Carta sobre uma influência psíquica maléfica

O filósofo e mestre espiritual Frithjof Schuon, já perto do fim de sua vida.

“Sentir uma doença é não mais tê-la”, dizia Lao-Tsé. O que quer dizer que o remédio contra um mal está na consciência que temos desse mal; o remédio é dado por essa própria consciência.

Antes de mais nada, quero lhe dizer duas coisas: em primeiro, que o senhor não tem nada a temer; e, em segundo, que a provação pela qual o senhor passou foi providencial; o que aconteceu com o senhor devia lhe acontecer, e isso para o seu bem. Pois o senhor tinha demasiada autoconfiança e, por esse fato, não tinha suficiente prudência; o senhor tinha demasiada curiosidade intelectual, sem ter suficiente fé; demasiado senso crítico, sem ter suficiente senso das proporções.

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Nossa vocação: conhecer, querer, amar

Krishna e Radha.

Conhecer, querer, amar: eis toda a natureza do homem e, por consequência, toda a sua vocação e todo o seu dever. Conhecer totalmente, querer livremente, amar nobremente; ou, em outros termos: conhecer o Absoluto, e ipso facto suas relações com o relativo; querer o que se impõe a nós em função desse conhecimento; e amar o verdadeiro e o bem, e o que os manifesta neste mundo; portanto amar o belo, que conduz a eles.

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O monge é atual porque intemporal

Monge budista. Sul da Ásia. Aprox. 1930.

Um mundo é absurdo na medida em que o contemplativo, o eremita, o monge nele parecem ser um paradoxo ou um “anacronismo”. Ora, o monge é atual precisamente porque é intemporal: vivemos na época da idolatria do “tempo”, e o monge encarna tudo o que é imutável, não por esclerose ou por inércia, mas por transcendência.

Schuon, Regards sur les mondes anciens, Éditions Traditionnelles, 1980, p. 153.
Traduzido para esta nota direto do originall. O livro tem edição brasileira: O Homem no Universo, Perspectiva, 2001 (p. 172).


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Toda obra santa deve começar em nós mesmos

Monge ortodoxo.

“Pai nosso que estais nos céus”: a explicitação “nos céus” indica a transcendência em relação ao estado terrestre, este considerado, em primeiro lugar, do ponto de vista objetivo e macrocósmico e, depois, do ponto de vista subjetivo e microcósmico. Com efeito, a “terra” ou o “mundo” pode ser não só a ambiência na qual vivemos e que nos determina, mas também nossa alma individual e mais ou menos sensorial, assim como os “céus” podem ser não só os mundos paradisíacos, mas também nossas virtualidades espirituais; pois “o reino de Deus está dentro de vós”.

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É por Deus ser real que podemos concebê-lo

Frequentemente interpretou-se de forma equivocada a prova ontológica de Deus — formulada por Santo Agostinho e desenvolvida por Santo Anselmo —, e isso desde a Idade Média.

Na realidade, ela não significa que Deus é real porque pode-se concebê-lo, mas, ao contrário, que pode-se concebê-lo porque ele é real: ou seja, que a realidade de Deus tem por efeito, para nossa faculdade intelectiva, a certeza em relação a ela e, para nossa faculdade racional, a possibilidade de conceber o Absoluto.

E é precisamente esta possibilidade da razão — e a fortiori a intuição pré-racional do intelecto — que constitui a prerrogativa característica do homem.

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O santo e o herói são quase puros símbolos

Santa Teresa de Lisieux (1873-1897)

Na Idade Média, só há ainda dois ou três tipos de grandeza: o santo e o herói, e também o sábio — e então, numa escala menor e como por reflexo, o pontífice e o príncipe; o “gênio” e o “artista”, essas grandezas do universo laico, ainda não tinham nascido.

Os santos e os heróis são como aparições terrestres dos astros; após sua morte, eles voltam a subir ao firmamento, a seu lugar eterno; eles são quase que puros símbolos, sinais espirituais que só provisoriamente se destacaram da iconostase celeste na qual estavam incrustados desde a criação do mundo.


Frithjof Schuon, O Homem no Universo [Regards sur les Mondes Anciens], 2001, Perspectiva, p. 49.

Peregrinação: retorno à origem, ao Coração

Pintura de Alphonse-Étienne Dinet (1861 – 1929).

