Por que há diversas religiões?

Em Sentiers de Gnose, Frithjof Schuon inicia o capítulo “Diversidade da Revelação” com um parágrafo incrivelmente simples, profundo e completo ao mesmo tempo. Passagens como esta estão em toda a parte na obra schuoniana e são um claro sinal de que esta obra se situa no mais alto plano de intelectualidade.

Dado que só há uma Verdade, não se deveria concluir que só há uma Revelação, só uma Tradição possível? A esta questão, responderemos em primeiro lugar que Verdade e Revelação não são termos absolutamente equivalentes, pois a Verdade se situa além das formas, e a Revelação, ou a Tradição que dela deriva, é de ordem formal, e isto por definição mesmo; ora, quem diz forma, diz pluralidade; a razão de ser e a natureza da forma são a expressão, a limitação, a diferenciação.

O que entra na forma, entra por isso mesmo no número, portanto na repetição e na diversidade; o princípio formal — inspirado pela infinitude da Possibilidade divina — confere a esta repetição a diversidade.

Poder-se-ia conceber, é verdade, que só haja uma Revelação ou Tradição para o nosso mundo humano e que a diversidade se realize através de outros mundos, desconhecidos para os homens ou mesmo incognoscíveis para eles; mas isso seria não compreender que o que determina a diferença das formas da Verdade é a diferença dos receptáculos humanos.

Já há muitos milênios, a humanidade se divide em vários ramos fundamentalmente diferentes, que constituem uma série de humanidades totais, portanto mais ou menos encerradas em si mesmas; a existência de receptáculos espirituais tão diferentes e tão originais exige a refração diferenciada da Verdade una.

Notemos que não se trata de raças, mas as mais das vezes de grupos humanos talvez muito variados, mas apesar disso submetidos a um conjunto de condições mentais que fazem deles recipientes espirituais suficientemente homogêneos, o que não poderia impedir que os indivíduos possam sempre sair desses marcos, pois o coletivo humano não tem nunca nada de absoluto.

Isto posto, diremos que as diversas Revelações não se contradizem realmente, pois elas não se aplicam ao mesmo receptáculo, e Deus não dirige jamais uma mesma mensagem a dois ou mais receptáculos de características divergentes, ou seja, que correspondem analogicamente a dimensões formalmente incompatíveis; só se podem contradizer entre si coisas que se situam num mesmo plano.

As aparentes antinomias das Tradições são como diferenças de linguagem ou de símbolo; as contradições estão do lado dos receptáculos humanos, não do lado de Deus; a diversidade do mundo é função de seu afastamento do Princípio divino, o que equivale a dizer que o Criador  não pode querer que o mundo seja, mas que ele não seja o mundo.

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