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O Verbo deve “encarnar-se” na alma “virgem”

A Virgem-Mãe e o Menino (pintura de Frithjof Schuon).

Deus tornou-se homem, a fim que o homem se torne Deus. O primeiro mistério é a Encarnação, e o segundo, a Redenção.

Contudo, assim como o Verbo, encarnando-se, estava já, de certo modo, crucificado, assim também o homem, ao retornar a Deus, deve participar dos dois mistérios: o ego é crucificado em relação ao mundo, mas a graça salvadora se encarna no coração; a santidade é o nascimento e a vida de Cristo em nós.

Esse mistério da Encarnação tem dois aspectos: o Verbo, por um lado, e seu receptáculo humano, por outro; o Cristo e a Virgem-Mãe. A fim de poder realizar em si mesma este mistério, a alma deve ser como a Virgem, pois, assim como o Sol só pode se refletir na água quando ela está calma, da mesma forma a alma só pode receber Cristo na pureza virginal, na simplicidade original, e não no pecado, que é perturbação e desequilíbrio.

Por “mistério” entendemos não algo de incompreensível em princípio — a menos que seja no plano puramente racional —, mas algo que desemboca no Infinito, ou que é considerado sob esse aspecto, de forma que a inteligibilidade torna-se ilimitada e humanamente inesgotável. Um mistério é sempre “algo de Deus”.

Schuon, extrato do ensaio “Mistérios Crísticos e Virginais”, in Sentiers de Gnose, La Place Royale,1987, pp. 163-194.

“A Virgem identifica-se àquele que invoca…”

Pintura de Catherine Schuon.

A representação, nas imagens da Natividade, do boi, animal dócil, e do asno, animal teimoso, é suscetível da seguinte interpretação: o boi, que, aliás, era sagrado para os antigos semitas, está armado de chifres e alia em si a doçura e a força; ele representa, na invocação (*), o “guardião do santuário”: é o espírito de submissão, de fidelidade, de perseverança, o esforço de concentração; o asno, animal “profano”, cujo zurro é chamado de “invocação de Satã” (dhikr ash-Shaytân), é a testemunha satânica na invocação, ou seja, o espírito de insubmissão e de dissipação.

Nesta mesma representação, a Virgem (…) identifica-se àquele que invoca; São José, pai adotivo de Cristo, representa a presença invisível do mestre espiritual na invocação; os visitantes, resumidos de certa forma nos Reis magos, representam o que se poderia chamar “homenagem cósmica” que aflui em direção ao homem santificado, e de que as Escrituras hindus falam ao dizer que “os Céus resplendecem da glória do Mukta” (“libertado”), o que sugere uma aproximação com a adoração de Adão pelos anjos, no Alcorão; por fim, a noite que envolve a cena da Natividade, mas que é iluminada pela estrela, a testemunha divina, representa a morte iniciática ou a solidão, ou ainda a extinção da mente, estado cujo suporte ritual é a khalwah ou o “retiro” das escolas súfis. Por outro lado, a noite da Natividade, assim como a khalwah, correspondem à Laylat al-qadr do Alcorão.

(*) A invocação de um Nome Divino ou de uma fórmula revelada, conhecida como dhikr no Islã e japa-yoga no Hinduísmo, e presente em todas as tradições.

Schuon, extrato do artigo “Comunhão e Invocação”, inédito em português.


La figuration, sur les images de la Nativité, du boeuf, animal docile, et de l’âne, animal têtu, est susceptible de l’interprétation suivante: le boeuf, qui était d’ailleurs sacré chez les anciens Sémites, est armé de cornes et allie en lui la douceur et la force; il représente, dans l’invocation, le “gardien du sanctuaire”: c’est l’esprit de soumission, de fidélité, de persévérance, l’effort de concentration; l’âne, animal “profane” dont le cri est appelé “invocation de Satan” (dhikr esh-Shaytân), est le témoin satanique dans l’invocation, c’est-à-dire l’esprit d’insoumission et de dissipation.

