O conhecimento é também purificador e redentor

Ilustração: manuscrito de tradução de texto de Hermes Trismegistus feita por Marsilio Ficino.

Se a fé no sentido comum do termo é considerada como uma virtude, o que mostra que ela não é algo intelectual, é evidente que a certeza implicada por um conhecimento, dado que ela traz em seu fruto em si mesma, não poderia ser meritória, assim como não é meritória nenhuma evidência adquirida pelas faculdades sensíveis; mas isto não priva de forma nenhuma o Conhecimento de sua qualidade “paraclética”, purificadora e verdadeiramente “redentora”, ideia que, aliás, está contida na concepção da “fé que salva”.

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Em nossos dias, chama-se de “miséria” a situações normais

Dizem-nos que, em vez de aliviar a miséria, é preciso ensinar aos homens a sair dela; ora, este aspecto da caridade é extremamente limitado, pois as causas da miséria podem estar na carência de técnicas; elas também podem estar na incapacidade de lidar com o dinheiro, ou até mesmo na preguiça; o que quer dizer que elas são tanto materiais como morais.

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O saber da morte é prova da imortalidade

Um traço essencial que distingue o homem do animal é que o homem sabe que deve morrer, enquanto o animal não o sabe. Ora, esse saber da morte é uma prova de imortalidade; é somente porque o homem é imortal que suas faculdades lhe permitem constatar sua impermanência terrestre. Quem diz consciência da morte, diz fenômeno religioso; e explicitemos que esse fenômeno faz parte da ecologia no sentido total do termo, pois sem religião — ou sem religião autêntica — uma coletividade humana não poderia sobreviver muito tempo; ou seja, ela não poderia continuar sendo humana.

Frithjof Schuon, “Prerrogativas do estado humano”, in Le Jeu des Masques [O Jogo das Máscaras], l’Age d’Homme, Lausanne, 1992, pp. 23-24

A emoção pode acompanhar a objetividade

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Jesus Cristo e os mercadores no templo, por Giotto.

Em nossos dias, louva-se a “objetividade” de um homem que afirma calmamente e friamente que dois mais dois são cinco, e acusa-se de subjetividade ou de emotividade o homem que replica com indignação que dois mais dois são quatro; não se quer admitir que a objetividade é a adequação ao objeto, e não tal ou qual modo de expressão; que o critério da objetividade é a realidade, não o tom, nem a mímica; nem, sobretudo, uma placidez fictícia, inumana e insolente.

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Na pobreza espiritual o homem tem tudo

O santo Padre Pio.

A pobreza é não se apegar, na existência, nem ao sujeito nem ao objeto. Fala-se muito das ilusões sutis e das seduções que desviam o peregrino espiritual da via reta e provocam sua queda. Ora, essas ilusões só podem seduzir aquele que deseja alguma vantagem para si, como poderes ou dignidades ou glória, ou que deseja gozos interiores ou visões celestes ou vozes, e assim por diante, ou um conhecimento tangível dos mistérios divinos.

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O individualismo fecha as almas à gnose

É natural e plausível que toda aspiração elevada exija uma qualificação correspondente, na própria medida em que ela incita o homem a se superar. A aptidão espiritual proporcional à gnose exige, para ser completa, não somente uma qualificação intelectual, que é a capacidade de discernimento, de penetração e de aprofundamento, mas também uma qualificação moral, que é a tendência à interiorização e que implica as virtudes fundamentais.

No esoterismo concreto, o dos Sufis, por exemplo, não constatamos em parte alguma uma predominância da exigência intelectual sobre a exigência moral, muito ao contrário: a contemplatividade interiorizante acompanhada das virtudes tem, em média, mais peso do que a inteligência discriminativa.

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O sagrado é a presença do centro

O Buda Amida.

O sagrado é a presença do centro na periferia, do imutável no movimento; a dignidade é essencialmente uma expressão do sagrado, pois também na dignidade o centro se manifesta no exterior; o coração transparece nos gestos. O sagrado introduz nas relatividades uma qualidade de absoluto, ele confere a coisas perecíveis uma textura de eternidade.

Frithjof Schuon, Pérolas do Peregrino.

