.

    Quando a alma reconheceu que seu verdadeiro ser está além desse núcleo fenomênico que é o ego empírito e ela se mantém de bom grado no Centro — e esta é a virtude maior, a pobreza ou o apagamento ou a humildade —, o ego comum aparece-lhe como exterior a ela própria, e o mundo, ao contrário, aparece-lhe como seu próprio prolongamento; visto que ela se sente em toda parte nas Mãos de Deus.

    Schuon, La conscience de l’Absolu, éd. Hozhoni, 2016, p. 92.


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    O homem nobre vive o símbolo sempre como algo novo

    O senhor tem razão, a impressão que se tem aqui é de um conto de Natal: em toda parte a neve pura e celeste, e um silêncio solene; isso me transporta de volta a minha infância, quando o inverno era para mim uma espécie de experiência sobrenatural. Essa solidão da neve que agora nos rodeia é de novo uma mensagem do mistério da “paz” e, portanto, também de uma serena sublimidade (serenitas), de libertação espiritual; não deixa de ter sentido que em alemão as palavras “paz” [Friede] e “liberdade” [Freiheit] soem de forma semelhante, e também “alegria” [Freude]; o que me leva a pensar na deusa Freia — não é à toa que esta palavra significa “mulher” [Frau], a Suprema Realidade feminino-divina da felicidade, do amor, da beleza e da fertilidade; o que corresponde à Lakshmî hindu. Em termos islâmicos, poder-se-ia dizer que o mistério da expansão, da expiração, do peito, portanto da inshirâh, surge como resultado do salâm; ou do islâm, quando se entende esta palavra em seu sentido primordial. Várias vezes já me referi a isto.

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    É preciso evitar as falsas certezas

    Estátua do Buda em Gal Viharaya, Polonnawura, Sri Lanka. (Bernard Gagon, Wikimedia Commons.)

    É preciso tomar cuidado com as falsas certezas a respeito dos homens, dos fatos, das situações, pois há aí um clássico perigo, bem conhecido na teologia mística. O fenômeno subjetivo da certeza pode ser uma ilusão — tanto mais perniciosa quanto for grande o que está em jogo —, e, quanto às provas que são invocadas, elas podem ser questão de interpretação ou, como se diria em psicologia, de “projeção”; elas podem ser desmentidas por outras provas, por sua vez reais, mas que são ignoradas ou que se quer ignorar.

    Carta de Frithjof Schuon, 30 de janeiro de 1986. Traduzida do original francês.


    Il faut se garder des fausses certitudes concernant des hommes, des faits, des situations, car il y a là un écueil classique, bien connu en théologie mystique. Le phénomène subjective de la certitude peut être une illusion, — d’autant plus pernicieuse que l’enjeu est grand, — et quant aux preuves que l’on invoque, elles peuvent être affaire d’interprétation, ou de “projection” comme on dirait en psychologie; elles peuvent être démenties par d’autres preuves, réelles celles-ci, mais que l’on ignore ou que l’on veut ignorer.

    Lettre de Frithjof Schuon – 30 janvier 1986.

    Há belezas e limitações em todas as religiões

    Há pessoas que, por causa do simbolismo e da beleza de uma religião, absorvem sua estreiteza dogmática, sua excentricidade teológica e a unilateralidade de sua alma; e, ao contrário, há pessoas que, por causa desses traços, recusam o simbolismo e a beleza de uma religião. E, contudo, há belezas e limitações em todas as religiões, mesmo naquelas que, à sua maneira, prolongam a religião primordial; há nelas também todo o tipo de adaptações e renovações. A Religio perennis é o corpo, a Religio formalis é a vestimenta; ambas têm seu sentido, e as duas podem se combinar de diferentes maneiras.

    Schuon, carta de 19 de outubro de 1980; traduzida do alemão.

    “Minha mensagem está em meus livros”

    Schuon em sua casa em Bloomington, IN (EUA).