Dans cette même figuration, la Vierge (…) s’identifie à celui qui invoque; Saint-Joseph, père adoptif du Christ, représente la présence invisible du maître spirituel dans l’invocation; les visiteurs, résumés en quelque sorte dans les Rois mages, représentent ce qu’on pourrait appeler “l’hommage cosmique” qui afflue vers l’homme sanctifié, et dont parlent les Écritures hindoues en disant que “les Cieux resplendissent de la gloire du Mukta” (“délivré”), ce qui suggère un rapprochement avec l’adoration d’Adam par les anges dans le Qoran; enfin, la nuit qui enveloppe la scène de la Nativité, mais qui est illuminé par l’étoile, le témoignage divin, représente la mort initiatique ou la solitude, ou encore l’extinction du mental, état dont le support rituel est la khalwah ou “retraite” des écoles çûfiques. D’autre part, la nuit de la Nativité ainsi que la khalwah correspondent à la Laylat el-qadr du Qoran.

Schuon, extrait de l’article “Communion et Invocation”.

O símbolo religioso está também dentro de nós

O mito da Criação.

Um exemplo clássico do dogma ingênuo é a história bíblica da criação, e então a do primeiro par humano: se somos céticos, choca-nos a infantilidade do texto literal, mas, se somos intuitivos — e todo homem deveria sê-lo —, somos sensíveis às verdades irrefutáveis das imagens; sentimos que portamos essas imagens em nós mesmos, que elas têm uma validade universal e intemporal. A mesma observação se aplica aos mitos e mesmo aos contos de fadas: ao descrever os princípios — ou situações — que dizem respeito ao universo, eles descrevem ao mesmo tempo realidades psicológicas e espirituais da alma; e, nesse sentido, pode-se dizer que os simbolismos da religião ou da tradição popular são, para nós, algo de experiência corrente, na superfície e em profundidade.

Frithjof Schuon, Approches du phénomène religieux, Le Courrier du Livre, 1984, p. 66.


Un exemple classique du dogme naïf est l’histoire biblique de la création, puis celle du premier couple humain : si nous sommes des sceptiques, nous nous heurtons à l’infantilisme du mot-à-mot, mais si nous sommes des intuitifs – et tout homme devrait l’être – nous sommes sensibles aux vérités irréfutables des images ; nous sentons que nous portons ces images en nous-mêmes, qu’elles ont une validité universelle et intemporelle. La même remarque s’applique aux mythes et même aux contes de fées : décrivant les principes – ou des situations – qui concernent l’univers, ils décrivent en même temps des réalités psychologiques et spirituelles de l’âme ; et en ce sens on peut dire que les symbolismes de la religion ou de la tradition populaire sont pour nous d’expérience courante, à la surface et en profondeur.

Frithjof Schuon, Approches du phénomène religieux, Le Courrier du Livre, 1984, p. 66.

Cremos na Mensagem porque ela é o que somos

Shiva Nataraja, séc. X ou XI, Instituto de Arte de Chicago.

O valor de um homem está em sua consciência do Absoluto, e por consequência na integralidade e profundidade dessa consciência; tendo perdido isso de vista ao mergulhar no mundo dos fenômenos considerados em si mesmos, o homem tem necessidade, para voltar a lembrá-lo, da Mensagem celeste. No fundo, essa Mensagem vem “dele mesmo”; não de seu eu empírico, está claro, mas de sua ipseidade imanente, que é a de Deus e sem a qual não haveria eu humano, nem angélico, nem outro; a credibilidade da Mensagem resulta do fato de que ela é o que nós somos, ao mesmo tempo em nós mesmos e além de nós mesmos. No fundo da transcendência está a imanência, e no fundo da imanência, a transcendência.

Schuon, Du Divin à l’humain, Le Courrier du Livre, 1981, p. 152.


La valeur de l’homme est dans sa conscience de l’Absolu, et par conséquent dans l’intégralité et la profondeur de cette conscience ; l’ayant perdu de vue en s’enfonçant dans le monde des phénomènes envisagés en tant que tels, l’homme a besoin, pour le lui rappeler, du Message céleste. Au fond, ce Message vient de « lui-même » ; non de son moi empirique bien entendu, mais de son immanente ipséité, qui est celle de Dieu et sans laquelle il n’y aurait pas de moi humain, ni angélique, ni autre ; la crédibilité du Message résulte du fait qu’il est ce que nous sommes, à la fois en nous-mêmes et au-delà de nous-mêmes. Au fond de la transcendance est l’immanence, et au fond de l’immanence, la transcendance.

Schuon, Du Divin à l’humain, Le Courrier du Livre, 1981, p. 152.

