A recusa da Misericórdia

Mais um extrato de Schuon, complementando o do post anterior, ao qual se segue imediatamente no texto de origem:

Já se disse que o homem moderno perdeu o senso do pecado; podemos explicitar de que se trata sublinhando o fato de que ele não mais tem o sentimento de sua pequenez ou que ele é insensível a todas as violações que a decadência de sua natureza provoca – em suma, que ele se tornou insensível a ponto de estar contente com si mesmo e de não ter mais nenhuma consciência da ambiguidade de sua condição. A sombra vazia dessa consciência ele chama de “angústia”, e ele odeia todos aqueles que, tendo tal consciência e aceitando as consequências positivas que ela implica, escapam da “angústia” e por isso mesmo da “revolta”; esses dois complexos, ele os quereria universais, porque está na natureza do homem não querer se perder sozinho.

A responsabilidade pode ser total, mas não absoluta; é o que explica a intervenção da Misericórdia celeste; esta basta amplamente para satisfazer o argumento de nossa fragilidade. Há um ponto em que o homem é sempre inteiramente responsável: é a recusa da Misericórdia; e essa recusa, eco longínquo do orgulho de Lúcifer, é o que provoca o mais certamente a queda nos estados infernais. De resto, o que nos julga é nossa norma que trazemos em nós mesmos, e que é uma imagem do cosmo inteiro e ao mesmo tempo do Espírito divino que irradia em seu centro; o ímpio crê que basta fechar os olhos para lhe escapar, que basta fazer de conta que não é homem, em suma, viver abaixo de si mesmo; ele quer ignorar que ser homem é passar pela porta estreita, e ele recusa a Misericórdia que quer lhe abrir a passagem.

(Frithjof Schuon, Trésors du Bouddhisme, p. 64 e 65, Nataraj, França, 1997.)

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