    No que diz respeito à irradiação de minha obra, quero pôr a ênfase em meus livros, não na Tarîqah; mais de uma vez eu tive a intenção de fechá-la — isto é, de não receber mais ninguém — porque eu duvidava da possibilidade de mantê-la intacta, e sobretudo de que ela crescesse, dada a inferioridade caracterial do homem médio e a ausência de uma ambiência que seja educativa; e cada vez mais vejo que a experiência corrobora esse sentimento. Seja como for, gostaria de repetir aqui — por causa de sua importância — o que escrevi no último outono a […] [nome da pessoa]; e é o seguinte: minha mensagem está em meus livros; ela não está na Tarîqah, ao menos não a priori; entendo com isso que meus livros constituem uma “prédica”, eles se dirigem ao público, enquanto a Tarîqah não é objeto de nenhuma propaganda.

    Eu poderia dizer que a Tarîqah só é uma mensagem em função de meus livros e ao prolongar minha mensagem escrita; o que significa que os aspirantes à Tarîqah devem ser leitores de meus livros que os compreendam e estejam convencidos. Pode haver exceções — certamente as há, e cabe a mim julgá-las —, mas, então, trata-se de pessoas que, de todas as maneiras, aceitam tudo o que eu represente e manifesto […]. Se a Tarîqah se difunde no mundo, está bem, mas ela não deve se difundir a todo custo. Tanto mais quanto eu não estou de forma nenhuma interessado na expansão por si mesma.

    Carta de 6 de janeiro de 1988, publicada em Letters of Frithjof Schuon – Reflections on the Perennial Philosophy, World Wisdom, 2022, p. 219. A tradução para esta nota foi feita diretamente do original francês.

    A hipótese evolucionista desconhece o que é o homem

    Shri Chandrasekharendra Saraswati Mahaswamigal (1894 – 1994)

    Aqueles que sustentam o argumento evolucionista de um progresso intelectual gostam de explicar as ideias religiosas e metafísicas por meio de fatores psicológicos inferiores, como o medo do desconhecido, a esperança infantil de uma felicidade perpétua, o apego a um conjunto de imagens que se tornou querido, a evasão nos sonhos, o desejo de oprimir o outro sem ter de pagar por isso et caetera; como não se vê que tais suspeitas, apresentadas sem vergonha como fatos demonstrados, comportam inconsequências e impossibilidades psicológicas que não escapam a nenhum observador imparcial? Se a humanidade foi tola durante milênios, não se explica como ela pôde deixar de sê-lo, tanto mais quanto isso teria se dado num tempo relativamente muito curto; e se explica menos ainda quando se observa com que inteligência e que heroísmo ela foi tola durante um tempo tão longo e com que miopia filosófica e que decadência moral ela se tornou por fim “lúcida” e “adulta”.

    Schuon, Du Divin à l’humain, Le Courrier du Livre, 1981, p. 18


    Ceux qui soutiennent l’argument évolutionniste d’un progrès intellectuel aiment à expliquer les idées religieuses et métaphysiques par des facteurs psychologiques inférieurs, tels que la peur de l’inconnu, l’espoir infantile d’un bonheur perpétuel, l’attachement à une imagerie devenue chère, l’évasion dans les rêves, le désir d’opprimer autrui à bon compte, et caetera ; comment ne voit-on pas que de tels soupçons, présentés sans vergogne comme des faits démontrés, comportent des inconséquences et impossibilités psychologiques qui n’échappent à aucun observateur impartial ? Si l’humanité a été stupide pendant des millénaires, on ne s’explique pas comment elle a pu cesser de l’être, d’autant que ce fut dans un laps de temps relativement très court ; et on se l’explique d’autant moins quand on observe avec quelle intelligence et quel héroïsme elle a été stupide pendant si longtemps et avec quelle myopie philosophique et quelle décadence morale elle est devenue enfin « lucide » et « adulte ».

    Schuon, Du Divin à l’humain, Le Courrier du Livre, 1981, p. 18

    Uma antecipação da extinção em Deus

    O Emir ‘Abd Al-Qadr, guerreiro e místico.