A pobreza não justifica a impiedade

Mendigo marroquino, c. 1910.

Uma variante bem “atual” do sentimentalismo ideológico que temos em vista, e muito difundida entre os próprios crentes, é a obsessão demagógica pelo “social”. Em outro tempo, quando todo o mundo era religioso, a pobreza preservava os pobres da hipocrisia, ou de certa hipocrisia; em nossos dias, a pobreza engendra com demasiada frequência a descrença e a inveja — nos países industrializados ou atingidos pela mentalidade industrialista —, de modo que ricos e pobres estão quites; à hipocrisia dos primeiros responde a impiedade dos últimos.

É profundamente injusto preferir este novo vício dos pobres ao vício habitual — e tradicionalmente estigmatizado — dos ricos, desculpar a impiedade dos pobres por sua pobreza sem desculpar a hipocrisia dos ricos por sua riqueza; se os pobres são vítimas de seu estado, os ricos são da mesma forma do seu e, se a pobreza dá direito à impiedade, a riqueza dá direito ao simulacro de piedade. Se é preciso, espiritualmente, ter compaixão pelos pobres, é preciso, da mesma forma, ter compaixão pelos ricos e desculpá-los, tanto mais quanto a diferença só reside em situações de todo exteriores e facilmente reversíveis, e não na natureza fundamental dos homens; não se pode preferir os pobres a não ser quando são melhores que os ricos por sua sinceridade espiritual, sua paciência, seu heroísmo secreto — tais pobres existem sempre, assim como ricos desapegados de sua riqueza — e não quando são piores por sua descrença, sua inveja ou seu ódio.

Os cristãos perseguidos sob Nero sofriam mais do que sofrem hoje os trabalhadores mal pagos, sem que nenhuma teologia lhes concedesse o direito de não mais crer em Deus e de desprezar sua Lei; a tradição nunca admitiu essa espécie de chantagem econômica para com Deus.

Schuon, A Transfiguração do Homem, livro disponível neste website, pp. 28-29.

O que amamos, no fundo nós o somos

Pintura de Schuon.

“O reino de Deus está dentro de vós”, ou seja, na subjetividade espiritual e, portanto, transpessoal; se é assim, qual pode ser o significado de nossa vida exterior, de nossos contatos com os seres e as coisas? É que os fenômenos positivos manifestam os tesouros celestes que trazemos em nós mesmos, e nos ajudam a descobri-los e a realizá-los; aquilo que nós amamos, nós o somos no fundo, e é por isso que nós o amamos; o sujeito mais profundo alcança as margens mais felizes. É preciso ter o senso da beleza e o senso do sagrado, e também — num plano muito mais modesto — o senso do perfume divino dos prazeres naturais que nos oferece a vida deste mundo, o que implica que nós disponhamos deles com nobreza.

Schuon, Raízes da Condição Humana, livro publicado neste website.

A busca da felicidade é a busca do Éden

Hattie Tom, Apache (1899).

Desde que perdeu o Éden, o ser humano ficou para sempre numa busca; essa é a origem do desejo. Ele não busca nunca outra coisa a não ser o Éden, e nunca encontra outra coisa a não ser o reflexo quebrado deste, cujas possibilidades particulares de felicidade só podem ser realizadas à exclusão de incontáveis outras possibilidades de felicidade e, dado que são reflexos e não o verdadeiro Éden, levam ao vazio e à limitação. Fora do Éden só há uma felicidade, a vontade de superar em espírito a felicidade e realizar assim sua possibilidade suprema.

SchuonLeitgedanken zur Urbesinnung (Pensamentos Diretivos para a Meditação Primordial), Verlag H.J.Maurer, Frankfurt am Main, 2010, p. 60. Traduzido para o português diretamente do original alemão.


Seitdem der Mensch Eden verlor, ist er immerfort auf der Suche; das ist der Ursprung der Begierde. Er sucht niemals anderes als Eden und findet niemals anderes als dessen gebrochenen Widerschein, dessen jeweilige Freudemöglichkeiten sich nur unter Ausschluss zahlloser anderer Freudemöglichkeiten verwirklichen können und, da sie nur Widerscheine und nicht das wahre Eden sind, zu Leerheit und Begrenzung führen. Außerhalb Edens gibt es nur ein Glück, den Willen, das Glück im Geist zu überwinden und also seine letzte Möglichkeit zu erfüllen. 

