Compreender sem crer

Mais um extrato de um livro de Frithjof Schuon:

“É um fato de observação corrente que o homem possa crer sem compreender; tem-se muito menos consciência da possibilidade inversa, que consiste em compreender sem crer, e ela parece mesmo uma contradição, pois a fé só parece se impor àquele que não compreende. No entanto, a hipocrisia não é somente a dissimulação daquele que finge ser melhor do que é; ela é também a desproporção entre a certeza e o comportamento, e, sob este aspecto, a maior parte dos homens são mais ou menos hipócritas, pois pretendem admitir verdades que eles só muito debilmente põem em prática. Crer sem agir em consequência é, no plano da simples crença,  o que é, no plano intelectual, uma compreensão sem fé e sem vida; pois crer realmente é identificar-se à verdade que se aceita, seja qual for o nível dessa adesão. A piedade está para a crença religiosa como a fé operativa está para a compreensão doutrinal, ou, ainda, como a santidade está para a verdade.

“Se partimos da ideia de que a espiritualidade abrange essencialmente dois fatores, a saber, o discernimento entre o Real e o ilusório e a concentração permanente no Real, a conditio sine qua non sendo a observância das regras tradicionais e a prática das virtudes concomitantes — se partimos dessa ideia, veremos que há uma relação entre o discernimento e a compreensão, por um lado, e entre a concentração e a fé, por outro; seja qual for seu nível, a fé é sempre uma participação de certa forma existencial no Ser ou no Real; é — para retomar um hadîth fundamental — ‘adorar a Deus como se tu o visses, e, se tu não o vês, ele, no entanto, te vê”. Em outros termos, a fé é a participação da vontade na inteligência: assim como no plano físico o homem adapta sua ação aos dados que lhe determinam a natureza, assim também ele deve agir, no plano espiritual, em conformidade com suas convicções; atividade interior mais ainda que exterior, pois ‘antes de agir, é preciso ser’, e nosso ser não é senão nossa atividade interior. A alma deve ser para o espírito como a beleza é para a verdade, e é isso que chamamos de ‘qualificação moral’ que deve acompanhar a ‘qualificação intelectual’.

Logique et Transcendance, Éditions Traditionnelles, Paris, 1982, pp. 219, 220.

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