    Entre as qualidades que são indispensáveis para a espiritualidade em geral, citaremos em primeiro lugar uma atitude mental que poderíamos designar, na falta de um melhor termo, como “objetividade”: é uma atitude da inteligência totalmente desinteressada, portanto livre de ambição e de partidarismo e, por este fato, marcada pela serenidade. Em segundo lugar, mencionaremos uma qualidade que diz respeito à vida psíquica do indivíduo: é a nobreza, ou seja, a elevação da alma em relação às coisas mesquinhas; no fundo, é um discernimento, em modo psíquico, entre o essencial e o acidental, ou entre o real e o irreal. Por fim, há a virtude da simplicidade: o homem está livre de toda crispação inconsciente que tenha por base o amor-próprio; em relação aos seres e às coisas, ele tem uma atitude completamente original e espontânea, ou seja, desprovida de todo artifício; ele está livre de toda pretensão, ostentação ou dissimulação; numa palavra, ele não tem orgulho. Todo método espiritual exige antes de tudo uma atitude de pobreza, de humildade, de simplicidade ou de autoapagamento, atitude que é como uma antecipação da extinção em Deus.

    Schuon, L’Œil du Cœur, éd. L’Harmattan, 2017, p. 154


    Parmi les qualités qui sont indispensables pour la spiritualité en général, nous nommerons d’abord une attitude mentale que nous pourrions désigner, faute d’un meilleur terme, par le mot « objectivité » : c’est une attitude parfaitement désintéressée de l’intelligence, donc libre d’ambition et de parti pris et, de ce fait, empreinte de sérénité. En second lieu, nous nommerons une qualité concernant la vie psychique de l’individu : c’est la noblesse, c’est-à-dire l’élévation de l’âme par rapport aux choses mesquines ; c’est au fond un discernement, en mode psychique, entre l’essentiel et l’accidentel, ou entre le réel et l’irréel. Enfin, il y a la vertu de simplicité : l’homme est libéré de toute crispation inconsciente à base d’amour-propre ; il a, vis-à-vis des êtres et des choses, une attitude parfaitement originale et spontanée, c’est-à-dire dépourvue de tout artifice ; il est libre de toute prétention, ostentation ou dissimulation ; en un mot, il est sans orgueil. Toute méthode spirituelle exige avant tout une attitude de pauvreté, d’humilité, de simplicité ou d’effacement, attitude qui est comme une anticipation de l’extinction en Dieu.

    Schuon, L’Œil du Cœur, éd. L’Harmattan, 2017, p. 154

    A divindade do Tennô não pode ser abolida

    Imperador Kanmu, séc. XVI.

    Dissemos […] que o Tennô [1] é como a encarnação do Shintô, pelo fato de que e ele descende, através de Jimmu Tennô, Fundado do Império, da Deusa solar Amaterasu-Omikami; resta-nos falar das prerrogativas espirituais que esta origem e esta função implicam. Podemos, por analogia, fazer uma ideia dessas prerrogativas referindo-nos ao caso muito semelhante, no Islã, dos xerifes — os descendentes do Profeta —, que gozam de uma situação humana e mesmo escatológica privilegiada: Deus os perdoou de antemão graças à barakah [2] de seu sangue mohammediano [3]; deve-se aceitar suas faltas eventuais como se aceitam decretos divinos, com paciência e mesmo, se possível, com gratidão; sua bênção é benéfica, sua cólera traz infelicidade; se são piedosos, têm todas as chances de atingir a santidade.

    Privilégios como estes, que não têm nada de arbitrário, por mais surpreendentes que possam parecer à primeira vista, ligam-se a toda linhagem de origem “avatárica” [4], portanto tambem à de Jimmu Tennô, que, este, tem incontestavelmente a qualidade de “Profeta”; mas, como “noblesse oblige” [5], a qualidade de xerife ou de Tennô exige as virtudes de que o Ancestral respectivo era como a encarnação.

    Segundo o que acabamos de dizer, é plausível que a divindade do Tennô não poderia ser “abolida” nem por um decreto qualquer, nem pelo próprio Imperador, cujo pensamento individual não tem poder sobre a qualidade imperial e as virtualidades que ela comporta.

