A Doutrina Súfi, de Titus Burckhardt – resenha

Por Samuel Bendeck Sotillos

A Doutrina Súfi, de Titus Burckhardt (Stella Maris, 2026).
Resenha escrita para a edição americana e adaptada para a edição brasileira.


Enquanto a via comum dos crentes [exotéricos] visa à obtenção de um estado beatífico após a morte, acessível em virtude de uma participação indireta e como que simbólica, por meio das obras prescritas, nas Verdades divinas, o Sufismo tem o seu fim em si mesmo, no sentido de que ele pode dar acesso ao conhecimento imediato [esotérico] do eterno. [do Prefácio]

Esta obra clássica, A Doutrina Súfi, de Titus Burckhardt, publicada originalmente em 1951 com o título Du Soufisme, é agora, 75 anos depois, finalmente oferecida aos leitores de língua portuguesa. Podemos dizer com segurança que ela é tão relevante hoje como era naquela época; e talvez seja ainda mais relevante atualmente, dado que o mundo pós-moderno continuou e continua em seu curso de distanciamento inexorável de sua herança espiritual.

O autor articula com precisão e profundo conhecimento a essência do Sufismo tradicional — o misticismo islâmico ou taçawwuf — de uma maneira que põe suas doutrinas e métodos ao alcance do leitor ocidental. Os interessados no Sufismo, no Islã, em religião comparada e na psicologia súfi ou na psicologia espiritual se beneficiarão muito de sua leitura.

Titus Burckhardt (1908-1984) foi um dos principais membros da escola “perenialista” ou “tradicionalista” de religião comparada, e teve conhecimento de primeira mão do Sufismo, o que o qualificou a expor suas doutrinas e métodos e realizar traduções magistrais de obras súfis clássicas como as de Ibn ‘Arabî. Em seu prefácio à edição americana, William Chittick, destacado tradutor e intérprete de textos islâmicos filosóficos e místicos, e amplamente reconhecido por seus trabalhos sobre Rûmî e Ibn ‘Arabî, descreve o impacto que esta obra de Burckhardt teve sobre ele quando ainda jovem: “Este livro significou muito para mim quando eu o descobri quarenta anos atrás, ainda em meus primeiros anos na universidade. Eu tinha estado estudando livros sobre o Sufismo escritos por orientalistas, e após três meses estava convencido de que já conhecia bem o tema. Este livro me fez parar e repensar.”

A Doutrina Súfi está dividido em três partes, cada uma delas contendo alguns capítulos. A parte I discorre sobre a natureza do Sufismo. No primeiro capítulo, “At-Taçawwuf”, Burckhardt desfaz a confusão em relação ao que o Sufismo é e o que ele não é. Para começar, a compreensão das doutrinas do Sufismo exige um conhecimento do que é o esoterismo. E Burckhardt ensina: “Há doutrinas que só são compreendidas ‘do interior’, por um trabalho de assimilação ou de penetração cujas modalidades, que são essencialmente intelectuais, ultrapassam por isso mesmo o pensamento discursivo” (Prefácio). Ele também responde à questão da relação entre o Sufismo e o Islã.

…pode parecer estranho que o Sufismo seja o “espírito” ou o “coração do Islã” (rûh al-islâm ou qalb al-islâm) e que represente ao mesmo tempo o espírito que, no mundo islâmico, é o mais livre em relação aos contornos mentais deste. Importa, contudo, não confundir esta liberdade verdadeira e totalmente interior com os movimentos rebeldes contra a tradição, que, estes sim, não são intelectualmente livres em relação às formas que negam por incompreensão.

No segundo capítulo, “Sufismo e Misticismo”, o autor esclarece os malentendidos em torno do termo “misticismo”, ao qual se impôs um sentido muito ligado à “subjetividade individualista”, sentido esse que Burckhardt explica não ser o mesmo que o do taçawwuf ou misticismo islâmico. Contudo, o termo “misticismo”, em seu sentido original, compartilha um significado comum com o taçawwuf.

No terceiro capítulo, “Sufismo e Panteísmo”, Burckhardt ensina que o Sufismo não é panteísmo, e lembra aos leitores que o panteísmo é “um erro explicitamente rejeitado por toda doutrina tradicional”.

No capítulo seguinte, “Conhecimento e Amor”, Burckhardt ilustra a relação complementar entre o conhecimento e o amor, e ensina que ambos são essenciais para o caminho súfi. “A linguagem do amor permite enunciar as verdades mais esotéricas sem entrar em conflito com a teologia dogmática; enfim, a embriaguez do amor corresponde simbolicamente a estados de conhecimento que vão além do pensamento discursivo.”

