Arquivo do autor:Alberto Queiroz

A única coisa que conta absolutamente…

Os dois grandes obstáculos da vida terrestre são a exterioridade e a matéria; ou, mais precisamente, a exterioridade desproporcional e a matéria corruptível. A exterioridade é a falta de equilíbrio entre nossa tendência para as coisas exteriores e nossa tendência para o interior, o “reino de Deus”; e a matéria é a substância inferior — inferior com relação a nossa natureza espiritual — na qual estamos aprisionados na terra.

O que se impõe é, não rejeitar o exterior só admitindo o interior, mas realizar um equilíbrio com o interior — uma interioridade espiritual, precisamente — que tire da exterioridade sua tirania ao mesmo tempo dispersante e compressiva e que, ao contrário, nos permita “ver Deus em toda parte”; ou seja, perceber nas coisas os símbolos e os arquétipos, em suma, integrar o exterior no interior e fazer dele um suporte para  interioridade. A beleza, percebida por uma alma espiritualmente interiorizada, é interiorizante; não confundir uma interioridade orgulhosa ou narcisista com a interioridade santa.

E no que diz respeito à matéria: o que se impõe é, não negá-la — se isso fosse possível —, mas subtrair-se a sua tirania sedutora; distinguir nela o que é arquetípico e puro do que é acidental e impuro; tratá-la com nobreza e sobriedade. “Tudo é puro para aquele que é puro.”

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A razão de ser do homem é a consciência que o Si divino tem de Si mesmo, e que deve se reverberar na contingência em virtude da Infinitude do Princípio divino.

Nossa relação com o mundo é algo de condicional, de relativo; nossa relação com o Céu, ao contrário, é algo de incondicional e de imprescritível. A única coisa que conta absolutamente é nossa consciência do Absoluto; todo o resto está nas mãos de Deus.

(Frithjof Schuon, A Transfiguração do Homem, Editora Sapientia, 2009, pp. 67 e 68.)

A religião é “ecologicamente” indispensável ao psiquismo humano

Mais um extrato de nosso mestre, desta vez do livro O Jogo das Máscaras:

A tradição fala a cada homem a linguagem que ele pode compreender, com a condição de que ele de fato a queira escutar; esta reserva é essencial, pois a tradição (…) não pode “ir à falência”; é antes da falência do homem que se deveria falar, pois foi ele que perdeu a intuição do sobrenatural e o senso do sagrado. Foi o homem que se deixou seduzir pelas descobertas e invenções de uma ciência ilegitimamente totalitária; ou seja, uma ciência que não reconhece seus próprios limites e que por este motivo ignora o que os supera. Fascinado tanto pelos fenômenos científicos quanto pelas conclusões errôneas que deles tira, o homem terminou por ser submergido por suas próprias criações; ele não está disposto a se dar conta de que uma mensagem tradicional se situa num plano totalmente diferente, nem de quão mais real é esse plano. Os homens se permitem deslumbrar-se tanto mais facilmente quanto o cientismo lhes dá todas as desculpas que eles querem para justificar seu apego ao mundo das aparências e, por consequência, também sua fuga diante de toda presença do Absoluto.

O humanismo espinozista, deísta, kantiano e franco-maçônico queria realizar um homem perfeito fora das verdades que dão ao fenômeno humano todo o seu sentido. Como era preciso substituir um Deus por outro, esse falso idealismo deu lugar ao abuso de inteligência característico do século XIX, particularmente ao cientismo e, com ele, ao industrialismo; este devendo, por sua vez, trazer consigo uma nova ideologia, também ela ao mesmo tempo achatada e explosiva, a saber, esse humanismo paradoxalmente inumano que é o marxismo. A contradição interna deste último é que ele quer construir uma humanidade perfeita destruindo o homem; ou seja, os ateus militantes, mais passionais do que realistas, querem ignorar que a religião é, por assim dizer, uma questão de ecologia. Admitindo que a religião comporta um elemento de “ópio” – não somente “para o povo” –, este elemento é “ecologicamente” indispensável para o psiquismo humano; de qualquer modo, sua ausência traz consigo abusos incomparavelmente mais graves do que o faz sua presença, pois vale mais ter bons sonhos do que ter pesadelos. Seja como for, só a religião, ou a espiritualidade, oferece esta significação integral, e esta felicidade ancorada na natureza deiforme do homem, sem as quais a vida não é nem inteligível, nem digna de ser vivida.

Um poema-conselho de Frithjof Schuon

O que pode fazer uma pessoa, se ela quer salvar sua alma,
mas não conhece nem via, nem método;
Ou se, por uma ou outra razão,
ela se separa das escolas conhecidas?

Se ela não pode fazer outra coisa — eu aconselharia:
recita sem cessar um verso dos Salmos
e faz o que é bom, evita o que é proibido —
tu te salvarás, podes confiar.

Em nossa atitude não deve nunca haver orgulho;
Caminha em Deus, se queres caminhar só.
Não é pecado, viver à margem do mundo —
Em todos os tempos houve eremitas.

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No original alemão:

Was kann man tun, wenn man will selig werden
Doch keinen Weg, keine Methode kennt;
Oder sich von den allbekannten Schulen
Aus diesem oder jenem Grunde trennt?