    Notas

    [1] O Imperador do Japão. (N. do E.)
    [2] Palavra árabe que significa “bênção”, “força espiritual”. (N. do E.)
    [3] “De Mohammed”, ou seja, “de Maomé”. (N. do E.)
    [4] Um avatâra é, no Hinduísmo, uma encarnação divina. (N. do E.)
    [5] Provérbio francês: “a nobreza obriga”, ou seja, “cria uma obrigação”. (N. do E.)

    Schuon, Images de l’esprit, Le Courrier du Livre, Paris, 1982, pp. 50-51.

    “Por que choras?”

    “E Maria estava chorando fora, junto ao sepulcro. Estando ela, pois, chorando, abaixou-se para o sepulcro e viu dois anjos vestidos de branco, assentados onde jazera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. E disseram-lhe eles: ‘Mulher, por que choras?’ Ela lhes disse: ‘Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram.’ E, tendo dito isso, voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não sabia que era Jesus. Disse-lhe Jesus: ‘Mulher, por que choras? Quem buscas?’ Ela, cuidando que era o hortelão, disse-lhe: ‘Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei.’ Disse-lhe Jesus: ‘Maria!’ Ela, voltando-se, disse-lhe: ‘Raboni (que quer dizer Mestre)!’ Disse-lhe Jesus: ‘Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai, mas vai para meus irmãos e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus.’ Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos que vira o Senhor e que ele lhe dissera isso.”

    João, 20, 11-18.

    Realizar em si mesmo a Paixão

    Cruz de San Damiano (séc. XII): o crucifixo que falou com São Francisco de Assis.

    Nesta passagem, Schuon comenta os episódios da vida de Cristo em relação à vida espiritual do homem que segue o método da Invocação do Nome divino. Embora várias referências possam parecer soltas, por estar a passagem fora de seu contexto maior, entendo que mesmo assim vale a pena publicar este texto aqui, por ocasião desta Semana Santa. [N. do E.]


    Em termos iniciáticos, a Anunciação é a entrada de Deus no homem, tal como acontece nos Sacramentos, que conferem o Espírito Santo ou Cristo; Deus se tornou verdadeiro homem para que o homem possa se tornar verdadeiro Deus. A Visitação é a conformidade da alma à “Presença real”, a consciência que tem o homem de “portar” a Divindade, a concentração devocional e alegre de todo o ser na “Semente divina”. A Natividade de Cristo é a invocação do Nome salvífico — aquela que actualiza a virtualidade espiritual implicada na “Presença”. A seguir vem a apresentação de Cristo no Templo: o homem, purificado e santificado por esta Presença de Deus, não deixa de se considerar um mero homem e permanece sempre consciente, a despeito dos êxtases da Graça, de suas limitações como criatura e também das limitações que o suporte divino — o Nome — contém em sua “materialidade” [1]. E o encontrarem o Menino Jesus no Templo: depois da “secura” em que o Nome divino deixou a alma, o Nome é revelado como a fonte misteriosa de toda sabedoria.

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    Reformar o homem é religá-lo ao Céu

    Índio das pradarias da América do Norte.

    O mundo é infeliz porque os homens vivem abaixo de si mesmos; o erro dos modernos é querer reformar o mundo sem querer nem poder reformar o homem; e essa contradição flagrante, essa tentativa de fazer um mundo melhor com base numa humanidade pior, só pode levar à própria abolição do humano e, por consequência, também da felicidade. Reformar o homem é religá-lo ao Céu, restabelecer o elo rompido; é arrancá-lo do reino da paixão, do culto da matéria, da quantidade e da esperteza, e reintegrá-lo no mundo do espírito e da serenidade; diríamos mesmo: no mundo da razão suficiente.

    Schuon, Comprendre l’Islam, Éditions du Seuil, 1976, pp. 34-35.
    Há edição brasileira: Para Compreender o Islã, Nova Era.

