É por Deus ser real que podemos concebê-lo

Frequentemente interpretou-se de forma equivocada a prova ontológica de Deus — formulada por Santo Agostinho e desenvolvida por Santo Anselmo —, e isso desde a Idade Média.

Na realidade, ela não significa que Deus é real porque pode-se concebê-lo, mas, ao contrário, que pode-se concebê-lo porque ele é real: ou seja, que a realidade de Deus tem por efeito, para nossa faculdade intelectiva, a certeza em relação a ela e, para nossa faculdade racional, a possibilidade de conceber o Absoluto.

E é precisamente esta possibilidade da razão — e a fortiori a intuição pré-racional do intelecto — que constitui a prerrogativa característica do homem.

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O santo e o herói são quase puros símbolos

Santa Teresa de Lisieux (1873-1897)

Na Idade Média, só há ainda dois ou três tipos de grandeza: o santo e o herói, e também o sábio — e então, numa escala menor e como por reflexo, o pontífice e o príncipe; o “gênio” e o “artista”, essas grandezas do universo laico, ainda não tinham nascido.

Os santos e os heróis são como aparições terrestres dos astros; após sua morte, eles voltam a subir ao firmamento, a seu lugar eterno; eles são quase que puros símbolos, sinais espirituais que só provisoriamente se destacaram da iconostase celeste na qual estavam incrustados desde a criação do mundo.


Frithjof Schuon, O Homem no Universo [Regards sur les Mondes Anciens], 2001, Perspectiva, p. 49.

Peregrinação: retorno à origem, ao Coração

Pintura de Alphonse-Étienne Dinet (1861 – 1929).

O sentido da Peregrinação (Hajj) é o retorno à origem; trata-se, portanto, de uma afirmação vivida de primordialidade, de uma retomada de contato com a Bênção original, abraâmica no caso do Islã. Mas há também, segundo os súfis, a Peregrinação ao coração: ao santuário imanente, o núcleo divino da alma imortal.

Schuon, Raízes da Condição Humana, capítulo “Esquema da mensagem islâmica”, p. 104. O livro está publicado neste website.

A história de Cristo mostra o que ocorre na alma

Ascensão de Cristo — ícone ortodoxo.

O Cristianismo é que “Deus se fez o que nós somos, para nos fazer o que ele é” (Santo Irineu); é que o Céu se tornou terra, a fim de que a terra se torne Céu. Cristo retraça no mundo exterior e histórico o que acontece, desde o começo do tempo, no mundo interior da alma. No homem, o Espírito puro se faz ego, a fim de que o ego se torne puro Espírito; o Espírito ou o Intelecto (Intellectus, não mens ou ratio) se faz ego encarnando-se na mente sob a forma de intelecção, de verdade, e o ego torna-se Espírito ou Intelecto unindo-se a ele.

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A intelecção, não a razão, leva às verdades principiais

Sri Maha Periyava (1884-1994), 68º Jagadguru de Kanchi.

É importante saber […] que há verdades que são inerentes ao espírito humano, mas que, de fato, estão como que enterradas no “fundo do coração”, isto é, contidas a título de potencialidades ou virtualidades no Intelecto puro: trata-se das verdades principiais e arquetípicas, aquelas que prefiguram e determinam todas as outras. A elas têm acesso, intuitiva e infalivelmente, o “gnóstico”, o “pneumático”, o “teósofo” — no sentido próprio e original desses termos —, e a elas tinha acesso, por consequência, o “filósofo”, segundo o significado ainda literal e inocente do termo: um Pitágoras ou um Platão, e em parte mesmo um Aristóteles, a despeito de sua perspectiva exteriorizante e virtualmente cientificista.

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As três características do ser humano

Cruz de São Damião. O Avatâra manifesta à perfeição as três características do homem.

O homem se caracteriza, em primeiro lugar, por uma inteligência central ou total, não periférica ou parcial somente; em segundo lugar, por uma vontade livre, não instintiva somente; e, em terceiro lugar, por um caráter capaz de compaixão e de generosidade, não de reflexos egoístas somente.

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O misticismo é natural ao homem

Sioux Oglala, em foto de Edward S. Curtis.

O misticismo, ou a mística, resulta da tendência ao aprofundamento, à experiência interior; ele é “sobrenaturalmente natural” ao homem, ou seja, ele corresponde a uma necessidade inata e se encontra em toda parte onde há uma religião, o legalismo desta não podendo satisfazer todas as aspirações. Portanto, o misticismo não poderia não existir.

