Em A Transfiguração do Homem, último de seus livros filosóficos, Frithjof Schuon aborda rapidamente a questão do trabalho, sob o aspecto de sua integração na espiritualidade:

O culto moderno do trabalho se baseia, por um lado, no fato de que o trabalho é necessário para a maioria dos homens, e, por outro lado, na tendência humana de fazer de uma coação inevitável uma virtude. No entanto, a Bíblia apresenta o trabalho como uma espécie de punição: “Comerás teu pão com o suor do teu rosto”; antes do pecado original e da queda, o primeiro casal humano ignorava o trabalho. Em todos os tempos e em toda parte houve santos contemplativos que, sem ser com isso preguiçosos, não trabalhavam, e todos os mundos tradicionais nos oferecem — ou nos ofereciam — o espetáculo de mendicantes a quem se davam esmolas sem nada exigir deles, salvo, eventualmente, orações; nenhum hindu pensaria em censurar um Râmâkrishna ou um Maharshi pelo fato de não exercerem nenhum ofício. Foram a impiedade generalizada, a supressão do sagrado na vida pública e as coações do industrialismo que tiveram por efeito que se faça do trabalho um “imperativo categórico” à margem do qual, crê-se, só há preguiça culpável e corrupção.

Seja como for, há trabalho e trabalho: há — desde sempre — a agricultura nobre e o artesanato no lar ou nas oficinas da antigas corporações, e há — desde o século XIX — a escravidão industrial nas fábricas; escravidão tanto mais embrutecedora, se não aviltante, por ser seu objeto a máquina e por não oferecer na maior parte do tempo nenhuma satisfação propriamente humana ao trabalhador. No entanto, mesmo este trabalho — em geral mais quantitativo que qualitativo — pode ter subjetivamente um caráter sagrado ou santificado graças à atitude espiritual do trabalhador, se este, sabendo que não pode mudar o mundo e que deve viver — e fazer viver os seus — segundo as possibilidades que lhe são acessíveis, se esforça por combinar seu labor com a consciência de nossos fins últimos e a “lembrança de Deus”; ora et labora.

Dito isto, é preciso acrescentar que a liberdade consiste bem mais em nossa satisfação com a situação que é a nossa do que na ausência total de coações, a qual não é praticamente realizável neste mundo e, além disso, não é sempre uma garantia de felicidade.

O extrato fala por si. Na edição brasileira, está nas páginas 56 e 57. No original francês, nas páginas 54 e 55.

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