

Schuon, Adastra/Stella Maris, Le Sept Flèches, Suíça, 2001, p. 94.
Veja o poema original alemão ao final desta nota.


Schuon, Adastra/Stella Maris, Le Sept Flèches, Suíça, 2001, p. 94.
Veja o poema original alemão ao final desta nota.

Muitos teólogos do Islã, e não dos menores, estimam que Deus quer o mal, porque, dizem eles, se Ele não o quisesse, o mal não aconteceria; pois, se Deus não quisesse o mal e o mal se produzisse apesar disso, Deus seria fraco ou impotente; ora, Deus é onipotente.
Continuar lendoO sentido da Peregrinação (Hajj) é o retorno à origem; trata-se, portanto, de uma afirmação vivida de primordialidade, de uma retomada de contato com a Bênção original, abraâmica no caso do Islã. Mas há também, segundo os súfis, a Peregrinação ao coração: ao santuário imanente, o núcleo divino da alma imortal.
Schuon, Raízes da Condição Humana, capítulo “Esquema da mensagem islâmica”, p. 104. O livro está publicado neste website.

O Cristianismo é que “Deus se fez o que nós somos, para nos fazer o que ele é” (Santo Irineu); é que o Céu se tornou terra, a fim de que a terra se torne Céu. Cristo retraça no mundo exterior e histórico o que acontece, desde o começo do tempo, no mundo interior da alma. No homem, o Espírito puro se faz ego, a fim de que o ego se torne puro Espírito; o Espírito ou o Intelecto (Intellectus, não mens ou ratio) se faz ego encarnando-se na mente sob a forma de intelecção, de verdade, e o ego torna-se Espírito ou Intelecto unindo-se a ele.
Continuar lendoÉ importante saber […] que há verdades que são inerentes ao espírito humano, mas que, de fato, estão como que enterradas no “fundo do coração”, isto é, contidas a título de potencialidades ou virtualidades no Intelecto puro: trata-se das verdades principiais e arquetípicas, aquelas que prefiguram e determinam todas as outras. A elas têm acesso, intuitiva e infalivelmente, o “gnóstico”, o “pneumático”, o “teósofo” — no sentido próprio e original desses termos —, e a elas tinha acesso, por consequência, o “filósofo”, segundo o significado ainda literal e inocente do termo: um Pitágoras ou um Platão, e em parte mesmo um Aristóteles, a despeito de sua perspectiva exteriorizante e virtualmente cientificista.
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O homem se caracteriza, em primeiro lugar, por uma inteligência central ou total, não periférica ou parcial somente; em segundo lugar, por uma vontade livre, não instintiva somente; e, em terceiro lugar, por um caráter capaz de compaixão e de generosidade, não de reflexos egoístas somente.
Continuar lendoO misticismo, ou a mística, resulta da tendência ao aprofundamento, à experiência interior; ele é “sobrenaturalmente natural” ao homem, ou seja, ele corresponde a uma necessidade inata e se encontra em toda parte onde há uma religião, o legalismo desta não podendo satisfazer todas as aspirações. Portanto, o misticismo não poderia não existir.
Frithjof Schuon, “Enigma e mensagem de um esoterismo”, in Nos Caminhos da Religião Perene, publicado neste sítio.

Na Eucaristia, o Absoluto — ou o divino Si [1] — tornou-se Alimento; em outros casos, ele se tornou Imagem ou Ícone e, em outros ainda, tornou-se Palavra ou Fórmula: é o mistério da assimilação concreta da Divindade por meio de um símbolo propriamente sacramental: visual, auditivo ou outro.
Um desses símbolos, e mesmo o mais central, é o próprio Nome de Deus, quintessência de toda oração, seja um Nome de Deus em si ou um Nome de Deus tornado homem. [2]
Continuar lendoO fato de que o homem é centro e totalidade, de modo que Deus pode se encarnar nele, prova que ele não é de forma nenhuma suscetível de uma evolução essencial e transformadora, que mude as próprias constantes de sua forma ao ponto de separá-la do homem de facto numa proporção igual àquela que separa o homem do macaco; isso é totalmente impossível, pois o Infinito só se encarna no finito em função de uma característica absoluta (…) que não poderia mudar em sua essência e em seu arquétipo.
Frithjof Schuon, “Les stations de la sagesse”, capítulo de livro homônimo, Édition Maisonneuve & Larose, Paris, 1992, p. 115.
Há no homem algo que pode conceber o Absoluto e mesmo alcançá-lo, e que, por consequência, é absoluto. Partindo deste dado, pode-se medir toda a aberração daqueles que acham totalmente natural ter o direito ou a chance de ser homem, mas que querem sê-lo fora da natureza integral do homem e fora das atitudes que ela implica. Por certo, a possibilidade paradoxal de negá-la também faz parte dessa natureza — pois ser homem é ser livre, no sentido do “relativamente absoluto” —, da mesma maneira que é uma possibilidade humana aceitar o erro ou lançar-se num abismo.
Frithjof Schuon, O Homem no Universo, “Queda e decadência”, Ed. Perspectiva.

