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Tesouros

Santo Antônio das Cavernas de Kiev (séc. 11).

A Oração-Forma — e quintessencialmente o Nome divino — contém a vontade de Deus de salvar o homem. A Oração-Ato — e quintessencialmente o coração humano — contém o desejo do homem de ser salvo.

A Oração contém e comunica todos os tesouros da Presença divina e da Fé humana.

Onde está a Verdade, está a Salvação.
Onde está a Certeza, está a Paz.
Onde está a Prece, está a Graça.
Onde está o Fervor, está a Vitória.

Foi dito: “Onde estiver o teu tesouro, lá estará também o teu coração.” Possa o homem reconhecer seu tesouro na Verdade libertadora, com todo o seu coração.


Schuon, A Transfiguração do Homem, Sapientia, 2009, p. 118. Disponível neste website.

As injustiças nos põem à prova

Japão, séc. 19.

Toda injustiça que sofremos da parte dos homens é ao mesmo tempo uma provação que nos chega da parte de Deus.


Toute injustice que nous subissons de la part des hommes est en même temps une épreuve qui nous arrive de la part de Dieu.

Schuon, L’ésotérisme comme principe et comme voie, Dervy Livres, 1997, p. 141

O espiritual procura sempre ser objetivo, nobre, simples

A serenidade e a bondade espirituais parecem sobressair nesta foto de Dom Bosco (1815-1888).

Entre as qualidades que são indispensáveis para a espiritualidade em geral, mencionaremos em primeiro lugar uma atitude mental que poderíamos designar, na falta de um termo melhor, com a palavra “objetividade”: é uma atitude da inteligência totalmente desinteressada, portanto livre de ambição e de partidarismo, e, por esse fato, marcada pela serenidade. Em segundo lugar, mencionaremos uma qualidade que diz respeito à vida psíquica da pessoa: é a nobreza, ou seja, a elevação da alma em relação às coisas mesquinhas; é, no fundo, um discernimento, em modo psíquico, entre o essencial e o acidental, ou entre o real e o irreal. Por fim, há a virtude de simplicidade: o homem se vê livre de toda crispação inconsciente causada pelo amor-próprio; ele tem, em relação aos seres e às coisas, uma atitude completamente original e espontânea, isto é, sem nada de artificial; ele está livre de toda pretensão, ostentação ou dissimulação; numa palavra, ele não tem orgulho. Todo método espiritual exige antes de tudo uma atitude de pobreza, de humildade, de simplicidade ou de autoapagamento, atitude que é como uma antecipação da extinção em Deus.


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O “realismo” político não pode justificar vilanias

Arqueiro Zen: “…que os meios não violem as normas da natureza…”

Ouve-se com demasiada frequência censurarem o “sentimentalismo” de homens que protestam, não contra um mal necessário, mas contra uma baixeza; essa censura, mesmo se coincide acidentalmente com a verdade do ponto de vista simplesmente psicológico, é no entanto totalmente injustificada enquanto pretende reduzir reações da inteligência a suas possíveis concomitâncias emotivas.

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O relativismo se quer absoluto

Mosaico marroquino.

O relativismo reduz todo elemento de absolutez à relatividade, fazendo uma exceção totalmente ilógica com esta própria redução. Ele consiste, em suma, em declarar que é verdadeiro que não existe verdade, ou que é absolutamente verdadeiro que só existe o relativamente verdadeiro; o mesmo valeria dizer que não existe linguagem, ou escrever que não existe escrita. Ou seja: toda ideia se vê reduzida a uma relatividade quer psicológica, quer histórica, quer social; a asserção se anula pelo fato de que ela se apresenta a si mesma como uma relatividade psicológica, histórica ou social, e assim por diante. A asserção se anula, se é verdadeira, e, em se anulando logicamente, prova que é falsa; sua absurdidade inicial é a pretensão implícita de só ela escapar, como por encanto, de uma relatividade declarada como única possibilidade.

Schuon, “A contradição do relativismo“, ensaio publicado neste website.

A natureza: uma escolha mais inteligente e realista

Índio da tribo Blackfoot, 1926. Foto de Edward Curtis.