Os estudiosos da psicologia súfi considerarão o quinto capítulo, “Os Ramos da Doutrina”, muito instrutivo, na medida em que fornece perspectivas psicológicas que pertencem ao que é realmente transpessoal. “A vinculação à ordem metafísica provê a psicologia espiritual de critérios qualitativos de que a psicologia profana carece totalmente…”

No capítulo seguinte, “A Exegese Súfi do Alcorão”, Burckhardt lembra ao leitor que “dado que o Sufismo representa o aspecto interior do Islã, sua doutrina é em substância um comentário esotérico do Alcorão.”

Na parte II, “Fundamentos Doutrinais”, no capítulo “Os Aspectos da Unidade”, Burckhardt escreve: “A doutrina islâmica está contida inteiramente no Tawhîd, a ‘afirmação da Unidade divina’.” É por meio da doutrina da “Unidade” que Burckhardt afirma a “unidade transcendente das religiões”, reconhecendo o elo comum entre a doutrina súfi e a doutrina da não-dualidade do Vedânta.

O capítulo oitavo, “A Criação”, é resumido na citação do hadîth qudsî “Eu era um tesouro oculto; quis ser conhecido (ou: conhecer) e criei o mundo”, com a qual Burckhardt explica que a criação do mundo é uma manifestação do Divino para o Divino, e não do Divino para o ego sapiencial.

No nono capítulo, “Os Arquétipos”, ele esclarece que os arquétipos têm uma origem transpessoal in divinis que não tem correspondência com o que a psicologia moderna chama de “arquétipos”. Mais adiante, em “O Homem Universal”, o autor descreve a doutrina perene da transcendência e da imanência:

Pode-se dizer, portanto, que o homem, que é um microcosmo, e o universo, que é um macrocosmo, são como dois espelhos que se refletem um ao outro: por um lado, o homem só existe em relação com o macrocosmo, do qual faz parte e que o determina; por outro, o homem conhece o macrocosmo, o que significa que todas as possibilidades que se desdobram no mundo estão principialmente contidas na essência intelectual do homem.

Na parte três, “A Realização Espiritual”, o capítulo “Três Aspectos da Via” está resumido nas seguintes palavras do autor: “A Realidade divina é ao mesmo tempo Conhecimento e Ser; aquele que quer se aproximar d’Ela deve vencer não somente a ignorância e a inconsciência, mas também a dominação da mente por um saber puramente teórico, e outras ‘irrealidades’ desse gênero.”

No capítulo “As Faculdades Intelectuais”, Burckhardt fala da primazia do intelecto (’aql), o qual não deve ser confundido com as noções moderna e pós-moderna de “intelecto”, “razão” ou “mente”: “… ora, esse conhecimento puramente intelectual implica uma identificação direta com seu objeto, e é isso que distingue de maneira decisiva a ‘visão’ intelectual da operação racional.”

O capítulo “O Rito” lança luz sobre a necessidade humana e a norma espiritual dos ritos no caminho esotérico. Já no capítulo “Meditação”, Burckhardt deixa claro que a verdadeira meditação é o discernimento entre o real e o ilusório. Por fim, em “A Contemplação segundo Muhyî-d-dîn Ibn ‘Arabî”, o tema é resumido nas palavras de Ibn ‘Arabî: “Deus é, portanto, o espelho no qual tu te vês a ti mesmo, assim como tu és Seu espelho no qual Ele contempla Seus Nomes; ora, estes não são senão Ele mesmo, de maneira que a analogia das relações é inversa”.

Este livro é um recurso quintessencial para os estudos súfis tradicionais, na medida em que ele cristaliza a própria substância ou essência do caminho súfi, talvez da forma mais habilidosa possível para uma apresentação teórica fora da participação formal numa tarîqah (“caminho” ou “via”). O caminho simbolizado por uma raio que vai da periferia ao centro de um círculo ilustra a unanimidade de todos os caminhos espirituais, como no dito súfi: “Os caminhos (turuq) para Deus são tão numerosos quanto as almas [nafas] dos homens”. São os Súfis, que se realizam por meio do conhecimento, como Muhyî-d-dîn In ‘Arabî, ash-Shaykh al-Akbar (O Maior dos Mestres), que são um exemplo vivo da religião do coração, religião que esta obra reflete de forma inequívoca.