Nenhuma Iniciativa sem a Verdade

(Texto de Frithjof Schuon)

No começo deste século, praticamente ninguém sabia que o mundo está doente – autores como René Guénon e Ananda Coomaraswamy pregavam no deserto –, ao passo que hoje em dia quase todos o sabem; mas estamos longe de todos conhecerem as raízes do mal e poderem discernir os remédios. Em nossos dias, ouvimos frequentemente que, para combater o materialismo, a tecnocracia e a pseudo-espiritualidade o que se impõe é uma nova ideologia, capaz de resistir a todas as seduções e a todos os ataques e de galvanizar os de boa-vontade; ora, a necessidade de uma ideologia, ou o desejo de opor uma ideologia a outra, já é uma admissão de fraqueza, e toda iniciativa que resulte deste preconceito é falsa e fadada ao fracasso. O que é preciso fazer é opor às falsas ideologias a verdade que sempre existiu e que nós não poderíamos nunca inventar, dado que ela existe fora de nós e acima de nós. O mundo atual é obcecado pela ideia preconcebida do dinamismo, como se este fosse um “imperativo categórico” e uma panaceia, e como se o dinamismo pudesse ter um significado e uma eficácia fora da verdade pura e simples [1].

Nenhum homem em pleno gozo de suas faculdades poderia ter a intenção de substituir um erro por outro, “dinâmico” ou não; antes de falar de força e de eficácia, deve-se falar da verdade e de nada mais. Uma verdade é eficaz na medida em que a assimilamos; se ela não nos dá a força de que necessitamos, isto prova simplesmente que nós não a apreendemos. Não cabe à verdade ser “dinâmica”, cabe a nós sermos dinâmicos graças a ela. O que falta no mundo atual é um conhecimento penetrante e global da natureza das coisas; as verdades fundamentais estão sempre acessíveis, mas não teriam como se impor àqueles que se recusam a levá-las em consideração.

É evidente que se trata aqui não dos dados totalmente exteriores que a ciência experimental pode nos fornecer, mas de realidades que essa ciência não maneja, e não pode manejar, e que nos são transmitidas por canais muito diferentes, particularmente os do simbolismo mitológico e metafísico, sem falar da intuição intelectual, cuja possibilidade de princípio reside em todo homem. A linguagem simbólica das grandes religiões da humanidade pode parecer árdua e desconcertante para certas mentes, mas ela é, não obstante, inteligível à luz dos comentários ortodoxos; o simbolismo, há que insistir nisto, é uma ciência real e rigorosa, e nada é mais aberrante do que acreditar que sua aparente ingenuidade provém de uma mentalidade rudimentar e “prelógica”. Essa ciência, que podemos qualificar de “sagrada”, não poderia se adaptar ao método experimental dos modernos; o domínio da revelação, do simbolismo e da intelecção pura obviamente transcende os planos físico e psíquico e, por consequência, situa-se além do domínio dos métodos ditos científicos. Se pensamos não poder aceitar a linguagem do simbolismo tradicional porque ela nos parece fantástica e arbitrária, isto mostra que ainda não compreendemos essa linguagem, e não, certamente, que a tenhamos superado.

É muito cômodo sustentar, como se faz de maneira tão especiosa em nossos dias, que as religiões se comprometeram ao longo dos séculos e que seu papel agora terminou. Quando se sabe em que uma religião realmente consiste, sabe-se também que as religiões não podem se comprometer e que elas são independentes de abusos humanos; de fato, nada que os homens façam tem o poder de afetar as doutrinas tradicionais, os símbolos e os ritos – isso, é evidente, enquanto as ações humanas permanecem em seu próprio nível e não se voltam a atacar as coisas sagradas. O fato de que um indivíduo possa explorar a religião a fim de apoiar interesses nacionais ou particulares não afeta em nada a religião enquanto mensagem e patrimônio.

A tradição fala a cada homem a linguagem que ele pode compreender, com a condição de que ele de fato a queira escutar; esta reserva é essencial, pois a tradição, repetimos, não pode “ir à falência”; é antes da falência do homem que se deveria falar, pois foi ele que perdeu a intuição do sobrenatural e o senso do sagrado. Foi o homem que se deixou seduzir pelas descobertas e invenções de uma ciência ilegitimamente totalitária; ou seja, uma ciência que não reconhece seus próprios limites e que por este motivo ignora o que os supera. Fascinado tanto pelos fenômenos científicos quanto pelas conclusões errôneas que deles tira, o homem terminou por ser submergido por suas próprias criações; ele não está pronto a se dar conta de que uma mensagem tradicional se situa num plano totalmente diferente, nem de quão mais real é esse plano. Os homens se permitem deslumbrar-se tanto mais facilmente quanto o cientismo lhes dá todas as desculpas que eles querem para justificar seu apego ao mundo das aparências e, por consequência, também sua fuga diante de toda presença do Absoluto.