A ideologia progressista do século 19 acreditava poder reduzir o problema do espírito humano, sob certo aspecto ao menos, à distinção mais expeditiva entre “civilizados” e “bárbaros”; ora, se ser inteligente é ser realista, os peles-vermelhas, por exemplo, com seu realismo ecológico, eram mais inteligentes que os brancos quimericamente industrialistas, e eles o eram, não apenas na superfície, mas em profundidade. O que nos permite observar que o naturismo dos povos sem escrita se baseia mais frequentemente do que se está disposto a admitir numa “escolha primordial” que está longe de ser desprovida de sabedoria; desconfiando instintivamente da inteligência do aprendiz de feiticeiro, eles preferiram se abster dela.*

*Nota: Seus axiomas: se criais alguma coisa — indo muito longe na exteriorização e na concretização —, vós vos tornareis escravos dela; as aglomerações urbanas produzem a degenerescência e as calamidades. Essas convicções explicam o vandalismo dos povos naturistas quando se fazem conquistadores, ainda que em seguida eles não possam resistir à hipnose das civilizações urbanas. A iconoclastia judaico-muçulmana não deixa de ter relação com esta perspectiva.


Schuon, Raízes da Condição Humana, ed. Kalon, 2014, pp.26-27. O livro está disponível neste website.

Na confiança em Deus há um grande mistério

A santa hindu Anandamayi Ma (1896 – 1982).

Há dissonâncias na vida que nos são ininteligíveis e insuportáveis porque elas têm o Maligno por autor; precisamente porque vêm do Maligno elas são o que são.

Na confiança em Deus reside um grande mistério ou milagre. Essa é a chave para o florescimento espiritual; interiormente o repouso em Deus, exteriormente a confiança em Deus, a entrega das coisas à Sabedoria e à Bondade Divinas. Pôr nossas preocupações em Suas Mãos e descansar junto a Ele, como uma criança despreocupada. Está tu interiormente junto a Deus, Ele estará exteriormente junto a ti. Neste sentido, o Profeta disse: “Aquele que protege a Deus em seu coração, Deus o protege no mundo.”

Na vida, mesmo que nos refugiemos no que é grande, encontramos sempre de novo a pequenez, e, quando ela nos fere, corremos o risco de responder à pequenez com pequenez: pois esta é sua maneira de atrair o homem para sua estreiteza. Quanto à grandeza, nós a temos somente de Deus e em Deus, pois tudo o que é verdadeiramente grande o é a partir de Deus; somente n’Ele reside nosso refúgio diante da pequenez mortal do mundo e nossa resposta ao que é pequeno. Quando o pequeno ou o vão te atacam, não te tornes tu mesmo pequeno e vão, mas sê grande agradecendo a Deus por essa experiência, que te mostra mais uma vez que as coisas mundanas são pequenas e vãs; e entrega tuas coisas a Deus, sem te atormentares com perguntas.

Não tentes resolver as coisas em seu próprio nível sem sentido; não forces o sem sentido a ter um sentido e não te tornes tu mesmo sem sentido; mas toma as coisas por sua raiz, que reside em ti mesmo; não contendas com o que é pequeno, mas entende por que ele é pequeno e por que está aí e deve estar aí; lembra-te do que é a grandeza e oferece ao teu próximo a grandeza onde puderes; pois todo ser está ligado a Deus e assim tem grandeza em si; a pequenez é apenas uma nuvem escurecedora e um alarido externo.

Na santíssima Verdade e na Oração suprema não há estreiteza nem amargura, mas somente amplidão e uma paz suave e refrescante.


SchuonMeditações de Viagem, publicado neste website.

Toda viagem é uma peregrinação

Índio da tribo Cree, Estados Unidos.

Uma viagem não é meramente um deslocamento de um lugar para outro, mas também um deslocamento de si para si mesmo; deste modo, toda viagem é uma peregrinação, toda viagem leva ao escrínio sagrado do Coração. Se uma viagem é ou não um sucesso, depende não tanto de realizarmos isto ou aquilo quanto de nos superarmos e deixarmos para trás uma parte de nosso eu inferior — de superarmos algo que na realidade não é “nós mesmos”.

Schuon, Meditações de Viagem, publicado neste website.


Este é um pequeno livro que é uma joia de meditações. Recomendo vivamente sua leitura.

Ser homem é dominar-se e superar-se

Commémoration de la mort de l'Emir Abdelkader, précurseur des valeurs  universelles
O grande Emir Abd El-Kader (1808-1883): líder militar e místico (súfi).

