O que Deus pede de nós em primeiro lugar

Conchita, uma das videntes de Garabandal, Espanha.

O que torna sua posição difícil é a combinação de dois domínios de desejo muito diferentes: você quer, como todos, ser feliz, mas você também quer, como toda pessoa espiritual, não desperdiçar a razão suficiente ou o sentido desta vida terrena. Ora, estes quereres algumas vezes se contradizem um ao outro, ao menos por certo período, mas o desejo da felicidade não deve fazer diminuir o desejo da salvação. Entenda-me! O que Deus pede de nós em primeiro lugar — pois isto diz respeito a todos os homens — é que salvemos nossas almas; se essa salvação está ligada a um conhecimento metafísico e a práticas esotéricas é uma outra questão. E aqui o homem tem três possibilidades: ou ele não tem nenhuma relação interior com a verdade suprema, não entende nada da sabedoria de Deus e não quer saber nada sobre ela; ou ele entende e ama essa sabedoria em algum grau, mas, por alguma razão, não pode seguir uma via correspondente; ou — e esta é a terceira possibilidade — ele entende e ama essa sabedoria e pode procurar realizá-la seguindo um método.

Ora, o que você me diz em sua carta, a respeito de suas dificuldades psicológicas, leva-me a supor que a sua possibilidade é a segunda. Você leu sobre as qualificações iniciáticas: uma disposição à neurose não é compatível com exercícios espirituais praticados de forma estrita e metódica. O que lhe digo aqui abre-lhe as seguintes perspectivas: dado que Deus pede com certeza a você apenas uma coisa, porque ele pede isso a todo homem — a saber, salvar sua alma e consequentemente incorporar-se a uma tradição que lhe oferece os meios para isso —, o critério da via para você não está primariamente no esoterismo, mas na ortodoxia.

Portanto, de um ponto de vista puramente principial, o seu caminho poderia estar quer no Cristianismo latino, quer no ortodoxo, ou ainda no Islã; nenhuma dessas formas excluiria sua necessidade de um aprofundamento metafísico. Mas as mais favoráveis seriam o Cristianismo grego ou o Islã, porque neles não predomina a conformidade forçada, espiritualmente paralisante, que é característica da Igreja Romana; em outras palavras: a Igreja Romana, pela filosofia, pelo moralismo exclusivo e pela sentimentalidade excessiva tornou-se incapaz de uma espiritualidade viva, e sua socialização interior [*] força todos os fiéis a estar em sintonia com a espiritualidade “oficial” — ou não-espiritualidade. O mesmo não acontece na Igreja Grega, que sempre se defendeu contra a socialização interior e o igualitarismo, e ainda possui um esoterismo vivo, ao menos no Monte Atos.

Seja como for, o Islã, de seu lado, tem a vantagem de que nele todo homem é seu próprio sacerdote; contudo, para nós, ocidentais e norte-europeus, ele tem a desvantagem de em certa medida separar-nos da sociedade e condenar-nos a uma certa solidão; mas isto, de um ponto de vista espiritual, é uma vantagem, na medida em que todo homem espiritual é de alguma forma solitário e, de fato, o mundo em que se vive hoje é explicitamente não-espiritual. Em relação a isso, gostaria de deixar bem claro para você o seguinte: primeiro, que a regra espiritual a que seu marido se submete não exige que você siga a mesma regra; segundo, que ela não exige de você nenhum isolamento exterior em relação às pessoas não-espirituais à sua volta; portanto, se seguir a mesma tradição de seu marido, você pode continuar a cultivar todos os seus relacionamentos e suas atividades anteriores.

O que você deveria fazer acima de tudo é praticar a oração livre, na qual você deve contar a Deus, como você contaria a uma pessoa, todos os seus problemas. Alguém uma vez me disse: “Mas eu não consigo rezar”, e eu respondi: “Então diga a Deus ‘eu não consigo rezar’. Mas expresse isso! Então o encantamento logo se quebrará.”


[*] Nota: No original, innere Verstaatlichung. O termo Verstaatlichung refere-se em geral à nacionalização ou socialização de propriedades privadas. Num contexto cristão, ele se refere à secularização de bens da Igreja. Innere Verstaatlichung traduz-se literalmente por “nacionalização interior” ou “socialização interior”. O autor, ao usar essa expressão, refere-se não à secularização de bens, mas, pelo que se depreende do contexto, à socialização da “dinâmica interior” da Igreja, que se torna uniformizada e “pública”, com a exclusão da vida espiritual mais “privada” e pessoal e, portanto, de um esoterismo.

Carta de Schuon a uma sua leitora, esposa de um de seus discípulos, datada de 7 de novembro de 1949. Letters of Frithjof Schuon — Reflections on the Perennial Philosopy, org. Michael Fitzgerald, World Wisdom, 2022, pp. 68-69.