SchuonLeitgedanken zur Urbesinnung, Verlag H.J.Maurer, Frankfurt am Main, 2010, p. 60.

Podemos caminhar sobre as águas do mundo

Jesus, caminhando sobre a água do mar, ajuda Pedro, que afunda por pouca fé.

O ser humano é principalmente mais do que a Terra; pois ele caminha sobre ela com seus pés. Também seu espírito é mais do que o mundo; pois ele caminha sobre ele com seus pés. Jesus caminhou sobre a água e, na Transfiguração, foi elevado da terra; portanto, também o espírito pode caminhar sobre as águas do mundo e ser elevado do mundo.

SchuonLeitgedanken zur Urbesinnung (Pensamentos Diretivos para a Meditação Primordial), Verlag H.J.Maurer, Frankfurt am Main, 2010, p. 52. Traduzido para o português diretamente do original alemão.


Der Mensch ist ursätzlich mehr als die Erde; denn er geht auf ihr mit seinen Füßen. Also ist auch sein Geist mehr als die Welt; denn er geht auf ihr mit seinen Füßen. Jesus ging auf dem Wasser und wurde bei seiner Verklärung von der Erde gehoben; also kann auch der Geist auf den Wassern der Welt gehen und von der Welt gehoben werden.

SchuonLeitgedanken zur Urbesinnung, Verlag H.J.Maurer, Frankfurt am Main, 2010, p. 52.

Em nosso Coração temos o mundo todo

Shrî Ramana Maharshi: olhar de interioridade.

Um ser humano conhece somente o seu conhecer individual; o conhecer em si, contudo, ele não conhece; pois este é a Realidade. Se não tivéssemos principialmente no Coração o mundo todo, que conhecemos, como poderíamos, de qualquer forma, conhecê-lo?

O grão de mostarda é pequeno perto da árvore que ele gera, e, contudo, quando temos a semente, temos toda a árvore, e poderíamos destruir esta naquela. Da mesma forma, somos a semente da árvore do mundo, que devemos dissolver, para superar nosso nível de conhecimento e sua correspondente realidade, o mundo das aparências.

Nosso conhecimento é nosso contato com a realidade através de nossos limites; assim como um cego só conhece o sol quando sente seu calor, e contudo não sabe nada de sua luz e de sua forma.

O ar é um símbolo da Verdade: nós o aspiramos, tornamo-lo nosso, expiramos; a relação é inversa em termos espirituais: a Verdade vem do Infinito para o nosso Coração, para as narinas, que aspiram o ar da Realidade, e de lá para o cérebro e para os pulmões, que transformam e assimilam o ar da Realidade, e é expirada de volta ao Infinito pelo Coração. No domínio terreno, o que dá a vida vem de fora, mas, no domínio espiritual, de dentro.

Schuon, Leitgedanken zur Urbesinnung (Pensamentos Diretivos para a Meditação Primordial), Verlag H.J.Maurer, Frankfurt am Main, 2010, pp. 75-76. Traduzido para o português diretamente do original alemão.


Der Mensch kennt nur sein eigenes Erkennen; seine Erkenntnis als solche aber erkennt er nicht; denn diese ist die Wirklichkeit. Hätten wir nicht die ganze Welt, die wir erkennen, ursätzlich im Herzen, wie könnten wir sie überhaupt erkennen?

Das Senfkorn ist klein neben dem Gewächs, das es erzeugt, und dennoch haben wir das ganze Gewächs, wenn wir das Senfkorn halten, und können jenes in diesem vernichten. So sind wir gleicherweise Kern des Weltgewächses, das wir auflösen sollen, um unsere Erkenntnisstufe und die ihr entsprechende Wirklichkeit, die Erscheinungswelt, zu überwinden.

Unsere Erkenntnis ist unsere Berührung mit der Wirklichkeit durch unsere Grenzen hindurch; wie der Blinde die Sonne nur kennt, wenn er ihre Wärme verspürt, und doch nichts von ihrem Licht und ihrer Form weiß.