O humanismo espinozista, deísta, kantiano e franco-maçônico queria realizar um homem perfeito fora das verdades que dão ao fenômeno humano todo o seu sentido.[2] Como era preciso substituir um Deus por outro, esse falso idealismo deu lugar ao abuso de inteligência característico do século xix, particularmente ao cientismo e, com ele, ao industrialismo; este devendo, por sua vez, trazer consigo uma nova ideologia, também ela ao mesmo tempo achatada e explosiva, a saber, esse humanismo paradoxalmente inumano que é o marxismo. A contradição interna deste último é que ele quer construir uma humanidade perfeita destruindo o homem; o que quer dizer que os ateus militantes, mais passionais do que realistas, querem ignorar que a religião é, por assim dizer, uma questão de ecologia. Admitindo que a religião comporta um elemento de “ópio” – não somente “para o povo” –, este elemento é “ecologicamente” indispensável para o psiquismo humano; de qualquer modo, sua ausência traz consigo abusos incomparavelmente mais graves do que sua presença, pois é melhor ter bons sonhos do que ter pesadelos. Seja como for, só a religião, ou a espiritualidade, oferece esta significação integral, e esta felicidade ancorada na natureza deiforme do homem, sem as quais a vida nem é inteligível, nem é digna de ser vivida.

Um argumento fácil contra as religiões é o seguinte: as religiões e as denominações se contradizem umas às outras, portanto não podem todas ter razão; por consequência, nenhuma delas é verdadeira. É como se alguém dissesse: todo indivíduo pretende ser “eu”, portanto não podem todos ter razão; por consequência, ninguém é “eu”; o que equivale a sustentar que há apenas um homem para ver a montanha e que a montanha tem somente um lado a oferecer ao olhar. Só a metafísica tradicional faz justiça ao rigor da objetividade e aos direitos da subjetividade; só ela é capaz de explicar tanto a unanimidade das doutrinas sagradas quanto suas divergências formais.

“Quando o homem inferior ouve falar do Tao, ele ri; não seria o Tao se ele não risse… A evidência intrínseca do Tao é vista como escuridão.” Estas palavras de Lao-Tsé são mais atuais do que nunca; sem dúvida, os erros e a estupidez não podem não existir enquanto sua possibilidade muito relativa não foi exaurida; mas certamente não serão eles que terão a palavra final.

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            Um ponto em que queremos insistir, com o risco de nos repetirmos, é o seguinte: fala-se habitualmente do dever de se fazer útil à sociedade, mas se se omite de levantar a questão de saber se essa sociedade é útil, isto é, se ela realiza a razão de ser do homem e, portanto, de uma comunidade humana; evidentemente, se o indivíduo deve ser útil à coletividade, esta, por sua vez, deve ser útil ao indivíduo. A qualidade humana implica que a coletividade não poderia ser o objetivo e a razão de ser do indivíduo, mas que, ao contrário, é o indivíduo que, em sua posição solitária diante do Absoluto e, portanto, pela prática de sua função mais elevada, é o objetivo e a razão de ser da coletividade. O homem, seja concebido no plural ou no singular, se apresenta como um “fragmento de absolutez”, e ele é feito para o Absoluto; ele não tem outra escolha. Pode-se definir o social em função da verdade, mas não se pode definir a verdade em função do social.

Estas considerações nos levam à questão inutilmente controversa do “altruísmo”: há “idealistas”, tanto no Ocidente como na India – é o sentimentalismo de um Vivekananda –, que habitualmente censuram “aqueles que procuram sua própria salvação” em vez de se ocuparem com a salvação dos outros. Alternativa absurda, pois das duas, uma: ou é possível salvar os outros ou é impossível fazê-lo; se é possível, isto implica que nós primeiro procuremos nossa salvação pessoal, caso contrário salvar os outros é impossível, precisamente; seja como for, não é prestar serviço a ninguém ficar gentilmente apegado aos próprios defeitos. Aquele que é capaz de ser um santo, mas se omite de fazê-lo, não poderia salvar seja quem for; é pura e simples hipocrisia esconder as próprias fraquezas e indolência por trás de uma capa de boas ações. E outro erro, aparentado ao de que acabamos de falar, consiste em acreditar que a espiritualidade contemplativa se opõe à ação ou torna o homem incapaz de agir; opinião desmentida por todas as Escrituras, particularmente pelo Bhagavadgîtâ.

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            Nenhuma iniciativa sem a verdade: este é o primeiro dos princípios de ação, mas ele não poderia ser uma garantia de sucesso; no entanto, o homem deve cumprir seu dever sem se perguntar se terá a vitória ou não, pois a fidelidade a princípios tem seu valor intrínseco, ela traz seu fruto em si mesma e significa ipso facto uma vitória na alma do agente. Estamos na “idade de ferro” e a vitória exterior só pode ocorrer por meio de uma intervenção divina; não obstante isso, uma atividade lógica e espiritualmente correta pode ter efeitos incalculáveis, e em todo caso efeitos parciais, tanto nas almas como no exterior.

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Notas

[1] É o que em linguagem popular se chama “pôr o carro na frente dos bois”. Lembramo-nos que, quando de uma crise econômica – isso há muito tempo –, falava-se de “criar uma mística da retomada”; como se as fatalidades do industrialismo fossem doenças imaginárias, curáveis pela autossugestão, e como se esta pudesse transformar quimeras subjetivas em realidades objetivas.

[2] Humanismo que poderíamos qualificar de “pré-ateísmo”, dado que ele preparou o terreno, ou abriu a porta, para o ateísmo propriamente dito.

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 [Capítulo do livro de Frithjof Schuon intitulado Le Jeu des Masques (Editions L’Age d’Homme, Suíça, 1992).  Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, exceto de breves trechos, sem autorização dos detentores da empresa americana World Wisdom Inc., detentora dos direitos.]

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