Wenn man nicht anders kann — ich würde raten:
Sage ein Psalmwort ohne Unterlass,
Und tu das Gute, meide das Verbotne —
Du wirst dich retten, darauf ist Verlass.

Hochmut darf nie in unsrer Haltung sein;
Gehe in Gott, wenn du willst gehn allein.
Es ist nicht Sünd, am Rand der Welt zu leben —
Einsiedler hat es jederzeit gegeben.

 

(Frithjof Schuon, Das Weltrad / La roue cosmique VI, VII,Sinngedichte / Poésies didactiques Band/Volume 10, Editions Les Sept Flèches, Sottens, Suisse, 2010.)

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Uma nota de tradução: uma tradução literal de “wenn man will selig werden” seria “se se quer se tornar abençoado” ou “…bem-aventurado”; contudo, o termo “selig” é usado de forma idiomática para significar o encontro com Deus na hora da morte ou “salvar a alma”; foi esta última acepção que o excelente tradutor do francês usou, e seguimos sua escolha.

De fato, consultando o The Oxford Duden German Dictionary, edição de 1994, vemos as seguintes traduções (aqui damos a tradução em português do sentido dado em inglês):

selig: 1. Adj. a) (Rel.) abençoado; bis an sein seliges Ende até o dia de sua morte; Gott hab’ ihn selig: que sua alma descanse em Deus.

(Foto: Frithjof Schuon nos alpes suíços nos anos 1960.)

O bom e o belo são verdades

“Segundo uma lógica inicial e sintética, diremos que a inteligência visa ao verdadeiro, a vontade, ao bom, e o amor, ao belo. Mas, para fazer frente a certas objeções, é-nos necessário especificar que a inteligência é feita para conhecer todo o cognoscível e que ela tem também por objeto o bom e o belo, não somente o verdadeiro; da mesma forma, a vontade visa a tudo o que merece ser querido, portanto também ao belo e ao verdadeiro; e o amor, por sua vez, visa a tudo o que é amável, portanto também ao verdadeiro e ao bom. Dito de outro modo: do ponto de vista da inteligência, o bom e o belo são, evidentemente, verdades ou, digamos, realidades; do ponto de vista da vontade, a verdade e a beleza são bens; e, do ponto de vista do amor, a verdade e o bem têm sua beleza, o que é bem mais do que uma maneira de dizer.”

Frithjof Schuon, Le Jeu des Masques, L’Âge d’Homme, Lausanne, 1992, p. 20.

“Meditações de Viagem”, por Frithjof Schuon

Tenho a grande honra de oferecer aos leitores este texto muito especial de Frithjof Schuon.

Mateus Soares de Azevedo teve a iniciativa de traduzi-lo da versão inglesa e deu-me a liberdade de fazer uma revisão de seu trabalho com base no original alemão, com vistas a publicá-lo neste espaço.

Agradecemos aos detentores dos direitos pela autorização para a publicação.

Muitas questões surgem para uma pessoa simplesmente porque ela se deixa atrair e aprisionar no domínio em que há questões, em vez de permanecer no domínio da certeza. Se algo a deixa confusa, ela deveria antes de tudo voltar à certeza de que não é este mundo como tal, mas o mundo vindouro, que é importante, e acima de tudo de que Deus é a Realidade; e ela deveria dizer a si mesma: em face desta verdade, que fundamentalmente é a solução para todas as questões, esta ou aquela questão simplesmente não se coloca; basta que ela tenha a Resposta das respostas. E então Deus lhe dará uma luz também para o que é terreno e particular.

(continue a ler em formato web / em PDF)

Muitas pessoas

Pintura de Frithjof Schuon

Desde seu lançamento, no fim de 2013, este website teve mais trinta e cinco mil acessos.

Neste ano de 2018, foram, até agora, mais de cinco mil acessos de possivelmente mais de mil e quinhentas pessoas diferentes.

Muitos, certamente, acessam o website por curto período de tempo, sem realmente ler o conteúdo. Mas creio que um número de pessoas tem, ao longo destes anos, tirado dele um real proveito.

A quantidade, como ensina a tradição, não importa, mas a qualidade. Se, para um única pessoa, este material do grande Frithjof Schuon tiver feito uma diferença significativa, no sentido da Verdade, do Bem e da Beleza, já estaremos muito felizes.

Nosso propósito é apenas compartilhar com outros o que recebemos desse grande mestre — filósofo, poeta e, também, pintor. Como, por exemplo, a bela imagem acima, que nos chama à interioridade contemplativa.

 

Por que há várias Revelações?

Dado que só há uma Verdade, não se deveria concluir que só há uma única Revelação, uma única Tradição possível? A esta questão respondemos em primeiro lugar que Verdade e Revelação não são termos absolutamente equivalentes, pois a Verdade se situa além das formas e a Revelação, ou a Tradição que dela deriva, é de ordem formal, e isto por definição; ora, quem diz forma, diz diversidade, portanto pluralidade; a razão de ser e a natureza da forma são a expressão, a limitação, a diferenciação. O que entra na forma, entra também no número, portanto na repetição e na diversidade; o princípio formal — inspirado pela infinidade da Possibilidade divina — confere a essa repetição a diversidade. Continuar lendo