Die Luft ist ein Sinnbild der Wahrheit: Sie wird eingeatmet, angeeignet, ausgeatmet; umgekehrt ist das Verhältnis im geistigen Sinne: Die Wahrheit kommt aus dem Unendlichen ins Herz, in die Nüstern, welche der Wirklichkeit Luft einsaugen, und von da ins Gehirn, in die Lunge, welche der Wirklichkeit Luft verwandelt und verdaut, und wird durchs Herz ins Unendlich zurückgeatmet. Im irdischen Bereich kommt das Belebende von außen her, im geistigen von innen.

Schuon, Leitgedanken zur Urbesinnung, Verlag H.J.Maurer, Frankfurt am Main, 2010, pp. 75-76.

O santuário primordial é a natureza virgem

Eu já disse algumas vezes o seguinte: quando na Fâtihah* peço ser conduzido pelo caminho reto, não o faço por querer rezar da maneira islâmica, mas sim para dizer a Deus o que eu sinceramente quero e o que todo ser humano deve querer, a saber: “Guia-nos na via reta.”

Alguém certa vez me disse que, quando entrava numa mesquita, sentia-se constrangido pela forma religiosa; isso, evidentemente, não faz sentido, pois, se fosse correto, ninguém poderia se alegrar com uma cor bela, só se apreciaria a luz pura; não se veria que também uma cor pura transmite a luz, mesmo que de uma forma particular. Quando entro num santuário, pertença ele a qual religião pertencer, sinto com gratidão a Barakah** particular, e depois, nela e por meio dela, a Barakah primordial. E isso não subtrai nada do fato de que o santuário próprio à Religio Perennis é a natureza virgem, tal como Deus a criou.

*Oração de abertura do Alcorão (N. do E.).
** “Bênção”, em árabe (N. do E.).

Carta de Schuon de 19 de outubro de 1980. Aqui traduzida do original alemão.


Ich habe des öfteren folgendes wiederholt: wenn ich in der Fâtihah um die rechte Wegleitung bitte, dann tue ich es nicht, weil ich auf Islamische weise beten will, sondern um Gott zu sagen, was ich aufrichtig wünsche und was alle Menschen wünschen sollen, nämlich: “Führe uns den geraden Pfad.”

Jemand sagte mir einmal, wenn er in eine Moschee eintrete, fühle er sich beengt durch die Glaubensform; das ist selbstverständlich Unsinn, denn wenn dies richtig wäre, könnte man sich an keiner schönen Farbe freuen, man hätte nur Verständnis für das reine Licht; man sähe nicht, dass auch eine reine Farbe das Licht weitergibt, wenn auch auf besondere Weise. Wenn ich in ein Heiligtum eintrete, welcher Religion es auch zugehöre, so fühle ich dankbar die besondere Barakah, und dann, in ihr und durch sie, die Ur-Barakah. Und dies nimmt nichts von der Tatsache hinweg, dass das eigentliche Heiligtum der Religio Perennis die freie Gottesnatur ist.

Schuon, Schreiben vom 19. Oktober 1980.

O que Deus pede de nós em primeiro lugar

Conchita, uma das videntes de Garabandal, Espanha.

O que torna sua posição difícil é a combinação de dois domínios de desejo muito diferentes: você quer, como todos, ser feliz, mas você também quer, como toda pessoa espiritual, não desperdiçar a razão suficiente ou o sentido desta vida terrena. Ora, estes quereres algumas vezes se contradizem um ao outro, ao menos por certo período, mas o desejo da felicidade não deve fazer diminuir o desejo da salvação. Entenda-me! O que Deus pede de nós em primeiro lugar — pois isto diz respeito a todos os homens — é que salvemos nossas almas; se essa salvação está ligada a um conhecimento metafísico e a práticas esotéricas é uma outra questão. E aqui o homem tem três possibilidades: ou ele não tem nenhuma relação interior com a verdade suprema, não entende nada da sabedoria de Deus e não quer saber nada sobre ela; ou ele entende e ama essa sabedoria em algum grau, mas, por alguma razão, não pode seguir uma via correspondente; ou — e esta é a terceira possibilidade — ele entende e ama essa sabedoria e pode procurar realizá-la seguindo um método.

Ora, o que você me diz em sua carta, a respeito de suas dificuldades psicológicas, leva-me a supor que a sua possibilidade é a segunda. Você leu sobre as qualificações iniciáticas: uma disposição à neurose não é compatível com exercícios espirituais praticados de forma estrita e metódica. O que lhe digo aqui abre-lhe as seguintes perspectivas: dado que Deus pede com certeza a você apenas uma coisa, porque ele pede isso a todo homem — a saber, salvar sua alma e consequentemente incorporar-se a uma tradição que lhe oferece os meios para isso —, o critério da via para você não está primariamente no esoterismo, mas na ortodoxia.