    Toda religião é, interiormente, a doutrina do “Si” único

    Compreender-se-á melhor a natureza da pura intelecção levando em conta isto: o Intelecto, que é Um, apresenta-se sob três aspectos fundamentais — ao menos na medida em que nos situamos na “ilusão separativa”, o que é caso para toda criatura enquanto tal —, a saber, primeiramente, o Intelecto divino, que é Luz e puro Ato; em segundo lugar, o Intelecto cósmico, que é receptáculo ou espelho em relação a Deus e luz em relação ao homem; e, em terceiro lugar, o Intelecto humano, que é espelho em relação aos dois precedentes e luz em relação à alma individual [1]; é preciso ter o cuidado, por consequência, de distinguir no Intelecto — exceto no Intelecto divino — um aspecto “incriado”, que é essencial, e um aspecto “criado”, que é “acidental” ou antes “contingente” [2].

    Esta visão sintética das coisas “resulta”, se assim podemos dizer [3], do princípio da não-alteridade: o que não é “outro” de forma nenhuma é “idêntico” sob o aspecto considerado, de modo que a inteligência enquanto tal — tanto a de um homem que se conforma à verdade como a de uma planta que se volta irresistivelmente para a luz — “é” a de Deus; a inteligência só é “humana” ou “vegetal” sob o aspecto de seus limites específicos, e o mesmo vale, aliás, para todas as qualidades positivas, portanto para todas as virtudes, que são sempre as de Deus, não em sua acidentalidade redutora, está claro, mas em seu conteúdo ou sua essência.

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    As provações da vida são aspectos de nós mesmos

    A via espiritual abrange todos os acontecimentos da vida; não há nada que não lhe diga respeito de alguma maneira. As provações da vida não são perturbações sem sentido, mas aspectos seja de nós mesmos, seja da Realidade, portanto elementos necessários e inevitáveis da via. Para fazê-las frutificar, elas devem ser aceitas como vindas de Deus: com gratidão e louvor. Só então o homem pode esperar entender completamente o significado da provação, ou, quando se trata de uma situação aparentemente sem saída, esperar ser liberto dela, se Deus quiser.

    Mesmo as distrações, na medida em que um ambiente inevitável as impõe, devem ser aceitas, não como obstáculos ou problemas que vieram por acaso, e dos quais temos de nos queixar, mas como provações enviadas por Deus; devemos integrá-las em nossa vida espiritual e tirar delas o melhor partido. Uma espiritualidade verdadeira não pretende situar-se, como um artigo de luxo, à margem dos desmandos da vida, pois ela não considerará esta última de maneira totalmente egoísta e profana; todos os acontecimentos estão bem enquanto vindos de Deus, e todo o mal como tal vem da natureza humana; isto quer dizer que, para o contemplativo, os fatos não podem deixar de ter um significado espiritual.

    Schuon, carta de 18 de julho de 1951.

    Trad. de Mateus S. Azevedo.

    A palavra sagrada deve marcar a alma do homem

    Arabescos no Alhambra, Espanha.

    Só o homem possui o dom da palavra, pois só ele, entre todas as criaturas terrestres, é “feito à imagem de Deus” de uma maneira direta e total; e como é em virtude dessa semelhança — contanto que ela seja levada a dar frutos pelos meios apropriados — que o homem é salvo, portanto em virtude da inteligência objetiva [*], da vontade livre e da palavra verídica, articulada ou não, compreender-se-á sem dificuldade o papel capital que exercem na vida do muçulmano estas palavras por excelência que são os versículos do Alcorão; eles são não somente sentenças que transmitem pensamentos, mas de certa forma seres, forças e talismãs; a alma do muslîm está como que tecida de fórmulas sagradas, é nelas que ele trabalha e que ele repousa, que ele vive e que ele morre.

    [*] Objetividade que permitiu a Adão “nomear” todas as coisas e todas as criaturas, ou, em outros termos, que permite ao homem conhecer os objetos, as plantas e os animais, enquanto que eles não o conhecem; mas o conteúdo por excelência dessa inteligência é o Absoluto; quem pode mais, pode menos, e é porque o homem pode conhecer Deus que ele conhece o mundo. A inteligência humana é à sua maneira uma “prova de Deus”.

    Schuon, Comprendre l’Islam, Éditions du Seuil, 1976, p. 65