Uma sociedade não apresenta nenhum valor em si mesma ou pelo simples fato de sua existência. Disso resulta que as virtudes sociais não são nada por si mesmas e fora do contexto espiritual que as orienta para nossos fins últimos. Pretender o contrário é falsificar a própria definição do homem e do humano.
A Lei suprema é o perfeito amor a Deus — amor que deve engajar todo o nosso ser, segundo a Escritura — e a segunda Lei, a do amor ao próximo, é “semelhante” à primeira; ora, “semelhante” não significa “equivalente”, nem, sobretudo, “superior”, mas “do mesmo espírito”: Cristo quer dizer que o amor a Deus se manifesta extrinsecamente pelo amor ao próximo, onde há um próximo, ou seja, que não podemos amar a Deus odiando nossos semelhantes.
Continuar lendoO monge ou o eremita, ou todo contemplativo, mesmo que seja um rei, vive como numa antecâmara do Céu; na própria terra e no corpo carnal, ele se ligou ao Céu e se fechou num prolongamento dessas cristalizações de Luz que são os estados celestes.
Compreende-se, assim, que religiosos possam ver na vida monástica seu “Paraíso na terra”; em suma, eles repousam na Vontade divina e, neste mundo, não esperam mais do que a morte, e, desta forma, eles já a atravessam. Eles vivem neste mundo de acordo com a Eternidade.
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O conjunto da inteligência e da vontade constitui o que poderíamos chamar de “capacidade”, seja qual for a sensibilidade moral e estética do indivíduo.
Do mesmo modo, o conjunto da sensibilidade e da vontade constitui o “caráter”, seja qual for a inteligência do indivíduo.
Do mesmo modo, ainda, o conjunto da inteligência e da sensibilidade constitui a “envergadura”, seja qual for a força de vontade do indivíduo.
Continuar lendoA partir de um certo grau de perversão, não há mais circunstâncias atenuantes, precisamente porque esse grau abole aquelas que poderia haver. Não há jamais nenhuma desculpa para o elemento satânico, e procurar uma desculpa provém desse mesmo elemento; desculpar a infâmia é gravíssimo.
E é importante saber que o homem que se tornou perverso carrega sempre a total responsabilidade por sua baixeza ou sua decadência; o que quer dizer: a infâmia de um não pode nunca ser culpa de outros. Um trauma tem limites que permitem desculpas; a infâmia supera esses limites.
Continuar lendoAs religiões não tinham escolha: a cisão, no homem comum da “idade de ferro”, entre o intelecto e uma inteligência extravertida e superficial obrigava-as a tratar os adultos como crianças, sob pena de ineficácia psicológica, moral e social. As ideologias profanas, ao contrário, tratam como adultos homens tornados quase irresponsáveis por suas paixões e suas ilusões, o que equivale a dizer que elas os incitam a brincar com fogo; é bem fácil ver os resultados sinistros disso em nossa época.
No exoterismo religioso, a eficácia assume por vezes o lugar da verdade, e com razão, dada a natureza dos homens aos quais ele se dirige; em outros termos, para o teólogo voluntarista e moralista, é verdadeiro o que dará bom resultado; para o metafísico nato, ao contrário, é eficaz o que é verdadeiro; “não há direito superior ao da verdade”. Mas nem todo mundo é um “pneumático”, e é preciso equilibrar as sociedades e salvar as almas como for possível.
Frithjof Schuon, “O pensamento: luz e perversão”,
em A Transfiguração do Homem, Sapientia, 2008, pág. 18.