Superar-se: eis o grande imperativo da condição humana; e há outro que o antecipa e ao mesmo tempo o prolonga: dominar-se. O homem nobre é aquele que se domina; o homem santo é aquele que se supera. A nobreza e a santidade são os imperativos do estado humano.

Schuon, L’ésotérisme comme principe et comme voie, Dervy Livres, 1997, p. 143.


Se dépasser : c’est là le grand impératif de la condition humaine ; et il en est un autre qui l’anticipe et en même temps le prolonge : se dominer. L’homme noble est celui qui se domine ; l’homme saint est celui qui se dépasse. La noblesse et la sainteté sont les impératifs de l’état humain.

Schuon, L’ésotérisme comme principe et comme voie, Dervy Livres, 1997, p. 143.

A Virgem, em sua essência, é a Infinitude de Deus

A Virgem Maria, em pintura de Schuon.

Mãe de todos os Profetas e matriz de todas as formas sagradas, ela [a Santíssima Virgem] tem seu lugar de honra no Islã mesmo pertencendo a priori ao Cristianismo; por este fato, ela constitui uma espécie de elo entre essas duas religiões, as quais têm em comum o buscarem universalizar o monoteísmo de Israel. A Virgem Santíssima não é somente a personificação de tal ou qual santidade, ela personifica a santidade como tal: ela não é determinada cor ou determinado perfume, ela é a luz incolor e o ar puro. Ela se identifica, em sua essência, a esta Infinitude misericordiosa que, anterior às formas, transborda em todas, engloba todas e reintegra todas.

Schuon, Christianisme/Islam, Archè, Milão, 1981, p. 103.

Para poder compreender, é preciso querer compreender

“São João Batista, Anjo do Deserto”. Seção de um ícone russo do séc. 17.

No domínio espiritual, uma prova só ajuda aquele que deseja compreender e que, por esse desejo, já compreendeu alguma coisa; na prática, ela não tem utilidade para aquele que em seu foro interior deseja não modificar sua posição, e cuja filosofia só faz manifestar esse desejo.

Schuon, Logique et transcendance, Editions Traditionnelles, 1972, p. 69.


Dans l’ordre spirituel, une preuve n’aide que celui qui désire comprendre et qui, par ce désir, a déjà compris quelque chose ; elle est pratiquement sans utilité pour celui qui en son for intérieur désire ne pas modifier sa position et dont la philosophie ne fait que manifester ce désir.

Schuon, Logique et transcendance, Editions Traditionnelles, 1972, p. 69.

A pressa é inimiga da contemplação

Jovem da Caxemira, 1924.

Segundo um provérbio árabe que reflete a atitude do muçulmano diante da vida, “a lentidão é de Deus, e a pressa é de Satã”, e isto nos leva à seguinte reflexão: como as máquinas devoram o tempo, o homem moderno está sempre correndo, e como essa falta perpétua de tempo cria nele os reflexos de pressa e de superficialidade, o homem moderno toma esses reflexos — que compensam uma série de desequilíbrios — por superioridades e despreza, no fundo, o homem antigo de hábitos “idílicos”, e sobretudo o velho oriental de andar lento e com um longo turbante a enrolar.

O homem de hoje já não consegue imaginar, por falta de experiência, qual era o conteúdo qualitativo da “lentidão” tradicional, ou como “sonhavam” as pessoas de outro tempo; ele se contenta com a caricatura, o que é muito mais simples e é, aliás, exigido por um instinto de conservação ilusório. Se as preocupações sociais — evidentemente de base material —determinam em tão grande medida o espírito de nossa época, não é somente por causa das consequências sociais do maquinismo e das condições inumanas que ele gera, mas também por causa da ausência de uma atmosfera contemplativa que, no entanto, é necessária para a felicidade dos homens, seja qual for o seu “padrão de vida”, para usar uma expressão tão corrente quando bárbara. [1]

[1] Chamam “fuga das responsabilidades” ou Weltflucht — em inglês, escapism — toda atitude contemplativa, portanto toda recusa a situar a verdade total e o sentido da vida na agitação exterior. Enfeitam com o nome de “responsabilidades” o apego ao mundo hipocritamente utilitário e apressam-se a ignorar que a fuga, supondo que só se tratasse disso, nem sempre é uma atitude falsa.