Portanto, de um ponto de vista puramente principial, o seu caminho poderia estar quer no Cristianismo latino, quer no ortodoxo, ou ainda no Islã; nenhuma dessas formas excluiria sua necessidade de um aprofundamento metafísico. Mas as mais favoráveis seriam o Cristianismo grego ou o Islã, porque neles não predomina a conformidade forçada, espiritualmente paralisante, que é característica da Igreja Romana; em outras palavras: a Igreja Romana, pela filosofia, pelo moralismo exclusivo e pela sentimentalidade excessiva tornou-se incapaz de uma espiritualidade viva, e sua socialização interior [*] força todos os fiéis a estar em sintonia com a espiritualidade “oficial” — ou não-espiritualidade. O mesmo não acontece na Igreja Grega, que sempre se defendeu contra a socialização interior e o igualitarismo, e ainda possui um esoterismo vivo, ao menos no Monte Atos.

Seja como for, o Islã, de seu lado, tem a vantagem de que nele todo homem é seu próprio sacerdote; contudo, para nós, ocidentais e norte-europeus, ele tem a desvantagem de em certa medida separar-nos da sociedade e condenar-nos a uma certa solidão; mas isto, de um ponto de vista espiritual, é uma vantagem, na medida em que todo homem espiritual é de alguma forma solitário e, de fato, o mundo em que se vive hoje é explicitamente não-espiritual. Em relação a isso, gostaria de deixar bem claro para você o seguinte: primeiro, que a regra espiritual a que seu marido se submete não exige que você siga a mesma regra; segundo, que ela não exige de você nenhum isolamento exterior em relação às pessoas não-espirituais à sua volta; portanto, se seguir a mesma tradição de seu marido, você pode continuar a cultivar todos os seus relacionamentos e suas atividades anteriores.

O que você deveria fazer acima de tudo é praticar a oração livre, na qual você deve contar a Deus, como você contaria a uma pessoa, todos os seus problemas. Alguém uma vez me disse: “Mas eu não consigo rezar”, e eu respondi: “Então diga a Deus ‘eu não consigo rezar’. Mas expresse isso! Então o encantamento logo se quebrará.”


[*] Nota: No original, innere Verstaatlichung. O termo Verstaatlichung refere-se em geral à nacionalização ou socialização de propriedades privadas. Num contexto cristão, ele se refere à secularização de bens da Igreja. Innere Verstaatlichung traduz-se literalmente por “nacionalização interior” ou “socialização interior”. O autor, ao usar essa expressão, refere-se não à secularização de bens, mas, pelo que se depreende do contexto, à socialização da “dinâmica interior” da Igreja, que se torna uniformizada e “pública”, com a exclusão da vida espiritual mais “privada” e pessoal e, portanto, de um esoterismo.

Carta de Schuon a uma sua leitora, esposa de um de seus discípulos, datada de 7 de novembro de 1949. Letters of Frithjof Schuon — Reflections on the Perennial Philosopy, org. Michael Fitzgerald, World Wisdom, 2022, pp. 68-69.

Pela oração podemos transformar o chumbo em ouro

Árabe de Haifa (c. 1900).

Estar só com Deus — sem amargura para com ninguém, isto é uma condição formal — é uma coisa maravilhosa; essa solidão que vive da invocação do Nome divino. Nossa vida está aí diante de nós, e devemos vivê-la; não podemos fugir dela. Eu sei onde está a dificuldade: é mais fácil — ou menos difícil — estar só numa ilha deserta do que estar entre homens que não nos entendem. Mas, se não temos escolha, então somos forçados a aceitar o destino que Deus nos deu e fazer dele o melhor que podemos. Por meio da oração podemos transformar o chumbo em ouro, alquimicamente falando; podemos mesmo transformar, em certa medida, aqueles que são parte de nossa vida.

