Se Deus é bom, por que o mal existe?

“Se Deus fosse bom, raciocinam os ateus e mesmo certos deístas, ele aboliria o mal. Temos para isto duas respostas, e conhece-se a primeira: Deus não poderia abolir o mal como tal, porque este é do domínio da Onipossibilidade, a qual é ontologicamente “anterior” ao Deus-Pessoa; por consequência, Deus não pode abolir determinado mal senão na medida em que, ao fazê-lo, ele leva em conta a necessidade metafísica do mal em si.(1) Nossa segunda resposta supera de certa forma a primeira, ao ponto de parecer contradizê-la: Deus sendo bom, ele abole de fato, não somente este ou aquele mal, mas o mal enquanto tal; este ou aquele mal porque todas as coisas têm um fim, e o mal enquanto tal porque este — estando submetido à mesma regra, no final das contas — desaparece em virtude dos ciclos cósmicos e pelo efeito da Apocatástase (2); assim, a fórmula vincit omnia Veritas se aplica não somente à Verdade, mas também ao Bem sob todos os seus aspectos. E isto significa igualmente que não poderia haver nenhuma simetria entre o Bem e o mal; (3) este não tem nenhum ser por si mesmo, enquanto aquele é o ser de todas as coisas. O Bem é O que é; o Ser e o Bem coincidem.

“É verdade que, à nossa segunda resposta, poder-se-ia objetar que seu alcance é somente relativo, porque os términos cíclicos não abolem a possibilidade do mal, o qual, de fato, deve reaparecer no curso de cada ciclo num grau qualquer. Isso é verdadeiro — sem ser realmente uma objeção — e nos leva mais uma vez ao problema da própria natureza do Infinito, a qual implica que a Onipossibilidade deva incluir, por definição, a possibilidade de sua própria negação, na medida, precisamente, em que esta negação é possível; e ela o é, não no próprio plano do Princípio, está claro, mas numa modalidade já muito relativa da contingência, portanto na extremidade inferior de Mâyâ, e, por consequência, de uma maneira “ilusória”, ou seja, irreal no nível do Absoluto.”

 Notas

(1) O que é ontologicamente necessário é “o que está escrito”, em linguagem semítica.
(2) Segundo a doutrina hindu, a “noite de Brahma” sucede ao “dia de Brahma“: depois da projeção vem a reintegração.
(3) É em virtude deste princípio que a beleza, por exemplo, é ontologicamente mais real que a feiúra — o que o espírito moderno nega com um furor bem característico, ele que relativiza, subjetiviza e inverte tudo — e é por isto ainda que a “idade de ouro” é muito mais longa que as outras idades, e particularmente do que a “idade de ferro”.

(Extraído do livro de Frithjof Schuon intitulado Résumé de Métaphysique Intégrale: Le Courrier du Livre, Paris, 1985, pp. 45 e 46.)

A distinção entre a Divindade e o Deus Pessoal é central na metafísica. Frithjof Schuon a expõe reiteradamente em seus escritos. Mestre Eckhart, no Catolicismo, foi um dos poucos a expor a mesma doutrina: a distinção entre Gottheit e Gott, para usar os termos alemães. Na metafísica hindu, ela aparece como a distinção entre Brahma Nirguna e Brahma Saguna.

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