Schuon, Comprendre l’Islam, Édition du Seuil, 1976, pp. 36-37.
Em português: Para Comprender o Islã, Nova Era, 2006.

Na Índia antiga, a nudez era sagrada

As gopis pedem a Krishna que lhes devolva as roupas.

Foi evidentemente a deiformidade do corpo humano que inspirou o nudismo sagrado; desacreditado nas religiões semíticas por razões de perspectiva espiritual e de oportunidade social — apesar disso, mesmo aí ele se manifestou esporadicamente entre contemplativos próximos da primordialidade —, ele está sempre na ordem do dia na Índia, pátria imemorial dos “gimnosofistas”.[1] Krishna, tirando das gopis adoradoras toda vestimenta, “batizou-as”, por assim dizer: ele as reduziu ao estado de antes da “queda”.[2] A via libertadora é tornar-se novamente o que se é.

[1] Nome dado pelos gregos da Antiguidade a certos espirituais hindus que viviam nus. (N. do T.)
[2] Sem dúvida, a vestimenta representa, em clima de monoteísmo semítico, a escolha do “espírito” contra a “carne”; o que não impede que o corpo exprima intrinsecamente a deiformidade, portanto a “divindade” primordial e a imanência. Em certo sentido, se a vestimenta indica a alma ou a função, o corpo indica o Intelecto.

Schuon, A Transfiguração do Homem, Sapientia, 2009, pp. 54-55.


Swami Bhaskarananda Saraswati (1833-1899), santo de Benares. Reis vinham pedir seu conselho.

“Existo, logo rezo”

O Papa Pio XII.

O próprio fato de nossa existência é uma prece e nos obriga à prece, de modo que poderíamos dizer: “Existo, logo rezo”: Sum ergo oro. A existência é coisa ambígua, e daí resulta que ela nos obriga à oração de duas maneiras: em primeiro lugar, por sua qualidade de expressão divina, de mistério coagulado e segmentado, e, em segundo lugar, por seu aspecto inverso de encadeamento e de perdição, de forma que devemos “pensar em Deus” não somente porque, sendo homens, nós não temos como não nos darmos conta do fundo divino da existência — na medida em que somos fiéis a nossa natureza —, mas também porque estamos obrigados, ao mesmo tempo, a constatar que somos fundamentalmente mais do que a existência e que vivemos como exilados numa casa em chamas.

Por um lado, a existência é uma onda de alegria criadora, toda criatura louva Deus; existir é louvar Deus, quer sejamos cascatas, árvores, pássaros ou homens; mas, por outro lado, é não ser Deus, é portanto, fatalmente, opor-se a ele sob um certo aspecto; essa existência nos aperta como a túnica de Nesso. Aquele que ignora que a casa está em chamas não tem nenhum motivo para pedir socorro; e, da mesma forma, o homem que não sabe que está se afogando não agarrará a corda salvadora; mas saber que estamos perecendo é ou desesperar-se, ou rezar. Saber realmente que não somos nada, porque o mundo inteiro não é nada, é lembrar-se de “O que é” e libertar-se por meio dessa lembrança.

Schuon, Comprendre l’islam, Éditions du Seuil, 1976, pp. 151-152.
[Para Compreender o Islã, Nova Era, 2006, pp. 196-198]

Nossa virtude deve ser como as flores do campo

Há em nossas boas obras e em nossas virtudes um veneno que só é eliminado por nossa convicção de que Deus não tem necessidade de tudo isso, e de que elas devem ser gratuitas como as flores dos campos. Nossos atos só têm importância na medida em que eles determinam algo em nós mesmos ou em nossa ambiência, dois domínios submetidos às normas divinas; mas o que Deus quer de nós — ao mesmo tempo em que Ele nada quer, está claro — é nossa alma, nosso centro vital, o ego, e através deste nossa personalidade imortal; em última análise, Deus quer-se a si mesmo em nós. Portanto, há que se guardar de uma concepção materialista e demagógica da caridade e nunca esquecer que o que “interessa” a Deus — e a única coisa que pode lhe “interessar” — é a vida eterna daquele que dá e a vida eterna daquele que recebe.

Schuon, Les stations de la sagesse, Maisonneuve & Larose, Paris, 1992, p. 158.