A sua vida não pode não ter sentido aos olhos de Deus, pois você existe e tem inteligência e livre-arbítrio. Devemos começar com o que é certo, e não perder tempo estando ansiosos e fazendo constantes avaliações em relação ao que é incerto; ora, o que é absolutamente certo é a morte, o encontro com Deus, a eternidade; e depois o momento presente, esse que vivenciamos neste instante mesmo e que vivenciamos sempre, e no qual somos livres para escolher Deus, lembrando d’Ele [*]. As coisas que são incertas devem estar subordinadas às que são certas — que são espirituais — e não o inverso.

*Nota: Schuon refere-se à invocação de um Nome divino ou fórmula sagrada, com autorização e sob orientação de um mestre ou diretor espiritual. Essa invocação é chamada, no Sufismo, de “lembrança de Deus” ou “menção de Deus”. Está presente em todas as tradições religiosas, sob diferentes nomes.


Schuon, extrato de carta de c. 1960, Letters of Frithjof Schuon – Reflections on the Perennial Philosophy, org. Michael Fitzgerald, World Wisdom, EUA, 2022, p. 111.

A máquina tende a fazer do homem o que ela é

A fiação manual é um exemplo de um ofício ainda humano e contemplativo.

É difícil negar, quando ainda se é sensível às normas verdadeiras, que a máquina tende a fazer do homem o que ela é; que ela o torna brusco, brutal, vulgar, quantitativo e estúpido como ela, e que toda a “cultura” se ressente disso. É o que explica em parte o “sincerismo” e a mística do “engajamento”: é preciso ser “sincero” porque a máquina não tem mistério e é incapaz de prudência bem como de generosidade; é preciso ser “engajado”, porque a máquina só tem valor por suas produções, ou porque ela exige uma supervisão constante e mesmo um verdadeiro “dom de si” [*], e assim devora o homem e o humano; é preciso abster-se, em arte e em literatura, de “complacência”, pois a máquina não é complacente e sua feiura, sua ruidosa agitação e sua implacabilidade se confundem, no espírito de seus escravos e de suas criaturas, com a “realidade”; e sobretudo é preciso não ter Deus, porque a máquina não tem Deus, ou porque ela mesma usurpa esse papel.

[*] Se se nos objeta que o mesmo acontecia nos antigos ofícios, responderemos que há aí uma diferença notável pelo fato de que esses ofícios tinham um caráter propriamente humano e portanto contemplativo, e, por esse fato, não comportavam nem a agitação nem o esmagamento próprios do maquinismo.

Schuon, A Transfiguração do Homem, livro disponível neste website.

Nada é mais contraditório que negar o espírito

Imagem do Buda em Polonnaruwa, Sri Lanka.

Nada é mais contraditório do que negar o espírito, ou mesmo simplesmente o elemento psíquico, em favor da ideia de que só a matéria existe, pois é o espírito que nega, enquanto a matéria permanece inerte e inconsciente. O fato de que a matéria possa ser pensada prova, precisamente, que o materialismo se contradiz desde seu ponto de partida, um pouco como o pirronismo, para o qual é verdade que não existe verdade, ou como o relativismo, para o qual tudo é relativo, exceto esta afirmação.


Rien n’est plus contradictoire que de nier l’esprit, ou même simplement l’élément psychique, en faveur de la seule matière, car c’est l’esprit qui nie, alors que la matière demeure inerte et inconsciente. Le fait que la matière peut être pensée prouve précisément que le matérialisme se contredit dès son point de départ, un peu comme le pyrrhonisme pour lequel il est vrai qu’il n’y a pas de vérité, ou comme le relativisme pour lequel tout est relatif, sauf cette affirmation.

SchuonLe jeu des masques, 1992, «En face de la contingence», p.69-70.

Certeza e serenidade, união a Deus

Joachim (1895-1950) da Skete de Santa Ana, Monte Athos.

Discernimento e contemplação; poderíamos dizer também, por analogia: certeza e serenidade. Certeza do pensamento e serenidade da mente, em primeiro lugar, mas também certeza e serenidade do coração; portanto derivando, não somente da visão intelectual do Transcendente, mas também da actualização mística do Imanente. Realizadas no coração, a certeza e a serenidade se tornam respectivamente a fé unitiva e o recolhimento contemplativo e extintivo; a Vida e a Paz em Deus e por Ele; portanto a união a Deus.

Schuon, Nos Caminhos da Religião Perene, livro disponível neste website, capítulo “Síntese e conclusão“.