A Porta aberta

Torii

Deus abriu uma porta no meio da criação, e esta porta aberta do mundo em direção a Deus é o homem; esta abertura é o convite de Deus para olharmos em direção a Ele, para tendermos a Ele, para perseverarmos junto a Ele e para retornarmos a Ele. E isto nos permite entender por que esta porta se fecha na morte quando foi desprezada durante a vida; pois ser homem não significa nenhuma outra coisa senão olhar para fora e atravessar a porta. Descrença e paganismo são tudo quanto dê as costas à porta aberta; em seu umbral, a luz e as trevas se separam.

A noção de inferno torna-se perfeitamente clara quando pensamos o quão insensato é — e o quanto é um desperdício e um suicídio — deslizar através do estado humano sem ser verdadeiramente homem, isto é, passar ao largo de Deus, e por consequência passar ao largo de nossa própria alma, como se tivéssemos direito às faculdades humanas independentemente do retorno a Deus e como se o milagre do estado humano tivesse uma razão suficiente independentemente do fim que está prefigurado no próprio homem; ou ainda: como se Deus não tivesse nenhum motivo ao dar-nos uma inteligência que discerne e uma vontade que escolhe.

Dado que esta porta é um centro — e ela tem de sê-lo, visto que leva a Deus —, ela corresponde a uma possibilidade rara e preciosa, que é única para a sua ambiência. E isto explica por que há uma danação; pois aquele que se recusou a passar pela porta não poderá nunca mais transpô-la. Daí a representação do pós-vida como uma alternativa implacável: para quem olha da porta — isto é, do estado humano —, não há escolha senão entre o interior e o exterior.

O que para o homem é tudo, é que a inteligência se torne de fato, graças ao conteúdo que lhe corresponde, aquilo que ela é em princípio, e, similarmente, que a vontade se torne realmente livre graças ao objeto que lhe corresponde. Em outros termos: a inteligência só é verdadeiramente inteligência na medida em que ela discerne entre o Real e o ilusório, e a vontade só é verdadeiramente livre na medida em que se esforça pelo Real.

Texto de Frithjof Schuon até onde sabemos ainda inédito no original francês, mas publicado em alemão em Perlen des Pilgers, Benziger Verlag, Dusseldorf e Zurique, 2000, pp. 68-69. #frithjofschuon #sophiaperennis

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