Frithjof Schuon, “Enigma e mensagem de um esoterismo”, in Nos Caminhos da Religião Perene, publicado neste sítio.

Assimilar a Divindade por meio de um símbolo

São Bernardino de Sena com o Monograma Sagrado IHS — Iesus Hominum Salvator.

Na Eucaristia, o Absoluto — ou o divino Si [1] — tornou-se Alimento; em outros casos, ele se tornou Imagem ou Ícone e, em outros ainda, tornou-se Palavra ou Fórmula: é o mistério da assimilação concreta da Divindade por meio de um símbolo propriamente sacramental: visual, auditivo ou outro.

Um desses símbolos, e mesmo o mais central, é o próprio Nome de Deus, quintessência de toda oração, seja um Nome de Deus em si ou um Nome de Deus tornado homem. [2]

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A forma humana tem algo do Absoluto

Pintura de Schuon

O fato de que o homem é centro e totalidade, de modo que Deus pode se encarnar nele, prova que ele não é de forma nenhuma suscetível de uma evolução essencial e transformadora, que mude as próprias constantes de sua forma ao ponto de separá-la do homem de facto numa proporção igual àquela que separa o homem do macaco; isso é totalmente impossível, pois o Infinito só se encarna no finito em função de uma característica absoluta (…) que não poderia mudar em sua essência e em seu arquétipo.


Frithjof Schuon, “Les stations de la sagesse”, capítulo de livro homônimo, Édition Maisonneuve & Larose, Paris, 1992, p. 115.

Ser homem sem ser homem

Há no homem algo que pode conceber o Absoluto e mesmo alcançá-lo, e que, por consequência, é absoluto. Partindo deste dado, pode-se medir toda a aberração daqueles que acham totalmente natural ter o direito ou a chance de ser homem, mas que querem sê-lo fora da natureza integral do homem e fora das atitudes que ela implica. Por certo, a possibilidade paradoxal de negá-la também faz parte dessa natureza — pois ser homem é ser livre, no sentido do “relativamente absoluto” —, da mesma maneira que é uma possibilidade humana aceitar o erro ou lançar-se num abismo.

Frithjof Schuon, O Homem no Universo, “Queda e decadência”, Ed. Perspectiva.

O amor a Deus é a base de toda caridade

Krishna e as gopis: uma das formas do amor a Deus.

Uma sociedade não apresenta nenhum valor em si mesma ou pelo simples fato de sua existência. Disso resulta que as virtudes sociais não são nada por si mesmas e fora do contexto espiritual que as orienta para nossos fins últimos. Pretender o contrário é falsificar a própria definição do homem e do humano.

A Lei suprema é o perfeito amor a Deus — amor que deve engajar todo o nosso ser, segundo a Escritura — e a segunda Lei, a do amor ao próximo, é “semelhante” à primeira; ora, “semelhante” não significa “equivalente”, nem, sobretudo, “superior”, mas “do mesmo espírito”: Cristo quer dizer que o amor a Deus se manifesta extrinsecamente pelo amor ao próximo, onde há um próximo, ou seja, que não podemos amar a Deus odiando nossos semelhantes.

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Viver neste mundo de acordo com a Eternidade

Taití c. 1910.

O monge ou o eremita, ou todo contemplativo, mesmo que seja um rei, vive como numa antecâmara do Céu; na própria terra e no corpo carnal, ele se ligou ao Céu e se fechou num prolongamento dessas cristalizações de Luz que são os estados celestes.

Compreende-se, assim, que religiosos possam ver na vida monástica seu “Paraíso na terra”; em suma, eles repousam na Vontade divina e, neste mundo, não esperam mais do que a morte, e, desta forma, eles já a atravessam. Eles vivem neste mundo de acordo com a Eternidade.

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Ninguém pode se privar das virtudes essenciais

O conjunto da inteligência e da vontade constitui o que poderíamos chamar de “capacidade”, seja qual for a sensibilidade moral e estética do indivíduo.

Do mesmo modo, o conjunto da sensibilidade e da vontade constitui o “caráter”, seja qual for a inteligência do indivíduo.

Do mesmo modo, ainda, o conjunto da inteligência e da sensibilidade constitui a “envergadura”, seja qual for a força de vontade do indivíduo.

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