O sentido da Peregrinação (Hajj) é o retorno à origem; trata-se, portanto, de uma afirmação vivida de primordialidade, de uma retomada de contato com a Bênção original, abraâmica no caso do Islã. Mas há também, segundo os súfis, a Peregrinação ao coração: ao santuário imanente, o núcleo divino da alma imortal.

Schuon, Raízes da Condição Humana, capítulo “Esquema da mensagem islâmica”, p. 104. O livro está publicado neste website.

A história de Cristo mostra o que ocorre na alma

Ascensão de Cristo — ícone ortodoxo.

O Cristianismo é que “Deus se fez o que nós somos, para nos fazer o que ele é” (Santo Irineu); é que o Céu se tornou terra, a fim de que a terra se torne Céu. Cristo retraça no mundo exterior e histórico o que acontece, desde o começo do tempo, no mundo interior da alma. No homem, o Espírito puro se faz ego, a fim de que o ego se torne puro Espírito; o Espírito ou o Intelecto (Intellectus, não mens ou ratio) se faz ego encarnando-se na mente sob a forma de intelecção, de verdade, e o ego torna-se Espírito ou Intelecto unindo-se a ele.

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A intelecção, não a razão, leva às verdades principiais

Sri Maha Periyava (1884-1994), 68º Jagadguru de Kanchi.

É importante saber […] que há verdades que são inerentes ao espírito humano, mas que, de fato, estão como que enterradas no “fundo do coração”, isto é, contidas a título de potencialidades ou virtualidades no Intelecto puro: trata-se das verdades principiais e arquetípicas, aquelas que prefiguram e determinam todas as outras. A elas têm acesso, intuitiva e infalivelmente, o “gnóstico”, o “pneumático”, o “teósofo” — no sentido próprio e original desses termos —, e a elas tinha acesso, por consequência, o “filósofo”, segundo o significado ainda literal e inocente do termo: um Pitágoras ou um Platão, e em parte mesmo um Aristóteles, a despeito de sua perspectiva exteriorizante e virtualmente cientificista.

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As três características do ser humano

Cruz de São Damião. O Avatâra manifesta à perfeição as três características do homem.

O homem se caracteriza, em primeiro lugar, por uma inteligência central ou total, não periférica ou parcial somente; em segundo lugar, por uma vontade livre, não instintiva somente; e, em terceiro lugar, por um caráter capaz de compaixão e de generosidade, não de reflexos egoístas somente.

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O misticismo é natural ao homem

Sioux Oglala, em foto de Edward S. Curtis.

O misticismo, ou a mística, resulta da tendência ao aprofundamento, à experiência interior; ele é “sobrenaturalmente natural” ao homem, ou seja, ele corresponde a uma necessidade inata e se encontra em toda parte onde há uma religião, o legalismo desta não podendo satisfazer todas as aspirações. Portanto, o misticismo não poderia não existir.

Frithjof Schuon, “Enigma e mensagem de um esoterismo”, in Nos Caminhos da Religião Perene, publicado neste sítio.

Assimilar a Divindade por meio de um símbolo

São Bernardino de Sena com o Monograma Sagrado IHS — Iesus Hominum Salvator.

Na Eucaristia, o Absoluto — ou o divino Si [1] — tornou-se Alimento; em outros casos, ele se tornou Imagem ou Ícone e, em outros ainda, tornou-se Palavra ou Fórmula: é o mistério da assimilação concreta da Divindade por meio de um símbolo propriamente sacramental: visual, auditivo ou outro.

Um desses símbolos, e mesmo o mais central, é o próprio Nome de Deus, quintessência de toda oração, seja um Nome de Deus em si ou um Nome de Deus tornado homem. [2]

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A forma humana tem algo do Absoluto

Pintura de Schuon

O fato de que o homem é centro e totalidade, de modo que Deus pode se encarnar nele, prova que ele não é de forma nenhuma suscetível de uma evolução essencial e transformadora, que mude as próprias constantes de sua forma ao ponto de separá-la do homem de facto numa proporção igual àquela que separa o homem do macaco; isso é totalmente impossível, pois o Infinito só se encarna no finito em função de uma característica absoluta (…) que não poderia mudar em sua essência e em seu arquétipo.


Frithjof Schuon, “Les stations de la sagesse”, capítulo de livro homônimo, Édition Maisonneuve & Larose, Paris, 1992, p. 115.