Um paradoxo: somos contrários e conformes a Deus

Sem analogia com Deus, não seríamos nada. Thangka tibetano.

Que sejamos conformes a Deus — “feitos à sua imagem” — é certo, sem o que nós não existiríamos. Que sejamos contrários a Deus é também certo, sem o que nós não seríamos diferentes.

Sem analogia com Deus, nós não seríamos nada. Sem oposição a Deus, nós seríamos Deus.

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Ajudar o mundo, mas indo à fonte do Bem

Alexandre Magno ergue muro para conter Gog e Magog. [Ver nota]

Alguns moralistas muito profanos que preferem o homem a Deus, isso quando não substituem Deus pelo homem, espantam-se ou indignam-se com a indiferença que os santos, tanto ocidentais como orientais, por vezes pareceram manifestar em relação às desgraças humanas do mundo em que eles viviam.

Ora, há para essa atitude uma dupla razão: em primeiro lugar, muitas desgraças no corpo de um mundo tradicional devem ser vistas como “males menores”, ou seja, como canais necessários de calamidades em si inevitáveis, mas suscetíveis de serem reduzidas a um mínimo; esse é um ponto de vista que os modernos nunca compreenderam, pois eles nem mesmo sabem que há no cosmo coisas que não poderiam ser evitadas a nenhum custo, e cuja supressão aparente e artificial só engendra reações cósmicas tanto mais “avassaladoras”.

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O caminho para Deus é uma inversão

Budista tibetana, esposa do lama Dzongsar Khyentse Chökyi Lodrö.

O caminho para Deus implica sempre uma inversão: da exterioridade é preciso passar à interioridade, da multiplicidade à unidade, da dispersão à concentração, do egoísmo ao desapego, da paixão à serenidade.

Frithjof Schuon, Pérolas do Peregrino.

A religião essencial dentro de cada religião

Pintura de Schuon.

Rigorosamente falando, há uma só filosofia, a Sophia Perennis; ela é também — considerada em sua integralidade — a única religião. A Sophia tem duas origens possíveis, uma intemporal e uma temporal: a primeira é “vertical” e descontínua, e a segunda, “horizontal” e contínua; dito de outro modo, a primeira é como a chuva que pode descer do céu a todo momento; a segunda é como um ribeiro que brota de uma fonte.

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Um meio de graça pode realmente santificar a alma

Shrî Anandamayi Ma (1896-1982), santa hindu dos tempos recentes.

Há almas que, plena ou suficientemente conformes à vocação humana, entram diretamente no Paraíso: são quer os santos, quer os santificados. No primeiro caso, são as grandes almas iluminadas pelo Sol divino e dispensadoras de raios benfazejos; no segundo caso, são as almas que, não tendo nem defeitos de caráter, nem tendências mundanas, estão livres — ou foram libertadas — de pecados mortais, e santificadas pela ação sobrenatural de meios de graça de que elas fizeram seu viático. Entre os santos e os santificados há sem dúvida possibilidades intermediárias, mas só Deus é juiz de sua posição e de seu nível.

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Só na prece somos perfeitamente nós mesmos

Monge com Bíblia ortodoxa na Igreja de Santa Maria em Axum, Etiópia.

Todas as vezes que o homem se põe diante de Deus com um coração íntegro — ou seja, pobre e sem se inflar —, ele se coloca no solo da certeza absoluta, a de sua salvação condicional, bem como a de Deus. E é por isso que Deus nos deu essa chave sobrenatural que é a prece: a fim de que nós pudéssemos nos colocar diante d’Ele, como no estado primordial, e como sempre e em toda parte; ou como na eternidade.

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A verdade é a essência da beleza

Jovem balinesa. C. 1930.

Assim como há um discernimento das realidades principiais, o qual se impõe a nós porque temos uma inteligência, da mesma forma há um discernimento das realidades formais — tanto morais quanto estéticas —, o qual se impõe porque temos uma alma. Isto quer dizer que a compreensão metafísica deve se acompanhar do senso da beleza em todos os níveis; inversamente, não há interiorização do belo sem um conhecimento metafísico paralelo. “A beleza é o esplendor do verdadeiro”: o que implica que a verdade, portanto a realidade, é a essência da beleza.

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